terça-feira, 20 de março de 2007

O País da Cocanha - O reflexo da utopia medieval nos tempos modernos.

Por Jessé A. Chahad e Thiago Mano Affonso

    O professor Jerome Baschet em entrevista ao jornal A Folha de São Paulo [1], com ressalvas comentou sobre a “atualidade” da Idade Média, fazendo um paralelo entre a satanização do presidente George Bush e a “caça as bruxas” praticada pela Igreja nos séculos XVI e XVII, e nos mostrando que não há grandes dificuldades se quisermos pensar que somos também medievais, ou ainda que a presença de certos tipos de fenômenos pode nos mostrar o quanto se deve importância ao estudo deste período.
    O Professor também afirmou que a conquista da América foi de certa forma uma expansão do feudalismo, o que nos levaria a alargar cronologicamente o conceito de Idade Média, o levando até o século XVIII. Aqui procuraremos obviamente com mais humildade procurar apenas possíveis reflexos do mundo medieval no moderno, sempre lembrando que o homem de hoje já foi medieval, no sentido do uso comum que se faz deste termo.


[1] Jerome BASCHET, América Medieval; entrevista ao Caderno MAIS, Folha de SP, 17/set/2006.



A inimiga: a fome

    Sabemos através de várias fontes que a fome era uma dificuldade enfrentada sempre, quase que de forma cíclica pela população[1], e a natureza era muitas vezes severa sendo uma dificuldade a ser superada pelo homem para garantir a sua sobrevivência[2] e a de seus familiares. O clima temperado, frio, as chuvas fortes eram responsáveis pela pouca incidência de alimentos e consequentemente pelo enfraquecimento sistemático mesmo no sentido biológico da raça humana, sendo normal em escavações o alto numero de restos mortais de pessoas com estaturas franzinas e com deficiência de cálcio, uma característica que durante algum tempo foi quase que um estigma acoplado ao da fome: a subnutrição.
    A onda de fome de 1315 alcança um numero de mortos que apesar das divergências em relação a sua exatidão, a historiografia concorda que foram números altos, maiores que a de outras ondas de fome anteriores[3]e marca uma ruptura em um processo de crescimento demográfico que havia lhe antecedido. Em suma, nesse período de breve crescimento demográfico, não cresceu paralelamente a produção de alimentos, e nem o avanço tecnológico necessário para isso[4], o que poderia explicar o surto de fome, que sempre reforça a idéia de se ter uma esperança relacionada a um futuro melhor, em um país imaginário, ou ainda no paraíso propriamente dito, visto que uma vida de sacrifícios era recompensada teoricamente com um lugar no céu cristão.

    Sendo assim, já de início podemos estabelecer um anacronismo, que será motivo de óbvia polêmica de fizermos um paralelo com os dias de hoje, encontraremos um reflexo do mundo medieval que mesmo que ao acaso nos chama a atenção se pensarmos em algumas comunidades africanas ou mesmo brasileiras que sofrem com a fome a inanição, a subnutrição e atravessam o século construindo características que se tornam intrínsecas, como os homens-gabirus do nordeste.

A necessidade: a utopia

    Segundo Sérgio Buarque de Holanda, as utopias, em qualquer momento da humanidade, agem como um fator progressista realmente eficiente. As utopias tiveram papel fundamental no período das navegações portuguesas. O maior medo dos marinheiros eram os monstros marinhos e as sereias que retratavam os riscos do mar traiçoeiro, porem a gana e a ganância de desvendar os novos caminhos e a esperança de encontrar terras abençoadas com abundancia e prosperidade foram maiores que os temores dos navegadores.
    O mito do país da Cocanha provavelmente derivou de tradições muito anteriores a tradição cristã ocidental, e por sua vez serviu de embasamento para varias outras lendas mais atuais que figuram no folclore ocidental. Ao analisar bem, podemos perceber que o 3º mundo vê os EUA como uma espécie de Cocanha, onde a prosperidade é quase inevitável e a liberdade é total. Por sua vez o governo tenta impor sua “utopia” para todo o 3º mundo, trocando a promessa de uma “democracia” pela legitimidade de seu projeto colonizador e explorador. O mesmo argumento foi utilizado na conquista das Américas, onde o colonizador trocava a engenhosidade e eficiência das armas e ferramentas européias e a graça de louvar o “verdadeiro” Deus pela exploração total da prosperidade dos povos nativos.

    Os mitos “Edênicos”, como são chamados os locais paradisíacos idealizados pelo homem (seja a Cocanha, o reino se Salomão, o próprio mito judaico do Éden, o Eldorado ou qualquer outro) são uma fantasia completamente embutida no nosso imaginário atual. Quem não sonha passar as férias em um resort ou um cruzeiro onde o cliente é servido todo o tempo e tem seus desejos realizados em cenários paradisíacos? Tudo tem seu preço.
    O que nos parece é que os mitos Edênicos foram criados para antagonizar a eterna dificuldade humana de conviver tanto com o ambiente onde vive quanto com a sociedade na qual está inserido. O grande erro da humanidade foi idealizar a Cocanha em algum lugar longínquo, e não em sua própria casa. A Cocanha, no fundo, representa cada desejo egoísta de cada homem que com ela sonha não um paraíso de igualdade e prosperidade para todos. O próprio mito do Eldorado não passa de uma releitura capitalista do mito da Cocanha, onde o que abunda não são comida e diversão, e sim dinheiro e jóias.
    Utilizando essa linha de pensamento vemos o poder que os mitos e utopias tinham e tem até hoje tanto para promover revoluções quanto para manter a “paz social”. É importante lembrar que historicamente a humanidade se organiza de maneira desigual e, a partir do inicio do capitalismo e das sociedades de mercado, ela só prospera em alguns países em detrimento de outros. Enquanto alguns desejarem tudo, não haverá como prover o necessário para todos. Porem, como dito no início, nós dependemos de nossas utopias.

O advento: o Maniqueísmo

    Talvez a maior herança que a idade media deixou para os tempos modernos foi o maniqueísmo. Tanto o Deus judaico (Javé) quanto os diversos panteões pagão mostram uma dualidade entre o “bem” e o “mal” muito parecidas com a dualidade humana, que possui uma parte boa e uma má, uma piedosa e a outra cruel.
    Durante a idade media a igreja católica promoveu uma verdadeira cruzada para implantar o maniqueísmo na cabeça das pessoas. Por isso foi criado pela igreja um verdadeiro “panteão maligno” que se referia a Satanás e seu exercito de demônios que tentavam a todo instante corromper, macular e finalmente destruir toda a obra de Deus na terra. A figura de Deus foi divida em Duas, e ao Diabo em questão foram atribuídos grandes poderes, o maior deles era o de corromper o ser humano. Com esse argumento a igreja católica perseguiu tudo e todos que eram avessos aos seus dogmas alegando “pacto com o diabo”.
    Esse maniqueísmo católico se tornou base para a maioria dos mitos medievais. Afinal de contas, se havia um inferno tão poderoso e ao alcance de todos, também tinha que existir algum paraíso tangível na terra. Algum lugar no mundo onde o homem poderia fugir das tentações demoníacas e se despir de todos os preconceitos e obrigações impostas pela sociedade medieval.

Creio que Deus e todos seus santos
Abençoaram-na e sagraram-na mais
Que qualquer outra região.
O nome do país é Cocanha;
Lá, quem mais dorme mais ganha.

As pessoas lá não são vis,
São pelo contrario, virtuosas e corteses.
Seis semanas tem lá o mês,

Quatro páscoas têm o ano,
E quatro festas de São João.
Há no ano quatro vindimas,
Feriado e Domingo todo dia.

Quatro todos os Santos, quatro natais,
Quatro candelárias anuais,
Quatro carnavais,
E quaresma a cada quatro anos,

O país é tão rico
Que bolsas cheias de moedas

Estão jogadas pelo chão;
Morabintos e besantes
Estão por toda parte, inúteis:
Lá ninguém compra nem vende.

As mulheres dali, tão belas,
Maduras e jovens,
Cada qual pega a que lhe convém,
Sem descontentar ninguém

Cada um satisfaz seu prazer
Como quer e por lazer;
Elas não serão por isso censuradas,
Serão mesmo muito mais honradas.[5]

    
    O ideário medieval criado através da mistura das culturas pagãs européias com os valores impostos pela igreja católica foi a verdadeira base das ideologias atuais. O que seria do ser humano sem as disputas maniqueístas entre judeus, católicos e muçulmanos. Como fazer uma guerra sem convencer ambos os lados de que estão lutando contra o mal? Como sobreviver num mundo tão penoso sem ter a perspectiva de encontrar um lugar justo e prospero para se viver no final? Para que lutar por uma sociedade mais justa e fraterna se os planos demoníacos estão muito além disso? Para que combater algo que não pode ser visto nem derrotado?
    Em tempos de miséria e perdição, os mitos ganham uma força extraordinária, levando em seu bojo todas as esperanças das classes desfavorecidas. Porem, como os mitos são em sua essência ilusórios, eles se desfaz como fumaça, deixando toda uma classe órfã de esperanças. Ainda hoje os mitos, de diferentes formas, são utilizados para conter ou provocar tensões sociais. Muitas vezes são utilizados como compensações ou recompensas pela luta empreendida. Como um objetivo que nunca será alcançado.
    Na verdade, não há diferenças concretas entre o homem moderno e o homem medieval, na verdade somos quase o mesmo homem, com a mesma crueldade, o mesmo egoísmo e a mesma ingenuidade. A única diferença é que o homem medieval não tinha como comprovar a existência ou inexistência de um reino perdido nos limites do mundo onde há fartura e igualdade só esperando a chegada de quem os encontrar. Nós homens modernos já sabemos que esse reino não existe, mas continuamos crendo nele mesmo assim.


A Cocanha e o Novo Mundo

    O País da Cocanha, lugar utópico festivo, onde a comida era abundante e o trabalho não era necessário, onde existiam rios de leite e de vinho, queijos e pães eram obtidos sem dificuldade era não apenas uma utopia strictu sensu, mas um sonho que às vezes era perseguido como real pelos europeus.
Com a descoberta do novo mundo, criou-se uma possibilidade de reprodução do paraíso na Terra, sonho perseguido pelos cristãos, recém saídos da Idade Média e que agora poderiam enfim encontrar a Cocanha, a terra abundante de alimentos, festas, orgias que agora poderia lhe pertencer.
Em referência a esse assunto, temos o clássico de Sérgio Buarque de Holanda, Visão do Paraíso, que se baseava em relatos coevos que procuravam justificar a necessidade de um novo éden, e posteriormente com o fracasso inicial da luta portuguesa contra o continente selvagem, a edenização da América portuguesa dá lugar à satanização, e de Terra de Santa Cruz a Brasil, era então o lugar infernal. [6].Ao encontrar o paraíso, o português nos demonstra o quanto estava à procura dele, pois as noticias de uma terra inóspita, farta em frutos e animais selvagens poderia bem ser a representação do País da Cocanha sendo finalmente realizado concretamente.

    Porém, não são esses assuntos que irão nos chamar a atenção, mas sim para o reflexo da Cocanha medieval ainda em período mais tardio, o século XIX.
Em artigo publicado, a Professora Roselys Izabel Corrêa dos Santos [7], nos informa que no período em que se deram as imigrações de italianos para o Brasil a partir do decreto de o Decreto n° 5.663 de 17 de junho de 1874, firmado entre o Governo Imperial Brasileiro e o Senhor Joaquim Caetano Pinto Júnior, que objetivava incrementar a política imigratória para o Brasil, se inseria em um contexto de luta social onde acusavam os trabalhadores de estar em busca da Cocanha, em busca de uma ilusão.
    Através do estudo de correspondências entre padres ela nos mostra o quanto o imaginário medieval estava sólido na consciência do homem moderno, tanto daqueles que buscavam imigrar em busca de uma terra de oportunidades, quanto daqueles que alertavam sobre o potencial utópico de tal empreitada.
Nos dias de hoje, seria de se supor que tais lendas já estivessem sido esquecidas ou mesmo substituídas por novas mitologias ou utopias produzidas pela sociedade industrial de consumo de bens materiais. Porém, para confirmar que isso não aconteceu, basta notarmos a presença marcante do universo arturiano, das fabulas de Camelot, de Avalon e todos os seus derivados que fomentam uma cultura de adoradores de filmes, livros, produtos em geral que remetem ao período em que tais lendas foram criadas.
    Sendo assim, muitos podem ser os reflexos da Idade Média presente no homem moderno, sendo um assunto de muita demanda e pouco interesse por parte dos historiadores que tem verdadeira ojeriza à relação cause-efeito, ou se preferirem, àqueles que acreditam que o presente em nada deve ao passado, e que as sociedades se reformulam a ponto de não conservar nenhum traço das civilizações ancestrais.         A esses fica o lamento e a lembrança de que a divisão cronológica é arbitrária, as vezes necessária, mas não tem o poder de dissociar as épocas recortadas umas das outras, constituindo assim uma espécie tempo linear, irreversível do qual apenas nos cabe observar suas mudanças e analisá-las de acordo com a necessidade do estudo da História.


[1] Hilário FRANCO JUNIOR, A utopia da abundancia: A Cocanha, p.26.

[2] Georges DUBY, Guerreiros e camponeses. Primórdios do crescimento econômico europeu séc.VII a XII.,p.17.

[3] Henri PIRENNE, Historia econômica e social da Idade Média, p.200.

[4] Gerald A.J.HODGETT, Historia Social e Econômica da Idade Média, p125.

[5] Trechos do Fabilau Francês.

[6] Laura de MELLO e SOUZA, Deus e o Diabo na Terra de Santa Cruz.

[7] Roselys Izabel CORREA DOS SANTOS, O País da Cocanha.Emigração Italiana e Imaginário.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

História da Revolução Mexicana - Construção da Imagem pelas Fotografias

Por Jessé A. Chahad

Não iremos aqui tomar partido na questão inevitável sobre o caráter artístico das fotografias, pois aqui tentaremos resolver de maneira astuciosa esse debate, reservando-se o direito de acreditar que, não necessariamente deveremos tratar a fotografia através da dicotomia foto versus obra de arte, preferimos aceitar que além do caráter obviamente informacional histórico e construtivo das fotos, está intrínseco um valor artístico e estético a ser valorizado em um outro momento. Portanto, faz se desnecessária essa “competição”, visto que os dois aspectos podem caminhar juntos, ora se sobrepondo ou se complementando, existindo como duas faces de uma mesma moeda. Os conceitos que aqui serão adotados para a fotografia, fazem parte do pensamento dos autores a serem citados na bibliografia, fundamentais para a produção do texto.
A fotografia enquanto representação do real, muitas vezes assume caráter de documentação oficial, como no caso da Revolução Mexicana. Esse fato apenas reforça a tese de que a fotografia pode ser utilizada para a construção de um papel interpretativo da realidade e ainda mais: o seu caráter realista, proveniente da relação entre o momento real e o momento retratado, aliado ao caráter de oficialização acaba quase por determinar que contra as fotografias não existam argumentos possíveis de dubiedade.
É neste momento que devemos ser cautelosos e recorrermos aos documentos fotográficos como fontes passíveis de algumas diferentes interpretações, além de ressaltar que toda fotografia enquanto produto cultural é trabalho de um fotógrafo, o qual também está inserido em um contexto particular e serve a um propósito ora pessoal, ora pré-determinado por alguma ideologia, ou motivação profissional.Weinstein & Booth são citados por Boris Kossoy em seu livro Fotografia e História, e aqui retomamos sua premissa para este trabaho: “perceber na imagem o que esta nas entrelinhas, assim como o fazemos em relação aos textos”, “precisamos aprender a esmiuçar as fotografias criticamente, interrogativamente e especulativamente(...).[1]
A partir deste viés, tentaremos demonstrar que a produção das imagens que iremos analisar viria a satisfazer uma pré-disposição a que se legitimava toda a luta revolucionária, e que mesmo com seus períodos de ascensão e queda de poder, a fotografia esteve presente, tentando se manter isenta, através dos Casasola, porém auxiliando a ambos os lados a criar os mitos que iriam transpor os muros cronológicos dos acontecimentos e ecoariam hoje no imaginário da população mexicana.

Sobre a Revolução
A Revolução Mexicana pode ser considerada a primeira a se desenvolver diretamente no contexto das contradições internas do Imperialismo que contou com a decisiva participação das massas trabalhadoras[2], tanto camponesas quanto operárias, unindo o sul rural e o norte semi-industrializado sob a mesma luta. A revolução tem sua cronologia marcada pode se dizer em três fases, a primeira, iniciando-se em 1910 com a derrubada do ditador que iria para o seu sétimo mandato, Porfírio Diaz, e a tentativa de fracassada do levante do líder do partido anti-reeleccionista Francisco Maderos, marca o que se convenciona chamar do inicio da fase política da revolução, a revolução maderista. Após cinco meses de batalhas, Diaz renuncia e nomeia um substituto que viria a convocar novas eleições. Em outubro de 1911, Maderos é eleito com 53% dos votos, agora pelo Partido Progressista Constitucional.
Após duas tentativas de golpes fracassados, os remanescentes do porfiriato chegaram ao poder através do Comandante das tropas federais, Victoriano Huerta, que traindo o país e a pátria, assassinou o presidente Maderos e seu vice, e assumiu o poder, no episodio que ficou conhecido como la decena trágica.( 9 a 18 de fevereiro de 1913)
O governo de Huerta inauguraria uma nova fase revolucionaria que contaria de certa forma com o apoio internacional, dos países que não reconheceriam a oficialidade da tomada de poder. As tropas Zapatistas continuaram a luta, ao lado de Villa e Obregón, e mais uma nova força representada pelo Governador Venustiano Carranza, aliado as forças políticas do estado de Sonora. A partir de 1914, inicia-se a fase mais problemática do processo revolucionário, com a fragmentação das forças antes conjuntas e a radicalidade das facções camponesas que se opunham aos constitucionalistas.
Liderados pela Divisão do Norte, um exército de mais de trinta mil pessoas entre camponeses, mineradores, boiadeiros, ferroviários, bandidos e desocupados era liderado pelo líder popular Pancho Villa. Ao sul, dez mil guerrilheiros todos camponeses exigindo a devolução das terras usurpadas pelos grandes fazendeiros do açúcar. Os conflitos se arrastariam com vitórias e derrotas para todos, levando o Estado Mexicano a exaurir suas economias, e paralisar o crescimento e desenvolvimento do país.
A convocação para a eleição de uma Assembléia Constituinte em 1917 decide dar um rumo à política nacional, e logo em seguida Carranza é eleito Presidente e retoma certo ar de retorno do México do crescimento de sua economia, até nova investida da oposição, dessa vez liderada por Álvares Obregón. A briga pelo poder causou uma onda de violência que durou de 1918 a 1920, e terminou com a posse de Obregón. A partir daí, a revolução seria institucionalizada e o Norte viria a dominar a cena durante um longo período, o que faz com a periodização sobre a revolução mexicana seja motivo de discórdia na historiografia. [3]

Geração Casasola
Augustin Victor Casasola, nasceu em julho de 1874, aos vinte anos de idade já trabalhava como repórter e fotógrafo. Em 1912 ele funda uma agência de fotógrafos, a qual contava com o slogan: “Tengo o hago la foto que usted necesite”. A agência atendia a revistas, jornais, e ao público em geral. Afora Victor, trabalhava na agência também os seus irmãos, Miguel e Ismael. Este era o início de uma família que viria a atravessar as gerações servindo ao oficio da fotografia e da História do México.
Alem de fotógrafo, Augustin Victor era acima de tudo um colecionador apaixonado, sendo este um dos fatores mais problemáticos no tocante à identificação das fotografias e ao ano de produção das mesmas. Existem duvidas em relação à autoria de algumas obras, pois a agência também contava com nomes como o de Francisco Ramirez e Rafael López Ortega. O que sabemos ao certo é que havia uma obsessão de Augustin de formar um arquivo fotográfico a serviço da História do México. Após sua morte prematura em 1936, a família reuniu durante décadas um volume impressionante de imagens. Este belo arquivo que foi inaugurado em 1976, e conta com cerca de 600 mil peças, o chamado Arquivo Casasola está sob a guarda da Fototeca de Pachuca, vinculada ao Instituto Nacional de Antropologia e História do Estado Mexicano, e é considerado por alguns, o acervo fotográfico mais rico para se entender a história e a sociedade da primeira metade do século XX.
Pode parecer pretensioso, mas não seria der todo exagerado dizer que Augustin Victor participou dos primórdios do que conhecemos hoje como foto-jornalismo, devido à presença dos fotógrafos do “clã” diretamente nos eventos decisivos da Revolução, tanto nos momentos gloriosos, quanto no cotidiano de guerrilha, se é que se podemos falar nesses termos, os Casasola arriscaram a vida e se viram obrigados ora a registrar os triunfos dos federalistas no poder e, mais tarde, o relativo sucesso das camadas rebeldes.
A relação prévia de Casasola com a imprensa que se desenvolvia e se modernizava no inicio do século XX, pode ter ajudado na produção de tamanho numero de imagens. A imprensa começava a adotar um caráter capitalista, ao redor de todo o mundo e no México essa tendência não se deu de maneira isolada. As classes mais baixas poderiam ter acesso agora aos periódicos, que tinham sua reprodução em serie cada vez mais com um custo reduzido.
Em 1914, a forte perseguição federal à imprensa fecha os jornais “El Tiempo” e “El Imparcial” e leva Miguel Casasola a abandonar suas atividades profissionais para se juntar à luta. Ele se une às tropas do General Ordoñes, um seguidor de Álvaro Obregón, líder do Exército Constitucionalista.
Podemos acreditar que de fato os Casasola participaram em diversos momentos da revolução, e algumas imagens do cotidiano da guerrilha podem ter surgido neste contexto, (fig.1), porém, para uma maior precisão, seria necessário um estudo mais dedicado sobre o assunto, além de uma visita ao Arquivo Casasola, visto que também a bibliografia disponível em nosso país sobre esse assunto é muito escassa. Nesta imagem, podemos deduzir tratar-se das fileiras do Sul mais rural, menos militarizadas que as do Norte, diferença territorial marcante no México em todos os sentidos de desenvolvimento. As vestimentas podem denunciar a origem, como por exemplo, os chapéus de camponeses, de abas muito largas para proteger do forte sol.
Porém, o Professor Carlos Alberto Sampaio Barbosa, ao estudar mais profundamente o livro fotográfico lança a possibilidade de que as cenas de guerra passariam por uma mudança na sua forma de representação. As batalhas teriam um acréscimo de carga dramática ao serem retratadas mais de perto, e às vezes as cenas precisariam ser “montadas” para que pudessem permitir tal aproximação e dramaticidade. Apesar da dúvida, fica a certeza de que a partir deste momento, as guerras e batalhas passariam a ser retratadas de uma maneira nova, e com o advento próximo da imprensa, as noticias ganhariam uma dinâmica mais concentrada no apelo emocional e menos na função informativa.
Após a vitória da revolução, os Casasola passaram a ocupar cargos públicos; durante os governos de Obregón (1920-1924) e Calles, (1924 a 1928), Augustin é nomeado “Chefe fotográfico” e também cuida da direção de espetáculos. [4] Esse período foi muito importante para a família, pois foi em 1920 que Augustin Victor foi convidado pelo estado a fotografar o “progresso” no México, um vinculo que duraria até 1935 e que faria com que o fotógrafo ostentasse a alcunha de “o fotógrafo da revolução”. Em 1921, já havia material suficiente para que os Casasola publicassem o Álbum Histórico Gráfico, uma narrativa dos principais acontecimentos da Revolução.
Outro fato importante que devemos ressaltar foi a ruptura dos padrões “objetivos” da fotografia. [5] Tipos humanos que antes eram retratados apenas como “curiosidades nacionais”, agora ocupavam a cena principal, tamanha era a sua importância e evidencia no quadro nacional. A realidade da guerra se sobrepôs aos velhos hábitos do registro visual. Cenas de pobreza e miséria criavam uma atmosfera social, que antes só era sentida pelos próprios protagonistas e agora chegavam por meio de publicações em periódicos.

Construção da Imagem da Revolução
Para entender como as fotografias podem ajudar na construção de um imaginário acerca de um assunto, procuraremos através de analise de algumas peças identificar elementos em comum com a bibliografia conhecida sobre a revolução, chamando a atenção para os detalhes enquadrados em cada momento registrado. Para Augustin, no foto-jornalismo, o valor da fotografia consiste na capacidade.
Em foto do arquivo Casasola (fig. 2), tomada no norte agrário do México por volta de 1910, podemos ver uma cena de cotidiano camponês onde é impossível não percebermos a imagem da pobreza, da tristeza da foto, alem do contraste e da fisionomia, tanto da criança, quanto da idosa nos transmitem um ar de pena. O chão de terra traz um ar de precariedade, de falta de recursos, de simplicidade. Fica quase óbvio o significado maior da foto que alem dessa pobreza, mostra a presença da criança e a idosa, tipos que habitavam as cidades em sua maioria, visto que os homens e jovens que já podiam pegar em armas já tinham se juntado para engrossar as fileiras da revolução.
Podemos fazer um paralelo desta imagem com uma passagem da obra do escritor mexicano Juan Rulfo, Chão em chamas, onde os contos narrados têm a Revolução como seu pano de fundo. A imagem ilustra a paisagem de Luvina, cidade fictícia descrita por Rulfo, onde a tristeza impera, a falta de esperança é presente. Diz a narrativa: “Porque em Luvina só moram os velhos muito velhos e os que ainda não nasceram, como se diz (...) E mulheres sem forças, quase travadas de tão magras”. (p.310). A pobreza de Luvina é refletida no imaginário da Revolução, e acaba for fixar a imagem da miséria e da carência, urgente de mudanças.
Nas figuras 3 e 4 ,datadas do mesmo período, fica evidente o que foi citado anteriormente, de que todos aqueles que já tivessem idade ou força suficiente para empenhar uma arma se viam inclinados a defender seu território e exigir a devolução das terras usurpadas junto aos camponeses, tanto do lado dos Zapatistas ao Sul, quando do exercito forte de Villa ao Norte.
Fica também clara a violência da imagem, por se tratar claramente de crianças carregando armas, uma delas leva uma pistola no coldre, a munição cruzando peito e a espingarda empunhada, o que nos mostra além da demonstração de bravura e coragem do povo mexicano, a necessidade de que todos participassem da luta, da forma que pudessem. A figura ficou tradicionalmente conhecida como Adelita, e foi freqüente sua presença nas batalhas. Nos dias de hoje, quase cem anos após esses acontecimentos é normal vermos crianças empunhando armas, tanto nas favelas cariocas quanto nas divisas da faixa de Gaza, porém esse absurdo, com o qual não deveríamos ter nos acostumado, certamente chocou a sociedade da época, e foi uma maneira inclusive de dizer que as mulheres também tiveram sua participação de forma efetiva no processo revolucionário de maneira radical.
Nesta obra a ser analisada (fig. 5), está uma das uma das mais belas fotos de toda a coleção, também de Augustin Victor, e datada indefinidamente dentro do período de 1910-1912, podemos ver a figura heróica de Francisco Villa, o Pancho liderando a temida Divisão do Norte, invicta no campo de batalha até então, era o exército mais bem preparado, em termos de militarização e disponibilidade de equipamentos. A presença dos cavalos e carroças por si só já potencializa o ataque das tropas, devido a sua velocidade e poder de avanço maciço, massacrante. A imagem de Villa, imponente, a frente da cavalaria cria definitivamente o mito heróico que trespassou as gerações ate hoje ecoa não só na construção do imaginário da revolução, mas mesmo na construção da identidade da sociedade mexicana.
Na próxima foto (fig. 6), vemos o exercito Zapatista e logo de cara já percebemos a diferença em relação à cavalaria de Villa. A formação dispersa e os trajes civis, de camponeses, fazem com que o exercito passasse despercebido quando preciso. Era uso comum em situações de vigília, eles enterrarem as armas e voltarem a sua atividade original, de camponeses, para depois fazerem a tocaia às tropas federais. O conhecimento do território e a presença de indígenas garantiam às tropas Zapatistas um caráter sorrateiro no deslocamento e letal com suas táticas de guerrilha.
Para os que olham a foto rapidamente, ou às vezes se a imagem está em más condições, alguns podem chegar a pensar que se trata de um exército muito numeroso, porém se prestarmos atenção de maneira simples, iremos perceber que o exército está presente apenas na frente da imagem, estando ao fundo um imenso milharal. Pode parecer até uma anedota, mas essa mimese não era ocasional. A camuflagem do homem do campo, encoberto pelo seu habitat natural, aliada ao conhecimento do território citado acima conferiam mais uma habilidade que viria complementar as tropas rústicas de Villa, quando da união dos dois exércitos para a tomada da Cidade do México em seis de Dezembro de 1914.
O próprio Zapata, não foi muito retratado no período inicial, sendo a maioria de suas imagens sempre posteriores a 1914. Avesso à exibição, sempre sério, jamais sorrindo, com o olhar apaixonado e perdido que se relata, conquistava o coração das moças da época, Zapata aparece também como símbolo do poder, da vitória camponesa, marcando a transferência de poder que se deu durante a revolução, levando consigo a mudança na liderança nacional, tratando de solidificar uma imagem a ser martirizada logo após sua morte. (fig.7 e 8 )
A figura 9, um momento – chave da revolução: 6 de dezembro de 1914, dois dias depois do pacto estabelecido entre as tropas federais e as revolucionárias, os exércitos Zapatistas e Villista juntos adentram a Cidade do México. No centro da foto, identificamos os dois líderes juntos, e os grupos aparecem totalmente misturados, prova de sua cooperação. Camponeses caracterizados e militares fardados simbolizam a união dos grupos mais significativos da Revolução Mexicana. Impressiona também a quantidade de pessoas que engrossavam as fileiras da luta e que agora chegavam a vitória.
A próxima, uma das fotos mais famosas da Revolução, (fig.10) que tem um simbolismo extremamente evidente, sintetiza o auge da revolução camponesa onde assistimos Villa sentado à cadeira presidencial, em pose de despojo, ritual que seria seguido por Zapata logo em seguida. O riso no rosto de Villa e sisudez de Zapata mostram o quanto abrangente foi a revolução, alem de denotar uma característica do caráter de cada personagem que ficaria marcada de forma nítida em cada fotografia. A presença de populares em um dos momentos de maior importância na História do México também nos traz a imagem da forte participação popular no processo. Podemos ver camponeses, junto a soldados ainda feridos, em igualdade a seus lideres, desfrutando com ironia para não dizer deboche o sucesso de sua vitória militar.
Com tudo isso que foi dito até agora, já não fica mais em segredo o que se conseguiu passar com exibição dessas imagens. Percebermos quanto foi fundamental esse registro fotográfico para a construção da imagem que se tem de Revolução Mexicana, com seus lideres idealizados e suas urgências de melhorias para a população pobre. As fotos retratam alem do heroísmo e astúcia de alguns de seus personagens, também a radicalidade do processo que contou com a participação de mulheres e crianças, além das fracas condições de desenvolvimento dos desertos do planalto mexicano.
Devemos lembrar que tudo isso vem somar ao que Octavio Paz nos lembra sobre a Revolução, quando ele nos diz que todo esse heroísmo, essa urgência pelos oprimidos vêm retomar toda uma temática que já havia se dado na luta pela independência do México frente à Espanha. A retomada desses valores antes empregados reforçava cada vez mais o imaginário da população e com certeza foi fator fundamental para o sucesso relativo do processo revolucionário.
Apesar de a fotografia não ser incontestável, mesmo com toda a sua proximidade da realidade, são evidentes as escolhas que foram feitas pelos Casasola para conseguir transmitir os sentimentos necessários de revolta, de indignação, a fim de justificar a necessidade de uma mudança radical. O resultado é bem sucedido e conhecido pelo mundo todo, e as fotos da revolução existem até hoje gravadas no imaginário da população e na riquíssima cultura mexicana.
A importância então da fotografia é maior muitas vezes do que outros meios artísticos, como a literatura ou a pintura, devido a sua camuflagem de verossimilhança que não esta escondida em metáforas ou estilos, e sim exposta como ferida aberta, a fim de mostrar de maneira mais real possível, fazendo quase que imperceptível a construção por detrás da obra, que é tomada como retrato fiel da realidade. Um instrumento de tamanho poder, concluímos, é essencial para aqueles que desejam justificar os meios de se chegar a um objetivo e conseguir a legalidade perante as massas populares, e a opinião estrangeira.


Bibliografia

BARBOSA, Carlos A.Sampaio; Morte e vida da Revolução Mexicana: “Los de Abajo” de Mariano Azuela, São Paulo, Dissertação de mestrado, PUC-SP, 1996.

BARBOSA, Carlos A. Sampaio; A fotografia a serviço de Clio: uma interpretação da historia visual da Revolução Mexicana (1900-1940), São Paulo, Unesp, 2006.

BARTHES, Roland, A Câmara Clara-Nota sobre a fotografia, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.

CASASOLA, Augustin V, Augustin Victor Casasola, Paris, Centre National de la Photographie, 1992.

CORRÊA, Ana Maria M. A Revolução Mexicana, 1910-1917, São Paulo, Brasiliense, 1984.

DUBOIS, Philippe; O ato fotográfico e outros ensaios, Campinas, Papirus, 1994.

GILLY, Adolfo, Interpretaciones de la Revolucion Mexicana, México, UNAM, Nueva Imagen, 1979.

HOBSBAWM, Eric J., A era dos Impérios, 1875-1914, São Paulo, Paz e Terra, 1988.

HOBSBAWM, Eric J., A era dos Extremos, O breve século XX-1914-1991, São Paulo, Cia. das Letras, 1995.

KOSSOY, Boris, Realidades e Ficções na trama fotográfica, São Paulo, Ateliê Editorial, 2002.

KOSSOY, Boris, Fotografia e História, São Paulo, Ática, 1989.

KOSSOY, Boris, A fotografia como fonte histórica: introdução à pesquisa e interpretação das imagens do passado. São Paulo, Sec. da industria,Com. e Tecnologia, 1980.

MACHADO, Arlindo, A ilusão especular; introdução à fotografia. São Paulo, Brasiliense/Funarte, 1984.
[1] Boris KOSSOY, Fotografia e Historia p.79.
[2] Eric HOBSBAWM, Rumo à revolução, In: A era dos impérios, p.396.
[3] Ana Maria Martinez CORREA, A Revolução Mexicana, 1910-1917
[4] Carlos A. S. BARBOSA, A fotografia a serviço de Clio: uma interpretação da historia visual da Revolução Mexicana, pp.35.

[5] Ibid, pp.36

quinta-feira, 2 de março de 2006

A Inquisição e o Brasil


A chegada do primeiro visitador do Santo Ofício ao Brasil ocorreu em junho de 1591, quando o desembargador Heitor Furtado de Mendonça aportou na Bahia. Sua visão inicial sobre a colônia foi fortemente influenciada pelas leituras dos relatos produzidos pelo padre Manuel da Nóbrega, nos quais o Brasil era descrito como uma terra onde “não se guarda um só mandamento de Deus, e muito menos os da Igreja”. A notícia da presença da Inquisição espalhou pânico entre os habitantes da colônia, reforçando a imagem do Brasil como um território desprovido de leis, tanto no plano religioso quanto no administrativo¹.

A falta de fé e de obediência às normas católicas representava, para o poder papal, uma derrota no processo de catequização e na formação de uma sociedade moldada segundo os preceitos cristãos. Tal fracasso comprometia também a centralização do poder estatal, uma vez que Igreja e Estado encontravam-se profundamente articulados na construção do modelo político português transplantado para a colônia. Nesse sentido, Sônia Siqueira afirma que a Igreja tinha como objetivo “integrar o Brasil no mundo cristão” e compreender “em que bases se sustentava a fé dos moradores da colônia”².

A população colonial era majoritariamente analfabeta, marcada por práticas consideradas desregradas e pela escassez de mulheres brancas. De modo geral, os ensinamentos da Igreja não alcançavam grande adesão, sendo frequentemente ridicularizados e raramente seguidos. Um exemplo emblemático dessa postura ocorreu em 1546, quando Pero do Campo Tourinho, donatário da capitania de Porto Seguro, foi denunciado à Inquisição de Lisboa por afirmar que em suas terras quem exercia autoridade era ele próprio, chegando a declarar-se o “papa” de sua capitania. Segundo a denúncia, Tourinho ainda afirmava que domingos e dias santos não deveriam ser respeitados, pois representavam perda de tempo produtivo. Práticas como amaldiçoar santos ou desdenhar dos sacramentos eram comuns entre os colonos³.

Nesse contexto, os jesuítas frequentemente procuravam afastar os indígenas do convívio com os colonos, a fim de evitar a assimilação mútua de costumes. A Igreja, em um primeiro momento, interpretou práticas indígenas como a poligamia e o antropofagismo sob uma ótica demoníaca, ao mesmo tempo em que condenava a exploração sexual e econômica dos nativos por parte dos colonos, agravada pela escassez de mulheres europeias⁴.

As práticas consideradas imorais na colônia chegaram a ser compreendidas como uma espécie de doutrina informal, expressa na máxima Ultra aequinoxialem non peccatur, segundo a qual não existiria pecado ao sul do equador. Nesse imaginário, colonos e degredados entregavam-se à fornicação, à sodomia, ao adultério e ao incesto sem temor de punição divina. Alguns chegaram a associar o próprio nome “Brasil” a essa concepção, relacionando-o à imagem da brasa ardente — símbolo do inferno — e à cor avermelhada do pau-brasil, que teria substituído o nome original “Terra de Santa Cruz”⁵.

Esse quadro comportamental pode ser compreendido, em parte, como resultado de uma administração colonial desorganizada e ineficiente. A confusão de funções, a sobreposição de competências, a complexidade institucional e o excesso de burocracia contribuíam para a fragilidade do poder estatal, incapaz de imprimir à sociedade colonial um senso coletivo de moralidade. Essa debilidade do Estado abriu espaço para a ingerência da Igreja na tentativa de impor uma conduta moral rígida. A Inquisição, portanto, passou a atuar quando a ausência de padrões morais já se encontrava consolidada, reforçando a visão demonizada da vida cotidiana na colônia, entendida como um “mundo novo” a ser civilizado⁶.

A expansão do poder papal sobre uma colônia em desenvolvimento e a possibilidade de sua inserção plena no sistema católico europeu figuram entre os fatores que explicam a atuação inquisitorial nos domínios tropicais. Tal processo significava, na prática, a reprodução do modelo do Estado português na colônia, em todas as suas instâncias. Para garantir o controle repressivo, Estado e Igreja lançavam mão de instrumentos como os sermões, nos quais se difundiam imagens do céu e do inferno, aterrorizando os colonos com a ameaça da danação eterna⁷.

Entretanto, os estudos de Anita Novinsky oferecem uma interpretação distinta a partir da análise sistemática dos processos inquisitoriais referentes ao Brasil nos séculos XVI e XVII. Segundo a autora, o principal crime imputado aos brasileiros e portugueses residentes na colônia foi a prática do judaísmo. Dos 1.067 prisioneiros analisados, 46,13% dos homens e 89,92% das mulheres foram acusados desse delito. Esses dados obrigam a relativizar a ideia de que o Brasil era apenas uma terra sem leis ou normas morais: tratava-se também de um espaço de oportunidades econômicas, atraente para cristãos-novos oriundos da Península Ibérica⁸.

A análise das denúncias, prisões, julgamentos e sentenças revela a predominância de mercadores e agricultores (27,76%) entre os acusados, em contraste com artesãos e outros profissionais liberais (12,86%). Tal dado sugere uma predisposição inquisitorial para investigar áreas e atividades onde a presença de judeus e cristãos-novos era mais significativa. A prosperidade colonial, amplamente divulgada, ecoava na metrópole e despertava o interesse da Coroa, especialmente durante o período da União Ibérica, quando os reis Filipes tinham conhecimento da expressiva presença de comerciantes e senhores de engenho de origem judaica⁹.

Os cristãos-novos estabelecidos no Brasil mantinham intensas relações comerciais com os Países Baixos, então em conflito com a Espanha. Essa situação preocupava a Coroa espanhola, que passou a governar Portugal a partir de 1580. Em 1621, chegou-se a cogitar a instalação de um tribunal permanente da Inquisição no Brasil, à semelhança do que ocorrera em Lima (1570) e no México (1571). Contudo, o Brasil permaneceu sem um tribunal inquisitorial próprio e, inclusive, sem a realização de autos de fé, espetáculos públicos de julgamento e execução frequentes em outros domínios do Santo Ofício¹⁰.

Por fim, embora alguns historiadores apontem certa “brandura” da Inquisição no Brasil, sua simples presença e o interesse que a colônia despertou possuem forte significado simbólico. A atuação inquisitorial deve ser compreendida no contexto mais amplo da arbitrariedade da Igreja e da fragilidade do Estado colonial, bem como do caráter essencialmente exploratório da colonização, que resultou em atraso estrutural imposto pela metrópole e na ausência de investimentos duradouros na organização social e produtiva da colônia¹¹.


Notas de rodapé

  1. NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1988.

  2. SIQUEIRA, Sônia. A Inquisição portuguesa e a sociedade colonial. São Paulo: Ática, 1978.

  3. NOVINSKY, Anita. Inquisição: prisioneiros do Brasil. São Paulo: Expressão e Cultura, 2002.

  4. MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

  5. SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

  6. HESPANHA, António Manuel. As estruturas políticas em Portugal na época moderna. Coimbra: Almedina, 1994.

  7. SIQUEIRA, Sônia. A Inquisição portuguesa. São Paulo: Brasiliense, 1996.

  8. NOVINSKY, Anita. Inquisição: prisioneiros do Brasil. São Paulo: Expressão e Cultura, 2002.

  9. GODINHO, Vitorino Magalhães. Portugal, a emergência de uma nação. Lisboa: Presença, 1990.

  10. BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições. Lisboa: Temas e Debates, 1994.

  11. SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.


Bibliografia (ABNT)

BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália. Lisboa: Temas e Debates, 1994.

GODINHO, Vitorino Magalhães. Portugal, a emergência de uma nação. Lisboa: Presença, 1990.

HESPANHA, António Manuel. As estruturas políticas em Portugal na época moderna. Coimbra: Almedina, 1994.

MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1988.

NOVINSKY, Anita. Inquisição: prisioneiros do Brasil. São Paulo: Expressão e Cultura, 2002.

SIQUEIRA, Sônia. A Inquisição portuguesa e a sociedade colonial. São Paulo: Ática, 1978.

SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Miguel de Cervantes

Por Jessé A. Chahad

Miguel de Cervantes nasceu em Castilha no ano de 1547, enquanto o mundo vivia um contexto de importantes transformações que efervesciam na Europa, a intensidade de trabalhos no campo intelectual e literário crescia ao passo em que a Igreja sofria com as novas idéias provenientes das religiões surgidas na Reforma Religiosa, e ao mesmo tempo articulava sua Contra-Reforma que procurava adaptar a Igreja aos novos tempos e ao mesmo tempo reafirmava os seus dogmas, ainda que à força.Uma época de aventuras e descobrimentos, de contestações dos preceitos da escolástica através da experiência, “a madre das coisas”, que fundaria as bases de uma nova perspectiva no campo intelectual, e na economia dava-se uma fase de transição importante onde estariam se lançando sobre a Europa as bases da Idade Moderna, e revolucionando a Europa, sendo essa considerada a primeira etapa do capitalismo moderno, fruto da expansão comercial ibérica.
De origem humilde, Cervantes junta-se ao exército espanhol aos 24 anos e combate os turcos na Batalha de Lepanto, na costa oeste da Grécia, onde é seriamente ferido e chega a perder os movimentos da mão esquerda.Ele ainda passa por um período de cinco anos preso em cativeiro em Argel, capturado por corsários em seu regresso à Espanha.Com muitas dificuldades financeiras, e com o fracasso de seu primeiro casamento, Cervantes desenvolve ainda algumas funções burocráticas, a serviço do Rei, sendo novamente preso, desta vez, acusado de desvio de verbas, passou mais um período encarcerado em Sevilha, onde se supõe que começa a escrever a primeira parte de Dom Quixote, o Engenhoso Fidalgo de La Mancha.
O sucesso obtido com a publicação em 1547 lhe trouxe algum prestígio, porém nada de concreto que pudesse ser considerado a solução de seus problemas financeiros, dada sua inabilidade com números e seu estilo de vida acostumado a andanças. Era desprendido das coisas materiais.Aos 68 anos, já velho e doente vê publicada a segunda parte de sua obra, Dom Quixote, publicada em 1615. Além do romance Dom Quixote, escrito em duas partes (1605-1615, a primeira com 52 capítulos e a segunda, com 74), escreveu Calatea (1585), Novelas exemplares (1613), Viagem ao Parnaso (1614) e Os trabalhos de Persiles e Segismunda (1617).
Longe de sucesso, de amigos, e com muitos problemas financeiros, Cervantes já doente recolhe-se a um convento franciscano, o mundo já lhe cansara, e só restava-lhe a morte que chegou para lhe aliviar em 1616.Não só o livro é um clássico, mas como o próprio Cervantes em sua vida e trajetória, são épicos que devem ser percebidos com atenção, pois é subjetiva sua obra e ao mesmo tempo universal e tem se mantido como uma das fontes de inspiração e de referência para escritores e artistas de todas as épocas. A própria figura de Dom Quixote se tornou um símbolo do homem moderno em suas lutas contra as investidas de uma realidade decadente.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Revolução de Avis

Por Jessé A. Chahad
  

A Revolução de Avis ocorreu entre os anos de 1383 e 1385, em Portugal, e esteve diretamente ligada à crise sucessória instaurada após a morte de D. Fernando I. Com o falecimento do monarca, entrou em vigor o Tratado de Salvaterra de Magos, que atribuía a regência do reino à rainha viúva, D. Leonor Teles. O tratado previa ainda o casamento de sua filha, D. Beatriz, com o rei de Castela, o que implicaria a união dos dois reinos caso nascesse um herdeiro masculino dessa união. Tal perspectiva provocou forte instabilidade política e social, culminando em profundas transformações na estrutura do Estado português¹.

A população urbana demonstrava grande insatisfação com a regência de D. Leonor Teles, tanto pela ameaça à autonomia do reino quanto pelo escândalo envolvendo seu relacionamento com o Conde de Andeiro. Esse fato intensificou protestos, revoltas e conflitos, que rapidamente se estenderam a setores da nobreza e, sobretudo, à burguesia mercantil, fortemente contrária à união com Castela. O descontentamento também foi partilhado por D. João, Mestre da Ordem de Avis. Em dezembro de 1383, com o assassinato do Conde de Andeiro, iniciou-se um movimento político decisivo que levou o Mestre de Avis a ser proclamado Regedor e Defensor do Reino, encerrando, na prática, a regência de D. Leonor Teles².

O período conhecido como Interregno (1383–1385) caracterizou-se pela ausência de um rei legitimamente reconhecido e por sucessivas incursões militares de D. João I de Castela, que reivindicava o trono português. Paralelamente, consolidou-se a resistência liderada pelo Mestre de Avis, que, por meio de vitórias militares e articulações políticas, fortaleceu sua legitimidade junto às camadas populares, à burguesia urbana e a setores da fidalguia. Parte dessa nobreza, que inicialmente apoiava a candidatura dos filhos de D. Pedro I com Inês de Castro, passou gradualmente a aderir ao projeto avisino. A burguesia, formada por comerciantes e profissionais liberais, via no Mestre de Avis a possibilidade de maior participação política nas administrações locais e maior proteção aos seus interesses econômicos³.

A alta nobreza, por sua vez, apoiava majoritariamente a sucessão castelhana, temendo a perda de privilégios decorrente da ruptura dinástica e da anulação do Tratado de Salvaterra. Também se discutia a possibilidade da eleição do infante D. Dinis, filho de D. Pedro com Inês de Castro. Já a chamada baixa nobreza, vislumbrando oportunidades de ascensão social, concessão de terras e títulos, alinhou-se estrategicamente ao Mestre de Avis. Esse grupo encontrou respaldo nas camadas populares e na burguesia mercantil, interessadas em benefícios políticos e jurídicos que favorecessem suas atividades econômicas. Confrontavam-se, assim, dois projetos distintos: um de caráter conservador e patrimonialista e outro voltado à reorganização do poder e à dinamização das estruturas econômicas⁴.

Figura central nesse processo foi João das Regras, jurista oriundo da baixa nobreza, cujo discurso nas Cortes de Coimbra foi decisivo ao invalidar juridicamente as pretensões dos demais candidatos ao trono. Após cerca de trinta dias de intensos debates, e sob forte pressão popular e militar — especialmente do condestável Nuno Álvares Pereira —, as Cortes elegeram por unanimidade o Mestre de Avis como rei de Portugal, inaugurando a Dinastia de Avis⁵.

Após sua aclamação, D. João I ainda enfrentaria D. João de Castela na decisiva Batalha de Aljubarrota, em 1385. A vitória portuguesa consolidou definitivamente a independência do reino e é considerada um marco fundamental na formação do Estado nacional português⁶.

A Revolução de Avis não pode ser classificada como um movimento estritamente popular ou burguês, mas como o resultado de uma convergência de interesses entre a burguesia urbana, setores populares e a baixa nobreza, todos empenhados em legitimar suas demandas nas Cortes. Embora tenha contribuído para o fortalecimento de um sentimento de identidade nacional, o movimento refletiu sobretudo a disputa entre diferentes grupos sociais por poder, prestígio e influência política⁷.

A burguesia foi, possivelmente, o grupo mais beneficiado pela revolução, passando a integrar os conselhos municipais e a participar mais ativamente da administração do Estado, buscando equiparação política e jurídica com a nobreza. Diante dessa ascensão, a aristocracia tentou conter o avanço burguês no campo, o que levou esse grupo a direcionar seus esforços para a expansão comercial. Esse processo culminaria, nas décadas seguintes, nas navegações marítimas e na expansão ultramarina portuguesa⁸.

Como resultado final, a Revolução de Avis contribuiu decisivamente para a centralização do poder régio. Sob o governo de D. João I, o Estado reforçou seu controle sobre o clero, promoveu ideais nacionalistas baseados em feitos militares e consolidou a aliança com a burguesia mercantil, que atingiria seu auge com as empresas ultramarinas dos séculos XV e XVI⁹.


Notas de rodapé

  1. SERRÃO, Joel. História de Portugal. Lisboa: Verbo, 1980.

  2. MATTOSO, José. Identificação de um país: ensaio sobre as origens de Portugal. Lisboa: Estampa, 1995.

  3. MARQUES, A. H. de Oliveira. Portugal na crise dos séculos XIV e XV. Lisboa: Presença, 1987.

  4. MATTOSO, José. A nobreza medieval portuguesa. Lisboa: Estampa, 1981.

  5. MARQUES, A. H. de Oliveira. História de Portugal, vol. I. Lisboa: Palas Editores, 1972.

  6. SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal. Lisboa: Verbo, 1990.

  7. HESPANHA, António Manuel. As vésperas do Leviathan. Coimbra: Almedina, 1994.

  8. GODINHO, Vitorino Magalhães. Os Descobrimentos e a economia mundial. Lisboa: Presença, 1983.

  9. MATTOSO, José (org.). História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 1992.


Bibliografia (ABNT)

GODINHO, Vitorino Magalhães. Os Descobrimentos e a economia mundial. Lisboa: Presença, 1983.

HESPANHA, António Manuel. As vésperas do Leviathan: instituições e poder político em Portugal. Coimbra: Almedina, 1994.

MARQUES, A. H. de Oliveira. Portugal na crise dos séculos XIV e XV. Lisboa: Presença, 1987.

MARQUES, A. H. de Oliveira. História de Portugal. Lisboa: Palas Editores, 1972.

MATTOSO, José. A nobreza medieval portuguesa. Lisboa: Estampa, 1981.

MATTOSO, José. Identificação de um país: ensaio sobre as origens de Portugal. Lisboa: Estampa, 1995.

SERRÃO, Joel. História de Portugal. Lisboa: Verbo, 1980.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal. Lisboa: Verbo, 1990.