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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Coração das Trevas

Por Lucas Alves de Araújo


Filho de militantes e patriotas empenhados na luta contra o domínio russo na Polônia, o escritor de língua inglesa, Józef Teodor Konrad Korzeniowski, nasceu em 1857, em Berditchev. O autor teve o seu primeiro contato com a língua inglesa através de seu pai, tradutor de Shakespeare e outros autores renomados, no período em que esteve exilado com a sua família na Rússia. Em 1874, ingressou na Escola de Marinha de Marselhesa, onde descobriu a “relação de amor com o mar” que influenciaria a sua obra. Em 1884, recebeu a cidadania britânica adotando o nome Joseph Conrad. Ao longo de sua vida na marinha Conrad esteve em lugares variados da África, Ásia, América e Europa.[1]
As experiências dessas viagens foram importantes para a produção do autor, como é possível observar em Coração das Trevas, publicado em 1899, na Blackwood’s Magazine, anos após a sua viagem à África Central, onde comandou um vapor no rio Congo e constatou “que a filantropia europeia servia de cobertura à mais abjeta sujeição das africanos”.[2] A novela de Conrad foi publicada em um contexto em que as visões sobre o processo de colonização no Congo haviam se alterado e foi recebida como uma denúncia da exploração colonial no Congo, mais especificamente uma denúncia  da exploração resultante do colonialismo belga.
            A novela de Conrad, Coração das Trevas, foi produzida no contexto da expansão imperialista, denominado “A era dos Impérios”[3], no qual as potências europeias dividiram os territórios do mundo em duas categorias: a de povos avançados (civilizados) e a de povos atrasados (bárbaros). Enquanto povos avançados, essas potências se arrogaram o direito de dividir entre si a parcela atrasada do globo e partiram para a disputa e conquista de novos territórios, abrindo uma nova fase no desenvolvimento nacional e internacional para a expansão do capitalismo.
            Conforme assinala Edward Said acerca do imperialismo e do colonialismo, “ambos são sustentados e talvez impelidos por potentes formações ideológicas que incluem a noção de que certos territórios e povos precisam e imploram pela dominação.”[4] Essa noção de que alguns povos “precisam” ser dominados constitui o fardo do homem branco no século XIX: promover a civilização das “raças inferiores”.
 “Abrir à civilização a única parte do globo onde ela ainda não penetrou, transpassar as trevas que envolvem populações inteiras, constitui, ouso dizer, uma cruzada digna deste século de progresso [...].”[5] A fala de Leopoldo II, rei da Bélgica, proferida na Conferência Geográfica de Bruxelas, em 1876, ilustra o imaginário imperialista vigente no século XIX.
            A narrativa de Conrad se inicia com um narrador desconhecido que descreve o ambiente, o estuário do Tâmisa, no qual se encontra o vapor com destino ao coração da selva africana, e apresenta alguns personagens, introduzindo Marlow, o narrador protagonista que irá relatar a sua viagem ao interior da selva africana que tinha por objetivo o resgate de Kurtz, um ganancioso e respeitado comprador de marfim. 
“Viajávamos pela Terra pré-histórica, uma Terra que tinha um aspecto de um planeta desconhecido”[6], assim diz Marlow sobre a viagem ao interior da África, revelando o incômodo de adentrar o mundo desconhecido onde o homem branco não possuía conhecimento ou experiência alguma.
Ao longo da narrativa percebemos o olhar de estranhamento do colonizador que penetra o coração da selva africana sobre o “desconhecido”, tal olhar é marcado pela suposta superioridade do homem branco e o universo africano é visto a todo o momento como algo sombrio e selvagem. Dotado de razão e conteúdos civilizatórios o homem branco tem como missão promover o desenvolvimento dos povos atrasados, primitivos selvagens que se encontram mergulhados em barbárie.
A ideologia civilizatória pode ser vista na passagem em que Marlow fala sobre a conquista realizada pela Companhia que o contratou para a missão no interior da selva africana: “A conquista da terra, que antes de mais nada significa tomá-la dos que tem a pele de outra cor ou o nariz um pouco mais chato que o nosso, nunca é uma coisa bonita quando a examinamos bem de perto. Só o que redime a conquista é a ideia.”[7]
 A ideia que “redime” a conquista é a de superioridade dos homens brancos civilizados, responsáveis pela promoção e desenvolvimento dos povos atrasados. Destarte toda e qualquer ação do colonizador se justifica porque o homem branco, a serviço da civilidade, é o responsável pelo desencravamento dos povos bárbaros, ainda que tal desencravamento se dê por meio de medidas monstruosas: “Exterminem todos os brutos!”.[8]
Conforme relata Alencastro no posfácio de Coração das Trevas, entre os críticos da obra de Conrad prevalecem duas linhas de interpretação: a primeira refere-se à desumanização e à violência perpetradas pelo colonialismo europeu na África; a segunda concerne à inquietação existencial advinda do confronto dos indivíduos com a ruptura dos laços sociais.
Na primeira parte da obra podemos perceber uma abordagem acerca dos efeitos do imperialismo europeu na África. Marlow faz uma crítica aos métodos utilizados pela Companhia na qual trabalha: “Mas esses sujeitos, no fim das contas, não eram agentes de muito preparo. Não eram colonos. A administração que exerciam, acho eu, era pura extorsão e nada mais. Eram conquistadores, e para isso basta a força bruta – nada de que alguém possa se vangloriar, pois a sua força não passa de um acidente produzido pela fraqueza dos outros”. Essa passagem apresenta uma questão evidente no processo de colonização da África: a ausência da igualdade bélica, que inviabiliza a resistência dos africanos, fazendo com que eles negociem a sua soberania.
Já na segunda metade da narrativa, onde finalmente aparece o personagem Kurtz, podemos perceber o drama do colonizar no processo civilizatório, que é brutal e enlouquecedor. Muito embora firme e muito respeitado por sua reputação, Kurtz acaba sucumbindo ao universo de trevas: “O horror! O horror!”, essas foram as suas últimas palavras.
Na narrativa de Conrad o “coração de trevas” não é claramente definido, o que possibilita algumas sugestões. Podemos inferir que as trevas compreende todo o universo sombrio e bárbaro do coração da selva africana, assim visto pelo homem branco colonizado. Ou ainda, o próprio coração do colonizador, materializado na figura de Kurtz, que movido por uma ambição profunda é capaz de realizar os atos mais covardes em benefício do “progresso” e da “civilização”.
Para Edward Said, Conrad pode perceber “que as trevas sempre presentes podiam ser colonizadas ou iluminadas” e que “cumpria reconhecer sua independência”.[9] Assim sendo, Kurtz pode conhecer as trevas ao morrer e Marlow ao refletir sobre as últimas palavras do comprador de marfim.
 “Eles (e Conrad, naturalmente) estão à frente de seu tempo por entender que as ditas “trevas” possuem autonomia própria, e podem retomar e reivindicar o que o imperialismo havia considerado como seu. Mas Marlow e Kurtz também são pessoas de sua própria época e não conseguem dar o passo seguinte, que seria reconhecer que o que viam, de modo depreciativo e desqualificador, como ‘treva’ não europeia era de fato um mundo não europeu resistindo ao imperialismo, para algum dia reconquistar a soberania e independência, e não, como diz Conrad de maneira reducionista, para restaurar as trevas.”[10]

Ainda segundo Said, a despeito de suas críticas ao imperialismo e de enxergar os efeitos dessa política que consistia na dominação de povos e na ocupação de territórios, Conrad não aponta para a necessidade de erradicar o imperialismo de modo que os povos africanos possam enfim viver livre do julgo europeu. Ele “não podia admitir a liberdade para os nativos”[11], fato que revela uma posição eurocêntrica do autor.




Referências Bibliográficas
CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
HOBSBAWM, Eric J. Era dos Impérios: 1875 – 1914. Tradução Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
SAID, Edward. Cultura e imperialismo. Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Cia das Letras, 1995.



[1]CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia das Letras, 2008, p. 181. 
[2] ALENCASTRO, Luiz Felipe de. “Persistência de trevas”. In: CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia das Letras, 2008, p. 158 e 170.
[3] HOBSBAWM, Eric J. Era dos Impérios: 1875 – 1914. Tradução Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998, p. 88.
[4]SAID, Edward. Cultura e imperialismo. Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p. 40.
[5] ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Op. Cit., p. 170.
[6] CONRAD, Joseph. Op. Cit., p. 58.
[7] CONRAD, Joseph. Op. Cit., p. 15.
[8]CONRAD, Joseph. Op. Cit., p. 81.
[9] SAID, Edward. Op. Cit., p. 63.
[10] Idem.
[11] Idem.

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