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terça-feira, 3 de agosto de 2010

História, pós-modernismo e os testículos perdidos de um gato




Por Antônio Henrique Serrer
















Triste destino Zeus grande nos deu, para que nos celebrem,
nas gerações porvindoiras, os cantos excelsos dos vates
.(1)
HOMERO

A única coisa absolutamente certa é o futuro,
pois o passado está constantemente mudando
.(2)
AFORISMO IOGUSLAVO

Qualquer teoria física é sempre provisória, no sentido de que
não passa de uma hipótese: não pode ser comprovada jamais.
Não importa quantas vezes os resultados das experiências
concordem com uma teoria, não se pode ter certeza de
que, na próxima vez, o resultado não vá contradizê-la
.(3)
S. W. HAWKING

Observo meu gato comer calmamente sua ração, despreocupado de estar ficando gordo, tanto mais porque foi castrado, mutilação cruel que, paradoxalmente, ordenei que fosse feita em função de meu afeto por ele. Despojando-o de sua capacidade reprodutiva quis torná-lo mais caseiro, evitando que fosse assassinado por vizinhos, como aconteceu com a meia dúzia de bichanos anteriores, cujos testículos decidi manter intactos.(4)

Tem funcionado até agora e meu companheiro parece satisfeito com sua vida de eunuco. Não só não se preocupa com sua crescente obesidade. Não se preocupa com nada! (5) Especificamente pensei que sua vida é desprovida do drama da reflexão, que ele era feliz de não ter que se preocupar com os debates de uma hipotética ciência felina, enquanto eu, além de ter que me preocupar com questões práticas — tais como conseguir alguns trocados para comprar ração para gatos — frito os miolos com questões arcanas das ciências humanas. Como se não bastasse, me ocupo da História, que como uma espécie de madrasta má das humanidades — a Filosofia seria a mãe benevolente — vive sob constante ataque de seus enteados todos. É terrível.

Logo no começo de seu clássico Apologia da História, Marc Bloch registra a pergunta de uma criança, que logo adverte não ter nada de infantil: para que serve a História?(6) Essa pergunta, a meu ver, parece emergir da disputa entre a ciência humana e a ciência da natureza, onde a primeira está numa permanente desvantagem em demonstrar a efetiva cientificidade do conhecimento que produz. Ocorre que as disciplinas nomotéticas — ditas também “exatas” — podem explicitar o conhecimento que produzem em objetos palpáveis, funcionais, dotados de utilidade, que podem mesmo tornar-se emblemas da modernidade — o automóvel ou a bomba atômica, por exemplo. Quando somos interpelados a respeito da utilidade do conhecimento que produzimos podemos apresentar uma série de conceitos que validam nossas pesquisas, mas jamais temos uma resposta tão fácil e inequívoca como tem um engenheiro que nos apresenta uma máquina de lavar roupas, com trinta e oito programas de lavagem.(7)

A resposta que mais me agrada para uma provável utilidade da História, é que ela serve à compreensão do estado geral em que se encontra, atualmente, o empreendimento social, o que me permitiria — acho — definir minha própria localização e atuação dentro dele. Como as coisas nunca parecem estar indo muito bem do ponto de vista social e ambiental, resta que a análise crítica feita por historiadores — aqui penso naqueles que são norteados por uma genuína honestidade intelectual — pode resultar incômoda para diversos tipos de interesses. A crítica, contudo, necessariamente reflete um posicionamento que, no fundo, é sempre político. Temos assim que nossa “oposição” pode sempre alegar que nossa produção é instrumentalizada por interesses ideológicos, daí nunca ser objetiva e, portanto, científica. Creio que essa é a face mais comum dos ataques que enfrentamos.

Felizmente os próprios historiadores reconhecem, já há bom tempo, o problema da instrumentalização política. Daí que se esforçam — sofregamente até, eu diria — em responder outras duas perguntas, que derivam da primeira citada acima: Mas o que é a História? E, aliás, como se faz História? É necessário encontrar boas respostas para essas indagações, pois delas depende o status científico da matéria. Mas não é tarefa simples, pois como “ciência do homem” a História nos leva a percorrer, inevitavelmente, os intrincados meandros do fenômeno mental, labirinto medonho que pode ter em seu centro, não o Minotauro homicida, mas um “abismo teórico” “historicida”, que destruirá a disciplina. Acho, sinceramente, que devemos temer isso tanto quanto devemos temer um mito.

* * * * *

Na primeira epígrafe, versos da Ilíada, vemos Helena conversando com seu cunhado, Heitor, durante o cerco de Tróia pelos argivos. A sugestão contida aí — e também em outras passagens da epopéia — é a de que os guerreiros, com seus atos de bravura, tornam-se “imortais”, pois passam a fazer parte da História que será cantada pelos poetas. Figuras políticas parecem especialmente sensíveis a essa possibilidade de “superação” da morte por meio da História, já que uma das preocupações centrais de sua agenda parece ser a construção de um legado para a posteridade.(8) Mas é de se pensar o quanto os próprios historiadores contribuíram para essa crença.

Toco no desagradável tema da morte — tabu da modernidade — em função da contenda entre o que seria uma corrente “presentista” e outra “contextualista” do saber histórico, a primeira orientada para a pura estrutura do discurso, ignorando o sujeito histórico que o produziu, e a segunda preocupada em reconstruir o contexto histórico em que o discurso foi proferido, de forma a possibilitar o conhecimento do significado que o autor quis imprimir ao texto no momento de sua lavra.

É um debate teórico de todo interessante, que o espaço não permite desenvolver. Todavia, estando claro que não considero possível historiar sem levar em conta o contexto — seja lá o que isso for, de fato —, chamou minha atenção o problema da “dissolução do sujeito histórico” no caudal do discurso e a profunda rejeição dos contextualistas mais empedernidos a essa possibilidade. Quero dizer: sobressai o problema da “morte do autor”, como fonte de tensão no debate teórico. Ora, penso que também os intelectuais tenham uma pretensão de “superar” a morte com o legado de seu pensamento, de forma que pode ser doloroso constatar que um sujeito não sobrevive em sua própria obra. Mas isso é mera especulação de minha parte. Objetivamente temos que a diluição da fronteira entre texto e contexto, exposta por esse debate, constitui um formidável desafio epistemológico para os historiadores.(9)

* * * * *

As outras duas epígrafes servirão de apoio para meu comentário sobre o pós-modernismo. O aforismo iugoslavo quase que constitui uma chacota ao ofício do historiador, isto é: embora os fatos tenham ocorrido de certa maneira, em determinado momento e lugar, e o pesquisador busque essas evidências nos vestígios documentais, o mesmo passado pode não só ter diversas representações, como essas versões podem ser absolutamente conflitantes. Pior ainda: as interpretações podem se alterar radicalmente com o passar do tempo, mesmo que seja utilizado o mesmo conjunto de evidências. Essa variabilidade e mutabilidade estimulam o debate teórico, que com o advento do pós-modernismo ficou um tanto aquecido, ao menos nos EUA. (10)

O grande problema que enfrento para avaliar o impacto dessas novas teses na historiografia é que, além de um parco conhecimento da literatura sobre o tema, a informação que chega até mim nos corredores da academia de antemão desqualifica os postulados dessa tendência como sendo um mero modismo, o que equivale dizer que é uma frivolidade, se não uma besteira. O filósofo moral Harry G. Frankfurt, embora não utilize em nenhum momento o termo “pós-modernismo”, parece ter em mente essa “escola” em um paper de 1986, que ficou famoso e chegou mesmo a virar best seller nos EUA ao ser editado em livro, em 2005:

A atual proliferação do ato de falar merda tem também raízes muito profundas em várias formas de ceticismo, que negam o fato de que possamos ter acesso confiável a uma realidade objetiva e rejeitam, portanto, a possibilidade de sabermos como as coisas na verdade são. Essas doutrinas "ante-realistas" minam a validade de todo esforço desinteressado para se determinar o que é verdadeiro e o que é falso, e até a falta de inteligibilidade da noção de investigação objetiva. Uma das reações a essa perda de confiança tem sido o afastamento da disciplina requerida pelo ideal da correção em direção a um tipo de disciplina completamente diferente, que é impostopela perseguição a um ideal alternativo de sinceridade. Em vez de buscar chegar primeiramente a representações precisas do mundo comum, o indivíduo se volta para a tentativa de oferecer representações honestas de si. Convencida de que a realidade não tem nenhuma natureza inerente, que ela pudesse ter esperanças de identificar com a verdade sobre as coisas, a pessoa dedica-se a ser fiel à sua natureza. É como se percebesse que, uma vez que não faz sentido tentar ser fiel aos fatos, deve, em vez disso, esforçar-se para ser fiel a si mesma.(11)

Em outras palavras, o pós-modernismo, na defesa de um relativismo devastador, cairia num subjetivismo extremo, que não produz ciência, mas mera falação sobre a natureza de coisas que não foram devida e metodicamente estudadas.

Chego enfim a terceira epígrafe, trecho do livro uma Breve história do tempo, de Stephen Hawking, verdadeiro popstar da Física. O que considero de real valor nesse excerto é sua cândida admissão de qualquer teoria em sua disciplina é provisória, em função de uma permanente incerteza em relação aos resultados das experiências que comprovariam hipóteses levantadas. Hawking não parece minimamente preocupado que tal incerteza invalide o status científico da Física, afirmando que se uma observação desmentir uma teoria, esta terá de ser ou descartada ou reformada, para que dê conta de explicar os resultados inesperados.

Penso que o pós-modernismo trouxe, de maneira definitiva, um princípio de incerteza para a formulação teórica em História, e mesmo em outras áreas. Melhor que simplesmente ignorá-lo — ou rejeitá-lo com pavor — seria incorporá-lo de forma madura na reflexão, de maneira a aperfeiçoar o esforço intelectual de teorização, seja incorporando a incerteza à teoria, seja encontrado argumentos sólidos o suficiente para demonstrarem que o pós-modernismo é mesmo pura falácia.

Notas
(1) Homero. Ilíada. Trad. de Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Melhoramentos, s.d., p. 148 (canto VI, vv. 357-158).

(2) Immamuel Wallerstein. O declínio do poder americano. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004, p. 227. Wallerstein explica em nota na página 255 que encontrou o aforismo como “epígrafe de um artigo de E.M. Simonds Duke, “Was the peasant uprising a revolution? The meannings of a struggle over the past”. Eastern European Politics and Societies I, nº 2 (primavera de 1987), p. 187.”


(3) Stephen W. Hawking. Uma breve história do tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 29.


(4) Reconheço que este parágrafo inicial é dos mais estranhos, para não dizer que é canhestro, tendo em vista o tema do trabalho. Mas assim como uma “espécie de desespero em terminar [uma] introdução” fez Stephen Greenblatt cunhar o termo “novo historicismo”, a dificuldade em iniciar a redação e a escassez do prazo me “desesperaram”, de forma que agradeço a Chico, meu gato, pelo insight que me permitiu destravar minha caneta. Para o desespero de Greenblatt ver José Antonio Vasconcelos. Quem tem medo de teoria? A ameaça do pós-modernismo na historiografia americana. São Paulo: Annablume, 2006, p. 142.


(5) Exceto comer, dormir e se limpar obsessivamente com a língua. Mas, quem sou eu para especular o que se passa na mente de um gato? Borges, em seu poema A um gato, resume bem a questão:


[...]
Por obra indecifrável de um decreto
Divino, buscamos-te inutilmente;

[…]
Em outro tempo estás. Tu és dono
De um espaço cerrado como um sonho.

Jorge Luis Borges. Obras completas. São Paulo: Ed. Globo, 2000, p. 551, vol. II.


(6) O garoto poderia ter sido muito mais desagradável se perguntasse “por que é que você estuda essa coisa?”


(7) A minha lavadora tem apenas quinze programas, mas mesmo assim não sinto a menor saudade de esfregar minhas cuecas no tanque.


(8) A frase final da carta testamento de Getúlio Vargas, não importa quem a escreveu, é um exemplo modelar disso que estou falando.


(9) Ver David Harlan. “A história intelectual e o retorno da literatura”. In Margareth Rago & Renato A. O. Gimenes (orgs.). Narrar o passado, repensar a história. Campinas: IFCH, 2000.


(10) Ver José Antonio Vasconcelos, op. Cit.


(11) Harry G. Frankfurt. Sobre falar merda. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2005, pp. 65-67. Grifado no original.

6 comentários:

Jessé Chahad disse...

Esse trabalho genial de Antônio Henrique Serrer traz a reflexão acerca das "mazelas" do pós modernismo e foi celebrado dentro do departamento de história como um de seus trabalhos mais provocativos.
Parabéns Henrique.

Anônimo disse...

Vc deveria tentar contos ou romance... ou cronica. A parte do gato tava muito muito legal!

Jeane

Henrique Serrer disse...

OK, Jeane, anotado.

Anamarela disse...

Henrique... Henrique... Eu que conheço várias facetas desse homem octopuss. Quanto tempo! Continua fantástico!

Anamarela disse...

Surrupiei o texto, mas com os devidos créditos... Ana

Ana disse...

Oi Henrique, acabei deletanto so meus antigos blogs, até mesmo aquele mais "novo"... Fiz outro e acho que não me encontraria de novo, pois não tem os seus textos e também não é o mesmo login.
Queria te convidar a escrever um texto no meu... O novo endereço é: http://lraaskrifa.blogspot.com/
Abçs, Ana