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domingo, 1 de julho de 2007

Marc Ferrez

Por Jessé A. Chahad

Personagem de extrema importância na História da Fotografia, Marc Ferrez, nascido no Rio de Janeiro em 1843 assistiu ao período de afirmação do Brasil como nação no plano internacional e foi testemunha ativa do impulso inicial tecnológico da fabricação de imagens fotográficas[1]. Dedicou-se à obtenção de paisagens, retratos, arquiteturas, entre outras tantas se tornando talvez o mais importante fotógrafo do período. Filho do escultor francês Zépherin Ferrez, que veio ao País para integrar a Missão Artística Francesa - grupo de artistas convidados pela corte portuguesa então instalada no Brasil para criar aqui uma escola de belas artes - Ferrez nasceu no Rio de Janeiro em 1843. Perdeu os pais muito cedo e sua biografia nestes primeiros anos é um tanto nebulosa. Sabe-se, entretanto, que ele passou uma longa temporada em Paris, onde provavelmente aprendeu um pouco sobre uma invenção recente: a máquina fotográfica.
Entre 1863 e1864 decidiu voltar à terra natal e se estabeleceu como fotógrafo por volta desta época. Mas não era um profissional como a maioria. Desde o início, destacava-se pela pesquisa por novas técnicas e equipamentos. Não o agradava também a rotina de um estúdio, que o obrigaria a passar o dia repetindo retratos posados. Funda então um estabelecimento "especialmente destinado a fazer vistas do Brasil". Comercializa também equipamentos fotográficos, o que lhe garante a independência financeira que o livra dos temíveis retratos.
Sua relação com o Império se iniciou quando realizou uma serie de fotos dos festejos públicos promovidos no Rio de Janeiro por ocasião das comemorações pelo fim da guerra do Paraguai em 1870, quando no verso das fotografias assinava como “fotógrafo da Marinha Imperial e das construções navaes do Rio de Janeiro.” A história mostra que houve outros grandes profissionais em sua época, como Militão Augusto de Azevedo (1837-1905) e Guilherme Gaensly (1843-1928). Nenhum deles, porém teve uma produção tão ampla e variada quanto Ferrez. Nenhum registrou como ele, imagens das mais diversas regiões do País ou tampouco enxergou tão de perto as transformações de uma nação que procurava deixar para trás um estilo de vida arcaico, marcado pela escravatura, e tentava "civilizar-se".
O “feliz regresso” ao Brasil, no mês de Março de 1872 da primeira viagem de D. Pedro II ao exterior em companhia da Imperatriz Teresa Cristina foram retratadas em série por Marc Ferrez, quem em 1875 começa a trabalhar como fotógrafo da Comissão Geológica do Império, chefiada pelo cientista norte-americano Charles Frederick Hartt e participa da Exposição de Obras Públicas no edifício sede do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Representando o país em exposições nos Estados Unidos e na França, Ferrez levava aos estrangeiros as imagens que mesclavam a natureza abundante com o progresso tecnológico, representados, por exemplo, pela documentação feita sobre obras de canalização, ou construção de ferrovias. O fotógrafo seria ainda inovador ao utilizar pela primeira vez o flash de magnésio para obter imagens do interior de uma mina em Minas Gerais[2].
O fato de as imagens serem seleções particulares dos fotógrafos pode revelar suas intenções, que nem sempre são meramente documentais ou informativas. A professora Annateresa Fabris pensa que de um primeiro registro prototípico, voltado preferencialmente para os monumentos e paisagem, passa-se a documentação de usos e costumes diferentes dos ocidentais, de territórios, de caminhos, com um intuito francamente propagandista. A fotografia torna-se aliada da expansão imperialista[3] .
O interesse pelo registro fotográfico, por exemplo, dos projetos de engenharia dessa época não tinham como intenção o resgate da memória deste momento particular, representado nas fotografias, mas sim a possibilidade de identificar com este passado através dessa reprodução fotográfica um projeto de memorização daquelas obras e projetos[4]. A professora Maria Inez Turazzi ao investigar o papel da atividade fotográfica registrando os projetos de engenharia do Império procurou analisar até que ponto isso poderia ser parte de um esforço consciente na construção de uma herança as gerações futuras como um patrimônio coletivo e memória do sentido do progresso que queriam demonstrar.
Annateresa ainda demonstra que a fotografia tende a construir imagens dos burgueses idealizadas, com as fotos teatrais (cenário e roupas do estúdio) para disfarçar sua condição social, sendo os retratos distantes do indivíduo e perto das máscaras sociais. No entanto as fotos não perdem o caráter de verdadeiro, infalível e de veracidade, sendo estas utilizadas em fotografias criminalísticas como evidência, fotos de guerra, e também fotos de lugares exóticos afirmando ou confirmando a visão já existente (exemplo antigas civilizações). Este tipo de fotografia (de lugares exóticos e antigos) é importante, pois a massificação ocorre com os cartões postais, que realiza uma viagem imaginária e “democratizada”. Este “conhecimento positivo” é a ultima conseqüência da “missão civilizadora” da fotografia. Desta maneira “A fotografia cria uma visão do mundo a partir do mundo, molda um imaginário novo”.
A partir destes trabalhos, podemos concluir que a fotografia foi importante instrumento de afirmação do projeto civilizatório no Brasil iniciado no Império de D.Pedro II, o qual próprio era um adepto fervoroso da moderna invenção de Daguerre. A propaganda gerada de um país progressista e que tinha rompido seus vínculos coloniais era, porém fonte de um modelo também importado e que por isso foi de difícil difusão em um país tão peculiar quanto o Brasil.
Se nos perguntarmos mesmo nos dias de hoje acerca de um sentimento nacional, esbarraremos em regionalismos e dificuldades que duraram como herança de uma rica miscigenação. Talvez justamente essa mistura possa ser entendida como um fator de unificação em torno das diferenças. Mas na prática não é isso que costuma acontecer.
[1] Françoise REYNAUD, O Brasil de Marc Ferrez. In: O Brasil de Marc Ferrez, p.12.

[2] Maria Inez TURAZZI, Cronologia, in: O Brasil de Marc Ferrez, p.305.

[3] Annateresa FABRIS, A invenção da fotografia: repercussões sociais. In: Fotografia.Usos e funções no século XIX,p.32.

[4] Maria Inez TURAZZI. The photographic documentation of nineteenth century engineering projects,p.100

Fotografia e construção de imagens no Império Brasileiro.

Por Jessé A. Chahad

Apesar do debate sobre a invenção da fotografia, que é atribuída ao francês Louis Daguerre em janeiro de 1839, no Brasil temos a presença do pintor Hercules Florence que no Oeste paulista, na Campinas no ano de 1833 já havia conseguido desenvolver a fotografia através de técnica própria, objeto de estudo do historiador Boris Kossoy. Em 1839, ela chegava à corte, pelas mãos do Abade Louis Compte, recém chegado de uma de suas viagens pelo mundo e em um período de 40 anos se proliferou de maneira que o Rio de Janeiro fosse uma das capitais do mundo que apresentava um grande número de estúdios fotográficos, quase sempre de formação estrangeira. A própria família real dava muita importância às fotografias, devido ao grande número de fotos do período ainda existentes.
Inicialmente tida como artefato de luxo, pela própria escassez e dificuldade que representavam a daguerreotipia, as inovações representadas pela descoberta do processo conhecido como calotipia proporcionava a reprodução de diversas cópias a partir de um mesmo negativo em 1850. A partir de 1860, a aplicação de colódio úmido baixava consideravelmente o custo de produção da fotografia e popularizava o hábito[1] principalmente através dos carte de visite[2]. A alta taxa de analfabetismo do período forma uma camada da sociedade carente de informação visual, e com potencial para a prática insurgente da propaganda política e publicidade comercial, a imagem impressa alcança sua maioridade[3].
A fotografia como documento histórico é uma fonte importante de pesquisa e sua presença em grande número no Império levou diversos historiadores a buscar nas imagens elementos construtores de sua significação histórica e social, na tentativa de reconstruir o período com fidelidade. A fotografia enquanto representação do real, muitas vezes assume caráter de documentação oficial. Esse fato apenas reforça a tese de que a fotografia pode ser utilizada para a construção de um uma interpretação da realidade e ainda mais: o seu caráter realista, proveniente da relação entre o momento real e a representação, aliado ao caráter de oficialização acaba quase por determinar que contra as fotografias não existam argumentos possíveis de dubiedade.
São com essas representações que devemos ser cautelosos e recorrermos aos documentos fotográficos como fontes passíveis de algumas diferentes interpretações, além de ressaltar que toda fotografia enquanto produto cultural é trabalho de um fotógrafo, o qual também está inserido em um contexto particular e serve a um propósito ora pessoal, ora pré-determinado por alguma ideologia, ou motivação profissional. Weinstein & Booth são citados por Boris Kossoy em seu livro Fotografia e História, e aqui retomamos sua premissa para este trabaho: “perceber na imagem o que esta nas entrelinhas, assim como o fazemos em relação aos textos”, “precisamos aprender a esmiuçar as fotografias criticamente, interrogativamente e especulativamente (...)” [4].
Os costumes importados se impõem, e estão presentes nas imagens representadas pelo vestuário, e pelo caráter cênico demonstrado pela análise do cenário. As famílias em geral procuravam ser retratadas com toda pompa exigida pela pequena ética dos costumes burgueses europeus. Um livro dá um ar de intelectualidade, já a pena o faz um escritor. A coruja simboliza a sapiência, o cão fidelidade. As armas o poder. Esses símbolos laicos de dominação eram partes do estilo pictorialista dos retratos, herança das pinturas renascentistas. Esses retratos, que às vezes eram reverenciados como se os retratados estivessem presentes nas datas de comemoração e patriotismos chegavam ao povo através da fotografia. Democratizava de certe forma a oportunidade de se ter a fisionomia fixada no papel, como a dos reis, bispos deputados, dos ricos[5].
Miriam Moreira Leite afirma que apesar de as fotografias não revelarem com certeza a camada social a qual pertencem os retratados, a publicação das fotografias em periódicos dos chamados membros ilustres das comunidades vem a sublinhar uma posição social herdada ou adquirida e deixam transparecer aos olhos atentos o estilo representativo do período e sociedade em questão[6].No nosso caso que buscava parecer Europa.
Os escravos domésticos eram por vezes enfeitados e demonstrados com orgulho por seus senhores[7]. Paradoxalmente, modernidade versus arcaísmo. A presença do vestuário europeu, e costumes como uso de cachimbos e charutos exibidos com pompa e circunstância foram analisados por diversos autores e vem a reafirmar a tese que a europeização dos costumes levaria ao desenvolvimento de uma civilização nos moldes necessários à modernidade e convivia com o sistema escravista atrasado e racista, como um entrave a modernização.
Citando exemplo, alguns hábitos estudados por Luis Felipe de Alencastro[8] como o uso de mucamas ou amas de leite para amamentar os filhos da burguesia mostra um outro lado. Os retratos de amas de leite que conhecemos apresentam tão somente a imagem positiva do relacionamento afetivo da ama, com suas vestimentas européias e o bebê branco no colo. Mas a professora Miriam Moreira Leite nos mostra que: além da mortalidade infantil provocada pelas precárias condições sanitárias do Rio de Janeiro no século XIX, a prática da amamentação por escravas alugadas a particulares ou asilos de crianças abandonadas (...) além de privar os filhos de seu leite, as amas eram exploradas fisicamente ao máximo, tanto quando eram alugadas a instituições para amamentar diversas crianças, como pelo período prolongado que se exigia que se aleitassem[9].Esse aspecto revela o peso da escravidão na sociedade do século XIX e marca nitidamente o caráter civilizatório em contradição na nação tropical.
Os retratos também vinham acompanhados de dedicatórias e o verso das imagens também oferece elementos interessantes que revelam a construção de uma auto imagem de classe. As inscrições identificam personagens, desmentem anotações anteriores, criam genealogias.Para a elite cafeicultora, parece, a marca de um dos fotógrafos famosos no verso da foto funcionava como distintivo de diferenciação social.[10]
[1] Boris KOSSOY, Origens e expansão da fotografia no Brasil, p.38.

[2] Os carte de visite eram carões de visita distribuídos aos amigos e parentes, como lembrança e foram bastante populares, devido ao seu baixo custo de reprodução. A proliferação da mania deixou como legado uma enorme fonte de para estudarmos os costumes da sociedade da época.

[3] Annateresa FABRIS. Fotografia. Usos e funções no séc. XIX, p.12.

[4] Boris KOSSOY, Fotografia e História p.79.

[5] Carlos A. C. LEMOS, Ambientação ilusória. In Retratos quase inocentes, p.53.

[6] Miriam Moreira LEITE, Retratos de família, p.178.

[7] Kátia M. de Queirós MATTOSO, A opulência na província da Bahia, in: A História da vida privada no Brasil, p.166.

[8] Luis Felipe de ALENCASTRO. Vida privada e ordem privada no Império, in: A História da vida privada no Brasil, p.60.

[9] Miriam de Moreira LEITE, A Família. Século XIX. In. Retratos de família, p.70.

[10] Ana Maria MAUAD, Imagem e auto imagem no Império, in. História da vida privada no Brasil, p.225.

Nações e nacionalismos. A aventura brasileira

Por Jessé A. Chahad

No período constituído entre 1848 e 1870, o mundo passa por uma tendência de formação de Estados-nações. França, Itália, Alemanha e também fora da Europa, nos Estados Unidos, a tentativa de manter unidade perante os perigos da fragmentação que resultaram na Guerra Civil, mesmo Restauração Meiji no Japão poderia ser entendida como aparecimento de um sentimento nacionalista. A transformação dessa nação em Estado soberano, com território coerente, definido pela área ocupada por seus membros, que por sua vez era definida por sua história, cultura comum, composição étnica e língua comum[1]era necessária ao Brasil como parte desta tendência global.
Porém, devemos levar em consideração o que Hobsbawm nos lembra sobre a diferença fundamental entre o movimento para fundar Estados-nações e o “nacionalismo”: o primeiro era um programa para construir um artifício político que dizia basear-se no segundo[2]. Ou seja, era possível ser alemão mesmo não estando na Alemanha, o que criava um conceito de nações multinacionais, devido ao forte fluxo migratório mundial.
O Brasil não seria multinacional, pelo contrario, absorveriam os imigrantes na própria nação, o que veio a acontecer mesmo quando as comunidades imigrantes não perderam sua identidade no ”caldeirão das raças” do novo mundo, permaneceram e se tornaram conscientes de sua condição de italianos ou alemães, por exemplo. Era preciso evitar a mistura de raças, visto que no Brasil a maioria de negros era vista como prejudicial ao desenvolvimento da civilização, onde quanto maior a migração dos povos, tanto mais rápido o desenvolvimento das cidades e da indústria, que lançava massas desenraizadas umas contra as outras, e tanto maior a base para a consciência nacional entre os desenraizados[3].
Portanto era preciso um reforço ao caráter civilizatório que significara a colonização brasileira, mas agora à luz da modernidade, do século das revoluções cientificas e surgimentos de novos ideais políticos e da luta de classes que geravam uma demanda por uma centralidade e unidade em defesa de seu território e auto-afirmação como soberanos perante o cenário internacional. O distanciamento do passado seria conseguido através da “revogação da velha ordem colonial e patriarcal, com todas as conseqüências morais, sociais e políticas que ela acarretou e continua a acarretar” [4] .O desenvolvimento cafeeiro, no oeste paulista, o desenvolvimento da comunicação e dos transportes através da construção de vias férreas criaria uma relação de interdependência entre a cidade e o campo, substituindo o total isolamento antes marcado pela ausência de um mercado interno e do crescimento polarizado e desordenado. Tratando dos ideais da sociedade, Sergio Buarque de Holanda afirma que o modelo ideário arcaico implantado anteriormente, após a independência tentou ser substituído pelo modelo importado em parte das idéias da revolução francesa, o que teria sido problemático mais uma vez, causando apenas uma mudança de aparato, e não de substância.
Os investimentos em cultura feitos por Pedro II proporcionaram uma monumentalização do passado, necessária a construção do conceito de nação e com a ajuda do romantismo foi articulada por literatos, pintores e reforçada pelo caráter pictórico das primeiras fotografias. A literatura romântica indianista, de Gonçalves Dias e José de Alencar participava talvez sem saber do projeto de mitificação da “moderna” sociedade brasileira em construção através de obras como O Guarani, e Iracema. A Academia de Belas Artes trabalhava em função de um academicismo de obras neoclássicas, obras históricas e fundamentais para a consolidação de um passado glorioso. Vítor Meireles e Pedro Américo foram representantes importantes no sentido da construção das novas feições visuais da nação. Obras como A batalha do Avaí, e O grito do Ipiranga, respectivamente de 1877 e 1888 foram feitas por encomenda do Imperador.
Sabemos hoje através dos estudos da historiadora Ana Maria Mauad que Pedro Américo chocou ao retratar com exímia fidelidade os movimentos do cavalgar das figuras eqüestres em suas pintura, revelando ângulos inesperados e realistas e que foram inspirados pelos primeiros estudos de movimentos realizados pelo fotógrafo Edward Muybridge, que Pedro Américo teve contato durante suas pesquisas para realização de suas obras.
Apesar da associação oficial com o índio, teorizada em muito por alguns intelectuais do IHGB, bancados por D. Pedro, não podemos esquecer de forma alguma a contribuição dos africanos para a jovem nação que se formava e é por meio destas festas que esta população dialogará com o Império, influenciando e sendo influenciada por este. Podemos dizer que o próprio D. Pedro II e a monarquia compactuaram com esta cultura, que como diz Schwarcz, “ao mesmo tempo em que se europeizou com sua presença, tornou-se mestiça, negra e indígena no convívio”, tornando-se ele um “monarca com muitas coroas”, pois nestas festas o elemento imaginário de fundo monárquico estava sempre presente, fosse nas cavalhadas ou no mito messiânico do sebastianismo (estes de fundo português), fosse nas congadas, festas do Divino, batuques, etc., onde o monarca brasileiro dialogava constantemente com outras “realezas”, inclusive reis africanos eleitos no Brasil, nas congadas, por exemplo. Mesmo na representação oficial permeada pelo romantismo indigenista, este movimento de influência e re-influência contínua se faz presente, pois se da mesma forma que na literatura e na pintura os índios nunca foram tão brancos, o monarca e a cultura brasileira tornavam-se cada vez mais tropicais, em movimento análogo ao das festas já citados acima.
Inclusive, não podemos deixar de citar apesar da popularidade que a monarquia sempre gozou no Brasil, a figura do imperador começa a perder esta popularidade a partir do momento em que D. Pedro II abandona esta representação de “monarca tropical” e aos poucos vai deixando de lado o caráter “sagrado” e “divino” de sua realeza para assumir a pecha de “monarca cidadão”. Com seu livro sempre a mão e a pose de erudito, mecenas do progresso, que tentava passar principalmente ao olhar estrangeiro que, no entanto, sempre deu mais atenção ao nosso lado exótico e ambíguo.
[1] Eric J.HOBSBAWM, A era do Capital, p.128.

[2] Idem, p.133.

[3] Eric J. HOBSBAWM, A era dos Impérios, p.220.

[4] Sergio Buarque de HOLANDA, Raízes do Brasil, p.180.

Civilização Tropical

Por Jessé A. Chahad
Nos tempos findos dos Impérios, um dos principais objetivos assumidos pela elite era o desafio que representavam a formação da identidade brasileira, ou seja, a construção com pretensões oficiais de um caráter comum ao nível nacional. Ora, pensar no brasileiro de forma homogênea e unificada seria uma enorme tarefa para o recém formado governo, visto o tamanho de nosso território e a sua grande diversidade étnica e cultural, dificuldade esta presente até o inicio do século passado (se não até hoje), exemplificada pela frase de Sergio Buarque de Holanda: “Somos desterrados em nossa própria terra”.
O projeto tomaria grande parte da agenda dos primeiros governos, tornando-se uma busca ampla e constante, e se articulando por todo o tecido social. Temos como principal instituição criada nesta época, e que tinha este papel, o de criar uma identidade digna para o Brasil, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Criado em 1838, o Instituto tinha como projeto a produção de uma historia nacional, e como meta “o delineamento de um perfil para a ‘Nação brasileira’, capaz de lhe garantir uma identidade própria no conjunto mais amplo das Nações[1]. Neste esforço, o Estado e a elite intelectual se relacionam intimamente[2], tendo no bojo deste projeto político centralizador, um Estado iluminado, esclarecido e civilizador[3]. Lembremos-nos de D. Pedro II, o monarca esclarecido, como exemplo.
Porém, era aparente a idéia que através deste novo projeto, o Brasil buscaria um modelo a ser seguido. A recém formada nação brasileira deveria guiar-se pelos mais altos padrões civilizatórios do mundo ocidental e, mais importante ainda, servir de guia para as novas nações nascentes. O centro que forneceria estes paradigmas seria a velha Europa, terra que inspirava os mais grandiosos sonhos para a elite brasileira, elite esta sonhava com a modernidade (quando esta se ‘encaixava’ em seus projetos) e os bons costumes do Velho Continente.
Como tão amplamente analisado por Norbert Elias [4], o conceito de civilização foi sendo desenvolvido ao longo de centenas de anos, num processo de longa duração, e teve como função demonstrar que a sociedade ocidente era superior a oriental, constituindo-se esta noção como uma visão de si mesma[5]. Percebe-se como esta noção vai ganhar uma conotação diferente com a Revolução Francesa, pois agora, o processo civilizador vai ser considerado como algo concluído nos países mais desenvolvidos economicamente (pelo menos nas classes alta e media), que agora teriam a missão de levar esta civilização a paises menos desenvolvidos[6], ou seja, a estes territórios considerados inferiores, levariam o mais alto padrão civilizador já alcançado. Neste momento, começa-se a idéia de tentar ver o desenvolvimento da humanidade através de estágios, na qual existiriam os povos superiores e os povos inferiores.
Durante o próprio século XIX, as novas teorias positivistas dariam o suporte científico a esta visão, o evolucionismo de Spencer e o darwinismo social, procuravam comprovar que as sociedades se encontram em diferentes estágios evolutivos, podendo ser um mais ou menos avançado, criando assim a dicotomia bárbaro/civilizado, na qual o homem branco constituir-se-ia como o ser mais avançado, estando no topo da pirâmide racial como o homem civilizado.
Estas novas idéias européias encontrariam grande aceitação entre a elite intelectual brasileira - esta sendo também em sua grande maioria a elite econômica - e explicariam o atraso brasileiro em relação ao mundo desenvolvido. Ora, estas idéias teriam que ser pré-selecionadas e adaptadas ao contexto nacional, as exigências da elite local, até porque, alem das diferenças espaciais, temos também diferenças temporais, uma grande defasagem entre o surgimento destas idéias e a chegada delas ao Brasil[7].
A elite pensante do Brasil teria que conciliar estas idéias principalmente com dois elementos totalmente contrários a estas: o escravismo e a grande miscigenação no território brasileiro. O primeiro se constituiria como símbolo de um Estado atrasado e anti-moderno, e o segundo como elemento de degradação da sociedade, elemento de degeneração da nação, a miscigenação era o pior pesadelo de qualquer sociedade, como podemos ver, por exemplo, nos relatos dos viajantes estrangeiros Luiz Agassiz e Richard Francis Burton que estiveram no Brasil nos anos de 1860[8].
Logo percebemos que este Brasil qual almejava se tornar um centro difusor da civilização, que se via como herdeiro do projeto civilizador dos portugueses[9], seria extremamente excludente com elementos considerados degeneradores do processo civilizador, como os negros e os índios, no âmbito interno, e as republicas recém independentes da América Latina no âmbito externo.
No tocante ao escravismo, cada vez mais é atribuído a este o motivo do atraso brasileiro e, como solução a uma abolição da escravatura iminente, mostra-se como grande solução à carência de mão-de-obra livre, a reintegração do indígena (este mais valorizado que o negro) [10] . Mas, no debate - e aí reside mais um paradoxo criado pela importação de idéias estrangeiras- entre o uso da mão-de-obra indígena, representando esta o elemento nacional, e o uso da mão-de-obra branca, imigrante, a escolha evidentemente pendeu para o lado desta ultima.
A solução de suprir a carência de mão-de-obra livre estimulando a imigração européia viria de encontro com a crença da elite na superioridade da raça branca, em suma, com esta medida, alem de dar solução a falta de mão-de-obra livre, se introduziria na sociedade maior numero de pessoas portadoras da civilidade, maior numero de elemento branco significaria um ‘salto’ para o processo civilizador brasileiro, única medida possível para concluir este projeto, tendo em vista que apenas o branco era portador de tal superioridade. Temos aí a política tão conhecida (e um pouco posterior), do branqueamento, ou seja, usando-se da miscigenação - não se problematizando suas implicações negativas segundo o modelo europeu[11]- como instrumento, chegaríamos ao tipo ideal de ‘gente’ civilizada, o homem branco. “A nação […] deve, portanto, surgir como o desdobramento, nos trópicos, de uma civilização branca e européia” [12], foi este o projeto que deveria tornar o Brasil um modelo, uma ‘civilização dos trópicos’.
[1] Manoel Luis Salgado GUIMARÃES, Nação e Civilização nos Trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Projeto de uma História Nacional, p. 6.

[2] Idem p.10.

[3] Ibidem, p.11.

[4] Norbert ELIAS, O Processo Civilizador, passim.

[5] Idem.

[6] Ibidem.

[7] Renato ORTIZ, Cultura brasileira e identidade nacional, passim.

[8] Márcia Regina Capelari NAXARA, Cientificismo e sensibilidade romântica.

[9] Manoel Luis Salgado GUIMARÃES, Nação e Civilização nos Trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Projeto de uma História Nacional, p. 6.

[10] Idem, Ibidem, p. 24.

[11] Lílian Moritz SCHWARCZ, O Espetáculo das Raças, São Paulo, p18.

[12] Manoel Luis Salgado GUIMARÃES, Op. Cit. P.8.