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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Crocodilo e Notas de Inverno Sobre Impressões de Verão

Por Evelyn Ariane Lauro


Para entender os contos de Dostoiéviski, dois fatores relativos ao contexto histórico de sua produção são de extrema importância: A política interna russa e os movimentos nacionalistas na Europa.
Dostoiévski (1821 - 1881) viveu os governos Czaristas de Nicolau I e Alexandre II, marcados pelo expansionismo russo, a guerra da Criméia (1854 – 56) e as reformas alexandrinas - que introduziram a Rússia em uma onda de modernização que a alinhava com os países da Europa ocidental.
A Rússia, assim como toda a Europa do século XIX, vivia o que René Rémond chamou de O movimento das Nacionalidades[1] e que Benedict Anderson conclamou como Imperialismo e Nacionalismo Oficial[2] - ainda que na Rússia a questão só tenha tomado corpo de fato, como política de Estado, com Alexandre III (1881 - 1994)[3]. No entanto, para Rémond, na Europa dividida em duas (ocidental e oriental) o nacionalismo aconteceu de forma dissimétrica e complexa. Enquanto a parte ocidental foi “mais aberta às mudanças e voltada para o futuro, [a] outra [foi] mais fiel ao passado, não se engajando sem desconfiança no presente”[4]. Para ele, o nacionalismo russo era de direita e tendia a “conservar ou restaurar uma ordem social e política de antigo regime” [5]
Para Rémond, a característica comum dos “diversos” nacionalismos foi a participação dos intelectuais no processo, segundo ele, “o movimento das nacionalidades no século XIX foi em parte obra dos intelectuais, graças aos escritores que contribuem para o renascer do sentimento nacional”[6], Ideia também defendida por Benedict Anderson em Comunidades Imaginadas quanto levanta a importância da escrita e a circulação de material impresso para o processo de nacionalização.
Dostoiéviski foi parte ativa no processo e, a partir dos contos em questão, é possível perceber que para ele a nacionalização e a ideia de progresso corrente no século XIX eram caminhos opostos, uma vez que aceitar a modernização conforme posta por Alexandre II era aceitar a substituição do modo de vida tradicional russo pelo modo de vida europeu, devorador e sem conteúdo. Dostoiéviski passa, então, a criticar as consequências dessa modernização. Assume claramente sua posição contra a ocidentalização da Rússia[7].
- Crocodilo: A construção da narrativa
Crocodilo, conto inacabado publicado em 1864, é uma sátira da burocracia russa, do pensamento progressista e crítica à expansão do imperialismo cultural da Europa ocidental, sobretudo ao seu modelo econômico, o capitalismo. O conto tem como cenário principal a galeria em São Petersburgo, em torno de um funcionário público, sua esposa e amigo (o narrador), imigrantes alemães e seu crocodilo.
O texto é de caráter cômico e fantástico, no entanto, com teor de depoimento, de relato. Numa lógica jornalística, o narrador pretende nos fazer crer que se trata de uma história real, ainda que assuma o quão absurda é. Com passagens compradas à Europa Ocidental, o funcionário público Ivan Matviéitch decidiu antes fazer, com sua esposa e amigo, uma rápida passagem na galeria onde um crocodilo estava sendo exposto por alemães à visitação do público. Nesta visita, Ivan é engolido inteiro pelo animal em exposição e se mantém vivo. A partir daí o conto se desenrola.
Cada uma das personagens representa figuras aparentemente simples e cotidianas, no entanto, parte da crítica à sociedade se mostra nas falhas de caráter apresentadas por cada uma delas.
Ivan Matviéitch, influenciado pelo pensamento capitalista, decidiu ficar na barriga do crocodilo (que representa o sistema capitalista e o progresso) em nome dos “princípios econômicos”, o que se torna possível por meio do sistema de retroalimentação entre ele e o animal. Autoritário, irritadiço e ríspido, nas palavras do narrador, Ivan tem ideias de grandeza, sente-se capaz de mudar a sociedade, com sistemas que passou a formular de dentro do crocodilo, e de se tornar conhecido, invejado e respeitado. Projeções que para o narrador é sintoma da febre que deveria o estar acometendo. Para Ivan, conformar-se com seu destino (no caso, o de ser engolido pelo novo sistema) era sinônimo de grandeza de espírito.
Ielena Ivânovna, a esposa, “um bombom”, bonita, sedutora e manipuladora, se mostra indiferente à situação do marido. Não se interessa pelos princípios econômicos e assuntos maçantes. A intelectualidade não lhe atrai, se preocupa com aspectos práticos da vida, como sua condição de “tecnicamente viúva”. Ao saber que Ivan se mantém vivo no interior do crocodilo, passa a pensar no divórcio, vai a bailes, joga cartas e possivelmente comete adultério (o autor não deixa claro, mas o narrador dá indícios dessa possibilidade).
Os alemães (mãe e filho), donos do crocodilo, representam o estrangeiro, o europeu ocidental. Violentos, grosseiros, desorganizados e sujos (de roupas “ensebadas”), no entanto, muito orgulhosos de si. Gananciosos e não muito inteligentes. O filho já adulto mostra muita dependência com relação à mãe, que controla toda a situação. Rude e hostil, no entanto, demonstra imensa afeição ao crocodilo, sua fonte de renda.
Timofiéi Siêmionitch, conservador colega de repartição de Ivan e do narrador, completava 50 anos de serviço. Ivan o considerava um sábio, sendo, portanto, a pessoa mais apropriada para ajudá-los. Timofiéi aconselha a permanência de Ivan no interior do animal, por acreditar nos princípios econômicos. Defende o sistema capitalista e a entrada de influência ocidental a partir do que ouviu em uma reunião que tivera na casa de amigos. A passagem do narrador por essa personagem é bastante interessante. Nela, Dostoiévski, faz clara crítica à introdução das ideias econômicas ocidentais, que seriam deglutidas por personagens como Timofiéi, com pouca ou nenhuma reflexão.
Por fim, Siemión Siemiônitch, o narrador. Siemión não relata os acontecimentos com distanciamento, além de participar deles, antecipa o caráter das demais personagens e o tempo todo apresenta suas opiniões e ironicamente, encerra sua participação no conto declarando: “pressinto não ter o direito de transmitir as minhas impressões particulares, prosaicas, em vista de um acontecimento tão admirável e original” (p. 62).  Mostra-se a mais realista e crítica das personagens, no entanto, é submisso a todas as outras (obedece a Ivan, é seduzido por Ielena e não consegue se impor a Timofiéi). Alimenta uma relação de amor e ódio com relação a Ivan, e mesmo com todo o descontentamento ante a relação entre os dois, não consegue deixar de obedecer aos mandos do amigo e parente distante que ele não suporta, ainda que admire. Sua relação com Ielena caminha entre o paternalismo e o desejo sexual. O cinismo com que trata as demais personagens está sempre evidente.
- Nacionalismo, capitalismo, burocracia, imprensa
Entendendo Dostoiévski dentro do movimento das nacionalidades, percebemos em Crocodilo a defesa das tradições russas em detrimento da crescente introdução de costumes ocidentais, o que fica ainda mais claro em Notas de Inverno sobre impressões de Verão. Enquanto a Europa ocidental defendeu seu imperialismo como medida para levar a civilização aos povos bárbaros, Ivan, quando da sua visita ao crocodilo, disse que a faria para familiarizar-se com os aborígines que a povoam”, supondo a superioridade do povo russo.
O crocodilo seria o próprio capitalismo e o progresso, (representado pelo monstro devorador de gente e pela propriedade privada) que é exposto e admirado na Rússia, engole sua burocracia e a intelectualidade e, no entanto, é vazio e nada oferece. É possível viver dentro do monstro, com alguma dificuldade - que pode ser minimizada pelo próprio sistema. Ivan, por exemplo, defende que casimira britânica é muito mais resistente que a russa, devendo ter sua importação facilitada, pois outros poderão entrar em crocodilos para formular novas teorias -, mas com a certeza de que é o melhor a ser feito, como é representado pelo sentimento de grandeza de Ivan, que estando dentro do monstro poderá oferecer benefícios à humanidade. O que na realidade não passa, na visão de seu sensato amigo, de devaneios febris.
Fica aparente a crítica com relação ao sistema burocrático russo. Dostoiévski parece querer demonstrar certa desocupação do funcionalismo público, quando, por exemplo, Ivan se afasta do trabalho por problemas de saúde (que não é mais mencionado durante toda a narrativa); Timofiéi parece estar sempre em casa, já deitado antes das seis. Outra questão levantada é a lentidão e excesso de burocracia do sistema administrativo: Timofiéi levanta o problema dos dados estatísticos que são coletados e não geram informação e nem conhecimento, mas são simplesmente acumulados; além de demonstrar descrédito quanto à possibilidade de Ivan continuar a receber seus soldos com a justificativa de estar em missão especial pelo fato de os regimentos não prever tal situação e resolvê-la levaria muito tempo.
Dostoiévski aproveitou para criticar a intelectualidade progressista. Termos como “princípios econômicos”, “capitais estrangeiros” e outros conceitos ligados ao sistema capitalista, colocados no contexto da narrativa, parecem ter o objetivo de escárnio ao sistema, levando o leitor ao riso. Para ele, a intelectualidade não é crítica, somente repete e segue os discursos ocidentais sem qualquer reflexão prévia. Dentro desta lógica, o autor critica a imprensa, partidária que destorce e demonstra desconhecimento sobre os fatos, mas, ainda sim consegue manipular seu público.
- Notas de Inverno sobre Impressões de Verão: Relações
Notas de Inverno sobre Impressões de Verão é, em certa medida, a viagem que Ivan teria feito se não tivesse sido engolido pelo crocodilo.  Interessante notar que Dostoiéviski não fez um registro de viajante como os que circulavam o mundo em publicações[8], com descrições estéticas de elementos de interesse histórico e turístico, mas, registrou, em longos parágrafos, as impressões nele despertadas quando de sua passagem pelas cidades da Europa Ocidental, sobretudo ao que diz respeito à França, Inglaterra e Alemanha. O resultado é, em consonância com Crocodilo, um relato crítico dessas (ou dessa, entendida por ele como “A Europa europeia”) sociedades e do progresso ocidental como modelo e, defesa da nacionalidade russa.
Em “Notas” a crítica ao modelo ocidental é reforçada pelo ponto de vista de quem vê seus problemas de perto. Dostoiéviski apontou as ambiguidades do sistema capitalista, contrapondo, por exemplo, o progresso ocidental à pobreza. Descreveu a ordem burguesa: a organização das metrópoles e os mecanismos dos quais a burguesia lançam mão para esconder - e acreditar não existir - a pobreza que produz e o sofrimento da classe operária, os “escravos brancos” responsáveis pela manutenção do sistema e fruto dele. Mostrou que o sistema oferece vantagens e comodidade a poucos, “para aqueles que têm direito ás comodidades” (p. 112) sendo o restante devorado pelo imenso crocodilo.
Para ele o progresso é fruto do “desenvolvimento normal” e não da civilização (do modo de vida europeu). Encomendar a Europa (comprar o que ocidente produz, assimilar seu modo de pensar e viver) não garante o progresso, ao contrário, tiraniza os povos. Lamentou o fato de, em Rússia, a influência já ter penetrado a tal ponto que as tradições passaram a ser vistas como sinais de barbárie.
Usando o francês de exemplo, questionou o caráter e a moralidade na sociedade burguesa, onde não existe liberdade, igualdade ou fraternidade e o “dinheiro constitui a suprema virtude e obrigação humana (pp. 126 – 127) e, por ele, tudo é permitido e perdoável e, divide com o leitor uma inquietude. Para ele o burguês teme a algo, não podendo ser os “argumentos da razão pura”, pois esses nem sequer existem (p.129), nem os operários, pois esses são, em verdade, burgueses em potencial (tudo o que querem é ser proprietário); assim como não pode ser os camponeses, nem aos socialistas e comunistas (pois esses já são vencidos por ele). O burguês reina único sobre a terra e, possuindo tudo, teme tudo perder (p. 136), por isso espiona, controla, tiraniza.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo.  São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
BARRETO, Margarita. Manual de iniciação do turismo. 13 ed. rev. e atual. Campinas: Papirus, 2003. Coleção Turismo. Capítulo 5: Turismo da História. pp. 43 – 58.
DOSTOIÉVISKI, Fiódor. O Crocodilo e Notas de Inverno sobre Impressões de Verão. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2000.
KENNEDY, Paul. Ascensão e queda dos grandes impérios. RJ: Campus, 1989, capítulo 4: A industrialização e os instáveis equilíbrios globais1815 – 1885. pp. 143 – 189.
RÉMOND, Remond. O século XIX (1815 – 1914). Introdução à história de nosso tempo. V2. Tradução de Frederico Pessoa de Barros. São Paulo: Editora Cultrix, 1974.




[1] REMOND, 1974, p. 149
[2] ANDERSON, 2011, p.171
[3] Idem, p. 132
[4] REMOND, 1974, p. 157
[5] Idem, p.166-7
[6] REMOND, 1974,p. 150
[7] Como nos lembra KENNEDY, 1989, p. 149, “o ‘impacto do homem ocidental’ foi, em todas as suas formas, um dos aspectos mais evidentes da dinâmica do poder mundial no século XIX”.
[8] Para BARRETO, MARGARITA, 2003, p. 51, o “turismo sempre esteve ligado ao modo de produção e desenvolvimento tecnológico, o primeiro determinando quem viaja e o segundo, como fazê-lo. Neste sentido, possibilitados pelo avanço dos meios de transporte e pelo poder aquisitivo em expansão nos grandes centros, quem podia, viajava, quem não podia, passava cada vez mais a consumir literatura de viagem.

Coração das Trevas

Por Lucas Alves de Araújo


Filho de militantes e patriotas empenhados na luta contra o domínio russo na Polônia, o escritor de língua inglesa, Józef Teodor Konrad Korzeniowski, nasceu em 1857, em Berditchev. O autor teve o seu primeiro contato com a língua inglesa através de seu pai, tradutor de Shakespeare e outros autores renomados, no período em que esteve exilado com a sua família na Rússia. Em 1874, ingressou na Escola de Marinha de Marselhesa, onde descobriu a “relação de amor com o mar” que influenciaria a sua obra. Em 1884, recebeu a cidadania britânica adotando o nome Joseph Conrad. Ao longo de sua vida na marinha Conrad esteve em lugares variados da África, Ásia, América e Europa.[1]
As experiências dessas viagens foram importantes para a produção do autor, como é possível observar em Coração das Trevas, publicado em 1899, na Blackwood’s Magazine, anos após a sua viagem à África Central, onde comandou um vapor no rio Congo e constatou “que a filantropia europeia servia de cobertura à mais abjeta sujeição das africanos”.[2] A novela de Conrad foi publicada em um contexto em que as visões sobre o processo de colonização no Congo haviam se alterado e foi recebida como uma denúncia da exploração colonial no Congo, mais especificamente uma denúncia  da exploração resultante do colonialismo belga.
            A novela de Conrad, Coração das Trevas, foi produzida no contexto da expansão imperialista, denominado “A era dos Impérios”[3], no qual as potências europeias dividiram os territórios do mundo em duas categorias: a de povos avançados (civilizados) e a de povos atrasados (bárbaros). Enquanto povos avançados, essas potências se arrogaram o direito de dividir entre si a parcela atrasada do globo e partiram para a disputa e conquista de novos territórios, abrindo uma nova fase no desenvolvimento nacional e internacional para a expansão do capitalismo.
            Conforme assinala Edward Said acerca do imperialismo e do colonialismo, “ambos são sustentados e talvez impelidos por potentes formações ideológicas que incluem a noção de que certos territórios e povos precisam e imploram pela dominação.”[4] Essa noção de que alguns povos “precisam” ser dominados constitui o fardo do homem branco no século XIX: promover a civilização das “raças inferiores”.
 “Abrir à civilização a única parte do globo onde ela ainda não penetrou, transpassar as trevas que envolvem populações inteiras, constitui, ouso dizer, uma cruzada digna deste século de progresso [...].”[5] A fala de Leopoldo II, rei da Bélgica, proferida na Conferência Geográfica de Bruxelas, em 1876, ilustra o imaginário imperialista vigente no século XIX.
            A narrativa de Conrad se inicia com um narrador desconhecido que descreve o ambiente, o estuário do Tâmisa, no qual se encontra o vapor com destino ao coração da selva africana, e apresenta alguns personagens, introduzindo Marlow, o narrador protagonista que irá relatar a sua viagem ao interior da selva africana que tinha por objetivo o resgate de Kurtz, um ganancioso e respeitado comprador de marfim. 
“Viajávamos pela Terra pré-histórica, uma Terra que tinha um aspecto de um planeta desconhecido”[6], assim diz Marlow sobre a viagem ao interior da África, revelando o incômodo de adentrar o mundo desconhecido onde o homem branco não possuía conhecimento ou experiência alguma.
Ao longo da narrativa percebemos o olhar de estranhamento do colonizador que penetra o coração da selva africana sobre o “desconhecido”, tal olhar é marcado pela suposta superioridade do homem branco e o universo africano é visto a todo o momento como algo sombrio e selvagem. Dotado de razão e conteúdos civilizatórios o homem branco tem como missão promover o desenvolvimento dos povos atrasados, primitivos selvagens que se encontram mergulhados em barbárie.
A ideologia civilizatória pode ser vista na passagem em que Marlow fala sobre a conquista realizada pela Companhia que o contratou para a missão no interior da selva africana: “A conquista da terra, que antes de mais nada significa tomá-la dos que tem a pele de outra cor ou o nariz um pouco mais chato que o nosso, nunca é uma coisa bonita quando a examinamos bem de perto. Só o que redime a conquista é a ideia.”[7]
 A ideia que “redime” a conquista é a de superioridade dos homens brancos civilizados, responsáveis pela promoção e desenvolvimento dos povos atrasados. Destarte toda e qualquer ação do colonizador se justifica porque o homem branco, a serviço da civilidade, é o responsável pelo desencravamento dos povos bárbaros, ainda que tal desencravamento se dê por meio de medidas monstruosas: “Exterminem todos os brutos!”.[8]
Conforme relata Alencastro no posfácio de Coração das Trevas, entre os críticos da obra de Conrad prevalecem duas linhas de interpretação: a primeira refere-se à desumanização e à violência perpetradas pelo colonialismo europeu na África; a segunda concerne à inquietação existencial advinda do confronto dos indivíduos com a ruptura dos laços sociais.
Na primeira parte da obra podemos perceber uma abordagem acerca dos efeitos do imperialismo europeu na África. Marlow faz uma crítica aos métodos utilizados pela Companhia na qual trabalha: “Mas esses sujeitos, no fim das contas, não eram agentes de muito preparo. Não eram colonos. A administração que exerciam, acho eu, era pura extorsão e nada mais. Eram conquistadores, e para isso basta a força bruta – nada de que alguém possa se vangloriar, pois a sua força não passa de um acidente produzido pela fraqueza dos outros”. Essa passagem apresenta uma questão evidente no processo de colonização da África: a ausência da igualdade bélica, que inviabiliza a resistência dos africanos, fazendo com que eles negociem a sua soberania.
Já na segunda metade da narrativa, onde finalmente aparece o personagem Kurtz, podemos perceber o drama do colonizar no processo civilizatório, que é brutal e enlouquecedor. Muito embora firme e muito respeitado por sua reputação, Kurtz acaba sucumbindo ao universo de trevas: “O horror! O horror!”, essas foram as suas últimas palavras.
Na narrativa de Conrad o “coração de trevas” não é claramente definido, o que possibilita algumas sugestões. Podemos inferir que as trevas compreende todo o universo sombrio e bárbaro do coração da selva africana, assim visto pelo homem branco colonizado. Ou ainda, o próprio coração do colonizador, materializado na figura de Kurtz, que movido por uma ambição profunda é capaz de realizar os atos mais covardes em benefício do “progresso” e da “civilização”.
Para Edward Said, Conrad pode perceber “que as trevas sempre presentes podiam ser colonizadas ou iluminadas” e que “cumpria reconhecer sua independência”.[9] Assim sendo, Kurtz pode conhecer as trevas ao morrer e Marlow ao refletir sobre as últimas palavras do comprador de marfim.
 “Eles (e Conrad, naturalmente) estão à frente de seu tempo por entender que as ditas “trevas” possuem autonomia própria, e podem retomar e reivindicar o que o imperialismo havia considerado como seu. Mas Marlow e Kurtz também são pessoas de sua própria época e não conseguem dar o passo seguinte, que seria reconhecer que o que viam, de modo depreciativo e desqualificador, como ‘treva’ não europeia era de fato um mundo não europeu resistindo ao imperialismo, para algum dia reconquistar a soberania e independência, e não, como diz Conrad de maneira reducionista, para restaurar as trevas.”[10]

Ainda segundo Said, a despeito de suas críticas ao imperialismo e de enxergar os efeitos dessa política que consistia na dominação de povos e na ocupação de territórios, Conrad não aponta para a necessidade de erradicar o imperialismo de modo que os povos africanos possam enfim viver livre do julgo europeu. Ele “não podia admitir a liberdade para os nativos”[11], fato que revela uma posição eurocêntrica do autor.




Referências Bibliográficas
CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
HOBSBAWM, Eric J. Era dos Impérios: 1875 – 1914. Tradução Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
SAID, Edward. Cultura e imperialismo. Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Cia das Letras, 1995.



[1]CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia das Letras, 2008, p. 181. 
[2] ALENCASTRO, Luiz Felipe de. “Persistência de trevas”. In: CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia das Letras, 2008, p. 158 e 170.
[3] HOBSBAWM, Eric J. Era dos Impérios: 1875 – 1914. Tradução Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998, p. 88.
[4]SAID, Edward. Cultura e imperialismo. Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p. 40.
[5] ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Op. Cit., p. 170.
[6] CONRAD, Joseph. Op. Cit., p. 58.
[7] CONRAD, Joseph. Op. Cit., p. 15.
[8]CONRAD, Joseph. Op. Cit., p. 81.
[9] SAID, Edward. Op. Cit., p. 63.
[10] Idem.
[11] Idem.