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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Google Ngram Viewer


Amigos, lembram daquele projeto que o Google estava desenvolvendo que iria digitalizar o acervo da Biblioteca do Congresso Americano entre outros? Causou polêmica pela questão dos direitos autorais, além de chamar atenção pela dificuldade de realização do projeto, que envolvia cerca de 6 milhões de volumes.
O fato é que agora , um dos resultados desse projeto está sendo disponibilizado pelo Google, que é um serviço feito a partir do material já digitalizado.
O Google Ngram Viewer perimite consultar a quantidade de vezes que um determinado termo foi utilizado em livros , no periodo do ano de 1800 até o ano 2000!
Será se grande utilidade para pesquisadores de diversas áreas que desejam saber a incidência de termos, expressões, e palavras que cairam em desuso por exemplo.
Em tempos de informatização do conhecimento é necessário não nos abstermos dos valores científicos, os quais são a razão de ser da produção cultural e de ensino.
Uma vez que qualquer um pode escrever um texto de cunho informativo ou até educacional, é importante que existam ferramentas como essa para ajudar a separar o joio do trigo, assim como já existe o Google Academics.
O endereço para quem quiser conferir é http://ngrams.googlelabs.com/.
Abraço a todos e ótimo final de ano!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Do Natal e outros mitos

A celebração do Natal antecede o cristianismo em cerca de 2000 anos.

Tudo começou com um antigo festival mesopotânico que simbolizava a passagem de um ano para outro, o Zagmuk.

Para os mesopotânios, o Ano Novo representava uma grande crise. Devido à chegada do inverno, eles acreditavam que os monstros do caos enfureciam-se e Marduk, o seu principal deus, era preciso derrotá-los para preservar a continuidade da vida na Terra. O festival de Ano Novo, que durava 12 dias, era realizado para ajudar Marduk em sua batalha. A tradição dizia que o rei devia morrer no fim do ano para, ao lado de Marduk, ajudá-lo em sua luta. Para poupar o rei, um criminoso era vestido com as suas roupas e tratado com todos os privilégios do monarca, sendo morto levava todos os pecados do povo consigo. Assim, a ordem era restabelecida.

Um ritual semelhante era realizado pelos persas e babilónios. Chamado de Sacae, a versão também contava com escravos que tomavam o lugar dos seus mestres.

A Mesopotâmea, chamada de mãe da civilização, inspirou a cultura de muitos povos, como os gregos, que englobaram as raízes do festival, celebrando a luta de Zeus contra o titã Cronos.

Mais tarde, através da Grécia, o costume alcançou os romanos, sendo absorvido pelo festival de nome Saturnalia (em homenagem a Saturno). A festa começava no dia 17 de dezembro e ia até o 1º de Janeiro, comemorava-se o Solstício do inverno. De acordo com seus cálculos, o dia 25 era a data em que o Sol se encontrava mais fraco, porém pronto para recomeçar a crescer e trazer vida às coisas da Terra. Durante a data, que acabou conhecida como o Dia do Nascimento do Sol Invicto, as escolas eram fechadas e ninguém trabalhava, eram realizadas festas nas ruas, grandes jantares eram oferecidos aos amigos e árvores verdes - ornamentadas com galhos de loureiros e iluminadas por muitas velas - enfeitavam as salas para espantar os maus espíritos da escuridão. Os mesmos objectos eram usados para presentear uns aos outros.

Apenas após a cristianização do Império Romano, o 25 de dezembro passou a ser a celebração do nascimento de Cristo. Conta a Bíblia que um anjo, ao visitar Maria, disse que ela daria a luz ao filho de Deus e que seu nome seria Jesus. Quando Maria estava prestes a ter o bebé, o casal viajou de Nazaré, onde viviam, para Belém a fim de realizar um recenseamento solicitado pelo imperador, chegando na cidade na noite de Natal. Como não encontraram nenhum lugar com vagas para passar a noite, eles tiveram de ficar no estábulo de uma estalagem. E ali mesmo, entre bois e cabras, Jesus nasceu, sendo enrolado com panos e deitado numa manjedoura.

Pastores que estavam com os seus rebanhos próximo do local foram avisados por um anjo e visitaram o bebé. Três reis magos que viajavam há dias seguindo a estrela guia igualmente encontraram o lugar e ofereceram presentes ao menino: ouro, mirra e incenso, voltando depois para seus reinos e espalharam a notícia de que havia nascido o filho de Deus.

A maior parte dos historiadores afirma que o primeiro Natal como conhecemos hoje foi celebrado no ano 336 d.C.. A troca de presentes passou a simbolizar as ofertas feitas pelos três reis magos ao menino Jesus, assim como outros rituais também foram adaptados.

Hoje, as tradições de Natal diferem de acordo com os costumes de cada país.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A memória histórica como campo da luta de classes

Por Augusto Buonicore

D. Pedro I: um grito parado no ar Vejamos agora como se constroem socialmente os fatos e personagens históricos, tendo como referência a história Brasil. Comecemos pelo processo de nossa independência política, que teve como um de seus momentos mais comemorados a proclamação ocorrida em 7 de setembro de 1822. É incontestável que esta data se constitui um típico fato histórico. Acredito que ninguém, atualmente, negaria isto ou proporia eliminá-lo do calendário cívico nacional. É claro, as coisas não ocorreram como estão descritas na clássica pintura de Pedro Américo, que se encontra num lugar de honra no Museu do Ipiranga. A referida tela foi produzida muitas décadas depois do famoso grito de Dom Pedro. Seu objetivo, não declarado, era enaltecer os feitos do membro fundador da família real brasileira. Os Bragança, naquele momento, passavam por graves dificuldade. Estávamos em 1888, às vésperas da proclamação da República. O jovem príncipe não estava montado num garboso cavalo e sim numa simples mula, ainda que real. A sua comitiva e os soldados não trajavam vistosas roupas de gala, mas vestes surradas e empoeiradas da longa viagem pelo interior do país. Contudo, foi aquela cena deixada pelo pintor paraibano que prevaleceu no imaginário da Nação. Para que isso ocorresse, foi preciso reproduzi-la nos livros didáticos, nos selos comemorativos e nos filmes apologéticos, como “Independência ou morte”. Na época, o trabalho de Pedro Américo custou uma pequena fortuna aos cofres públicos — cerca de 30 contos de réis. Isto pouco importa, pois sabemos que a Independência do Brasil não se reduziu ao grito de D. Pedro dado às margens plácidas do Ipiranga. Ela foi um processo longo, que conheceu vários episódios desde a revolta de Bequimão (1684), a revolta de Felipe dos Santos (1720), a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1799) e a Insurreição Pernambucana (1817). No 7 de setembro de 1822, proclamou-se a Independência, preservando a monarquia, a supremacia da Casa de Bragança e os interesses econômicos e sociais fundamentais das classes dominantes brasileiras: a escravidão, o latifúndio e o predomínio da agroexportação do açúcar e do café. O Brasil ficou sendo o único Estado monárquico da América Latina. Mesmo assim, não se pode chamar o final do processo de independência de incruento. Isto significaria ficar apenas nas aparências e nos curvarmos perante uma visão liberal-conservadora da nossa história. A independência incruenta (ou moderadamente cruenta) se deu no eixo Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, no qual a corte brasileira tinha influência e maior controle. Nas regiões Norte e Nordeste havia uma situação bem diferente. Historicamente, suas relações econômicas e políticas se davam mais com a Metrópole portuguesa do que com o Rio de Janeiro. Ali eram maiores as influências metropolitanas e existiam fortes laços de fidelidade das tropas e do comércio, em geral compostos de portugueses, em relação às cortes do além mar. Em fevereiro de 1822, eclodiu a Guerra da Independência na Bahia. Ela se iniciou quando os baianos se recusaram a aceitar a indicação do novo governador de armas, o coronel lusitano Madeira de Melo. As tropas portuguesas atacaram os patriotas brasileiros e os derrotaram. A guerra somente foi vencida no dia 2 de julho de 1823. No Maranhão, a junta lusitana só seria derrotada mais de um ano após a Independência. Mais de oito mil brasileiros combateram o domínio português naquele estado. A mesma coisa aconteceu no Piauí. As mobilizações de tropas nesses episódios não ficaram aquém das ocorridas na guerra de independência da América espanhola. Mesmo assim, a nossa independência não estava plenamente assegurada. Vários perigos pairavam sobre ela. A maioria deles vinculados à permanência de um príncipe português no trono brasileiro. Um monarca que vez ou outra exprimia sua fidelidade mais ao pai e a Portugal do que ao Brasil. Em 1831, depois de acirrados conflitos políticos e choques de ruas, D. Pedro renunciou ao trono. Para alguns historiadores, somente a partir deste momento a nossa independência política estaria concluída. Como podemos ver, nosso processo de independência conheceu inúmeras datas e personagens. Contudo, poucos deles foram selecionados para compor a história oficial. Por longos anos, o título de herói da Independência acabou recaindo na polêmica figura de D. Pedro I. E o fato histórico determinante, o grito dado às margens do riacho do Ipiranga. Estas escolhas, decerto, nada tiveram de casual. Elas se enquadravam perfeitamente dentro dos interesses das classes dominantes brasileiras, que procuravam símbolos que melhor expressassem e servissem à sua dominação. Os historiadores socialistas sabem que a nossa independência não foi obra de D. Pedro, nem aconteceu num único dia. Ela foi o resultado de inúmeras contradições, que se acumularam por séculos, entre os interesses da colônia e da metrópole. Ela não teria sido possível sem as inconfidências mineira e baiana; sem as guerras de libertação na Bahia, Maranhão e Piauí; sem os levantes populares em várias cidades, como os ocorridos no Rio de Janeiro, em 1831. Não se realizaria sem o pensamento e ação dos setores populares e radicais do movimento de independência, representados nas figuras de Frei Caneca e Cipriano Barata.

Tiradentes e a Inconfidência Mineira: obras republicanas

Vejamos um outro herói e outro fato histórico incontestáveis. Refiro-me ao Tiradentes e à Inconfidência Mineira. Neste caso, ao contrário do exemplo anterior, ninguém tem dúvidas sobre o heroísmo de Joaquim José da Silva Xavier. Ele é, incontestavelmente, o principal herói brasileiro. É o seu rosto, por exemplo, que consta da exposição do bi-centenário da independência da Argentina, na Casa Rosada – ao lado de Bolívar e San Martin. Mas nem sempre foi assim e, talvez, nunca tivesse sido se não fosse pela decisão de alguns homens. Digo homens, pois as mulheres apitavam pouco naquele momento. O próprio termo inconfidência, literalmente, significa “ato de deslealdade, traição”. Portanto, era uma palavra com forte sentido pejorativo e que hoje soa quase como um elogio à rebelião. Pelo menos até 1889 – ou seja, 100 anos depois da sua morte – o nome de Tiradentes não era digno de nenhuma menção governamental especial e muito menos objeto de comemorações cívicas. Era considerado mais louco do que herói. Afinal, eram os filhos e netos da rainha “Maria Louca” – que o mandou enforcá-lo e esquartejá-lo - que se encontravam no poder. Somente após a Proclamação da República Tiradentes passou a compor o panteão dos heróis nacionais e a data de sua morte – o 21 de abril – virou feriado nacional. Mas por qual razão foi escolhida a Inconfidência Mineira e a figura de Tiradentes como símbolos da luta pela liberdade da Pátria? Em primeiro lugar, por este movimento ter sido liderado por uma elite ilustrada – poetas, oficiais do exército, padres, funcionários públicos, empresários etc. Todos senhores brancos e respeitáveis membros da sociedade colonial. A favor de Tiradentes, o mais pobres deles, pesava o fato de ser republicano e, principalmente, alferes (equivalente ao posto de segundo-tenente). Sabemos que a República foi, em parte, obra de militares — como Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamim Constant. Assim, eles puderam traçar um fio de continuidade entre suas idéias (e posição social) e as de Tiradentes. A escolha, contudo, poderia ter recaído sobre outros movimentos, outros mártires. Dez anos depois da Inconfidência Mineira eclodiu uma tentativa de conjuração na Bahia – também chamada de Revolta dos Alfaiates. Como o próprio nome já indica, ela foi mais popular que a primeira. Por isso mesmo, causou maior impacto na colônia – colocando em alerta a própria metrópole. As bandeiras dos conjurados baianos eram: independência, República e Abolição da Escravidão. Ao contrário do que aconteceu em Minas Gerais, da Conjuração Baiana participaram muitos escravos e ex-escravos. Se a Inconfidência Mineira foi muito influenciada pela Revolução Americana, a Conjuração Baiana o foi pela Revolução Francesa, muito mais radical. Quatro de seus líderes foram enforcados no dia 8 de novembro de 1799. Como Tiradentes, todos tiveram seus corpos esquartejados e seus membros decepados colocados em praça pública para que a população visse e não tentasse seguir o seu exemplo. Dos mortos, dois eram soldados rasos e dois alfaiates. Seus nomes: Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz Gonzaga das Virgens e João de Deus Nascimento. Nomes que quase desapareceram da história.

Zumbi e Palmares: arrombando a festa oficial

Por fim, vejamos um último herói e uma última data histórica. Refiro-me à Zumbi de Palmares e ao 20 de novembro, data provável de sua morte. Se hoje fizéssemos uma pesquisa sobre qual seria o principal herói brasileiro, sem dúvida o nome deste líder negro estaria disputando palmo a palmo os primeiros lugares com o alferes Tiradentes e com o imperador D. Pedro I. Nada mais justo. Não precisamos dizer que este é um fenômeno novo. Era inconcebível que isto pudesse ocorrer durante o Império escravista (1822-1889) ou mesmo durante os primeiros anos da chamada República Oligárquica (1889-1930), quando ainda predominavam ideologias assentadas no “racismo científico”. Onde o ideal para o Brasil era de uma sociedade composta por uma população exclusivamente branca, sem mestiços ou negros. Numa sociedade elitista e racista, decerto não haveria lugar para heróis negros desta natureza. Zumbi começou aparecer na história durante a campanha abolicionista – incorporado pelo seu setor mais radicalizado. Era uma das referências de um determinado movimento cívico, ao lado de outros personagens, como legendário líder dos escravos de Roma, Spartacus. Seria preciso transcorrer quase cem anos da abolição da escravidão para que o nosso herói negro começasse a galgar os íngremes degraus do panteão da pátria. Coisa que só foi possível devido à crise da ditadura militar e a democratização do país, fortemente impulsionados pelos movimentos de contestação popular, no qual se incluía as organizações negras. A data provável da morte de Zumbi, atualmente, é feriado em vários estados e caminha para se tornar feriado nacional. É claro que o racismo difuso, ainda existente entre nós, buscará criar algumas dificuldades para que isso aconteça. O “caso Zumbi” demonstra que a história continua aberta para a criação de novos heróis e fatos. Conforme novas forças sociais entram em cena, a história vai se ampliando, se democratizando. Operários, camponeses, negros, mulheres, homossexuais e idosos, corretamente, continuam tentando emplacar os seus heróis. Hoje são apenas deles, amanhã poderão ser de todos – ou, pelo menos, de quase todos. Heróis regionais, de movimentos específicos, podem, em determinadas conjunturas, se tornarem heróis nacionais. Por outro lado, heróis nacionais podem decair na escala de prestígio social e entrar em recesso – ou mesmo se aposentarem definitivamente. Cito apenas os casos dos bandeirantes paulistas, da Princesa Isabel (a “redentora dos escravos”) e do Duque de Caxias – este último foi atingido em cheio pelo desgaste sofrido pelas Forças Armadas durante a Ditadura Militar, que imperou no país por 20 anos. Diga-se, de passagem, que o nosso bom Duque só atingiu o status de grande herói durante outra ditadura, a do Estado Novo. Vargas estava em luta acirrada para reforçar os aspectos unitários da Nação contra o federalismo das elites regionais. O ato solene da queima das bandeiras estaduais e a ascensão do Duque fazem parte de um único e mesmo processo, e serviam aos mesmos interesses econômicos e sociais.

Quem e como se faz a história

Não são indiferentes para a sociedade os personagens e acontecimentos que escolhemos para compor a história. Estas escolhas não são neutras. São carregadas de significados e produzem efeitos na consciência do povo. Podem reforçar visões e práticas conservadoras ou progressistas. Nada mais falso que encarar a história como coleção de fatos puros (objetivos), distribuídos cronologicamente. Por fim – e isso é o mais importante – devemos acentuar que mesmo os grandes personagens somente são grandes porque expressaram, em algum momento, determinados movimentos mais amplos da própria história – não são propriamente eles que fazem a história e sim são produzidos por ela. O que seria do imperador Napoleão Bonaparte sem a revolução francesa, que convulsionou o solo nacional? Sem ela, ele possivelmente não ultrapassaria a modesta condição de pequeno oficial em alguma província distante de Paris. As mesmas questões servem para o Brasil. Será que sem Tiradentes ou D. Pedro I não teríamos conquistado a Independência? Sem Isabel, ou mesmo Zumbi, não haveríamos tido a Abolição? Sem Deodoro não existiria a República? É claro que mesmo sem estes personagens o Brasil ainda seria uma República independente e sem escravidão. No máximo, os ritmos e as formas das mudanças teriam sido diferentes, mas não seu sentido geral. Portanto, mais importante do que escolhermos nossos fatos e heróis é definirmos como encaramos o próprio fazer histórico. A história pode ser vista como obra de “grandes personagens” – indivíduos sobre-humanos - ou como construção coletiva. Pode ser encarada como o resultado de dádivas - e acordos por cima - das elites (econômicas e políticas) ou como o fruto de lutas sociais abrangentes, que têm por base interesses materiais concretos. A história pode ser vista como grandes momentos – únicos e irrepetíveis – ou como processos contraditórios de variadas durações, que conhecem momentos de rupturas revolucionárias.

Bibliografia

BORGES, Vavy Pacheco, O que é história, Ed. Brasiliense, SP, 1980.

BUONICORE, Augusto, Marxismo, história e revolução brasileira, Ed. Anita Garibaldi, SP, 2009 CARR, E. H., Que é História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1978.

CHESNEAUX, Jean, Hacemos tabla rasa del pasado? Ed. Siglo Veintiuno, México, 1991.

HOBSBAWM, Eric, Sobre História, Ed. Companhia das Letras, SP, 1998.

MICELI, Paulo, O Mito do Herói Nacional, Ed. Contexto, SP, 1988.

PINSKY, Jaime (org), O Ensino de História e a Criação do Fato, Ed. Contexto, SP, 1988.

PLEKHANOV, A Concepção Materialista da História, Ed. Paz e Terra, RJ, 1980.

RODRIGUES, José Honório, Filosofia e História, Ed. Nova Fronteira, RJ, 1981.

SCHAFF, Adam, História e Verdade, Martins Fontes, SP, 1983.

* Este texto foi apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social" que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP) ) entre 26 e 28 de julho de 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

História do peru na ceia de Natal

Por Carlos Antunes dos Santos


Entre os astecas, a prática do canibalismo era habitual. O Estado asteca fazia a guerra para se alimentar dos prisioneiros, num ritual prévio onde ao Deus Sol eram oferecidos sacrifícios humanos. Mas a dieta não ficava exclusiva à carne humana. Eles também se alimentavam de animais possíveis de serem encontrados nos seus domínios: os cães e os perus. Os perus eram criados pelos índios, atividade bastante antiga, com clima propício para a prosperidade desta criação. Geralmente os astecas cozinhavam o peru acompanhado de cebola, alho-poró e molho à base de pimenta vermelha.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Inquisição na Amazônia


Especial pelo Prof. Renato Venancio,


As novas gerações de historiadores têm reconhecido a importância da internet como uma ferramenta de pesquisa revolucionária. Uma iniciativa liderada pelo Centro de Memória da Amazônia, da Universidade Federal do Pará, revela como é possível explorar de forma inteligente os acervos documentais on-line.

Atualmente, mais do que se preocupar em acrescentar conteúdo, o desafio levantado pela internet consiste em organizar as fontes documentais já disponíveis. A partir dessa perspectiva, uma equipe de pesquisa do Pará, liderada pelo Prof. Antonio Otaviano Vieira Junior, concebeu um projeto exemplar.
Trata-se da disponibilização on-line dos processos inquisitoriais dos séculos XVII e XVIII, referentes ao Maranhão e Grão-Pará. Há alguns anos, tal iniciativa seria dificultada em razão dos elevados custos nela envolvidos e pela necessidade de complexas negociações junto à instituição que tem a custódia da documentação.

No projeto em questão, esses problemas foram superados em razão da própria Torre do Tombo começar a facultar o acesso, em seu portal, aos processos inquisitoriais lusobrasileiros. Nesse site, porém, a ausência de instrumentos de pesquisas – como, por exemplo, inventários analíticos - dificulta que o usuário descubra a potencialidade da documentação em questão.

A equipe do Pará superou essa dificuldade, fornecendo informações detalhadas a respeito de cada um dos processos inquisitoriais referentes à região amazônica. A parceria com a Torre do Tombo permitiu não só uma melhor identificação dos acusados, como também, através de link, a disponibilização dos processos na íntegra.

Ao todo foram identificados 114 processos inquisitoriais, sendo que mais da metade está disponível à leitura. Esse é o caso, por exemplo, da denúncia contra o índio Alexandre, residente na Aldeia de Aricara, nas margens do Rio Amazonas, que, em 1756, foi acusado de bigamia.

O site do Centro de Memória da Amazônia também dá acesso à bibliografia especializada e ao texto original do projeto, submetido à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará. Tomara que grupos de pesquisa de outros estados reproduzam essa iniciativa, democratizando ainda mais o acesso a uma das principais fontes documentais para se conhecer a sociedade brasileira colonial

Retirado do Site da Revista de História da Biblioteca Nacional

http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=3348

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Cem mil acessos!


É tanta correria, que nem me dei conta que o blog ultrapassou os cem mil acessos essa semana.

Aproveito para agradecer a todos que prestigiam e acompanham nosso humilde trabalho, que já tem cerca de cinco anos de idade, e apesar de poucos trabalhos publicados, todos apresentam profundidade e exigem várias leituras complementares.

Sendo assim, agradeço aos que se importam com História, agradeço aos amigos que colaboram com o blog, e agradeço também aos meus inimigos, pois sua inveja é pra mim um combustível.
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"História Magistra Vitae"

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Acervo Jornal do Brasil


Depois de 119 anos de vida, muitos dos quais na vanguarda jornalística e na história do próprio país, o Jornal do Brasil deixou de circular em sua versão impressa no último dia 31 de agosto de 2010, conseqüência de anos de dívidas e problemas seguidos de gestão. Mas o Jornal do Brasil está longe de ser apagado da memória. E não, não estamos nos referindo à versão online do jornal, hoje a única existência do que um dia foi o JB, mas sim ao arquivo histórico do jornal, totalmente digitalizado e disponível gratuitamente para a sua consulta.




Há alguns meses, está disponível na internet quase toda a coleção do Jornal do Brasil: de 1891 aos dias de hoje. O projeto de digitalização do arquivo histórico do jornal foi executado pelo Google, através de um acordo anunciado ainda no ano de 2008. A parceria levou para a internet mais de 17.608 de edições do jornal, muitas das quais a história do Brasil seria contada de uma maneira mais pobre.

O Jornal do Brasil foi um dos mais importantes jornais brasileiros no século XX. Embora pertencente ao Rio de Janeiro, o jornal rapidamente passou a fazer parte da vida nacional. Em seus primeiros anos, ainda no final do século XIX, defendeu a monarquia e foi utilizado como instrumento de crítica à República brasileira recém-instalada por seus fundadores, Joaquim Nabuco e Rodolfo Dantas. No início do século XX, passou para uma fase de oposição republicana e ajudou a implantar no país uma linha de jornalismo profissional. Nos anos 1950, ajudou a reformular o jornalismo brasileiro nos âmbitos estéticos e editoriais. Cobriu importantes acontecimentos da sociedade brasileira. Em algumas de suas criações, como um caderno de cultura, o Caderno B, propôs uma nova maneira de se pensar a cultura no país e ditou moda na imprensa brasileira, que passou a se dedicar também a cobertura da cultura e não apenas da política ou economia.


Clique aqui para ter acesso ao acervo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Bossa Nova



Por Claudio Recco


A Revolução de 1930 deu inicio as primeiras mudanças estruturais no Brasil, na medida em que a lavoura tradicional de exportação perdeu espaço na economia nacional e a industria conheceu desenvolvimento significativo, a partir de então. Os cafeicultores foram os grandes prejudicados e ao mesmo tempo projetou-se a expansão industrial, aproveitando o espaço que se abrira na economia mundial, fruto da crise que se iniciara no ano anterior.
A depressão do capitalismo internacional afetou as importações e exigiu maior investimento e mecanismos de proteção a indústria nacional, marcando o novo modelo de Estado, caracterizado por grande intervenção, focado no desenvolvimento industrial e apoiado no discurso nacionalista.
O industrialismo nacionalista trouxe consigo a formação de uma nova classe operária, não apenas mais numerosa, mas caracterizada pela retração na presença de imigrantes e do movimento anarquista, que foi substituído pelo sindicalismo oficial e pelego, com um expressivo setor do operariado levado a apoiar o Estado e suas ações, que envolveram uma política paternalista e assistencialista.
Durante a “República Velha” havia uma clara divisão entre as manifestações artísticas da “elite culta”, em relação às manifestações populares. Na literatura, nas artes plásticas e na música, o espaço e o dinheiro público garantiram a presença de grandes apresentações de gala, de renomados artistas internacionais da ópera e da música erudita. Não podemos considerar a Semana de Arte Moderna em São Paulo como uma exceção, pois ela já era expressão de inovação, que se consolidaria depois de 30.

A Cultura e a Arte
A última década da “República Velha” é considerada como momento de crise, quando percebem-se mudanças significativas nas relações sociais e de poder, a partir do crescimento das cidades e de novos agentes sociais, principalmente o empresariado urbano e os tenentes. Essa mudança também é perceptível na expressão cultural.
Os grandes movimentos culturais “modernos” se desenvolveram nas cidades e fora do “circuito tradicional”, sem a participação do Estado. Em São Paulo se formou uma vanguarda intelectual, rejeitando os estrangeirismos apenas pela moda ou pelas convenções oficiais, que apresentou diversas tendências, porém todas amparadas por maior espírito nacionalista e reflexo de maior urbanização.
No Rio de Janeiro, o movimento modernista apresentou características peculiares, onde artistas e intelectuais reagiram à idéia do modernismo como um movimento organizado, reforçando o vínculo com as rodas boêmias e com as manifestações mais populares, fora dos teatros e espaços convencionais, ocupando as ruas e os bares da Penha e da Lapa, ou com o carnaval de rua nos bairros.
Para muitos havia a necessidade de reconstruir a nação, e isso significava também repensar a cultura, resgatar as tradições, costumes e etnias que haviam permanecido praticamente ignorados pelas elites. A questão da identidade nacional passava para o primeiro plano: que cara tem o Brasil? Intelectuais e artistas buscaram responder essa pergunta, e esse esforço caracterizou o modernismo brasileiro.

A arte popular
O período de governo de Vargas foi caracterizado por uma política trabalhista explícita, que procurou valorizar o trabalhador e o trabalho. Esse foi um período no qual a “música popular” alcançou espaço e reconhecimento. O samba, nossa principal expressão musical, conheceu grande desenvolvimento apoiado na narrativa do cotidiano do trabalho e dos bairros, da vida sacrificada ou “malandra” da população, principalmente do Rio de Janeiro.
Durante a ditadura de Vargas os compositores foram incentivados a valorizar o trabalho e deixar temas como a malandragem e a boemia, devido à censura, como aconteceu com O bonde de São Januário, de Ataulfo Alves e Wilson Batista, que dizia: O bonde de São Januário/ leva mais um otário/sou eu que vou trabalhar. A letra foi “corrigida” com a palavra otário trocada por operário. Foi super valorizado o samba-exaltação, que afirma a grandeza e a beleza do país, como Aquarela do Brasil, de Ary Barroso,
“O trabalho é o maior fator da elevação da dignidade humana” – frase impressa no busto de Vargas, resume o ideal do seu governo.
Ao mesmo tempo encontramos formas culturais opostas, que se expressaram principalmente na Lapa, no Rio de Janeiro. Bairro boêmio, bairro da malandragem, das ladeiras e dos becos onde o samba popular guarda suas melhores lembranças, se contrapondo a cultura que Vargas praticamente oficializara.

O Progresso
Desde Vargas a ordem era o progresso. A cidade, a indústria. O fim da 2ª. Guerra Mundial alterou o equilíbrio econômico e geopolítico em nível mundial, consolidando-se os Estados Unidos como grande potencia, assim como surgia um novo inimigo para substituir o nazismo, o comunismo soviético.
A gradual recuperação da economia capitalista do pós-guerra reduziu as possibilidades de desenvolvimento nacionalista, ao mesmo tempo em que as grandes potências ocidentais se reorganizavam, assim como procuravam definir novas relações internacionais.
No Brasil, um governo com vínculos com os trabalhadores e com os movimento sindical passa a ser objeto de desconfiança, mesmo porque procura preservar características nacionalistas de sua economia que se contrapõem aos novos interesses do imperialismo estadunidense. É necessário readequar a política trabalhista e a idéia de nacionalismo. Ambos perderam espaço na cultura nacional, substituídos por novos valores de forma relativamente rápida, devido ao temor aos “novos inimigos”. Trabalhador e sindicato se tornaram sinônimos de comunismo, assim com o nacionalismo na economia deveria ser alcançado em aliança com os Estados Unidos. O nacionalismo com as multinacionais.

O Partido e o governo
O Progresso do Brasil. 50 anos em 5. Era necessário provar que o Brasil progrediria, afinal esse foi o grande mote da campanha do PSD de Juscelino Kubitschek, procurando preservar algumas das características marcantes da política de Vargas.
Afinal, JK foi populista ou não? Foi herdeiro político de Vargas?
Apesar da manutenção da velha aliança entre o PSD e o PTB, a base social das duas agremiações era muito diferente, assim como o contexto nacional e internacional eram também diferentes.
O PSD de Juscelino representava principalmente um grupo de políticos tradicionais que se formara durante os momentos em que Vargas governou o país, mas que se apegou às estruturas políticas e aos cargos de mando, sem uma definição ideológica, nem mesmo no que toca a manipulação das massas através do sindicalismo pelego. Além disso, não só esses “políticos profissionais”, como um grupo cada vez maior de funcionários das máquinas estatais procurava se garantir em seus postos, com um padrão de vida mais elevado em comparação aos períodos anteriores. Dessa maneira formava-se uma nova parcela daquilo que viríamos a chamar de “classe média”, acrescida de novos grupos nas grandes cidades, principalmente nas capitais de estados e sobretudo no sudeste, fruto da política econômica de industrialização, eixo do Plano de Metas de JK.
Em nenhum momento se ouviu dizer que o Brasil progrediu graças à política do PSD, ao contrário, sempre houve uma clara desvalorização das estruturas partidárias, principalmente porque nossa história é marcada por períodos ditatoriais nos quais os partidos são inexistentes ou não têm liberdade de expressão, ou porque muitos partidos se tornaram apenas trampolins para aspirações individuais.
JK é visto como o homem que modernizou o Brasil. O governante que promoveu o progresso.

O desenvolvimentismo
Identificar a idéia de desenvolvimentismo no governo JK não é difícil. A visão predominante de desenvolvimento significa na prática o aumento da produção industrial, a urbanização e "as grandes obras".
Nesse período a taxa de crescimento real da economia foi de 7% ao ano, a produção industrial cresceu 100%, eram efeitos do Plano de Metas, que priorizou a substituição de importações nos setores de bens de capitais e bens de consumo duráveis.
O Estado continuou a financiar grande parte das indústrias de base através de novas emissões de moedas ou de empréstimos externos. Já o setor de bens de consumo desenvolveu-se a partir da internacionalização da economia e para isso utilizou-se a instrução 113 da SUMOC (Superintendência da Moeda e do Crédito) que garantia a importação de máquinas e equipamentos no exterior, sem impostos, desde que os empresários estrangeiros tivessem sócio nacional.
Desta maneira realizou-se a abertura do mercado nacional para as grandes empresas estrangeiras, que passaram a investir no Brasil, numa época onde havia disponibilidade de capitais devido à retração da indústria de guerra.
Além do crescimento da produção interna, cresceu também a dependência tecnológica, pois as empresas aqui instaladas continuavam a importar máquinas e aumentou a dependência financeira, fruto do maior endividamento e das remessas de lucros realizadas pelas multinacionais.

A cidade
O crescimento urbano foi acompanhado pelo crescimento de uma "classe média", em grande parte vinculada ao setor de serviços, ampliando-se também o consumo. Essa situação foi responsável pela idéia de que aquele momento representava os “anos dourados” da economia brasileira, pois o país vivia em estado de euforia. A consolidação da sociedade de massa alterou o perfil de consumo e de comportamento de parcelas da sociedade urbana, enfim a classe-média teve acesso a bens como geladeira, liquidificador, televisão e automóvel. O Brasil era o país do futuro.
Esse “novo Brasil” conheceu uma verdadeira revolução no comportamento da juventude. O rock and roll invadia as rádios, novas maneiras de se vestir e de comportamento ditavam padrões de contestação comportamental, apesar de conviver com os padrões tradicionais de moralidade. Lambreta, calça jeans, óculos escuros eram adereços da nova moda da classe média.
As conquistas esportivas também foram importantes para o clima de otimismo durante a chamada Era JK, destacando-se a vitória da Seleção Brasileira de Futebol, que em 1958 conquistou sua primeira Copa do Mundo.

A classe média e a música
A Bossa Nova. Reflexo dessa idéia de progresso e modernidade do período de governo de JK, a parte cultural mais nobre dos “anos dourados”, não se contrapôs frontalmente a chamada “cultura popular”, mas criou um marco delimitador entre a cultura do morro, do trabalhador, popular e a cultura mais elitizada da classe média, que tem como uma de suas características fundamentais a necessidade de se diferenciar, de se perceber como um setor social que “progrediu” e se diferenciou “do povo”, visto como inferior.

A época da bola
Ao mesmo tempo em que a Bossa Nova encantava uma geração nas cidades, a bola encantava a maioria dos brasileiros. Em 1958 a Copa do Mundo se realizou na Suécia, outro país que não havia participado diretamente da Segunda Guerra Mundial. Apesar do derrota do nazismo, o mundo ainda vivia cercado por diversos conflitos e o Brasil ainda sentia os efeitos do suicídio de Vargas quatro anos antes.
Em Cuba, os guerrilheiros liderados por Fidel Castro e Che avançam contra a ditadura de Fulgêncio Batista, enquanto que na Colômbia uma guerra civil de dez anos entre liberais e conservadores é capitalizada pela reação democrática, abrindo caminho para o surgimento do movimento guerrilheiro de esquerda que daria origem às FARC’s.

A bola
O Futebol teve papel fundamental na construção da identidade nacional. Se é verdade que o Estado e a política de massas do populismo se preocuparam em exercer o controle sobre a sociedade, também é verdade que a valorização do “nacional” antecede esse período. O futebol teve papel fundamental na construção da identidade nacional brasileira, na medida em que foi se transformando numa "paixão nacional" e junto com o carnaval e o samba, é considerado um dos patrimônios culturais brasileiros.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A Gastronomia francesa: da Idade Média às novas tendências culinárias.

Por Carlos Roberto Antunes dos Santos




Falar da gastronomia na França, do ponto de vista do historiador, significa buscar suas origens, explicar a sua

reputação, destacar as relações que ela mantém com as diversas produções alimentares inter-regionais e transnacionais e as suas tendências diante das novas culinárias hoje presentes, como a cozinha molecular.


A indiscutível supremacia da cozinha francesa através da História Moderna e Contemporânea nos leva às suas origens medievais, e à sua definição como a fusão de três elementos indispensáveis: a riqueza de ingredientes; a sabedoria na maneira de utilizá-los e o requinte nos mínimos detalhes. Com charme e versatilidade incontestáveis, quer falando da Cozinha Clássica ou da Nouvelle Cuisine, a gastronomia francesa é responsavel pelas inúmeras outras cozinhas que nela se espelharam e estão espalhadas pelo mundo, bem como das formas de fazer da cozinha e da mesa verdadeiras artes.


A partir deste enunciado, podemos interrogar a gastronomia francesa, em termos de História da Alimentação, a partir de quatro questões: 1. Desde quando esta reputação gastronômica, da qual os franceses sempre se orgulharam,nasceu? 2. Como esta reputação gastronômica se mantém até hoje? 3. Porque ela aconteceu na França? 4. Qual o comportamento da cozinha francesa diante da gastronomia molecular, principalmente a dos espanhóis?


Geralmente a idéia que se tem da Idade Média é aquela de cavaleiros brutais rasgando a dentada a caça ainda quente e a sangrar, os camponeses vivendo permanentemente com fome, os monges gordos de grandes barrigas que vivem só a comer; cozinheiros ignorantes trabalhando com instrumentos primitivos. Esta é a idéia que se tem da alimentação medieval, isto é, tempos bárbaros que só podem corresponder a cozinhas bárbaras. Isso é uma visão já ultrapassada, pois os documentos de séculos atrás, nos revelam que os camponeses da Alta Idade Média (sécs. V ao X), salvo em tempos de acidentes climáticos, comiam de acordo com a fome que tinham e, muitas vezes melhor que os camponeses do séc. XVII (Era Moderna). E, entre as elites, desenvolveu-se nesta época medieval uma arte culinária, no sentido da gastronomia, que não fica nada a dever à nossa, no que diz respeito à variedade e sofisticação. É preciso considerar que a herança greco-romana (antiguidade Clássica) não foi aniquilada durante as invasões bárbaras e que permaneceu na aristocracia da Alta Idade Média, constituindo uma cozinha muito interessante.

Sendo a Idade Média uma civilização essencialmente cerealista, o pão torna-se o alimento principal, consumido na ceia, junto ao vinho. Portanto, pão e vinho são alimentos essências nesta época. Em face da importância da Igreja no cotidiano medieval, a evolução da cozinha foi lenta e progressiva, sendo que alguns alimentos foram postos de lado como os temperos de peixes (que eram largamente utilizados pelos romanos), substituídos por outras especiarias como a nozmoscada e o Cravo-da-Índia (começam a ser introduzidos na farmacopéia e depois na cozinha).Ao longo da Idade Média opera-se uma outra modificação fundamental: a forma do corpo (o aprumo) da pessoa que come.


O hábito de comer deitado da época romana é substituído pelo hábito de comer sentado, determinado pela passagem de uma cozinha fundada nos picados e almôndegas que podiam se agarrados com as mãos, para uma outra em se priorizava o corte das carnes. A mesa francesa medieval em certos períodos era farta, com a presença de peixes como congrios, arenques, salmões, enguias, lagostins, trutas, esturjões, empadas de Paris, tortas, pudim de ovos, queijos, castanhas, mostarda, pêras, alho, cebolas, e outros. Desta forma, na I. Média se constituiu uma arte de mesa original e requintada, uma certa gastronomia. A cozinha francesa na Idade Média é, sob certos aspectos, diferente da nossa tendo os gostos e hábitos alimentares sofridos profundas alterações. Mas essa ruptura não se deu de um dia para o outro. Importante destacar que em 1486, foi impresso o primeiro livro de culinária na França, intitulado “Le Viandier” com 230 receitas. Desse ponto de vista, a Renascença na França não parece ter sido um século de grandes mudanças culinárias,pois a influência medieval ainda estava muito forte e muito próxima.

A descoberta da América e do caminho marítimo para asÍndias, e a conquista espanhola da América Central trouxe novos alimentos para os europeus: tomate, pimentas, milho,batata, feijão verde, novas especiarias, temperos, peru e outros.


Entretanto, a introdução destes novos alimentos na cozinha européia e especialmente a francesa, não foi algo de imediato. O uso destes alimentos manteve-se mais restrito até o séc. XVII,quando a nobreza e uma nova geração de cozinheiros demonstram claramente seus distanciamentos da cozinha gótica. A partir deste período, pode-se dizer que em França os gostos e as maneiras de comportamento á mesa (etiqueta) são renovadas.Tudo isso revela uma cozinha francesa inovadora, original,demonstrando que para os franceses a certeza que a sua forma de comer era superior a de todos os outros povos da Europa. E tal constatação é comprovada pela leva de estrangeiros que visitam a França e comprovam a superioridade francesa no domínio da cozinha e da mesa.


Ao longo do séc. XVII, a afirmação da cozinha francesa colocada acima é iniciativa da realeza sob Luis XIV, o Rei Sol. O refinamento proveniente da Corte engendra um vasto movimento de renovação dos costumes e práticas alimentares. Os cozinheiros franceses passam a privilegiar os cozimentos,deixando as carnes com o máximo de sabor, o que permitiu que se desenvolvesse em França uma produção de carne da mais alta qualidade. Junto à carne de boi se exigiu legumes frescos e de sistema de manutenção de alimentos como os peixes e frutos do mar, isto é, oferecer sempre peixe fresco. Desta forma, a grande novidade desta cozinha do séc. XVII é privilegiar os sabores naturais dos alimentos (algo até então inédito).


O séc. XVIII viu surgir uma individualização da comida, isto é, um prato e seus talheres para cada pessoa. A mesa deixa de ter um serviço coletivo e cada pessoa terá um couvert para si. É desta época o início do uso mais freqüente do garfo, que trouxe consigo novos pratos, e novas práticas alimentares. forma, a França vai rompendo com os costumes medievais aonde todos se serviam num prato comum e com as mãos. Foi ao longo do Séc. XVIII que surge os fundamentos da refeição moderna: a elegância da mesa, a etiqueta, o comportamento à mesa para comer e para beber. No séc. XVIII, a forma de dispor a comida nos pratos foi fortemente influenciada pelos acompanhamentos e com a conseqüente expulsão da ditadura do alho e da cebola: legumes, vegetais, os verdes, os temperos passam a dar cores aos pratos. Desta forma, a França promove a substituição da cozinha do olfato pela cozinha do olhar. Na verdade o Antigo regime (da realeza) ao realizar os famosos Banquetes de Estado que fizeram a fama do Palácio de Versalhes, produziu pratos que eram concebidos e apresentados de modo a realçar e divulgar grandeza da cozinha francesa.Neste período os cozinheiros franceses já eram considerados os melhores do mundo. Desta forma a realeza se vangloriava de promover a doçura do bem viver (frase de Talleyrand), que enaltecia o orgulho francês de ter a melhor cozinha do mundo.

Ainda no séc. XVIII, antes da revolução Francesa, se inventou em Paris o restaurante. Esta constatação começa por demolir a versão clássica, e reforçada, como no filme “A Festa de Babette”, que, segundo SEVCENKO, “vê à culinária francesa como uma das grandes conquistas da Revolução Francesa” (1). Há duas versões sobre a invenção dos restaurantes: 1. Aquela exposta por FLANDRIN & MONTANARI (2), demonstrando que M. Boulanger, também conhecido como “Champs d’Oiseaux, um padeiro e vendedor de sopas, resolveu colocar em seu estabelecimento perto do Louvre, algumas mesas a disposição a disposição dos seus clientes, que até então tomavam seus caldos restauradores em canecas e em pé. E com o aumento da clientela que passou a exigir além dos caldos restauradores,outros pratos, M. Boulanger passou a servir pratos com alimentos sólidos em porções individuais. A partir de então, ele foi seguido por outros imitadores e estava então inventado o restaurante na França, com um novo profissional o Restaurateur e um novo tipo de negócio, o Restaurante; 2. a outra versão sobre a invenção do restaurante, parte de SPANG (3) que atribui à Marthurin Roze de Chantoiseau a criação destes paraísos dos sabores. Sendo uma figura conhecida, Chantoiseau fixou residência em Paris em 1760, em plena conjuntura de crise econômica da França em face da sua dívida interna. Em Paris, a partir da fortuna herdada do pai, um rico latifundiário e mercador, Roze de Chantoiseau, após algumas tentativas de elaboração de projetos para ajudar a França a sair da sua crise, em 1765 abriu as portas do primeiro restaurante. A intenção era, através dos restaurantes, “fazer circular o dinheiro, que ajudaria a melhorar a situação econômica francesa “(4). Após a revolução francesa, muitas pessoas que vinham a Paris buscavam estes lugares mais simples que servia uma comida também simples, mas reconfortante. Entretanto haviam chefes de cozinha desempregados, cujos patrões membros da alta nobreza, haviam fugido da revolução. Estes chefes, obrigados a encontrar uma outra maneira de realizar o seu trabalho, acabaram abrindo os seus próprios restaurantes, e tornando a cozinha artística dos grandes mestres, antes só encontrada nas residências dos ricos e poderosos, agora acessível ao grande público que pudesse pagar por ela. Nasce assim o grande restaurante em França, um produto autenticamente francês, desconhecido até então, com uma cozinha superior, um salão elegante, garçons eficientes e uma adega cuidadosa e selecionada. Tais predicados se espalharam pelo mundo,tornando a cozinha francesa famosa e respeitada. A partir daí, toda uma cultura culinária começou a florescer. Desenvolveu-se uma verdadeira “ciência da mesa”, e em 1801 foi criado o termo gastronomia para designar o que Montaigne chamava de “ciência da gula”.

Para aqueles que estudam a História da Alimentação, os discursos gastronômicos evoluem em função das mutações técnicas, econômicas, estéticas, sociais e políticas, como a colonização (e o contato com outros povos), os fenômenos imigratórios, as relações internacionais, as conseqüências das guerras e hoje em dia em função da globalização. Nesse sentido,os alimentos não só alimentos, eles são atitudes, protocolos, convenções. Nenhum alimento que entra em nossas bocas é neutro. O alimento é uma categoria histórica e a formação do gosto alimentar não se dá exclusivamente por seus predicados biológicos e nutricionais. No final do séc. XVIII, quando Napoleão chega ao poder e depois invade a Europa e o Oriente, os seus soldados portam na ponta das baionetas a obra dos direitos humanos e atrás deles seguem exércitos de cozinheiros, cabeleireiros, professores de danças: é a civilização francesa se expandindo pelo mundo.Nesta época destaca-se o cozinheiro-chefe Carême, considerado um dos mais renomados expoentes da culinária francesa.Carême foi contemporâneo de Brilhat Savarin, famoso autor da obra “A Fisiologia do Gosto”. Deve-se a Carême a invenção do vol-au-vent.

É importante destacar que os predicados da cozinha francesa são produtos da efervescência da sua história e da sua cultura. Há ainda a Geografia da França, oferecendo diversos tipos de clima e quatro fachadas marítimas. Possuiu também um império colonial rico em possibilidades agrícolas e fontes generosas de alimentos. Tudo isso estimula as trocas e influências inter-regionais e com o Exterior. De todas esta simbioses emerge a identidade nacional francesa, expressa na cozinha e na mesa francesa.

Na França os cozinheiros são respeitados, os Chefs são admirados e os Grandes Chefes são honrados tanto quanto os chefes militares. Desta forma foram cozinheiros que se tornaram famosos como Paul Bocuse e Pierre Troigros, conceberam a nouvelle cuisine, denominação francesa para uma total renovação da culinária ligada à cultura pós-maio de 1968.


Trata-se de uma nova concepção de se preparar os alimentos,usando-se, sobretudo, ingredientes frescos, de temporada,processo de cozimentos curtos, cardápios leves, evitando-se marinadas, fermentações e molhos a base de farinha, manteiga e caldos. Trata-se de uma cozinha clássica, estética e muito artística na sua apresentação. Para compreender a cozinha francesa é preciso conhecer com que detalhes ela lida. As riquezas culinárias da Ile-de-France, com seus patês de enguia da cidade de Melum e os cogumelos e presuntos de Paris. Da Normandia vem o leite, a manteiga, a nata, os peixes do mar, as aves, os queijos em grandes variedades, os ovos, as cidras e o Calvados. Da Bretanha, vêm os mariscos, crustáceos e os peixes, sendo famosa também por seus legumes: ervilhas, repolhos, couve flor,alcachofras e cebolas. Da região da Champagne vêm a Champagne, as trutas e as caldeiradas. Da Borgonha chegam os vinhos tintos mais famosos, como o Conti Romanée e também vinhos brancos, mais os legumes, a caça abundante, os peixes de rio, o gado de primeira qualidade, as frutas e a mostarda de Dijon. Enfim, ficar-se-ia muito tempo falando das grandes relíquias alimentares da França, que possibilitam a melhor cozinha do mundo. Desta forma, um país que consegue codificar 297 formas de preparar o ovo (com mais de 125 tipos de omelete), faz a história no campo da gastronomia. Nos últimos tempos a cozinha francesa tem começado uma nova diversificação: Há cozinheiros como Alan Passard que abandonou a cozinha das carnes e se concentra numa alta gastronomia de legumes, onde o legume é o alimento principal,como as beringelas da Bretanha, que é o nome do prato principal. Assim como Pierre Gagnaire que joga forte no prato das langustines na manteiga de nozes.


Há uma nova cozinha na França? Em recente evento em Tours/França, intitulado ”Novas Tendências Culinárias” (5) foi constatada a realidade de que não há como abstrair as influências da cozinha molecular na culinária francesa. De qualquer maneira, desta resistência da nouvelle cuisine face às inovações da cozinha contemporânea, quem ganha é a clientela,ávida pela boa comida.


Referências Bibliográficas

(1) SEVCENKO, Nicolau. A síndrome da vaca cega. S.Paulo: Carta Capital, 24/jan/2001, p. 73.


(2) História da Alimentação/ sob a Direção de Jean-Louis Flandrin & Massimo Montanari. S. Paulo: Estação Liberdade, 1998, p. 755.


(3) SPANG, Rebecca L. A Invenção do Restaurante. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 27.


(4) LORENÇATO, A. E a democracia do paladar mudou. S.Paulo: Gazeta Mercantil, 12/13 out/2002, p.9.


(5) Forum “Nouvelles Tendances Culinaires”. Tours (França), IEHCA, 02/03 dez/2005