
A Revolução de Avis ocorreu entre os anos de 1383 e 1385, em Portugal, e esteve diretamente ligada à crise sucessória instaurada após a morte de D. Fernando I. Com o falecimento do monarca, entrou em vigor o Tratado de Salvaterra de Magos, que atribuía a regência do reino à rainha viúva, D. Leonor Teles. O tratado previa ainda o casamento de sua filha, D. Beatriz, com o rei de Castela, o que implicaria a união dos dois reinos caso nascesse um herdeiro masculino dessa união. Tal perspectiva provocou forte instabilidade política e social, culminando em profundas transformações na estrutura do Estado português¹.
A população urbana demonstrava grande insatisfação com a regência de D. Leonor Teles, tanto pela ameaça à autonomia do reino quanto pelo escândalo envolvendo seu relacionamento com o Conde de Andeiro. Esse fato intensificou protestos, revoltas e conflitos, que rapidamente se estenderam a setores da nobreza e, sobretudo, à burguesia mercantil, fortemente contrária à união com Castela. O descontentamento também foi partilhado por D. João, Mestre da Ordem de Avis. Em dezembro de 1383, com o assassinato do Conde de Andeiro, iniciou-se um movimento político decisivo que levou o Mestre de Avis a ser proclamado Regedor e Defensor do Reino, encerrando, na prática, a regência de D. Leonor Teles².
O período conhecido como Interregno (1383–1385) caracterizou-se pela ausência de um rei legitimamente reconhecido e por sucessivas incursões militares de D. João I de Castela, que reivindicava o trono português. Paralelamente, consolidou-se a resistência liderada pelo Mestre de Avis, que, por meio de vitórias militares e articulações políticas, fortaleceu sua legitimidade junto às camadas populares, à burguesia urbana e a setores da fidalguia. Parte dessa nobreza, que inicialmente apoiava a candidatura dos filhos de D. Pedro I com Inês de Castro, passou gradualmente a aderir ao projeto avisino. A burguesia, formada por comerciantes e profissionais liberais, via no Mestre de Avis a possibilidade de maior participação política nas administrações locais e maior proteção aos seus interesses econômicos³.
A alta nobreza, por sua vez, apoiava majoritariamente a sucessão castelhana, temendo a perda de privilégios decorrente da ruptura dinástica e da anulação do Tratado de Salvaterra. Também se discutia a possibilidade da eleição do infante D. Dinis, filho de D. Pedro com Inês de Castro. Já a chamada baixa nobreza, vislumbrando oportunidades de ascensão social, concessão de terras e títulos, alinhou-se estrategicamente ao Mestre de Avis. Esse grupo encontrou respaldo nas camadas populares e na burguesia mercantil, interessadas em benefícios políticos e jurídicos que favorecessem suas atividades econômicas. Confrontavam-se, assim, dois projetos distintos: um de caráter conservador e patrimonialista e outro voltado à reorganização do poder e à dinamização das estruturas econômicas⁴.
Figura central nesse processo foi João das Regras, jurista oriundo da baixa nobreza, cujo discurso nas Cortes de Coimbra foi decisivo ao invalidar juridicamente as pretensões dos demais candidatos ao trono. Após cerca de trinta dias de intensos debates, e sob forte pressão popular e militar — especialmente do condestável Nuno Álvares Pereira —, as Cortes elegeram por unanimidade o Mestre de Avis como rei de Portugal, inaugurando a Dinastia de Avis⁵.
Após sua aclamação, D. João I ainda enfrentaria D. João de Castela na decisiva Batalha de Aljubarrota, em 1385. A vitória portuguesa consolidou definitivamente a independência do reino e é considerada um marco fundamental na formação do Estado nacional português⁶.
A Revolução de Avis não pode ser classificada como um movimento estritamente popular ou burguês, mas como o resultado de uma convergência de interesses entre a burguesia urbana, setores populares e a baixa nobreza, todos empenhados em legitimar suas demandas nas Cortes. Embora tenha contribuído para o fortalecimento de um sentimento de identidade nacional, o movimento refletiu sobretudo a disputa entre diferentes grupos sociais por poder, prestígio e influência política⁷.
A burguesia foi, possivelmente, o grupo mais beneficiado pela revolução, passando a integrar os conselhos municipais e a participar mais ativamente da administração do Estado, buscando equiparação política e jurídica com a nobreza. Diante dessa ascensão, a aristocracia tentou conter o avanço burguês no campo, o que levou esse grupo a direcionar seus esforços para a expansão comercial. Esse processo culminaria, nas décadas seguintes, nas navegações marítimas e na expansão ultramarina portuguesa⁸.
Como resultado final, a Revolução de Avis contribuiu decisivamente para a centralização do poder régio. Sob o governo de D. João I, o Estado reforçou seu controle sobre o clero, promoveu ideais nacionalistas baseados em feitos militares e consolidou a aliança com a burguesia mercantil, que atingiria seu auge com as empresas ultramarinas dos séculos XV e XVI⁹.
Notas de rodapé
SERRÃO, Joel. História de Portugal. Lisboa: Verbo, 1980.
MATTOSO, José. Identificação de um país: ensaio sobre as origens de Portugal. Lisboa: Estampa, 1995.
MARQUES, A. H. de Oliveira. Portugal na crise dos séculos XIV e XV. Lisboa: Presença, 1987.
MATTOSO, José. A nobreza medieval portuguesa. Lisboa: Estampa, 1981.
MARQUES, A. H. de Oliveira. História de Portugal, vol. I. Lisboa: Palas Editores, 1972.
SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal. Lisboa: Verbo, 1990.
HESPANHA, António Manuel. As vésperas do Leviathan. Coimbra: Almedina, 1994.
GODINHO, Vitorino Magalhães. Os Descobrimentos e a economia mundial. Lisboa: Presença, 1983.
MATTOSO, José (org.). História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 1992.
Bibliografia (ABNT)
GODINHO, Vitorino Magalhães. Os Descobrimentos e a economia mundial. Lisboa: Presença, 1983.
HESPANHA, António Manuel. As vésperas do Leviathan: instituições e poder político em Portugal. Coimbra: Almedina, 1994.
MARQUES, A. H. de Oliveira. Portugal na crise dos séculos XIV e XV. Lisboa: Presença, 1987.
MARQUES, A. H. de Oliveira. História de Portugal. Lisboa: Palas Editores, 1972.
MATTOSO, José. A nobreza medieval portuguesa. Lisboa: Estampa, 1981.
MATTOSO, José. Identificação de um país: ensaio sobre as origens de Portugal. Lisboa: Estampa, 1995.
SERRÃO, Joel. História de Portugal. Lisboa: Verbo, 1980.
SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal. Lisboa: Verbo, 1990.
20 comentários:
Fala Jessé!!!
Muito legal o artigo, sintetiza bem o q rolou na Revolução de Avis.....eu só gostaria de acrescentar um detalhe interessante, que reside no fato de que a velha disputa Portugal e Inglaterra x Espanha e França, que se estenderia por praticamente toda a Idade Moderna, inicia-se justamente no contexto da Revolução de Avis, mesma época em que Inglaterra e França engafinhavam-se na guerra dos cem anos......inclusive a esposa do Mestre de Avis era uma princesa inglesa muito popular em Portugal, a Filipa de Lancaster.....acredito q Espanha e Portugal não fizessem aqui o papel de periferia e bucha da canhão das duas potências, como já sabemos q rolou mais pra frente, até pela própria posição não muito confortável de Inglaterra e França no cenário geopolítico medieval do período....ao contrário, depois da Revolução de Avis, Portugal centralizou sua monarquia e pode lançar as bases da expansão marítima, q a transformaria numa das grandes potências do séc. XV (bem diferente das devastadas Inglaterra e França do período)....
Valeu por contextualizar, é sembre bom levar em conta todas as influencias políticas que representavam os casamentos da época.
A centralização que vc falou que iria fomentar as grandes navegações, levariam Portugal ao auge que jamais viria a alcançar novamente.
nossa vei q trem chato ccs e paia em
Gostei deste "pequeno resumo"... Queria saber qual é a sua fonte pois tenho algumas curiosidades a tirar!
Posta aí que eu venho visitar!
As fontes são os historiadores portugueses, Vitorino de Magalhães Godinho entre outros.
Nossa comecei a ler e não cosegui parar.Sua narrativa é muito legal e adorei o resumo.
Gostei muito do texto, ótimo trabalho. No entanto surgiu uma pequena duvida: a infanta D. Beatriz ,na realidade, não iria casar-se com o viúvo de Castela,D. João. Não entendi o nascimento do filho. Pode me ajudar?
Agradeço.
O filho era fruto de um relacionamento "não oficial", daí a má fama de D. Isabel.
Me fala sobre A América pré-colombiana. Sou Professora, não de historia, mas gostei muito de seu resumo.
Luciene Palmas-TO
Luciene, existe uma coleção organizada pela prof. Leslie Bethell, chamada "A Historia da America Latina".
Acredito que você encontrará tudo que precisa saber sobre o assunto, se não me engano são três volumes totalizando mais de duas mil páginas.
tres interessant, merci
A revolução de Alves aconteceu com Portugal e Espanha na época da União Ibérica?
hahahaha.... a 'revolução de Alves e os esquilos'? rsrsrsrs...
O Sr. pode me informar a principal relação entre a Revolução de Avis com o Humanismo?
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Você detalhou demais, complicou minha cabeça.. não foi um bom resumo.
Estou lendo aqui Donos do Poder, Faoro, que inicia falando sobre a aproximação com a burguesia e enfraquecimento da alta nobreza e clero. Mas não entendi porque isso levou ao patrimonialismo, ou às centralização do poder. Essa perda de poder da nobreza, que perde espaço pra burguesia também não esteve presente na formação de outros estados nacionais como Françae Inglaterra, por q lá não se fala também em patrimonialismo e dominio estatal (monarquico) no comércio??
Belo resumo! Por que a Igreja saiu enfraquecida? O Alto Clero português apoiou o rei de Castela? Esse conflito envolveu a disputa da época entre o papa de Avignon e o papa de Roma?
Durante a Revolução de Avis em Portugal (1383-1385), a situação envolvendo o apoio do Alto Clero ao rei de Castela, João I, ou ao Mestre de Avis, João (futuro João I de Portugal), foi complexa e variada.
O Papa de Avinhão na época era Clemente VII, enquanto o Papa de Roma era Urbano VI. O Grande Cisma do Ocidente, que ocorreu entre 1378 e 1417, dividiu a Igreja Católica entre esses dois papas rivais, criando um contexto de instabilidade e incerteza.
Em Portugal, o Alto Clero estava dividido nas suas lealdades. Alguns membros do Alto Clero português apoiaram o rei de Castela, que era casado com Beatriz, a pretendente ao trono português. No entanto, outros membros da Igreja apoiaram João, Mestre de Avis, que acabou por se tornar João I de Portugal após a Batalha de Aljubarrota em 1385.
A posição da Igreja em relação ao conflito não pode ser generalizada, pois havia variações nas lealdades individuais e regionais. A divisão na Igreja Católica devido ao Cisma do Ocidente também pode ter influenciado as alianças e as decisões tomadas pelo Alto Clero português.
A Batalha de Aljubarrota, em 1385, foi crucial para a afirmação de João I como rei de Portugal e a consolidação da Dinastia de Avis. A vitória nessa batalha influenciou as alianças políticas e as relações com a Igreja na consolidação do poder em Portugal.
A Revolução de Avis em Portugal no século XIV não está diretamente associada ao Humanismo, uma vez que o Humanismo como movimento cultural e intelectual floresceu principalmente durante o Renascimento, que teve seu auge nos séculos XV e XVI. A Revolução de Avis ocorreu entre 1383 e 1385, antes do início formal do Renascimento.
No entanto, pode-se identificar alguns elementos de transição entre o final da Idade Média e o início do Renascimento que, de certa forma, estão relacionados ao Humanismo. Um desses elementos é a ênfase crescente no estudo das humanidades clássicas, como a literatura, filosofia e história da Grécia e Roma antigas.
O Humanismo renascentista, que teve seu epicentro na Itália, promoveu a valorização do conhecimento clássico, a ênfase nas habilidades humanas e o interesse pelo estudo das ciências, artes e humanidades. Esse movimento cultural influenciou a educação, a literatura, a arte e a política da época.
Em Portugal, o reinado de João I, que foi estabelecido após a Revolução de Avis, pode ser considerado um período em que o país começou a se abrir para as influências renascentistas. Seu filho, o Infante Dom Henrique, desempenhou um papel crucial na promoção das explorações marítimas e no desenvolvimento do conhecimento científico e geográfico.
Assim, enquanto a Revolução de Avis em si não pode ser diretamente associada ao Humanismo, os séculos seguintes testemunharam um período em que Portugal, como muitas outras regiões europeias, começou a ser influenciado pelas ideias e valores humanistas que caracterizaram o Renascimento.
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