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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Crocodilo e Notas de Inverno Sobre Impressões de Verão

Por Evelyn Ariane Lauro


Para entender os contos de Dostoiéviski, dois fatores relativos ao contexto histórico de sua produção são de extrema importância: A política interna russa e os movimentos nacionalistas na Europa.
Dostoiévski (1821 - 1881) viveu os governos Czaristas de Nicolau I e Alexandre II, marcados pelo expansionismo russo, a guerra da Criméia (1854 – 56) e as reformas alexandrinas - que introduziram a Rússia em uma onda de modernização que a alinhava com os países da Europa ocidental.
A Rússia, assim como toda a Europa do século XIX, vivia o que René Rémond chamou de O movimento das Nacionalidades[1] e que Benedict Anderson conclamou como Imperialismo e Nacionalismo Oficial[2] - ainda que na Rússia a questão só tenha tomado corpo de fato, como política de Estado, com Alexandre III (1881 - 1994)[3]. No entanto, para Rémond, na Europa dividida em duas (ocidental e oriental) o nacionalismo aconteceu de forma dissimétrica e complexa. Enquanto a parte ocidental foi “mais aberta às mudanças e voltada para o futuro, [a] outra [foi] mais fiel ao passado, não se engajando sem desconfiança no presente”[4]. Para ele, o nacionalismo russo era de direita e tendia a “conservar ou restaurar uma ordem social e política de antigo regime” [5]
Para Rémond, a característica comum dos “diversos” nacionalismos foi a participação dos intelectuais no processo, segundo ele, “o movimento das nacionalidades no século XIX foi em parte obra dos intelectuais, graças aos escritores que contribuem para o renascer do sentimento nacional”[6], Ideia também defendida por Benedict Anderson em Comunidades Imaginadas quanto levanta a importância da escrita e a circulação de material impresso para o processo de nacionalização.
Dostoiéviski foi parte ativa no processo e, a partir dos contos em questão, é possível perceber que para ele a nacionalização e a ideia de progresso corrente no século XIX eram caminhos opostos, uma vez que aceitar a modernização conforme posta por Alexandre II era aceitar a substituição do modo de vida tradicional russo pelo modo de vida europeu, devorador e sem conteúdo. Dostoiéviski passa, então, a criticar as consequências dessa modernização. Assume claramente sua posição contra a ocidentalização da Rússia[7].
- Crocodilo: A construção da narrativa
Crocodilo, conto inacabado publicado em 1864, é uma sátira da burocracia russa, do pensamento progressista e crítica à expansão do imperialismo cultural da Europa ocidental, sobretudo ao seu modelo econômico, o capitalismo. O conto tem como cenário principal a galeria em São Petersburgo, em torno de um funcionário público, sua esposa e amigo (o narrador), imigrantes alemães e seu crocodilo.
O texto é de caráter cômico e fantástico, no entanto, com teor de depoimento, de relato. Numa lógica jornalística, o narrador pretende nos fazer crer que se trata de uma história real, ainda que assuma o quão absurda é. Com passagens compradas à Europa Ocidental, o funcionário público Ivan Matviéitch decidiu antes fazer, com sua esposa e amigo, uma rápida passagem na galeria onde um crocodilo estava sendo exposto por alemães à visitação do público. Nesta visita, Ivan é engolido inteiro pelo animal em exposição e se mantém vivo. A partir daí o conto se desenrola.
Cada uma das personagens representa figuras aparentemente simples e cotidianas, no entanto, parte da crítica à sociedade se mostra nas falhas de caráter apresentadas por cada uma delas.
Ivan Matviéitch, influenciado pelo pensamento capitalista, decidiu ficar na barriga do crocodilo (que representa o sistema capitalista e o progresso) em nome dos “princípios econômicos”, o que se torna possível por meio do sistema de retroalimentação entre ele e o animal. Autoritário, irritadiço e ríspido, nas palavras do narrador, Ivan tem ideias de grandeza, sente-se capaz de mudar a sociedade, com sistemas que passou a formular de dentro do crocodilo, e de se tornar conhecido, invejado e respeitado. Projeções que para o narrador é sintoma da febre que deveria o estar acometendo. Para Ivan, conformar-se com seu destino (no caso, o de ser engolido pelo novo sistema) era sinônimo de grandeza de espírito.
Ielena Ivânovna, a esposa, “um bombom”, bonita, sedutora e manipuladora, se mostra indiferente à situação do marido. Não se interessa pelos princípios econômicos e assuntos maçantes. A intelectualidade não lhe atrai, se preocupa com aspectos práticos da vida, como sua condição de “tecnicamente viúva”. Ao saber que Ivan se mantém vivo no interior do crocodilo, passa a pensar no divórcio, vai a bailes, joga cartas e possivelmente comete adultério (o autor não deixa claro, mas o narrador dá indícios dessa possibilidade).
Os alemães (mãe e filho), donos do crocodilo, representam o estrangeiro, o europeu ocidental. Violentos, grosseiros, desorganizados e sujos (de roupas “ensebadas”), no entanto, muito orgulhosos de si. Gananciosos e não muito inteligentes. O filho já adulto mostra muita dependência com relação à mãe, que controla toda a situação. Rude e hostil, no entanto, demonstra imensa afeição ao crocodilo, sua fonte de renda.
Timofiéi Siêmionitch, conservador colega de repartição de Ivan e do narrador, completava 50 anos de serviço. Ivan o considerava um sábio, sendo, portanto, a pessoa mais apropriada para ajudá-los. Timofiéi aconselha a permanência de Ivan no interior do animal, por acreditar nos princípios econômicos. Defende o sistema capitalista e a entrada de influência ocidental a partir do que ouviu em uma reunião que tivera na casa de amigos. A passagem do narrador por essa personagem é bastante interessante. Nela, Dostoiévski, faz clara crítica à introdução das ideias econômicas ocidentais, que seriam deglutidas por personagens como Timofiéi, com pouca ou nenhuma reflexão.
Por fim, Siemión Siemiônitch, o narrador. Siemión não relata os acontecimentos com distanciamento, além de participar deles, antecipa o caráter das demais personagens e o tempo todo apresenta suas opiniões e ironicamente, encerra sua participação no conto declarando: “pressinto não ter o direito de transmitir as minhas impressões particulares, prosaicas, em vista de um acontecimento tão admirável e original” (p. 62).  Mostra-se a mais realista e crítica das personagens, no entanto, é submisso a todas as outras (obedece a Ivan, é seduzido por Ielena e não consegue se impor a Timofiéi). Alimenta uma relação de amor e ódio com relação a Ivan, e mesmo com todo o descontentamento ante a relação entre os dois, não consegue deixar de obedecer aos mandos do amigo e parente distante que ele não suporta, ainda que admire. Sua relação com Ielena caminha entre o paternalismo e o desejo sexual. O cinismo com que trata as demais personagens está sempre evidente.
- Nacionalismo, capitalismo, burocracia, imprensa
Entendendo Dostoiévski dentro do movimento das nacionalidades, percebemos em Crocodilo a defesa das tradições russas em detrimento da crescente introdução de costumes ocidentais, o que fica ainda mais claro em Notas de Inverno sobre impressões de Verão. Enquanto a Europa ocidental defendeu seu imperialismo como medida para levar a civilização aos povos bárbaros, Ivan, quando da sua visita ao crocodilo, disse que a faria para familiarizar-se com os aborígines que a povoam”, supondo a superioridade do povo russo.
O crocodilo seria o próprio capitalismo e o progresso, (representado pelo monstro devorador de gente e pela propriedade privada) que é exposto e admirado na Rússia, engole sua burocracia e a intelectualidade e, no entanto, é vazio e nada oferece. É possível viver dentro do monstro, com alguma dificuldade - que pode ser minimizada pelo próprio sistema. Ivan, por exemplo, defende que casimira britânica é muito mais resistente que a russa, devendo ter sua importação facilitada, pois outros poderão entrar em crocodilos para formular novas teorias -, mas com a certeza de que é o melhor a ser feito, como é representado pelo sentimento de grandeza de Ivan, que estando dentro do monstro poderá oferecer benefícios à humanidade. O que na realidade não passa, na visão de seu sensato amigo, de devaneios febris.
Fica aparente a crítica com relação ao sistema burocrático russo. Dostoiévski parece querer demonstrar certa desocupação do funcionalismo público, quando, por exemplo, Ivan se afasta do trabalho por problemas de saúde (que não é mais mencionado durante toda a narrativa); Timofiéi parece estar sempre em casa, já deitado antes das seis. Outra questão levantada é a lentidão e excesso de burocracia do sistema administrativo: Timofiéi levanta o problema dos dados estatísticos que são coletados e não geram informação e nem conhecimento, mas são simplesmente acumulados; além de demonstrar descrédito quanto à possibilidade de Ivan continuar a receber seus soldos com a justificativa de estar em missão especial pelo fato de os regimentos não prever tal situação e resolvê-la levaria muito tempo.
Dostoiévski aproveitou para criticar a intelectualidade progressista. Termos como “princípios econômicos”, “capitais estrangeiros” e outros conceitos ligados ao sistema capitalista, colocados no contexto da narrativa, parecem ter o objetivo de escárnio ao sistema, levando o leitor ao riso. Para ele, a intelectualidade não é crítica, somente repete e segue os discursos ocidentais sem qualquer reflexão prévia. Dentro desta lógica, o autor critica a imprensa, partidária que destorce e demonstra desconhecimento sobre os fatos, mas, ainda sim consegue manipular seu público.
- Notas de Inverno sobre Impressões de Verão: Relações
Notas de Inverno sobre Impressões de Verão é, em certa medida, a viagem que Ivan teria feito se não tivesse sido engolido pelo crocodilo.  Interessante notar que Dostoiéviski não fez um registro de viajante como os que circulavam o mundo em publicações[8], com descrições estéticas de elementos de interesse histórico e turístico, mas, registrou, em longos parágrafos, as impressões nele despertadas quando de sua passagem pelas cidades da Europa Ocidental, sobretudo ao que diz respeito à França, Inglaterra e Alemanha. O resultado é, em consonância com Crocodilo, um relato crítico dessas (ou dessa, entendida por ele como “A Europa europeia”) sociedades e do progresso ocidental como modelo e, defesa da nacionalidade russa.
Em “Notas” a crítica ao modelo ocidental é reforçada pelo ponto de vista de quem vê seus problemas de perto. Dostoiéviski apontou as ambiguidades do sistema capitalista, contrapondo, por exemplo, o progresso ocidental à pobreza. Descreveu a ordem burguesa: a organização das metrópoles e os mecanismos dos quais a burguesia lançam mão para esconder - e acreditar não existir - a pobreza que produz e o sofrimento da classe operária, os “escravos brancos” responsáveis pela manutenção do sistema e fruto dele. Mostrou que o sistema oferece vantagens e comodidade a poucos, “para aqueles que têm direito ás comodidades” (p. 112) sendo o restante devorado pelo imenso crocodilo.
Para ele o progresso é fruto do “desenvolvimento normal” e não da civilização (do modo de vida europeu). Encomendar a Europa (comprar o que ocidente produz, assimilar seu modo de pensar e viver) não garante o progresso, ao contrário, tiraniza os povos. Lamentou o fato de, em Rússia, a influência já ter penetrado a tal ponto que as tradições passaram a ser vistas como sinais de barbárie.
Usando o francês de exemplo, questionou o caráter e a moralidade na sociedade burguesa, onde não existe liberdade, igualdade ou fraternidade e o “dinheiro constitui a suprema virtude e obrigação humana (pp. 126 – 127) e, por ele, tudo é permitido e perdoável e, divide com o leitor uma inquietude. Para ele o burguês teme a algo, não podendo ser os “argumentos da razão pura”, pois esses nem sequer existem (p.129), nem os operários, pois esses são, em verdade, burgueses em potencial (tudo o que querem é ser proprietário); assim como não pode ser os camponeses, nem aos socialistas e comunistas (pois esses já são vencidos por ele). O burguês reina único sobre a terra e, possuindo tudo, teme tudo perder (p. 136), por isso espiona, controla, tiraniza.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo.  São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
BARRETO, Margarita. Manual de iniciação do turismo. 13 ed. rev. e atual. Campinas: Papirus, 2003. Coleção Turismo. Capítulo 5: Turismo da História. pp. 43 – 58.
DOSTOIÉVISKI, Fiódor. O Crocodilo e Notas de Inverno sobre Impressões de Verão. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2000.
KENNEDY, Paul. Ascensão e queda dos grandes impérios. RJ: Campus, 1989, capítulo 4: A industrialização e os instáveis equilíbrios globais1815 – 1885. pp. 143 – 189.
RÉMOND, Remond. O século XIX (1815 – 1914). Introdução à história de nosso tempo. V2. Tradução de Frederico Pessoa de Barros. São Paulo: Editora Cultrix, 1974.




[1] REMOND, 1974, p. 149
[2] ANDERSON, 2011, p.171
[3] Idem, p. 132
[4] REMOND, 1974, p. 157
[5] Idem, p.166-7
[6] REMOND, 1974,p. 150
[7] Como nos lembra KENNEDY, 1989, p. 149, “o ‘impacto do homem ocidental’ foi, em todas as suas formas, um dos aspectos mais evidentes da dinâmica do poder mundial no século XIX”.
[8] Para BARRETO, MARGARITA, 2003, p. 51, o “turismo sempre esteve ligado ao modo de produção e desenvolvimento tecnológico, o primeiro determinando quem viaja e o segundo, como fazê-lo. Neste sentido, possibilitados pelo avanço dos meios de transporte e pelo poder aquisitivo em expansão nos grandes centros, quem podia, viajava, quem não podia, passava cada vez mais a consumir literatura de viagem.

Coração das Trevas

Por Lucas Alves de Araújo


Filho de militantes e patriotas empenhados na luta contra o domínio russo na Polônia, o escritor de língua inglesa, Józef Teodor Konrad Korzeniowski, nasceu em 1857, em Berditchev. O autor teve o seu primeiro contato com a língua inglesa através de seu pai, tradutor de Shakespeare e outros autores renomados, no período em que esteve exilado com a sua família na Rússia. Em 1874, ingressou na Escola de Marinha de Marselhesa, onde descobriu a “relação de amor com o mar” que influenciaria a sua obra. Em 1884, recebeu a cidadania britânica adotando o nome Joseph Conrad. Ao longo de sua vida na marinha Conrad esteve em lugares variados da África, Ásia, América e Europa.[1]
As experiências dessas viagens foram importantes para a produção do autor, como é possível observar em Coração das Trevas, publicado em 1899, na Blackwood’s Magazine, anos após a sua viagem à África Central, onde comandou um vapor no rio Congo e constatou “que a filantropia europeia servia de cobertura à mais abjeta sujeição das africanos”.[2] A novela de Conrad foi publicada em um contexto em que as visões sobre o processo de colonização no Congo haviam se alterado e foi recebida como uma denúncia da exploração colonial no Congo, mais especificamente uma denúncia  da exploração resultante do colonialismo belga.
            A novela de Conrad, Coração das Trevas, foi produzida no contexto da expansão imperialista, denominado “A era dos Impérios”[3], no qual as potências europeias dividiram os territórios do mundo em duas categorias: a de povos avançados (civilizados) e a de povos atrasados (bárbaros). Enquanto povos avançados, essas potências se arrogaram o direito de dividir entre si a parcela atrasada do globo e partiram para a disputa e conquista de novos territórios, abrindo uma nova fase no desenvolvimento nacional e internacional para a expansão do capitalismo.
            Conforme assinala Edward Said acerca do imperialismo e do colonialismo, “ambos são sustentados e talvez impelidos por potentes formações ideológicas que incluem a noção de que certos territórios e povos precisam e imploram pela dominação.”[4] Essa noção de que alguns povos “precisam” ser dominados constitui o fardo do homem branco no século XIX: promover a civilização das “raças inferiores”.
 “Abrir à civilização a única parte do globo onde ela ainda não penetrou, transpassar as trevas que envolvem populações inteiras, constitui, ouso dizer, uma cruzada digna deste século de progresso [...].”[5] A fala de Leopoldo II, rei da Bélgica, proferida na Conferência Geográfica de Bruxelas, em 1876, ilustra o imaginário imperialista vigente no século XIX.
            A narrativa de Conrad se inicia com um narrador desconhecido que descreve o ambiente, o estuário do Tâmisa, no qual se encontra o vapor com destino ao coração da selva africana, e apresenta alguns personagens, introduzindo Marlow, o narrador protagonista que irá relatar a sua viagem ao interior da selva africana que tinha por objetivo o resgate de Kurtz, um ganancioso e respeitado comprador de marfim. 
“Viajávamos pela Terra pré-histórica, uma Terra que tinha um aspecto de um planeta desconhecido”[6], assim diz Marlow sobre a viagem ao interior da África, revelando o incômodo de adentrar o mundo desconhecido onde o homem branco não possuía conhecimento ou experiência alguma.
Ao longo da narrativa percebemos o olhar de estranhamento do colonizador que penetra o coração da selva africana sobre o “desconhecido”, tal olhar é marcado pela suposta superioridade do homem branco e o universo africano é visto a todo o momento como algo sombrio e selvagem. Dotado de razão e conteúdos civilizatórios o homem branco tem como missão promover o desenvolvimento dos povos atrasados, primitivos selvagens que se encontram mergulhados em barbárie.
A ideologia civilizatória pode ser vista na passagem em que Marlow fala sobre a conquista realizada pela Companhia que o contratou para a missão no interior da selva africana: “A conquista da terra, que antes de mais nada significa tomá-la dos que tem a pele de outra cor ou o nariz um pouco mais chato que o nosso, nunca é uma coisa bonita quando a examinamos bem de perto. Só o que redime a conquista é a ideia.”[7]
 A ideia que “redime” a conquista é a de superioridade dos homens brancos civilizados, responsáveis pela promoção e desenvolvimento dos povos atrasados. Destarte toda e qualquer ação do colonizador se justifica porque o homem branco, a serviço da civilidade, é o responsável pelo desencravamento dos povos bárbaros, ainda que tal desencravamento se dê por meio de medidas monstruosas: “Exterminem todos os brutos!”.[8]
Conforme relata Alencastro no posfácio de Coração das Trevas, entre os críticos da obra de Conrad prevalecem duas linhas de interpretação: a primeira refere-se à desumanização e à violência perpetradas pelo colonialismo europeu na África; a segunda concerne à inquietação existencial advinda do confronto dos indivíduos com a ruptura dos laços sociais.
Na primeira parte da obra podemos perceber uma abordagem acerca dos efeitos do imperialismo europeu na África. Marlow faz uma crítica aos métodos utilizados pela Companhia na qual trabalha: “Mas esses sujeitos, no fim das contas, não eram agentes de muito preparo. Não eram colonos. A administração que exerciam, acho eu, era pura extorsão e nada mais. Eram conquistadores, e para isso basta a força bruta – nada de que alguém possa se vangloriar, pois a sua força não passa de um acidente produzido pela fraqueza dos outros”. Essa passagem apresenta uma questão evidente no processo de colonização da África: a ausência da igualdade bélica, que inviabiliza a resistência dos africanos, fazendo com que eles negociem a sua soberania.
Já na segunda metade da narrativa, onde finalmente aparece o personagem Kurtz, podemos perceber o drama do colonizar no processo civilizatório, que é brutal e enlouquecedor. Muito embora firme e muito respeitado por sua reputação, Kurtz acaba sucumbindo ao universo de trevas: “O horror! O horror!”, essas foram as suas últimas palavras.
Na narrativa de Conrad o “coração de trevas” não é claramente definido, o que possibilita algumas sugestões. Podemos inferir que as trevas compreende todo o universo sombrio e bárbaro do coração da selva africana, assim visto pelo homem branco colonizado. Ou ainda, o próprio coração do colonizador, materializado na figura de Kurtz, que movido por uma ambição profunda é capaz de realizar os atos mais covardes em benefício do “progresso” e da “civilização”.
Para Edward Said, Conrad pode perceber “que as trevas sempre presentes podiam ser colonizadas ou iluminadas” e que “cumpria reconhecer sua independência”.[9] Assim sendo, Kurtz pode conhecer as trevas ao morrer e Marlow ao refletir sobre as últimas palavras do comprador de marfim.
 “Eles (e Conrad, naturalmente) estão à frente de seu tempo por entender que as ditas “trevas” possuem autonomia própria, e podem retomar e reivindicar o que o imperialismo havia considerado como seu. Mas Marlow e Kurtz também são pessoas de sua própria época e não conseguem dar o passo seguinte, que seria reconhecer que o que viam, de modo depreciativo e desqualificador, como ‘treva’ não europeia era de fato um mundo não europeu resistindo ao imperialismo, para algum dia reconquistar a soberania e independência, e não, como diz Conrad de maneira reducionista, para restaurar as trevas.”[10]

Ainda segundo Said, a despeito de suas críticas ao imperialismo e de enxergar os efeitos dessa política que consistia na dominação de povos e na ocupação de territórios, Conrad não aponta para a necessidade de erradicar o imperialismo de modo que os povos africanos possam enfim viver livre do julgo europeu. Ele “não podia admitir a liberdade para os nativos”[11], fato que revela uma posição eurocêntrica do autor.




Referências Bibliográficas
CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
HOBSBAWM, Eric J. Era dos Impérios: 1875 – 1914. Tradução Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
SAID, Edward. Cultura e imperialismo. Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Cia das Letras, 1995.



[1]CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia das Letras, 2008, p. 181. 
[2] ALENCASTRO, Luiz Felipe de. “Persistência de trevas”. In: CONRAD, Joseph. Coração das trevas. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia das Letras, 2008, p. 158 e 170.
[3] HOBSBAWM, Eric J. Era dos Impérios: 1875 – 1914. Tradução Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998, p. 88.
[4]SAID, Edward. Cultura e imperialismo. Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p. 40.
[5] ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Op. Cit., p. 170.
[6] CONRAD, Joseph. Op. Cit., p. 58.
[7] CONRAD, Joseph. Op. Cit., p. 15.
[8]CONRAD, Joseph. Op. Cit., p. 81.
[9] SAID, Edward. Op. Cit., p. 63.
[10] Idem.
[11] Idem.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Crônicas de guerras: a questão palestina no contexto do Século XX



Por  Daiana Maria da Silva
      Eduardo Geraldo Alves Paiva

A questão palestina está em voga nos noticiários de todo o mundo como mais o conflito no Oriente Médio. Todavia, é muito comum generalizar um confronto de décadas, entre os palestinos e israelenses, como um conflito religioso, territorial ou de outro tipo de forma simplista. A construção desse conflito é extrínseca à Palestina, pois ele surgiu como um desdobramento das guerras que sacudiram o mundo no Século XX.
A Palestina é uma região que guarda a cultura e a tradição das três maiores religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Mesmo com tamanha significação e importância para tradição desses povos, tem sido alvo de intensos conflitos, ocasionados principalmente pela intolerância e interesses políticos. Outro fator de relevância é a localização geográfica, ela fica entre o Deserto Arábico e o Mar Mediterrâneo, e suas terras constituem uma ponte terrestre entre a Ásia e a África. A soma desses dois fatores resulta em disputas territoriais que já custaram milhares de vida.
A questão palestina ganha grande relevância internacional em meados do século XX, dada sua relação com o pós II Guerra Mundial. A urgência de se criar um lar para o povo judeu, depois dos horrores do holocausto, desencadeou uma das mais longas disputas territoriais da contemporaneidade.

Antecedentes do Estado judaico
É sabido que o projeto de se criar um Estado judaico data do Século XIX, ao mesmo tempo em que a Europa era convulsionada por uma onda nacionalista, ocorrendo também como corolário desse processo o desenvolvimento do Sionismo, movimento nacionalista judaico criado por Theodor Herzl (1860-1904) e alimentado por intelectuais judeus radicados na Alemanha, Áustria, França e Rússia.
Segundo Herzl (1954), “A Palestina é nossa inolvidável pátria histórica. Esse nome por si só seria um toque de reunir poderosamente empolgante para o nosso povo”.(p.67). Isso se deve também a realização do 1º Congresso Sionista, realizado na cidade de Basiléia, na Suíça, em 1897. Nesse Congresso, entre os dias 29 e 31 de agosto, pela  primeira vez, depois da destruição do “Estado” judeu há quase 2.000 anos, reuniu-se
197 representantes de 17 países, tendo como principal objetivo a obtenção de um documento, reconhecido internacionalmente, que legitimasse o estabelecimento dos judeus na Palestina. Ao final do Primeiro Congresso Sionista, publicou-se um manifesto intitulado "O Programa da Basileia", no qual ficava implícito que o sionismo almejava para o povo judeu a criação de uma pátria na Palestina, nessa época sob o domínio do Império Turco-Otomano.
No final do Século XIX, os judeus começaram a afluir maciçamente à Palestina e consequentemente são criados assentamentos judaicos, chamados de Kibutzim.1 Mas tais assentamentos estão localizados em regiões predominantemente árabes e islâmicas, iniciando-se, assim, as hostilidades com os moradores árabes locais, que eram camponeses e proprietários temerosos de perder suas terras.
Assim, às vésperas da Primeira Grande Guerra, a comunidade judaica da Palestina oscilava em torno de 60.000 habitantes. Foi quando o turbilhão do conflito, de aspecto mundial, alterou o jogo de forças na região, comprometendo radicalmente a possibilidade de uma convivência pacífica entre os vizinhos árabes e judeus. A Primeira Grande Guerra (1914/1918) opôs entre si as grandes potências da época: Inglaterra,
França e Rússia de um lado, e Alemanha, Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano do outro. O Oriente Médio era um dos focos dessa disputa, na medida em que concentrava cerca de 70% das jazidas mundiais de petróleo. Do controle dessa fonte de energia, assim como do canal de Suez (passagem entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho) dependeria, em grande parte, a vitória de uma das partes.
O Oriente Médio e o seu futuro obscurante
Em 1917, durante a guerra, a Inglaterra posiciona-se favorável a criação de um Estado judeu, através da Declaração Balfour. Nesse período, a região estava sob o domínio do Império Turco-otomano, que lutara ao lado da derrotada Alemanha. Nos dizeres de Lewis (1996, p. 299), “A I Guerra Mundial foi a última que o Império Otomano travou como grande potência entre grandes potências”.
Esse conflito foi determinante para a reorganização territorial do Oriente Médio,pois os otomanos se viram obrigados a entregar seus territórios árabes aos britânicos e franceses. Sob o controle das duas maiores potências imperialistas do ocidente, o Oriente Médio viveu dias de intensos conflitos. Alguns estados conseguiram sua emancipação política e outros passaram a lutar mais intensamente por ela. Nesse
ínterim, a Palestina passou a ser um mandato britânico, e viveu a dubiedade política dos novos “tutores”.
No período entre guerras, sucessivas rebeliões ocorreram e o sentimento nacionalista, a despeito de ocidente, tomou conta dos povos que viviam no Oriente Médio, o que, segundo Lewis (1996):
Mas a construção da nacionalidade palestina não foi bem sucedida, pois dois povos, que já haviam vivido pacificamente em tempos remotos, disputavam o mesmo território e estavam à mercê dos interesses estrangeiros, principalmente britânicos. Sob o julgo do mandato britânico, que ora apoiava a causa judia, ora a palestina, não houve definições até o desenrolar da II Grande Guerra.
Em 1918, iniciava-se o Mandato Britânico na Palestina – que se estenderia até 1948 – e findava quatro séculos de domínio turco na região. Os melhoramentos rapidamente proporcionados pela nova administração inglesa - como a construção de ferrovias, rodovias, sistema de abastecimento de água e a implantação de uma estrutura administrativa – contribuíram para atrair novas levas de imigrantes judeus à Palestina.
Entre 1919 e 1923, chegaram milhares deles, procedentes da Rússia; a que se seguiu uma nova leva procedente da Polônia – entre 1924 e 1932.
Com a chegada de Adolf Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, e a consequente ascensão do nazismo, intensificou-se a migração judaica para a Palestina e, em contrapartida, aumentou-se o anti-semitismo que já era intenso. A ideologia desenvolvida no governo Hitler teve ampla aceitação no Oriente Médio, haja vista que a Alemanha era inimiga dos ingleses e franceses, os novos “tutores” do Oriente Médio, e que a aversão aos judeus também era latente. No prelúdio, no decorrer e no pós-guerra, a Inglaterra tentou controlar a migração, principalmente para tentar manter um bom relacionamento com os árabes. Configurava-se um novo conflito, para o qual a única solução possível foi sugerida em 1937 pela Inglaterra – a partilha do território entre os dois povos.
Os palestinos irão congregar o nacionalismo árabe para defender sua causa, mas acabam tornando-se mera bandeira para as nações que lideraram o pan-arabismo, sem,entretanto, conseguir uma definição sobre a formação de um Estado palestino. Em contrapartida, a organização do Estado judeu parece mais viável, apesar de ocorrer num lugar hostil ao povo judeu.
A partilha será realizada como um dos desfechos de mais uma guerra, após a derrota do eixo e do triste butim do conflito – mais de seis milhões de judeus mortos e outros milhares de expatriados e perseguidos na Europa. Além disso, a Europa, inclusive a Inglaterra, estava arrasada política e economicamente e não haveria mais como sustentar a política imperialista que vinha desenvolvendo desde o Século XIX.
Após o anúncio da resolução, as hostilidades entre judeus e palestinos se intensificam e sucessivos confrontos começam a ocorrer. Mesmo a contragosto de todo mundo árabe, o Estado de Israel é criado em 14 de maio de 1948. No mesmo ano da resolução, a Liga Árabe,2 formada em 1945, invade Israel, num conflito que ficou conhecido como Guerra Árabe-israelense. Nesse conflito, Israel sai vitorioso e passa a
controlar 75% dos territórios da Palestina. Como consequência, houve o êxodo dos palestinos para os campos de refugiados, nos quais a população árabe remanescente passou a viver, por sua vez, em condições extremamente precárias. Dessa forma, foram impossibilitados de retornar às suas aldeias destruídas pelos bombardeios e com o futuro indefinido, pois O Estado de Israel parecia pouco inclinado a aceitar seus antigos ocupantes árabes de volta.
É importante frisar que, de 1948 até 1967, Israel não era foco de interesses dos planejamentos estratégicos do bloco capitalista da Guerra Fria, liderado pelos EUA.
Mesmo com Israel alinhado ao “ocidente” após sua fundação, a força da simpatia soviética em Israel era enorme. Dentre outras, ainda que o presidente Eisenhower tenha apoiado tanto o Estado de Israel quanto as nações árabes, a tendência foi um favorecimento dos árabes, pois o tema petróleo já era, então, o principal foco para o governo estadunidense.
Após a “independência” de Israel, as constantes discordâncias israelenses com os objetivos políticos dos EUA na região culminaram com a crise de Suez – em 1956 –quando Grã-Bretanha e França aliaram-se a Israel contra o líder nacionalista do Egito Gamal Abdel Nasser, conflito esse em que Israel sai novamente vitorioso, consolidando-se como a maior potência militar do Oriente Médio. A vitória relâmpago de Israel levou a uma ocupação da Península do Sinai, um ponto estratégico dos estadunidenses na região, levando o presidente Eisenhower a exigir a retirada incondicional dos israelenses em Sinai. Esse fato marcou uma mudança crucial na história política de Israel, pois aliado a uma forte propaganda anti-sionista soviética,
Israel passou a se alinhar mais proximamente aos EUA, em busca de apoio não apenas do seu governo, mas da poderosa parcela judaica da população estadunidense, que até então não havia se interessado muito para com os problemas de Israel, salvas pouquíssimas exceções.
Já em 1964, ocorre a criação da Organização para a Libertação da Palestina –OLP – cuja pretensão inicial era destruir Israel e criar um Estado árabe na Palestina.
Desde o princípio, a OLP contou com o apoio da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS, e do bloco socialista; enquanto Israel tinha, nos Estados Unidos, representante dos países capitalistas, o seu principal aliado. 
Com o passar do tempo, após confrontos que demonstravam a superioridade militar israelense e devido às divisões internas, a OLP começa a aceitar tacitamente a existência do Estado judaico. Mas, em 5 de Junho de 1967, eclode a Guerra dos Seis Dias, quando o Estado judeu derrotou a coalizão árabe – Iraque, Jordânia, Síria, Líbano, Egito, Arábia Saudita e Iêmen – e adota uma política de anexações territoriais,
ampliando assim os seus territórios sobre os países vizinhos, fazendo com que mais de um milhão de palestinos passassem a viver sob sua jurisdição. Para Démant (2004): Logo após a Guerra dos Seis Dias, novos refugiados palestinos engrossaram as fileiras do Al Fatah, a maior facção da OLP, sediada agora na Jordânia e na periferia de Beirute, capital do Líbano. Em 1970, a organização contava com cerca de 30.000
guerrilheiros, e multiplicava seus atentados contra soldados e civis israelenses. Foi então que o Rei Hussein decidiu expulsá-los da Jordânia. A atuação daquele grupo de revolucionários antimonarquistas desestabilizava seu poder e suas relações com a vizinha Israel. Tal ação resultou na morte de 4.000 palestinos, e ficou conhecida na história da OLP como "o setembro negro da Jordânia".
Outro fato marcante a se destacar foi o sequestro de atletas israelenses por extremistas palestinos na Olimpíada de Munique, em 1972. No dia 5 de setembro, oito terroristas palestinos da organização “Setembro Negro” invadiram os alojamentos da delegação israelense na Vila Olímpica, mataram dois atletas e fizeram nove como reféns. O grupo exigia a libertação de 200 árabes presos em Israel. A Vila Olímpica foi cercada por quatro mil policiais. Com a chegada da noite, a polícia convenceu o comando a seguir para o Cairo – Egito. Dois helicópteros partiram com os oito palestinos e os nove reféns em direção ao aeroporto militar. Na chegada ao aeroporto, a polícia lançou um ataque que resultou em verdadeiro fracasso, no qual morreram 18 pessoas, entre elas os nove reféns, cinco terroristas palestinos, um policial e o piloto de um dos helicópteros. Qualquer atitude era considerada válida para os extremistas, porque auxiliava na tentativa de chamar a atenção da opinião pública internacional para a causa dos refugiados palestinos. 
Em 1973, ocorre a Guerra do Yom Kippur (“Dia do Perdão” judeu), episódio em que os países árabes uniram-se para atacar Israel. Israel sai vitorioso mais uma vez e consegue manter os territórios conquistados, contudo os palestinos conseguiram conquistar simpatizantes em todo o mundo. Após esse episódio, em 1974, o líder palestino Yasser Arafat foi calorosamente recebido na Assembléia das Nações Unidas
que, no ano seguinte, votou uma moção qualificando o movimento Sionista de "racista e segregacionista". Nesse ínterim, os árabes resolvem utilizar sua maior riqueza, o petróleo, para pressionar os países ocidentais que tendiam a apoiar Israel. A OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo – atenta para elevação do preço do petróleo, o que levam os Estados Unidos a se posicionarem para garantir seus interesses econômicos e provoca uma crise econômica internacional.
Durante o contexto da Guerra Fria, as potências da época, Estados Unidos e União Soviética, passam a intervir mais intensamente no Oriente Médio, sendo que os líderes do bloco capitalista se aproximam de Israel. A política de alianças entre os blocos antagônicos e os países do Oriente Médio dá novo fôlego aos confrontos.
Em 1978, um acordo de paz é celebrado entre Israel e Egito, até então, líder do bloco árabe. O acordo de Camp David representara um primeiro passo rumo à paz, mas não logrou êxito entre a maioria árabe. 
No decorrer da década de 1980, o conflito marcante ocorre entre Líbano e Israel.
Os israelenses invadem o Líbano em meio à guerra civil entre cristãos e muçulmanos, com intuito de atacar a OLP. No decorrer da guerra, centenas de refugiados palestinos são mortos, pois o Líbano possuía o maior número de refugiados no Oriente Médio.
Nesse contexto, O Hezbollah “Partido de Deus”, grupo fundamentalista islâmico – se organiza para combater Israel.
A partir de 1987, o maior foco de resistência palestina passou a concentrar-se nos próprios territórios ocupados de Gaza e da Cisjordânia, em Israel. Em Gaza, civis construíram barricadas, de onde atiravam paus e pedras nas patrulhas israelenses que por ali passavam; enquanto na Cisjordânia os trabalhadores organizaram greves contra seus patrões judeus. Era o início da Intifada – Guerra de Pedras. Essas manifestações geraram conflitos que repercutiram em âmbito internacional, negativamente para Israel,
já que muitos refugiados foram mortos a bala durante a Intifada. Essa forma de resistência possibilitou aos palestinos reconquistarem um pouco dos territórios ocupados pelos israelenses e também foi utilizada nas campanhas políticas da OLP, que obteve apoio internacional. O fato de Israel, com apoio dos Estados Unidos descumprirem decisões da Organização das Nações Unidas – ONU, também contribuiu
para a construção de uma imagem negativa de Israel. 
No início dos anos 1990, com a queda do regime soviético, Yasser Arafat mudou novamente de tática, e passou a buscar a paz com Israel. Na década de 1990, algo inédito acontece: um acordo de paz, mediado pelos Estados Unidos, começa a ser negociado. Em setembro de 1993, o presidente norte-americano Bill Clinton intermediou um novo encontro entre o líder da OLP e o premiê de Israel Itzhak Rabin.
Naquela ocasião, os grandes inimigos históricos assinaram um documento prevendo a criação do Estado da Palestina nos territórios de Gaza e da Cisjordânia - sob ocupação israelense desde 1967. Em julho do ano seguinte, após 27 anos de exílio, Arafat voltou à Faixa de Gaza. Por sua vez, o chanceler israelense Shimon Perez fez sua primeira visita oficial à Jordânia. Em 1995, um novo acordo estabeleceu a retirada das tropas de Israel da maior parte da Cisjordânia e marcou as primeiras eleições legislativas do futuro governo palestino para o início de 1996.
Arafat foi eleito presidente da recém-criada Autoridade Nacional da Palestina;mas com o assassinato do primeiro-ministro israelense Itzhak Rabin - que conduzia as negociações de paz - e a eleição de Benjamin Netanyahu, contrário à devolução dos territórios palestinos, o processo de paz foi refreado. O novo governo israelense estimulou a instalação de colônias judaicas na Cisjordânia e a construção de novas
moradias no setor árabe de Jerusalém, o que provocou acirrados protestos e novos atentados. Finalmente, em 1998, uma derradeira tentativa de solucionar a questão palestina foi ensaiada pelos Estados Unidos, que intermediaram mais uma rodada de negociações, em torno das fronteiras definitivas do Estado palestino. Contudo, no final do Século XX os refugiados palestinos continuaram vivendo nos países árabes vizinhos,
à espera de uma solução definitiva. Portanto, o século se despede sem que a paz alcance
o Oriente Médio, principalmente a Palestina.

Considerações finais
Ao longo de aproximadamente um século de conflitos, é notório que a interferência internacional contribuiu negativamente para a questão palestina. A gênese desse confronto está justamente na política das potências ocidentais, que, no decorrer do Século XX, envolveram o Oriente Médio em suas guerras e ambições.
O não reconhecimento da autonomia política dos palestinos é outro agravante,pois sob a bandeira do pan-arabismo e atualmente do pan-islamismo, os palestinos ainda não construíram a sua identidade enquanto palestinos, o que dificultou que esse povo pudesse tomar frente na construção de sua soberania nacional. A construção do nacionalismo palestino aconteceu em decorrência da construção do Estado de Israel, um
Estado feito aos moldes ocidentais em uma região predominantemente árabe.
A resolução para o conflito ainda está longe de acabar, pois os dois povos acreditam ter direitos históricos sobre a região e estão sempre diante dos interesses políticos e econômicos internacionais. A Palestina possui um passado relevante para o mundo todo e é lamentável que toda tentativa de apaziguamento esbarre em interesses políticos. Esperamos que o Século XXI, que já presenciou quase uma década de conflitos na Palestina, testemunhe um acordo de paz e, principalmente, que a tolerância seja uma bandeira comum à israelenses e palestinos.
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