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sábado, 3 de dezembro de 2011

Boemia Literária e Revolução

Por Evelyn Ariane Lauro

Robert Darnton é membro de uma família com tradição no jornalismo, mas ainda que tenha trabalhado para o The New York Times entre os anos de 1964 e 1965, escolheu a História. Formou-se em Harvard (EUA) na década de 1960 e doutorou na universidade inglesa de Oxford. Historiador cultural e social, especialista na França do século XVIII, tem o olhar voltado para o iluminismo, a Revolução Francesa e o mundo literário, é pioneiro em estudos acerca da história do livro. Lecionou no departamento de História da Universidade de Princeton e hoje é diretor da Biblioteca da Universidade de Harvard, a segunda maior do mundo, nos Estados Unidos da América[1], é responsável por um projeto de digitalização do acervo da biblioteca e fundador do sistema Gutemberg, ferramenta de difusão de obras literárias pela internet[2].

Autor de diversos artigos e obras de importância na historiografia contemporânea, tais como: O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa (1984), Revolução na impressão: a imprensa em França 1775-1800, editado com Daniel Roche (1989), O beijo de Lamourette: reflexões sobre a História Cultural (1989), Edição e Sedição (1991), Os best-sellers perdidos da França pré-revolucionária (1995), entre outros, tem como uma de suas características o estabelecimentos de diálogos entre a História e as Ciências Sociais, sobretudo a antropologia, com certa influência de Lawrence Stone, embora defenda que quantificações, modelos e conclusões duras, típicas de algumas ciências sociais são incompatíveis com a história, por ser essa uma ciência interpretativa[3].

Sua produção pertence ao período (o qual vivemos) de revisão historiográfica. Segundo Laura de Mello e Souza[4], as universidades têm suscitado debates entre os historiadores, submetendo clássicos da historiografia a análises críticas e releituras, incentivando produções com crescente rigor teórico e metodológico e, que tenham como ponto de partida o olhar social sobre a história, ou seja, que entenda que o homem enquanto parte de uma sociedade deve ser o fundamento da pesquisa histórica, como parte do movimento fundado por Bloch e Favre, com a escola dos Annales no final da década de 1920, propondo uma Nova História. A interdisciplinaridade da obra de Darnton é também uma das características deste movimento que, dente outras coisas, deu origem ao olhar sociológico para a história, como apresenta Ronaldo Vainfas[5].

Com o objetivo de estudar acerca da vida de Jacques-Pierre Brissot de Warville, líder jacobino, descobre os ricos arquivos da Societé Typographique de Neuchâtel (STN), maior editora suíça no período pré-Revolução Francesa, a partir de então resolve abandonar momentaneamente o projeto Brissot e parte para a história dos livros, sendo pioneiro no assunto, como já mencionado.

A STN se envolve intimamente com os escritores da baixa literatura, com a circulação de livros proibidos e pirateados na França do século XIX, em contato com o material que trazia às luzes este universo Darnon conclui tratar-se de “um mundo perdido de experiência literária que pacientemente esperou pela exploração que o resgatasse” (p. 148).

Em Boemia Literária e Revolução, Darnton traz à superfície o universo do submundo literário francês às vésperas da Revolução de 1789, até então negligenciado pelos historiadores e, portanto, desconhecido do público, com o objetivo de mostrar que não apenas dos tratados dos filósofos das Luzes (da academia, do le monde), mas também e principalmente da sub-literatura (da baixa literatura, a literatura marginal, dos excluídos do le monde, o underground) se alimentavam os valores que culminariam na revolução.

Nas palavras do próprio autor, “as origens intelectuais da Revolução e o caráter de sua política podem ser melhor compreendidos se descermos da Encyclopédie ao underground.” (p. 76)

Darnton consegue envolver o leitor na trama de intrigas e dissabores que compõem a trajetória das personagens que apresenta, de contrabandistas de literatura ilegal, panfletistas, filósofos fracassados que, com seus libelles, escritos subversivos, anticlerical, pornográficos, por vezes escatológicos, na maioria dos casos desprovidos de uma ideologia coerente, compartilhava de um ponto de vista revolucionário por denunciar a desmoralização social que consumia o Antigo Regime francês (Ancien Régime).

A circulação desta literatura só foi possível por meio do comércio clandestino realizado pelos personagens dos quais Darnton trata, que muitas vezes era quem custeava as edições que depois eram adquiridas por meio do contrabando pelos livreiros das pequenas cidades; quem arrastava pelas fronteiras francesas pesados engradados de livros proibidos, em sua maioria publicados pela editora suíça Société Typographique de Neuchâtel (STN), que buscava alimentar o mercado francês de títulos que não podiam ser produzidos legalmente no interior do reino.

O autor defende que, ainda que não existisse de forma organizada, o público francês do século XVIII, excluído de participação política direta (esta era de exclusividade palaciana), era pouco impactado pela obra dos grandes filósofos (Montesquieu, Voltaire, Diderot e Rousseau) circulante entre o le monde, mas que por sua vez, eram atraídos aos libelles e sua propaganda radical sobre a perversidade da nobreza, o despotismo da monarquia, a corrupção do clero e os delitos sexuais presentes nas três esferas.

Apresenta-nos que um título proibido com saída de 20 exemplares podia ser considerado de ótima vendagem e gerar grande efeito sobre a opinião pública alimentando o ódio ao Antigo Regime, ainda que esse alcançasse apenas a parcela letrada da sociedade na perspectiva de Roger Chartier.[6] Vale ressaltar que Darnton deixa claro que o público que mais consumia das fontes do underground era a burguesia, que podia pagar pelos livros, que freqüentava os salões, cafés e demais ambientes que Chartier[7] defende como “espaços onde pessoas privadas faziam uso público da razão” ou esfera pública burguesa.

A obra é dividida em sete partes, sendo um prefácio e seis capítulos, além de um rico pós-textual composto de notas; um glossário de palavras, de extrema importância para o entendimento do texto (uma vez que é composto por inúmeras expressões em francês); uma cronologia que busca organizar os assuntos discutido e um índice remissivo.

É interessante notar a preocupação na edição de 2007 (Cia das Letras) em fazer com que o conteúdo fosse transmitido de forma clara, optando por um texto corrido e de leitura fluida, com vocabulário simples ora chegando ao coloquial, atestado pelo uso de expressões como “alargar a brecha” ou “ficar de braços cruzados” dentre tantas outras. O uso de recursos pós-texto enriquece o trabalho oferecendo as explicações e indicações que se fazem necessárias para o entendimento do público brasileiro sem irromper em pausas abruptas na leitura geralmente ocasionadas pelas notas de fim de página.

Acredito que a proposta cronológica oferecida ao fim do livro é bastante importante para que o leitor, se necessário for, se organize, a final, como sugere o autor, o objetivo dele com o trabalho é apresentar estudos de casos que auxiliem na missão de responder, ou diminuir ao mínimo, às questões propostas ainda no prefácio, o que o faz de uma maneira não linear e, por muitas vezes, apresenta relações entre os fatos que busca debater e outros que não são discutidos ao longo do trabalho.

No prefácio o autor esclarece suas motivações de resgatar um mundo aparentemente morto, mas que ele descobriu estar demasiadamente vivo ao encontrar os documentos ainda intocados da Societé Typographique de Neuchâtel, na Suíça, a partir questionamentos os quais destaco três:

1 – Quão profundamente o iluminismo penetrou na sociedade francesa?

2 – Em que medida as ideias radicais contribuíram para destruir o Antigo Regime?

3 – Como os escritores tentavam carreira na república das letras?

No primeiro capítulo (O Alto Iluminismo e os subliteratos) é apresentado o caso de Jean-Baptiste Antoine Suard, um típico pensador do Alto Iluminismo (que alcança o Le mond). O autor prende a atenção do leitor ao descrever o universo dos grandes filósofos (Les Grands) e os homens de prestígio no mundo das letras, as regras e rituais próprios destes, a vida de quem vivia de pensões e escrevia com o objetivo de propagar uma imagem favorável ao Antigo Regime. Darnton mostra, por exemplo, que os philosophes não se casavam, “mas o elevado status do philosophe no tempo de Suard fazia do casamento coisa concebível.” (p.16)

O ponto chave do capítulo é o estabelecimento das tensões entre os grandes e os subliteratos, estes segundos tidos pelos primeiros como espécie de gafanhotos que, nas palavras de Voitaire, não se passavam de pobres diabos que vivem de paixão (pelas letras) e morrem na miséria.

Para Darnton o ódio contra a aristocracia que transformava a república das letras em campo de despotismo era o que empurrava esses homens ao submundo das letras, que os transformavam em revolucionários.

O segundo capítulo (Um espião na boemia literária) trata do caso de Jacques-Pierre Brissot de Warville (líder Girondino), Darnton a partir da imagem formulada pelo próprio Brissot por meio de sua autobiografia em contraste com a documentação encontrada nos arquivos da ANT mostra ao leitor o quão dúbia é a reputação desta personagem e o quanto é difícil tentar formular uma identidade para ele a partir de seu caráter. Se por um lado Brissot se definia como espírito subvertido contra o sistema e incapaz de ser corrompido, de outro, os arquivos o mostram submerso em intrigas e boatos de que espionava para a polícia.

O que a história desta personagem nos mostra é que, acima de tudo, não há como separar em dois blocos distintos heróis e vilões, por se tratar de pessoas que, tentando sobreviver têm que se ajustar à situação.

Não podemos esquecer de que discutimos acerca da vida de homens, muitas vezes chefes de família, que idealistas inseridos em uma dura realidade precisavam encontrar formas de sustento, o que significava em muitos casos aceitar qualquer trabalho mesmo que isso os tornam-se espiões ou agentes policiais contra seu meio ou, simplesmente se submeterem a trabalhos literário menores como compilar antologias, escrever para jornais, mascatear manuscritos, contrabandear livros proibidos, tornando-se mercadores de ideas.

Explicita, ainda, que a reputação de Brissot faz parte de “aquelas coisas que transformam intrigas pessoais, e rivalidade de facções, em combate ideológico pelo destino da França.” (p.76)

Nos dois capítulos seguintes (Um Panfletista em Fuga e Um Livreiro Clandestino da Província), é apresentado um cenário da divulgação e comercialização da literatura proibida no século XVIII. Mostra que nomes como Le Senne e Mauvelain poderiam ter desaparecido para sempre, assim como aconteceu de fato com a maioria dos outros subliteratos e seus escritos, não fossem suas abundantes correspondências com a STN.

Para Darnton, personagens que cumpriam papéis intermediários na difusão das obras proibidas (anticlericais, sediciosas e pornográficas) e pirateadas como Le Senne foram fundamentais, pois sem eles dificilmente o Iluminismo teria deixado os salões e se difundido entre as massas.

A trajetória de Le Senne destaca vários pontos importantes, como a transformação destes homens em marginais, uma vez que se veem desprovidos de outras alternativas. Le Senne, por exemplo, é um clérigo anticlerical que morre na miséria após passar longos períodos perambulando em fuga e implorando que a SNT lhe desse proteção ou ao menos publicasse seus livros para que pudesse se sustentar. O autor o apresenta como a personificação do pobre diabo de Voltaire e, por diversas vezes, traz ao texto trechos desta obra para explicitar as semelhanças.

Outro ponto de importância é a dessacralização da Igreja, a existência de um ‘underground’ eclesiástico contestador do alto clero e partidário do Iluminismo. O que o autor defende é que o principal papel do underground no processo revolucionário é justamente a dessacralização das instituições que fundamentavam o Antigo Regime, é a quebra dos mitos que unia o público a seus governantes e rompe com o ideário de representação divina na terra atribuída ao poder régio e ao alto clero, que se mostram despóticos, corruptos e submersos aos pecados da carne.

Nos últimos dois capítulos (Uma tipografia do outro lado da fronteira e Leitura, escrita e atividade editorial) o autor busca abordar o universo dos tipógrafos, as relações entre eles, com o trabalho e com os “bourgeois” (patrões), traçando um perfil daqueles que tinham em suas mãos a tarefa de materializar a literatura consumida no século XVIII.

Discute, ainda, as formas como o tema foi abordado pelos intelectuais até então e, indicando o que acredita ser os pontos fortes e fracos de cada uma das teses apresentadas, assim como a possibilidade de reunir os estudos a fim de compor um panorama mais próximo da realidade.

Finaliza esclarecendo o porquê dos produtos dos subliteratos, com destaque aos panfletos de propaganda contra o Antigo Regime, serem tão importantes ante o poder da opinião pública que tornava o regime vulnerável, sendo, neste sentido, muito mais importante que a produção teórica dos grandes filósofos, por romper o senso de decência que unia o público a seus governantes, desacralizando o poder monárquico que, segundo Marc Bloch[8] desde o medievo, pelo menos, tinha a imagem sob a efígie de um representante divino na terra, sendo dotado de caráter mágico, poder secular atribuído por Deus e, portanto, inquestionável. Convicção ainda muito presente nos séculos XVII e XVIII, como nos mostra Iara Lis de Carvalho Souza, em seu Pátria Coroada[9] onde discute o caráter divino da realeza a partir de O Príncipe Perfeito de Francisco Antonio de Novaes Campos, escrito no século XVII no qual defende que o poder do rei advém de Deus, mas que o primeiro tinha que se espelhar no segundo, governando sobre seus desígnios e ensinamentos.

Para Chartier[10], através da circulação impressa, o conhecimento, que fora restrito ao alto clero e que, necessariamente, provinha do soberano, torna-se relativamente acessível a quem sabia ler. Fazendo com que a gente comum ficasse mais perto dos livros, e a nobreza, tanto quanto a figura do Rei ia perdendo seu caráter sagrado por meio da circulação desse material, que como vimos, mostra a realeza submersa em podridão, nada semelhante à imagem de Deus.

Mostra ainda o quanto o sistema propicia, com sua ação seletiva, submetendo “a indústria editorial a um monopólio empalmado pelos membros da corporação de livreiros de Paris” (p. 115), a criação de uma “boemia quase-criminal”, de uma degeneração da filosofia em “libelle” promovendo uma espécie de suicídio.

Darnton teve como fonte para suas pesquisas os já mencionados documentos da Societé Typographique de Neuchâtel, na Suíça, uma das maiores editora entre as muitas que emergiram no século XVIII em torno da França contrabandeando para as províncias do Reino livros piratas ou proibidos, além dos arquivos da polícia, da Bastilha e da corporação dos livreiros, como menciona em passagens do texto.

É interessante ressaltar o quanto consegue, por meios de artifícios tais quais construir orações na interrogativa e em primeira pessoa, prender e reforçar a atenção do leitor para a obra.

Outros recursos como croquis, gráficos e excertos de textos fazem com que diminua a tensão criada a partir das intempéries vividas pelas personagens e dão ainda mais suavidade ao texto, além de fazer com que o foco do leitor volte às questões relativas à coesão entre a história do livro e a da Revolução Francesa.

Ao final, é possível concluir que o maior objetivo do autor fora alcançado, deixar claro que o período pré-revolucionário francês produziu muito mais do que os tratados dos grandes filósofos e que não dá para concluir sobre a mentalidade, os hábitos de leitura e a indústria literária francesa do século XVIII desconsiderando o universo da subliteratura e que esta teve participação muito mais impactante no público geral (a gente comum).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHARTIER, Roger. As origens culturais da Revolução Francesa. S.P. Unesp,

2004.

BLOCH, Marc. Os Reis Taumaturgos: o caráter sobrenatural do poder régio, França e Inglaterra. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

DARNTON, Robert. Boemia Literária e Revolução: o submundo das letras no Antigo Regime. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

ENTREVISTA com Robert Darnton, quando veio ao Brasil dar o curso "Literatura e Revolução na França, 1770-1790”. na V Jornada de Estudos Americanos realizada em agosto de 1989 na Fundação Casa de Rui Barbosa. Disponível em: <http://www.revistatopoi.org/numeros_anteriores/topoi05/topoi5ent.pdf >. Acesso em 07 de outubro de 2011.

SOUZA, Iara Lis Carvalho. Pátria Coroada: O Brasil como Corpo Político Autônomo 1780 – 1831. São Paulo: Fundação Editora Unesp, 199, p. 21 – 38.

SOUZA, Laura de Mello e. Aspectos da Historiografia da Cultura Sobre o Brasil Colonial. In: FREITAS, Marcos C. de (Org.) Historiografia Brasileira em Perspectiva. 6. ed. São Paulo: Contexto, 2005, p. 17 – 38.

VAINFAS, Ronaldo. Historia das Mentalidades e Historia Cultural. In: FREITAS, Marcos C. de (Org.) Historiografia Brasileira em Perspectiva. 6. ed. São Paulo: Contexto, 2005, p. 189 – 242.



[4] SOUZA, 2005.

[5] VAINFAS, 2005.

[6] Segundo Roger Chartier, em Origens Culturais da Revolução Francesa, a opinião pública toma corpo e importância ainda no século XVII, que alcança a liderança política mais forte que as autoridades estabelecidas, ou seja, e é soberana ao próprio soberano e nas últimas décadas do século XVIII é “instrumento poderoso tanto para a divisão como para a legitimação social.” (p. 71)

[7] CHARTIER, 2004. P.50

[8] BLOCH, 1993.

[9] SOUZA, 1998, p.22 – 24.

[10] CHARTIER, 2004.

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