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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A verdade é um estorvo

imagesPor Ivani de Araújo Medina

O século dezenove parecia que revolucionaria o mundo, mas ficou só na vontade. Por que será que o tempo passa, tanta coisa acontece, mas nada muda como se esperava? A expectativa é sempre frustrante quanto ao essencial. O fato de o progresso ser mais tecnológico parece indicar que a nossa existência está ligada a uma matriz de igual teor. O fator dominante, digamos assim. Nesse sentido, a idéia de que a Humanidade pode ser um subproduto de uma civilização celeste ou divina, surpreendentemente tecnológica, não parece absurda. Inclusive, os nossos criadores estariam justificados como seres superiores, oniscientes e onipresentes por causa do material genético cedido na criação duvidosa. Fosse o contrário, o progresso da inteligência e dos costumes humanos teriam se manifestado com maior intensidade no sentido amplo da Natureza.

Assim sendo, os valores temporais ligados a existência física se colocam acima das questões que temos como essenciais. Sobreviver e viver bem, antes de tudo, é a regra. A parte exilada resiste adaptar-se a própria realidade. Isso pode explicar muita coisa, inclusive, a possibilidade de uma atitude de defesa da natureza terrena, ao transformar o indivíduo no campo de batalha dessa disputa. Na terra de ninguém, fronteira entre as duas naturezas, mora o diabo (uma invenção primorosa). Ora bolas, céu não existe, o que existe é o lá fora, e de onde a natureza celeste ou divina veio, parece que não vai voltar. Não veio como parte, veio como inteiro, desse modo não haverão de querê-la por lá. Para expô-la a curiosidade pública? Só se for. O céu não vale à pena.

Ao que tudo indica, romanticamente, a religião auxiliada pela filosofia tentam desatar esse nó. O pensamento vai mais longe do que a prática porque ela precisa de tempo, do precioso elixir da realidade material. A prática é analógica e o pensamento é digital. Na realidade do pensamento o tempo não existe. Não por outro motivo, o antigo provérbio “faça o que eu digo e não faça o que eu faço” nunca perde sua aguda atualidade. Será que desse jeito chegaremos lá? Felizmente, as grandes transformações sempre couberam às minorias. No século dezenove, liberais luteranos buscaram a verdade sobre o mito Jesus Cristo. O resultado dos seus estudos e conclusões foi abafado pela maioria cristã. Até hoje, qualquer tentativa de esclarecimento do assunto é considerada grave infração moral.

A fé não precisa da mentira, por mais doce que ela seja. A mentira consterna. Apesar disso, inventaram no passado uma história que, segundo se estima, 2,2 bilhões de pessoas acreditam. No universo atual de, mais ou menos, 7 bilhões de pessoas, 1,8 bilhões acreditam numa outra e 3 bilhões ainda resistem a ambas. No mínimo, a esperança de que a previsão de um confronto nesse século entre as duas culturas heleno-judaicas não se consume ao extremo está nesses 3 bilhões. Essas culturas religiosas são como vasos comunicantes, esvaziando-se uma, se esvazia a outra.

O argumento daqueles mais intelectualizados que se afeiçoaram a fé cristã, mas não desconhecem a sua realidade histórica e a escondem até de si mesmos, é que os bilhões de crentes devem ser preservados e não seria ético expô-los a tamanho sofrimento. Eticamente questionando: o que preserva as pessoas do sofrimento é a verdade ou é a mentira? Aqui tratamos da regra geral, não de exceções casuais. Portanto, qual o caminho mais seguro através do tempo, quando a verdade é o limite? Onde fica o nosso compromisso com os que estão por vir? Diante disso, o que eles pensarão de nós?

É fácil ser bonzinho com os que estão diante dos nossos olhos e da nossa consciência. Faz muito bem para nós mesmos ajudar ao próximo. É uma sensação agradabilíssima. Mais difícil é exercitar o amor ao próximo que está na linha do tempo, porque não existem promessas nem as compensações habituais. Fazer hoje por alguém que ainda não existe, por alguém que jamais veremos a face e nem nos agradecerá olhando nos olhos, é um ato da mais pura fé. Contra essa certeza íntima, que não precisa estar exposta às inconstâncias do tempo, argumenta-se também que é preciso mentir, pois o povo não está preparado para fazer valer, diante dos próprios infortúnios, a sua parte exilada sem os artifícios criados pelas culturas religiosas. Do jeito que os dirigentes religiosos querem o povo nunca estará preparado para si mesmo. É a vigência do Mal travestido de Bem.

Oculta, a verdade dá margem a todo tipo de interpretação. Nesse estado de coisas somente as explicações rebuscadas e confusas são bem vindas. Na defesa da “fé”, os inocentes ajudam a dificultar ainda mais o caminho para o esclarecimento. Os que se servem conscientemente da credulidade e dos bons sentimentos alheios assistem a tudo com o controle remoto nas mãos. Afinal de contas, a quem iriam explorar se não fosse assim? Não só para estes o estímulo a imbecilidade é mais rentável e a verdade é um estorvo. Se isso não mudar, nada mudará. Foi esse o motivo pelo qual o século dezenove ficou só na intenção, mas não foi em vão. Não foi mesmo!

Publicado em http://www.artigosonline.com.br

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