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domingo, 8 de dezembro de 2013

Mandela, a vitória de um justo

Por Pascal Marchetti - Leca

Nelson Mandela não teve ancestrais e todos os negros sul-africanos são um pouco seus filhos. Ele os livrou das piores humilhações e reconciliou-os com o futuro. Seus irmãos de cor reconhecem nele o “Guia”, que os livrou de uma condição aviltante, e ofereceu-lhes a cidadania plena, na qual já não acreditavam. O “Pai da Nação”, Madhiba (forma afetuosa de seu sobrenome na África do Sul), inventou seus antepassados e seus descendentes, dignamente e sem esmorecer.

Henry Mgadla Mandela e sua terceira esposa, Noseki Fanny, são contra a adoção e parecem satisfeitos com seu filho único. Nelson Mandela nasceu em 18 de julho de 1918, em uma pequena cidade de Transkei, a algumas dezenas de quilômetros da capital provincial de Umtata. Henry Mgadla escolheu o nome do venerado herói inglês de Trafalgar, almirante Nelson, ao qual ele acrescentou um prenome tradicional xhosa, Rolihlahla (cujo significado etimológico é “aquele para o qual os problemas se apresentam”). O patriarca não economizava nos paradoxos. Proveniente de um ramo da casa real Thembu, ele se revelava “altivo e revoltado, dotado de um senso inato de justiça”.

Apesar das origens aristocráticas de Henry, a administração britânica não mostrou nenhum escrúpulo em privá-lo de sua fortuna e de seu título de conselheiro do rei. Mas o clã Mandela enfrentou a situação. Na tenda da família, em Qunu, para onde seus pais se retiraram, Nelson viveu dias aprazíveis. Mais tarde ele dirá: “Passei lá os anos mais felizes de minha vida”. A despreocupação, porém, não dura para sempre, algo que logo aprendeu.

Em uma noite de 1927, subitamente, seu pai faleceu. A vida da criança sofreu uma reviravolta. Imediatamente, o regente do reino thembu, Jongintaba Dalindyebo, acolheu o infeliz primo na residência real de Mqhekezwen, e tornou-se seu tutor. Ao se despedir, a senhora Mandela aconselhou-o: “Seja corajoso, meu filho”. Ela não poderia ter dito algo melhor. Junto ao seu tutor, Nelson recebeu a educação elementar. O estudo do xhosa ensinou-lhe sua cultura de origem; a descoberta do inglês abriu-lhe o caminho para o pensamento desses brancos, que os negros servem sem que o queiram, e imitam sem que o saibam. Os devaneios permitidos pela história e pela geografia compensaram as dificuldades e os constrangimentos impostos pelo aprendizado das línguas.

Entre o ensino livresco e a formação humana, Nelson se deixou tomar por uma certa indolência. Mais espectador do que agente, ele se juntou aos seus irmãos adotivos, Justice e Nomabu, reunidos casualmente pela vida. Estes últimos escarneciam da sabedoria equânime de Nelson e apelidaram-no de “Tatomkulu” (“avô”). O rei, porém, não estava sempre de bom humor. Ele repetia ao seu protegido: “Você não foi feito para passar a vida trabalhando nas minas de ouro do homem branco, sem saber escrever o próprio nome”. Nelson, assim, foi trabalhar na melhor instituição inglesa para africanos de Thembuland. Estrangeiros em sua própria terra e definitivamente complexados, esses “privilegiados” aspiravam apenas tornar-se “ingleses negros”. Mais tarde, o Prêmio Nobel da Paz escreverá: “Éramos ensinados que as melhores idéias eram as inglesas, e que o melhor governo era o governo inglês, e que os melhores homens eram ingleses. E estávamos convencidos disso”.

Do colégio metodista de Clarkebury, em que obteve seu diploma, o adolescente passou para o liceu de Fort Beaufort, que lhe abriu as portas da “Cambridge negra”, a universidade de Fort Hare. Na universidade, Mandela entrou em contato com membros do Congresso Nacional Africano, CNA, e se revoltou, pela primeira vez, contra a autoridade instituída. O retorno a Mqhekezwen não se desenvolveu nas condições esperadas. Seguindo a mais pura tradição dos casamentos arranjados, o regente comunicou a Justice e Nelson que tudo já estava combinado para eles. Mas eles não concordaram e fugiram. “Nesta época, (...) eu não cogitava ainda lutar contra o sistema dos brancos, mas já estava disposto a me revoltar contra o sistema social de meu próprio povo”, explica Mandela. Com o tempo esta posição seria revista. Nelson encontrou asilo em Johannesburgo. Batendo de porta em porta, acabou por chegar à casa certa, a de Walter Sisulu, que dirigia uma agência imobiliária na qual o fugitivo trabalhou por um tempo. Em seguida, Sisulu encaminhou Mandela a um escritório de advocacia, como estagiário, e estimulou-o, paralelamente, a reivindicar seus direitos.

A partir de 1944, sob influência de Sisulu, Mandela se juntou às fileiras do CNA, cuja inércia ele reprovava cada vez mais. A fraqueza do CNA irritava-o a ponto de fazê-lo alinhar-se com seu mentor, mas também com Oliver Tambo e Govan Mbeki (pai do atual presidente da República da África do Sul), para fundar a Liga dos Jovens do CNA, na qual, pouco a pouco, ascenderá a todas as posições. A “geração dos rebeldes” entrou resolutamente no combate pela emancipação e dignidade dos povos. “Eu sou incapaz de indicar exatamente o momento em que soube que consagraria minha vida à luta pela liberdade. Ser africano na África do Sul significa ser politizado desde o nascimento, quer se tenha consciência disto ou não. A vida [de uma criança africana] está circunscrita pelas leis e regras racistas que mutilam o seu desenvolvimento e oprimem a sua vida”, comenta o rebelde Nelson.

O Partido Nacional foi conduzido ao poder com um programa que institucionalizou a segregação. Em 1952, Mandela alcançou a vice-presidência do CNA. Neste mesmo ano, com seu irmão de lutas Oliver Tambo, ele abriu, em frente ao palácio da Justiça de Johannesburgo, o primeiro escritório de advogados negros, cuja prática seria sistematicamente contrariada pelo governo. Quando os nacionalistas planejaram a celebração do tricentenário da chegada de Jan Van Riebeck, o fundador da cidade do Cabo, o CNA organizou uma campanha de desobediência civil sem precedentes. Mais de 8.000 pessoas foram presas. Desacreditada, a África do Sul foi marginalizada na cena internacional. Nos meses seguintes, os “resistentes do Cabo” reuniram-se sob a direção de Albert Luthuli para redigir a Carta da Liberdade. Em junho de 1955, o documento foi adotado em Kliptown e tornou-se o manifesto político do CNA. Não contente em estigmatizar e combater as leis do apartheid, o movimento declarou-se favorável a uma África do Sul livre e igualitária. O veredicto do poder não demorou a se manifestar: “Hoogverraad” (alta traição). Detido em 5 de dezembro de 1956, juntamente com outros militantes do CNA, Nelson Mandela foi condenado à morte. Mas a imprensa internacional divulgou os eventos e, em 29 de março de 1961, o processo foi abandonado. O “líder negro” deixou o tribunal de Pretória em liberdade e mergulhou na clandestinidade.

Os eventos o estimularam a agir. Em 21 de março de 1960, em um distrito negro de Transvaal, a polícia abriu fogo contra uma multidão de manifestantes: 69 mortos e 180 feridos. Com o massacre de Sharpeville, evidenciou-se que o protesto pacífico era ineficaz. Assim, Mandela dota o CNA de um braço armado, o Umkhonto we Sizwe (Exército para a Nação), cujo comando assumiu. A fazenda de Liliesleaf, em Rivonia, ao norte de Johannesburgo, tornou-se, então, seu quartel general. Mandela se escondeu no local para estudar, planejar e supervisionar operações de sabotagem. Mais tarde, deixa a fazenda para buscar apoios políticos na África (Argélia, Camarões, Quênia) ou na Grã-Bretanha. Incansável, Mandela torna-se mestre na arte de escapar de ciladas. Data desta época o epíteto de “Pimpinela negro”, em referência ao herói de Walter Scott, o Pimpinela escarlate.

Informado por uma denúncia que alguns imputam à CIA, a central de inteligência americana, o ministro da Justiça, Balthazar Vorster, tomou conhecimento dos atos. Em 5 de agosto de 1962, após 17 meses de implacável perseguição, Mandela foi preso ao norte de Durban, e condenado a cinco anos de prisão por atividades subversivas. Em 11 de junho do ano seguinte, a polícia alcançou a fazenda de Rivonia e capturou o Estado Maior do MK, o braço armado do CNA. A organização militar foi desmantelada. Sem demora, o governo enviou Mandela e os demais acusados para o tribunal de Rivonia. Durante o processo – ao qual comparecem, principalmente, Govan Mbeki, Walter Sisulu e Raymond Mhlaba – Mandela assumiu a defesa comum. Suas palavras tinham tom de manifesto: “Eu cultivei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual todos poderiam viver em harmonia e com chances iguais. Ainda espero desfrutar deste ideal. Se for necessário, morro por ele”. A hostilidade do júri, entretanto, não foi abalada. Em 16 de junho de 1964, a corte declarou o seu veredicto: prisão perpétua para os membros influentes do CNA.

Um dia após a sentença, uma embarcação partiu para uma ilha situada a 3 km da cidade do Cabo. Um caminho precário ligava o porto ao centro da ilha. Na entrada, lia-se palavras de rigor espartano: “Aqui servimos com firmeza”. No final do caminho, surgia a brancura gélida dos muros da penitenciária de Robben Island. Na seção B, “uma prisão dentro da prisão”, ficavam os poqos (terroristas). Os outros prisioneiros logo batizaram o edifício de “Makulukutu” (em volta do líder). O detento de número 466/64 era de fato aguardado.

No cárcere, um prisioneiro admirado

Uma cela estava reservada para Nelson Mandela. O fundo voltado para o mar, caso ele pensasse em fugir. Mas seria impossível. Entre trabalhos forçados e visitas ocasionais, Nelson mantinha uma confiança resignada que não excluía a dúvida. Entre os abatimentos passageiros motivados pela “vida lá fora” (dissolução do CNA, silêncio da comunidade internacional durante os anos 60), ocorreram algumas satisfações localizadas (revolta de Soweto e de outros bairros negros). Mas Mandela jamais ficou alheio aos eventos: a vida carcerária era para ele uma “versão reduzida da luta no mundo”. Na espiral dos dias sempre recomeçados, ele se tornou amigo de um guarda um pouco atípico para o local e a função, James Gregory. Mandela comoveu-se com a respeitosa humanidade do carcereiro, e este ficou perturbado com a inalterável dignidade do cativo. Com o tempo, se livraram de seus respectivos preconceitos e passaram a manteruma relação fraternal. Gregory dará do episódio um vibrante testemunho em seu livro Mandela, meu prisioneiro, meu amigo.

Em 1982, os acusados de Rivonia foram transferidos para a prisão de Pollsmoor, perto da Cidade do Cabo, onde se beneficiaram de um regime penitenciário mais favorável. Mandela pressentiu as manobras conduzidas pelo Estado e, de fato, não estava enganado. Desde meados dos anos 80, o governo de Pieter Willem Botha abria uma porta para as negociações, e Frederik De Klerk, assim que foi eleito presidente da República, anunciou, em 2 de fevereiro de 1990, a libertação do mais antigo prisioneiro político do mundo. A libertação foi efetuada em 11 de fevereiro, 27 anos após a prisão. Sobre este fato, Breytenbach, escritor sul-africano afirmou: Ele (...) entrou na prisão como militante e saiu dela como um mito. Um mito cujo primeiro gesto foi levantar o punho, sinalizando um gesto de vitória. De fato, a liberalização do regime seguia um bom caminho. De Klerk suspendeu a interdição imposta ao CNA e retomou o diálogo com o movimento, cuja liderança passou a Mandela em julho de 1991. Seus esforços para a abolição das leis de segregação foram reconhecidos por Estocolmo que, em 1993, concedeu a ambos o Prêmio Nobel da Paz. Em abril de 1994, as primeiras eleições multirraciais na África do Sul submeteram o CNA a um plebiscito (no qual obteve 62,65% dos votos) e, em 10 de maio, Nelson Mandela foi oficialmente escolhido presidente da República. A ruína integral do apartheid legal e o anseio de elaborar as bases de uma “nação livre” continuaram orientando as opções de Mandela. No momento de passar o cargo a Thabo Mbeki (1999), ele ousou afirmar:Ainda não somos livres. (Tradução de Alexandre Massella)

Texto retirado de http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/mandela_a_vitoria_de_um_justo.html

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