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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O Futebol no Campo Afetivo da História



Por Luis Carlos Ribeiro - UFPR

O futebol, como toda prática social, encontra-se de tal modo imbricado com a sociedade que tomá-lo como objeto de estudo implica em se abrir para possibilidades imensas de abordagens. Os limites
desse artigo nos permitem apenas arrolar e tecer rápidos indicativos sobre algumas dessas possibilidades.
A primeira delas nós anunciamos desde o início. Ou seja, o futebol só pode ser abordado na sua complexidade se o compreendermos como um fenômeno social e historicamente produzido. Isso quer dizer que, mesmo quando discutimos táticas e regras, condicionamentos físicos etc., eles sempre deverão ser compreendidos como táticas, regras e condicionamentos socialmente produzidos.
A mitológica dicotomia entre futebol arte e futebol força Nesse aspecto, por exemplo, a inesgotável discussão – para além  do discurso mitológico – entre o  futebol arte (do passado) e o futebol força ou técnico (recente), nos permite uma abordagem crítica. Se submetermos esses momentos às condições objetivas em que o esporte era (e ainda é) praticado, por um lado vamos perceber o quanto a relação arte e força é falsa, se colocada como uma dicotomia simples. Com isso queremos dizer que se essa relação em parte é verdadeira, ela já estava dada nos 30-60, quando supostamente predominava o futebol-arte.
Ver, nesse sentido, a leitura clássica sobre o futebol apolíneo dos europeus e o dionisíaco dos brasileiros, desenvolvida por Gilberto Freyre e que se tornou referência para a definição de um suposto estilo brasileiro de jogar.
Um outro fato é que, a partir do momento em que essa dicotomia passa a ser enfatizada, nos anos setenta, as condições sociais do esporte em geral e do futebol em particular eram outras. O desenvolvimento da medicina esportiva e a valorização econômica com a espetacularização do esporte, não deixaram espaço para o futebol romântico e boêmio que teria existido até a era Pelé, citada de forma nostálgica e pouco crítica como exemplo do chamado futebolarte.
Afirmar o caráter social e histórico do futebol, contudo, não significa ignorar a sua autonomia enquanto campo específico. O seu estudo, ao mesmo tempo em que não pode perder de vista a dimensão
social, não pode soterrá-lo de estrutura, a tal ponto que não nos permita perceber a sua dinâmica específica, que sem dúvida não é a das classes sociais, do estado, das religiões, dos sindicatos ou dos
partidos políticos.O método para compreender a dimensão social do futebol, deve partir de uma descrição etnográfica densa, enunciando com o máximo de detalhes a sua dinâmica. Será o desvelamento das suas regras e da sua experiência cotidiana, como prática social singular do campo esportivo, que nos
permitirá contextualizá-lo e percebe-lo na complexa teia da estrutura social.
Possibilidades metodológicas 
Apesar de toda essa riqueza de possibilidades que o estudo sobre o futebol abre para a compreensão da complexidade do social,o tema tem sido pouco explorado no campo científico. Ainda predomina nessa área, a literatura de memorialistas e curiosos que,sem deixar de ter sua importância, produz uma visão permeada de subjetividade acrítica e de reprodução de mitos. O fato é que esse tipo de literatura, na maioria das vezes muito próximo da ficção, é motivado muito mais pela paixão do envolvimento que pelo distanciamento crítico, como deve ser o esforço de todo estudo científico.
A pouca produção científica sobre o futebol, em grande parte deve-se ao preconceito que existe no meio acadêmico. Giulianotti atribui esse desprezo ao desdém intelectual à cultura de massas, como se verifica entre os teóricos frankfurtianos, pelo fato dessa cultura “impressionar o povo consumista com a trivialidade de jogar e assistir a jogos”. (Giulianotti, 2002, p. 33). Trata-se, na verdade, de uma variável da leitura marxista tradicional que atribui um caráter alienante ao esporte. No limite, marxistas ortodoxos e sua variável frankfurtiana, partem de uma mesma base de raciocínio, qual seja a de que o esporte, enquanto um produto de consumo de massa da sociedade contemporânea, gera a alienação, a falta do discernimento crítico, sendo por isso facilmente manipulado politicamente.
Nessa linha de raciocínio, não é diferente a leitura que Hannah Arendt faz da adesão de milhares de cidadãos aos regimes totalitários europeus. A autora analisa o surgimento das massas como um desvio, resultado da falência da sociedade de classes. Para Arendt, enquanto a classe operária organizava o seu movimento e a burguesa os seus partidos, as massas constituíram-se sem vínculo social e, conseqüentemente, sem qualquer projeto político que lhe conferisse coesão social. (Arendt, 1978, p. 265) Tanto que se refere a essa massa como ralé:
A ralé é fundamentalmente um grupo no qual estão representados resíduos de todas as classes. É isto que torna tão fácil confundir ralé com povo, o qual compreende todas as camadas sociais. Enquanto o povo [...] luta por um sistema realmente representativo, a ralé brada sempre pelo homem forte, pelo grande
chefe. Porque a ralé odeia a sociedade da qual é excluída e odeia o parlamento onde não está representada. (Arendt, 1978, p. 164-5)
Desse modo, fundada na tradição marxista que elege o proletariado e a burguesia como as classes fundamentais e as únicas capazes de uma verdadeira consciência de classe, esses intelectuais não conseguem compreender como cidadãos puderam ter aderido a regimes totalitários como o nazi-fascismo. A forma sociológica de analisa-los é pela exclusão: esses indivíduos não expressam a consciência de classe nem do proletariado, nem da burguesia.
Partem, esses intelectuais do suposto de que estes – proletariado e burguesia – por pertencerem a uma classe, devem ter coesão social e, conseqüentemente, consciência de classe e projetos políticos definidos.
Trata-se, evidentemente, de uma coesão social atribuída. Uma consciência racional de classe que a Teoria – porque “conhece” as leis da história – atribui a determinados grupos sociais e não suporta a possibilidade de que esses grupos não atuem da forma prevista. Ao se defrontarem com manifestações que não se enquadram naquilo que determinam como consciência social de classe, oscientistas sociais preferem o desprezo.
Esta é a leitura que tem predominado no Brasil sobre as classes sociais, desde os anos vinte/trinta. Como não se encontra na sociedade brasileira experiência de classes como o definido pela teoria, afirma-se da sua fragilidade ou mesmo inexistência, como tem ocorrido com as análises sobre classe operária, classes médias, 
tenentismo e outros recortes sociais. Ver, nesse sentido, as obras em torno da sociologia marxista brasileira dos anos sessenta/setenta: entre outros, Boris Fausto, Octavio Ianni, Francisco Weffort.
No caso europeu, o pensamento marxista não suporta – tanto no plano epistemológico quanto no ideológico – a possibilidade de que a classe trabalhadora alemã aderiu de maneira massiva ao regime nazista e, portanto, não se comportou como classe revolucionária (atributo de sua suposta consciência social) e agiu
como massa. Ou como prefere Arendt, como ralé. É, portanto, em função da camisa-de-força desses paradigmas que o futebol é visto como expressão de uma multidão alienada e alienante, incapaz de qualquer racionalidade, sendo o seu estudo desonroso. De nosso ponto de vista, essa conclusão incorre em alguns
problemas. Primeiro, que as classes sociais são vistas aqui como determinações exteriores e não a partir do seu fazer-se, da experiência própria dos indivíduos que as compõem (Castoriadis, 1982 ; Thompson, 1987). Ou seja, é a Teoria, e não a experiência histórica efetiva dos indivíduos e grupos, que define as classes e o que deve ser as suas consciências sociais, suas “visões de mundo”. Como decorrência, reforça a idéia de que os lugares da política e das relações de poder são de tal forma predeterminados
que a luta entre as “classes fundamentais” é eleita como o único lugar da história. E, finalmente, impede de perceber que as massas – que tanto desprezam – com certeza estão contidas das chamadas classes fundamentais – proletariado e burguesia –, apenas que a Teoria não permite perceber.
Assim, a questão epistemológica central é que, partindo dessa tradição racionalista do pensamento ocidental, o conhecimento científico não consegue desenvolver ferramentas teóricas que permitam analisar o comportamento dos indivíduos, dos grupos, das classes sociais e das massas. Como afirma o sociólogo francês, Pierre Ansart, ao criticar tal racionalismo, esta “escolha custa o preço de um fracasso”. Por esse viés exclusivo da racionalidade pragmática das ciências sociais, “é impossível dar conta da experiência dos agentes da história tais como eles a vivenciam ou a sofrem”. (Ansart, 1983, p. 7)
Analisando esse desprezo da tradição científica, Norbert Elias e Eric Dunning identificam nos “paradigmas racionalizantes”, a redução do “campo de visão” das ciências “a um conjunto comparativamente estreito de atividades sociais”, apesar de sua pretensão de tratar a sociedade em todos os seus meandros. (Elias
; Dunning, 1992, p. 15) Ou seja, para estes autores, as ciências sociais teriam se orientado para o “campo restrito dos aspectos sério e racional da vida, o que teve como efeito que o divertimento, o prazer, o jogo,
as emoções e as tendências irracionais e inconscientes do homem e da mulher tivessem merecido escassa atenção no âmbito da teoria e da investigação sociológica” (Elias; Dunning, 1992, p.16).
Inscrito na marginalidade dos campos formais do econômico,do político, do social e do cultural e visto como atividade de lazer e ócio — portanto em oposição ao trabalho, lugar porexcelência do fazer humano —, o esporte não se configura comoobjeto de interesse das ciências para a compreensão do processo
social.
De qualquer modo, a perspectiva para o estudo do futebolcomo tema consistente de pesquisa, começa a romper as barreirasseguras da tradicional academia dos cientistas sociais. Acompreensão dessa invasão pode ser percebida a partir de algunselementos historicamente datados.Um deles tem sido a forte abertura que as ciências sociais vêm realizando, a partir da chamada crise dos paradigmas, vivida no Brasil mais intensamente a partir dos anos 80. A crítica aosgrandes modelos explicadores, anunciada desde os anos 20/30pela antropologia, pela lingüística e a psicologia, e avançada nosanos 80/90 com a derrocada do socialismo real e as redefiniçõesepistemológicas propostas pela crítica ao estruturalismo —marxista ou dos Annales —, exigiu das ciências sociais a buscade novos elementos para a compreensão do social.
Desprovidas da segurança dos modelos, as ciências sociaisabriram-se para novos temas e novos objetos, cada vez maissem restrição.
Um outro elemento concomitante, é a reestruturação daslutas sociais e a ocorrência sistemática de novos movimentos demassa nos anos 80/90 que, sem mais a segurança dos clássicosmodelos explicadores, têm demandado estudos etnográficos maisintensos. Ou seja, diante da ausência da explicação fornecida
antes pelo modelo, só tem restado ao cientista social o mergulhona especificidade da experiência, buscando retirar dela não maisa totalidade, mas a alteridade e a relação, produzindo,conseqüentemente, novas referências epistemológicas.
Tem sido assim desde os movimentos sociais urbanos dos anos60, até os mais recentes, como por exemplo os hooligans (Giulianotti,2002), as gangues suburbanas ou as torcidas organizadas de futebol
(Da Matta, 1982; Toledo, 1996).Apesar de direta ou indiretamente relacionada à reestruturação
das relações sociais de produção e do conseqüente surgimento dochamado “desemprego estrutural” – a chamada globalização dos anosnoventa –, a originalidade dessas análises tem sido o não
reducionismo ao social ou ao econômico.Nesse sentido, um ponto para o qual parecem convergir os
diversos estudos sobre os movimentos sociais, urbanos e de massa— aí incluso o futebol —, é o que procura romper com a falsadicotomia entre ações racionais — portanto sérias e dignas de estudo
— e as irracionais — relegadas ao campo da excepcionalidade e doexcêntrico, e portanto sem nenhum interesse para o estudo do social.
Assim, a busca de referências teóricas e metodológicas para oestudo do futebol, tem necessariamente que passar pelainterdisciplinaridade. Nesse sentido, a obra de Norbert Elias sobre oprocesso civilizador e suas análises produzidas sobre o esporte, emparceria com Eric Dunning, nos parece um bom ponto de partida.
Um bom exemplo dessa relação tensa entre equilíbrio edesequilíbrio, entre a parte rígida e a flexível, é o drible, consideradoum dos momentos mágicos no futebol.
O drible, ao mesmo tempo em que é a expressão daindividualidade e da indeterminação, está contido na regra e é vistocomo a expressão maior do esporte. Tanto quanto o gol que finalizaum esforço, o drible faz parte daquele momento mágico que antecipao êxtase. É um dos momentos maiores da excitação no futebol. Porém,se ele não tem limite de acordo com as regras – pois, por princípio éo oposto do choque e da violência –, quando praticado em excessopode tanto fragilizar sua própria equipe, quanto gerar um sentimentode humilhação no adversário e degenerar em violência. É clássico o exemplo ocorrido no jogo entre Palmeiras e Corinthians, que disputavam a final do Campeonato Paulista de 1999. Próximo do final da
partida, que se encontrava empatada e por conseqüência dava o campeonato ao Corinthians, o jogador corinthiano Edilson realizou uma“embaixada” na lateral do campo, num claro sinal de menosprezo e
humilhação ao adversário. A reação dos jogadores adversários foiiniciar uma pancadaria que se generalizou, envolvendo jogadores,dirigentes e equipe técnica, obrigando o juiz a encerrar a partida aos
31 minutos do segundo tempo. O lateral Júnior, do Palmeiras, umdos primeiros a revidar a provocação de Edílson, assim se manifestou à imprensa: “Ele não teve uma postura de homem. Entrei duro,para tentar quebrá-lo. Ele nos humilhou e isso não se faz. Não operdôo.” O eficiente controle da bola (a embaixada) que deveria serparte do espetáculo, tornou-se fator de desequilíbrio, flexibilizandoa parte rígida do futebol.
O futebol como uma dimensão afetiva da políticaEsses questionamentos que desenvolvemos com relação a
dificuldade – e, em alguns casos até mesmo a recusa – dasciências sociais tratarem o futebol como um tema socialmenterelevante, igualmente ocorre com os temas tradicionais, tal comoclasses sociais, partidos políticos, Estado etc.Ou seja, os mesmos paradigmas que soterram o conhecimentocientífico e o engessam para a abertura a novas abordagens,também agem sobre os temas convencionais. Referindo-se aos
estudos da política, Pierre Ansart coloca a extensão do problemada seguinte maneira:
A dimensão afetiva da vida política, os sentimentos comuns, as paixões coletivas
que participam das práticas políticas constituem um domínio de difícil
conhecimento, um desafio, portanto. Como compreender e explicar a intensidade
de uma emoção coletiva e suas conseqüências, a persistência de um apego, a
violência de um amor ou de ódios políticos? (Ansart, 1983, p. 7)
Para esse autor, “a recusa em enfrentar essas dificuldades
tem sido a solução mais comum”, na medida em que o
racionalismo cienticista eliminou as experiências cotidianas de
seu campo de observação, “para somente reter da ‘realidade’
política aquilo que pode ser traduzido racionalmente”, resultando
disso o fracasso do conhecimento (Ansart, 1983, p. 7).
De maneira diversa dos intelectuais de matriz positivista e
marxista, Ansart afirma a necessidade de se redescobrir as paixões políticas, pois “é preciso pesquisar como a paixões políticas, s paixões, as emoções, os sentimentos acompanham e sustentam as práticas
políticas particulares e através de quais procedimentos, de quais agentes e com quais conseqüências” (Ansart, 1983, p. 8). 
Ou seja, antes de partir dos grandes esquemas explicadores
que nada mais são do que paradigmas; mais do que procurar
compreender os processos a partir dessas racionalizações,
devemos nos abrir para a afetividade de lugares inusitados, abrir para a afetividade de lugares inusitados
impedidos que são de serem visitados ou conhecidos pelo risco
que trazem à Teoria. E procurar verificar como esses elementos
emotivos “intervém na renovação ou nas mutações” da
sensibilidade coletiva. (Ansart, 1983, p. 8)
E o futebol é, por excelência, um desses lugares em que a
afetividade da política se manifesta para além da racionalidade
pragmática. Fortemente contido de paixão – individual e coletiva
– o futebol não se prende exclusivamente às determinações de
classes, na medida em que, tomadas de forma clássica, elas são
excessivamente redutoras. Nesse sentido, a dimensão afetiva
da vida esportiva é também marcada pela paixão e pelo
ressentimento. É, portanto, o lugar da “inconsciência”, no sentido
oposto daquela consciência racional determinada e imposta de
cima e de fora dos sujeitos e dos grupos. É um espaço privilegiado
do inconsciente coletivo, dos indivíduos e das massas. O lugar
por excelência da indeterminação.
Como experiência afetiva da política, o estudo do futebol
permite desenvolver o rompimento da “nítida separação entre
razão e paixão e, mais do que isso, o pressuposto do predomínio
da primeira sobre a segunda, como forma de conduta do mundo
civilizado”, como propõe hoje um renovado debate da história
política. (Bresciani, 2002, p. 8)
Nesse sentido, o futebol expressa os sentimentos mais
significativos da organização humana, que é o da identidade e o
de pertencimento.
Seja com relação ao clube ou ao selecionado nacional,
manifesta-se um sentimento de afetividade e de pertencimento
que dá sentido não apenas à instituição futebolística, mas ao
lugar a que ela se encontra vinculada.
A questão que se coloca é, a partir do reconhecimento dos
limites da dicotomia razão e paixão e da valorização do estudo
do futebol como lugar especial para essa reflexão, como efetivá-
lo?O futebol no campo afetivo da história 107
Movimento,Porto Alegre, v. 10, n. 3, p.99-111, setembro/dezembro de 2004
Autores como Elias e Bourdieu propõem a descrição detalhada dos elementos e dos comportamentos do objeto estudado – no
caso, o futebol –, no sentido de percebê-lo, antes de tudo, na sua
especificidade. Elias denominou a estrutura desse objeto de
configuração, Bourdieu denominou de campo.
A descrição das funções e dos atores, permite apreender a
ação subjetiva de indivíduos, seus sentimentos e suas forças
de envolvimento. de envolvimento
Assim, apenas como exemplo, conhecer o futebol brasileiro
dos anos 50/70, exige um estudo biográfico renovado de
personagens como Garrincha ou Pelé ou, de outra forma, estudar
como se dava a formação de jogadores à época. Do mesmo modo,
conhecer a experiência da “democracia corinthiana”, do início
dos anos 80, exige igualmente uma análise da conjuntura política,
da estrutura organizativa do clube, bem como da postura
individual de jogadores como Sócrates, Wladimir ou Afonsinho.
Esse exercício com certeza nos coloca perante um outro tipo de
problema, paradoxal em nossa análise. Ou seja, estaremos diante
da necessidade de trabalharmos com uma documentação primária
eivada de subjetividades. Como já destacamos nas primeiras linhas
desse artigo, trata-se de um material que, pela sua subjetividade,
pelo envolvimento emocional e autonomia dos autores, manifestase descompromissado com a realidade mas, paradoxalmente,
encontra-se aí a sua riqueza. encontra-se aí a sua riqueza
São crônicas esportivas (escritas tanto por jornalistas especializados quanto por curiosos e memorialistas), memórias e relatos
onde a interpretação personalizada (geralmente na primeira pessoa)
é a principal característica.
Nelson Rodrigues, um dos grandes cronistas esportivos do
Brasil, defendia com veemência a imaginação no lugar da
objetividade dos fatos. Em artigo ontológico publicado em 1956,
afirmava que o cronista esportivo deveria “retocar o fato,
transfigurá-lo, dramatiza-lo”. Deveria dar à “espúria e chata
realidade um sopro de fantasia”. Para Nelson, “o jornalista que
tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado” (Apud
TOLEDO, 2002, p. 164).
Mais recentemente Matinas Suzuki emitiu uma opinião
muito próxima desta, na apresentação que fez no livro de
memórias sobre as copas de 1950 e 1954:108 Em foco Luiz Carlos Ribeiro
Movimento,Porto Alegre, v. 10, n. 3, p.99-111, setembro/dezembro de 2004
Uma das coisas mais cativantes no futebol é a memória afetiva. Um goleiro ou
um centroavante que vimos na infância, um gol, um drible, a camisa de um
time... enfim, a nossa relação com o futebol é intermediada pelo evocar dos
primeiros alumbramentos com a bola.
Pois bem, este livro participa do inesgotável exercício do prazer que é a narrativa
da memória afetiva futebolística [...].
A história da literatura já demonstrou que a narrativa só tem interesse para o
outro se ela se fundamentar em uma profunda experiência pessoal. [...] dada
pela memória afetiva (Suzuki Júnior, 1994).
Portanto, a “memória afetiva” de Matinas Suzuki Jr, não é
diferente do “acréscimo de imaginação”, proposto por Nélson
Rodrigues à crônica. Logo, é como um gênero literário – ficção – que
devemos tratar estas crônicas e as memórias como produtos que
possuem a liberdade da criação.
Nesse sentido, portanto, nos encontramos diante de um paradoxo.
Por um lado, este artigo tem a intenção de propor uma metodologia
para um estudo científico do futebol, ou seja um estudo que estabeleça com a realidade e com a verdade uma relação crítica. Por outro, para compreendermos o futebol como um fenômeno de massa, e não reduzi-lo às leituras pragmáticas e racionalistas, necessitamos nos
abrir para abordagens subjetivas (logo inseguras e cheias de
armadilhas), tais como uma “sociologia das afetividades” e a produção
ficcional, como a crônica esportiva. Ou seja, se não podemos confundir
ficção com realidade, não podemos aprisionar nosso objeto de estudo
a uma formalidade que anule a sua indeterminação, pois é nesse
“vôo cego” que se encontra grande parte do seu sentido.
A literatura, ao não ter compromisso com a realidade – pois
é obra da imaginação de seu autor –, é livre para nos dizer muito
mais que o discurso convencional. “Sendo um produto do desejo,
seu compromisso é maior com a fantasia do que com a realidade”
(Sevcenko, 1983, p. 20). Com essa liberdade, a obra de ficção fala
ao historiador “sobre as possibilidades que não vingaram, sobre
os planos que não se concretizaram” (Sevcenko, 1983, p. 20).
De todo o modo, o cronista, mesmo quando dá toda vazão
criativa à sua memória afetiva, não deixa de ser um homem de
seu tempo. Portanto a sua criação não possui uma total liberdade.
Ela expressa uma leitura original e livre de sua experiência
efetiva, individual e social.
Conclusão
Como é possível observar, neste esboço metodológico de tratar
o futebol como objeto de pesquisa, optamos por propor mais um
desafio de novas abordagens do que seguir o receituário corrente
nas ciências humanas. Ao definirmos o futebol como um fenômeno
de massa e indicarmos nessa característica uma possibilidade de
fazermos frente à visão negativa que o conhecimento científico
racional, positivista e marxista, tem do futebol – o caráter de ralé,
de lumpen e de inconsciência social –, longe de nós propormos
uma resposta ao problema. Apenas problematizamos a forma como
a ciência analisa os fenômenos culturais de massa e sistematizamos
a hipótese – a partir de alguns autores inovadores –, de explorar a
“irracionalidade” e a “ausência de consciência social” desses
movimentos de massa.
Essa irracionalidade e inconsistência de coesão social,
atribuída às massas – como as que se reúnem em torno do futebol
– é resultado do excessivo apego dos intelectuais aos seus
paradigmas, produzindo, com isso o prec
SEVCENKO, Literatura como missão. Tensões sociais e criação cultura na
Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1983.
SUZUKI JR, Matinas. Apresentação. In: NOGUEIRA, Armando et. al. A copaonceito científico e
político para com as manifestações populares e de massa.
Mas como dissemos no início, os limites desse artigo e,
acrescentaria, de nossa capacidade de dar respostas aos nossos
próprios desafios, nos permitem apenas arrolar e tecer indicativos
sobre algumas dessas possibilidades. Espero que pelo isso
tenhamos feito com alguma clareza.

Referências
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Editions L’Age d’Homme, 1983.
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