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terça-feira, 14 de junho de 2011

Conquista do México, mitos e diálogos.

Conquista-de-Mexico
Por Evelyn Ariane Lauro

  Fernão Cortez liderou a terceira expedição a explorar a costa mexicana (1519 – 1521). Após as fracassadas tentativas de Hernándes de Córdoba (1517) e de Juan de Grijalva, domina o império asteca e conquista a região que passa a ser conhecida desde então como Nova Espanha.
 Um dos fatores que caracterizam a conquista do México por Cortez, é que atribui-se a esse uma consciência política, religiosa e histórica com relação a seus atos, diferente dos primeiros colonizadores que tinham como único objetivo a usurpação das riquezas e potencialidades locais, sua primeira iniciativa em terras americanas foi procurar intérpretes que lhe permitissem recolher informações que facilitariam o entendimento acerca dos povos residentes e influenciariam suas estratégias na guerra de ocupação (conquista).
  O que Cortez quer, inicialmente, não é tomar, mas compreender; são os signos que interessam a ele em primeiro lugar, não os referentes. Sua expedição começa com uma busca de informação e não de ouro. A primeira ação importante que executa – a significação deste gesto é incalculável – é procurar um intérprete.   Ouve falar de índios que empregam palavras espanholas; deduz que talvez haja espanhóis entre eles[1].
Soma-se a tal consciência política de Cortez sua superioridade bélica, com relação aos equipamentos defensivos e ofensivos, o emprego do cavalo e as táticas de guerra desconhecidas e não compreendidas pelos nativos. Mas, o mais surpreendente trunfo dos espanhóis, e que só pôde ser utilizado graças a iniciativa de recolher informações e conhecer ao máximo a população a quem pretendia conquistar, foi a divinização desses pelos mexicas (astecas)[2].
Não se pode deixar de lado, sobretudo, o fato de o México não ser um estado homogêneo, mas um “conglomerado de populações subjugadas pelos astecas, que ocupam o topo da pirâmide.[3]” Para muitos destes povos, a presença dos espanhóis representava sua libertação e, unindo-se a eles, facilitou o processo de conquista. Cortez, segundo Todorov,[4] explora com muita maestria as divergências internas entre as diversas populações que ocupam o território mexicano, aproveita-se das lutas internas e chega a agir como apoio logístico, ou força de comando, contribuindo para o fracionamento do império e para firmação de alianças que facilitariam a conquista.
A partir do texto de Tzvetan Todorov temos conhecimento que as batalhas que levaram à conquista do México tiveram caráter tanto físico quanto psicológico. O que nos interessa neste estudo, no entanto é, sabendo que Cortez se aproveita do espanto indígena diante do imponente animal até então desconhecido por eles, apresentar o papel atribuído ao cavalo neste processo e mostrar o quanto seu emprego foi fundamental, sobretudo no que diz respeito à dominação pelas vias psicológicas.
Chegamos a este tema a partir da leitura de O poder do cavalo na conquista do México: Leitura de El Naranjo de Carlos Fuentes de Jorge Manuel dos Santos Campos (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) e, utilizaremos como base de referência “A conquista da América: A questão do outro.” de Tzvetan Todorov.
O objetivo é partir do como Cortez consegue se apropriar dos ritos, mitos e símbolos mexicas para criar estratégias de manipulação psicológica para, então, mostrar a utilidade prática do cavalo em suas ações.
Compreender para dominar
Hernan Cortez se diferencia dos europeus que o precederam em solo americano por talvez ter sido o primeiro a possuir clara consciência política e histórica de seus atos[5]. Os espanhóis objetivavam apenas explorar e extrair o máximo de ouro em menos tempo possível, enquanto Cortez, assim que toma conhecimento da existência do reino de Montezuma, além de extorquir as riquezas locais planeja também meios de subjugar seu povo.
Cortez em um primeiro momento se esforça em compreender os índios. Sua expedição começa buscando informações e para isso tratou de conseguir um intérprete. Jerónino de Aguillar é o primeiro a exercer a importante função. Ele se junta à tropa de Cortez, mas, por falar apenas a língua dos maias, é substituído por uma índia, que se tornaria bastante conhecida e que era chamada de Malintzin pelos índios, ou la Malinche pelos espanhóis. Durante este período de “conquista de informação”, esta índia, com grande aptidão para línguas, em pouco tempo já passou a falar espanhol e intermediar as conversas entre Cortez e os mexicas (astecas), por isso foi de grande importância para os planos do capitão espanhol, uma vez que se transforma na única maneira possível de comunicação entre os dois povos. Tendo a compreensão da língua, Cortez passa a ter acesso a importantes informações sobre o reinado de Montezuma e a Cidade do México e, dessa maneira toma conhecimento, por exemplo, da existência de divergências internas entre os diversos grupos étnicos que compunham o império.
Conhecendo bem a cultura indígena, principalmente seu modo de viver a religião e todo o misticismo que a compunha e, entendendo a fragilidade dos mexicas diante da figura dos europeus que, para eles tratavam-se de deuses (ou semi-deuses) que vinham a cumprir profecias, Cortez passa a se preocupar fundamentalmente em construir e sustentar uma imagem dele e de sua tropa que alimentasse as crenças locais favorecendo seu projeto de conquista. Um exemplo claro de sua preocupação com as aparências diz respeito às punições severas aplicadas aos saqueadores por tomar o que não lhes era devido, o que poderia causar má impressão e diminuir a confiança dos indígenas. “Cortez anunciou pelo arauto que, sob pena de morte, ninguém devia tocar outra coisa senão a comida isto para aumentar sua reputação de benevolência junto aos indígenas[6].”
Também fazia questão de ser severo com os espiões para que de nenhum modo sua fala aos indígenas fosse manipulada ou modificada. De muitas maneiras articulou-se para que os inimigos acreditassem que ele tinha fontes sobrenaturais de sabedoria e que poderia ter conhecimento sobre tudo, fontes estas que muitas vezes não passavam de instrumentos utilizados rotineiramente pelos espanhóis, como bússolas e mapas. “A primeira preocupação de Cortez quando está fraco é fazer com que os outros pensem que é forte, não permitir que descubram a verdade; esta preocupação é constante[7].”
Os mexicas acreditavam que todos os fatos que ocorriam tinham explicações no passado ou que eram profecias do futuro, tinham uma visão cíclica acerca dos acontecimentos, essa era a base de toda a sua mitologia.
Não são unicamente as sequências passadas que se parecem, as futuras também. Por isso os acontecimentos são contados ou no passado, como numa crônica, ou no futuro, sob a forma de profecias: mais uma vez, é a mesma coisa. A profecia tem raízes no passado, já que o tempo se repete; o caráter positivo ou negativo dos dias, meses, anos e séculos futuros é estabelecido a partir de uma busca intuitiva de um denominador com os períodos correspondentes ao passado.[8]
Com a chegada dos espanhóis Montezuma (imperador dos mexica) buscou logo uma explicação em acontecimentos passados, recorreu às escrituras e pinturas a procura de resposta, chegando à explicação da divindade (através de uma profecia que hoje acredita-se ter sido criada por a posteriori ), [9] para ele aqueles homens teriam vindo dos céus e Cortez seria a reencarnação de Quetzalcoaltl, cuja lenda apresenta com uma divindade chefe de estado (então ocupado pelos mexicas) que em um dado momento é obrigado a deixar seu reino e partir para o leste (o Atlântico), desaparece mas, promete voltar para reconquistar o que é seu. Logo Montezuma ordena ao seu povo obediência, ofertava-lhes ouro e mulheres na esperança que, satisfeitos, abandonassem o território de forma pacífica.
O fato de Cortez encenar e incorporar uma divindade pré-colombiana vem de encontro com a idéia deformada que os índios terão dos espanhóis durante os primeiros contatos, atribuindo-lhes áurea de deuses, o que causa um efeito paralisante sobre diversos chefes indígenas inclusive em Montezuma. Analisaremos estes fatos, sob outro aspecto, o da linguagem e da comunicação. Sabe-se que as três grandes civilizações ameríndias encontradas pelos espanhóis não possuíam o mesmo nível de evolução da escrita. Os incas são desprovidos de escrita; os mexicas possuem pictogramas; entre os maias, encontram-se rudimentos de uma escrita fonética. Com a ausência de escrita, a função de suporte da memória passa a ser a palavra, ou seja a oralidade é a guardiã das tradições e dos mitos. A função de decifrar e transmitir o futuro para os indígenas sempre estava a cargo de sacerdotes e profetas que, analisavam os fatos sempre por um olhar ao passado, de acordo com a tradição os deuses dariam os sinais que indicariam quando ocorreriam novamente. Ao olhar para o passado o sacerdote interpreta e sugere ações aos soberanos. As respostas sempre serão atribuídas aos deuses.
Observamos que, entre espanhóis e mexicas as informações sobre o “outro” são processadas de maneiras diferentes, para os locais elas chegam carregadas de signos e simbolismos, já para os estrangeiros o importante é saber mais sobre o provável inimigo a fim de facilitar sua dominação.
Montezuma acaba por romper o ciclo de obtenção de informação sobre o estrangeiro quando passa a punir seus sacerdotes que vêm comunica-lhes fatos que não mostram relação com as antigas profecias, de modo que os cala. “Desde choque entre um mundo atual e um acontecimento único resulta a incapacidade de Montezuma em produzir mensagens apropriadas e eficazes. Grandes mestres na arte da fala ritual, os índios saem-se muito mal em situações de improvisação[10].”
Em contrapartida Cortez não só domina a arte do improviso e da adaptação como, até pela situação inédita em que se inseria, tem consciência da necessidade de tomar tal postura, o que fica claro no excerto a seguir:
Esforça-me-ei sempre em acrescentar o que me parecer apropriado, pois as regiões que se descobriam a cada dia são tão grandes, e tão diversas, e os segredos a que temos acesso por meio dessas descobertas tantos, que as novas circunstancias impõem novas opiniões e novas decisões; e se Vossa Majestade notar alguma contradição entre o que estou dizendo e o que terei a dizer ou o que já disse, que Vossa excelência saiba que um fato novo fez com que eu adotasse uma nova opinião[11].
Assim, grande parte da comunicação dirigida pelos espanhóis tem efeitos contrários e ambíguos, Montezuma ao pedir que vão embora manda-lhes ouro de presente, é claro que isso fez com que ficassem. Sendo este apenas um entre tantos exemplos de como a linguagem e a comunicação entre os mexicas e os espanhóis só faziam com que os segundos avançassem ainda mais sobre a cidade do México.
Cortez por sua vez ao ter acesso a esta informação não deixa de usá-la em beneficio próprio. Torna-se mestre em encenações com seus soldados e seus cavalos, e com sua artilharia de canhões e mosquetes. Muitas batalhas são ganhas mais pelo apelo psicológico do que simplesmente pela destreza bélica dos seus homens.
O papel do cavalo na conquista do México
Hernan Cortez liderou a terceira expedição a explorar a costa mexicana (1519 – 1521). Após as fracassadas tentativas de Hernándes de Córdoba (1517) e de Juan de Grijalva domina o império asteca e conquista a região que passa a ser conhecida desde então como Nova Espanha.
O primeiro confronto entre espanhóis e nativos acontece em Tabasco e já neste momento o cavalo se apresenta como fator de desequilíbrio
O cavalo dava ao branco uma extrema mobilidade e despertava o terror entre os ameríndios porque o animal era desconhecido na América. Acreditando, a princípio, que cavaleiro e cavalo formavam um único ser, o pânico do nativo explodia, paralisando-o, quando ao desmontar, o cavaleiro se movia independentemente do cavalo.[12]
Mas, o maior trunfo dos espanhóis não era estarem em posse destes animais que são dotados de indiscutíveis qualidades em teatros de guerra. O fator que mais contribuiu para seu protagonismo quando da conquista do México foi o conjunto de lendas, crenças e superstições dos nativos que fizeram com que, por vezes, acreditassem que os espanhóis eram figuras celestes que, predestinadamente viriam a terra para desfazer o império asteca (mexica), “tendo para isso contribuído de forma importante a figura do cavalo, cuja imponência e irrequietude levavam à idealização dos espanhóis como deuses, a quem os desconhecidos e assustadores animais obedeciam[13].”
Como defende Todorov[14], Cortez quer mais do que usurpar as riquezas da terra, quer subjulgar seu povo, a serviço de Deus e do rei de Espanha e, para tanto, precisa mais do que ter força bélica, precisa de meios de conquistar, de dominar os nativos, também, por vias psicológicas. O que vêm a justificar o fato de a primeira atitude importante de Cortez em terras americanas ser a busca por interpretes que permitissem a comunicação entre espanhóis e locais. “Garantindo assim a compreensão da língua, Cortez não deixa escapar nenhuma oportunidade de reunir novas informações.” [15]
Cortez sabia que informação se transforma em arma e, ao entender que para as autoridades astecas, e logo para todo os seus súditos, sua presença representava a confirmação de antigos presságios[16] que anunciavam a chegada de deuses e a destruição do império e que pouco valia resistir (as doenças trazidas pelos europeus as quais os índios não tinham imundade alguma, como se fossem enviadas dos céus, acabavam por confirmar tais profecias), faz de tudo para reforçar essa crença e alimentar seu sistema de coleta de informações, inserindo-se assim, num círculo virtuoso de superioridade psicológica, uma vez que compreendia que, embora fosse detentor de armas de guerras mais eficientes estava em número extremamente reduzido em relação aos exércitos dos povos locais.
“Cortez reforça ainda mais a idéia de que os cavalos eram seres monstruosos e temíveis, mas sobre os quais detinha o poder de obediência, aumentando desta forma o impacto psicológico que aqueles animais exerciam nos nativos[17].” Muitos foram os casos em que se evitava o trabalho de fazer guerra preferindo, ao chegar a determinada região, convocar seus dirigentes, disparar tiros de canhões, instigar ações violentas dos animais para amedrontar os índios e, somente com o uso simbólico de suas armas e ameaças chegar ao objetivo da conquista, como foi no caso de Michoacán.
"Logo no início da expedição, organizava verdadeiros espetáculos de ‘som e luz’ com seus cavalos e seus canhões (...). Esconde num determinado local uma égua, e coloca em frente dela seus anfitriões índios e um garanhão; as manifestações barulhentas deste último apavoram as pessoas que nunca tinham visto um cavalo. Escolhendo um momento de calmaria, Cortez manda disparar os canhões que também estão bem perto (...). Em outra ocasião, leva seus convidados a um local onde o solo é duro, para que os cavalos possam galopar velozmente, e manda disparar novamente o grande canhão"[18].
No entanto, Todorov demonstra que em diversos momentos a falta de munição fez com que algumas dessas armas, sobre tudo no caso dos canhões, tivessem como única utilidade causar o pânico entre os nativos.
Quando ocorriam batalhas armadas de fato, para alimentar a crença de que espanhóis e cavalos eram imortais, Cortez mandava que os corpos fossem removidos e enterrados de forma que não fossem percebidos. No entanto, na batalha de Tlaxcala uma égua é morta pelo inimigo e tem sua cabeça arrancada e tida como despojo de guerra, gerando incertezas quanto a essa imortalidade.
Este foi um momento psicológico importante. Acontece aqui certamente o início de uma viragem no entendimento dos nativos sobre a questão da imortalidade dos seus inimigos. A morte da égua prova essa realidade. O inimigo é mortal apesar de sempre o ter escondido e demonstrar o contrário. A morte da égua é efusivamente festejada e oferendada no templo dos deuses, deixando secundarizada a derrota militar[19].


Era de se esperar que hora ou outra o mito de deuses e imortais dos espanhóis caísse, no entanto, antes de isso acontecer Cortez já tinha boa parte de seu intento realizada e conseguido, a partir da percepção de divisões nos grupos que compunham o império, trazer para sua causa grande número de aliados, reforçando seu exército e levando a cabo a conquista do México, como é de nosso conhecimento.
Conclui-se portanto que, embora o cavalo tenha importante valia nas batalhas físicas é sobre tudo nas de caráter psicológicas que se mostra mais eficaz. Com certeza há quem defenda a irrelevância do animal nesse processo, no entanto o contrário é mais evidente, basta que se leve em consideração a infinidade de registros relacionados à conquista da América espanhola que de uma maneira ou de outra traz referências a eles, às vezes no inventário das armas, outras no processo de dominação psicológica, ou mesmo nas literaturas que buscam apresentar os fatos históricos sob uma perspectiva romantizada, isso sem mencionar a vasta produção iconográfica que representa o período, contemporâneas ou não a ele.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMPOS, Jorge Manuel dos Santos. O poder do cavalo na conquista do México: Leitura de El Naranjo de Carlos Fuentes: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Disponível em http://www.fl.ul.pt. Acesso em 03 de maio de 2011.
OSCAR, Aquino de Jesus. História das Sociedades Americanas. Rio de Janeiro: Record, 7 ª Ed. 7, 2000.
TODOROV.Tzvetan. A conquista da América: A questão do Outro. 3º Edição. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

[1] TODOROV, 2003, p. 143
[2] OSCAR, 2000, p. 101
[3] TODOROV, Op. Cit. p. 81
[4] Ibidem, p. 80
[5] TODOROV, 2003. p. 143.
[6] Ibidem. p.161.
[7] Ibidem. p. 164.
[8] Ibidem. p. 166.
[9] Segundo Todorov, para a cultura asteca, uma vez que acreditavam e/ou pregavam que tudo acontecia de forma cíclica não havia como acontecimento totalmente inédito pudesse existir, o que justifica a necessidade de forjar um presságio como explicação para a chegada dos europeus.
[10] Ibidem. p. 123.
[11] Ibidem. p. 123.
[12] OSCAR, 2000. p. 101.
[13] CAMPOS, s/d. p. 07.
[14] Todorov, Op. Cit. p. 143.
[15] Ibidem. p. 148.
[16] Ibidem. p. 103.
Todorov apresenta que tudo leva a crer que tais presságios tenham sido criados a posteriori, no entanto, o que se leva em conta é que os nativos de fato acreditavam na força desses fenômenos sobrenaturais.
[17] CAMPOS, s/d. p. 11.
[18] Todorov, Op. Cit. p. 167; 168.
[19] CAMPOS, s/d. p. 19.

domingo, 5 de junho de 2011

Museu da Loucura

 

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Por Flávia Oliveira

O Museu da Loucura, inaugurado em agosto de 1996, é parte integrante de um plano de resgate da memória histórica de Barbacena- MG, através do projeto Memória Viva desenvolvido pela Fundação Municipal de Cultura de Barbacena – FUNDAC e financiado com recursos da Prefeitura Municipal de Barbacena, vem sendo capaz de proporcionar um exercicio ao olhar do visitante e relacionar alguns aspectos comuns tanto aos museus quanto à luta antimanicomial e, sendo o museu o principal guardião da memória social no mundo contemporâneo, constitui-se entao em um espaço privilegiado para refletir sobre o passado, o presente e o futuro. É importante que numa visita a um museu, o visitante fique atento para perceber o que é comemorado, lembrado, mas também o que é silenciado, esquecido.

“Essa relação complexa entre memória e esquecimento é algo que está presente em todos os museus. Numa visita ao museu, o visitante pode e deve sair com dúvidas que ele não tinha.”

A dimensão social da loucura, trazida à tona pelo Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, no Brasil desde 1987, reunindo profissionais de diversas áreas interessados em pesquisar e tratar transtornos de sáude mental, como uma crítica ao modelo assistencial centrado no hospital psquiátrico e trouxeram à tona as questões relativas à exclusão da loucura em nossa sociedade.Tal dimensão social é que permite sua aproximação com os museus, pois, ambos buscam ressaltar a importância de uma consciência social onde a troca de experiências e a valorização das diferenças são ressaltadas como aspectos fundamentais para a constituição das identidades, sejam elas coletivas ou individuais.

“Neste sentido, o Museu da Loucura cumpre uma função social que merece ser destacada, pois, reaviva um capítulo da história da psiquiatria brasileira que esbarra na dimensão desumana, algo que o conhecimento especializado pode traduzir quando não orientado por uma prática de inclusão social e de construção da cidadania.’’

O seu espaço físico conta com cinco salas, as quais, o visitante poderá observar objetos, documentos, fotografias, sons e imagens percorrendo uma trajetória difícil, dolorosa, sem atalhos onde poderá compreender melhor os caminhos e os descaminhos do tratamento psquiátrico estabelecido em Minas Gerais desde 1900 quando foi criada, pelo Governo Francisco Sales, a Assistência aos Alienados em nosso Estado.

“Mas quem sabe não saiam, também, felizes ao perceberem que aquele passado tão doloroso será sempre lembrado como parte de uma estratégia, um esforço para que nunca mais se repita”

O presente artigo traz à tona a relação existente entre uma parte da história do Município de Barbacena – MG, a instalação do antigo Hospital psquiátrico, esta que se encontrava indissociavelmente atrelada a uma concepção excludente da loucura, e a instalaçao do Museu da Loucura em 1996, o qual tem como funçao social manter a viva a memória daqueles que foram em outrora excluidos e esquecidos.

É a partir de idéias como a do Movimento Nacional Da Luta Antimanicomial que o Museu mantem suas bases ideologicas, trazendo ao publico uma possibilidade de entrar em contato com o mundo da dor que existiu dentro da instituiçao psiquiatrica, tornando-o menos excluso e mais vivo, possibilitando disseminar duvidas a cerca da realidade dos hospitais psiquiatricos, seus pacientes, formas de tratamento e exclusao social.