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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A Gastronomia francesa: da Idade Média às novas tendências culinárias.

Por Carlos Roberto Antunes dos Santos




Falar da gastronomia na França, do ponto de vista do historiador, significa buscar suas origens, explicar a sua

reputação, destacar as relações que ela mantém com as diversas produções alimentares inter-regionais e transnacionais e as suas tendências diante das novas culinárias hoje presentes, como a cozinha molecular.


A indiscutível supremacia da cozinha francesa através da História Moderna e Contemporânea nos leva às suas origens medievais, e à sua definição como a fusão de três elementos indispensáveis: a riqueza de ingredientes; a sabedoria na maneira de utilizá-los e o requinte nos mínimos detalhes. Com charme e versatilidade incontestáveis, quer falando da Cozinha Clássica ou da Nouvelle Cuisine, a gastronomia francesa é responsavel pelas inúmeras outras cozinhas que nela se espelharam e estão espalhadas pelo mundo, bem como das formas de fazer da cozinha e da mesa verdadeiras artes.


A partir deste enunciado, podemos interrogar a gastronomia francesa, em termos de História da Alimentação, a partir de quatro questões: 1. Desde quando esta reputação gastronômica, da qual os franceses sempre se orgulharam,nasceu? 2. Como esta reputação gastronômica se mantém até hoje? 3. Porque ela aconteceu na França? 4. Qual o comportamento da cozinha francesa diante da gastronomia molecular, principalmente a dos espanhóis?


Geralmente a idéia que se tem da Idade Média é aquela de cavaleiros brutais rasgando a dentada a caça ainda quente e a sangrar, os camponeses vivendo permanentemente com fome, os monges gordos de grandes barrigas que vivem só a comer; cozinheiros ignorantes trabalhando com instrumentos primitivos. Esta é a idéia que se tem da alimentação medieval, isto é, tempos bárbaros que só podem corresponder a cozinhas bárbaras. Isso é uma visão já ultrapassada, pois os documentos de séculos atrás, nos revelam que os camponeses da Alta Idade Média (sécs. V ao X), salvo em tempos de acidentes climáticos, comiam de acordo com a fome que tinham e, muitas vezes melhor que os camponeses do séc. XVII (Era Moderna). E, entre as elites, desenvolveu-se nesta época medieval uma arte culinária, no sentido da gastronomia, que não fica nada a dever à nossa, no que diz respeito à variedade e sofisticação. É preciso considerar que a herança greco-romana (antiguidade Clássica) não foi aniquilada durante as invasões bárbaras e que permaneceu na aristocracia da Alta Idade Média, constituindo uma cozinha muito interessante.

Sendo a Idade Média uma civilização essencialmente cerealista, o pão torna-se o alimento principal, consumido na ceia, junto ao vinho. Portanto, pão e vinho são alimentos essências nesta época. Em face da importância da Igreja no cotidiano medieval, a evolução da cozinha foi lenta e progressiva, sendo que alguns alimentos foram postos de lado como os temperos de peixes (que eram largamente utilizados pelos romanos), substituídos por outras especiarias como a nozmoscada e o Cravo-da-Índia (começam a ser introduzidos na farmacopéia e depois na cozinha).Ao longo da Idade Média opera-se uma outra modificação fundamental: a forma do corpo (o aprumo) da pessoa que come.


O hábito de comer deitado da época romana é substituído pelo hábito de comer sentado, determinado pela passagem de uma cozinha fundada nos picados e almôndegas que podiam se agarrados com as mãos, para uma outra em se priorizava o corte das carnes. A mesa francesa medieval em certos períodos era farta, com a presença de peixes como congrios, arenques, salmões, enguias, lagostins, trutas, esturjões, empadas de Paris, tortas, pudim de ovos, queijos, castanhas, mostarda, pêras, alho, cebolas, e outros. Desta forma, na I. Média se constituiu uma arte de mesa original e requintada, uma certa gastronomia. A cozinha francesa na Idade Média é, sob certos aspectos, diferente da nossa tendo os gostos e hábitos alimentares sofridos profundas alterações. Mas essa ruptura não se deu de um dia para o outro. Importante destacar que em 1486, foi impresso o primeiro livro de culinária na França, intitulado “Le Viandier” com 230 receitas. Desse ponto de vista, a Renascença na França não parece ter sido um século de grandes mudanças culinárias,pois a influência medieval ainda estava muito forte e muito próxima.

A descoberta da América e do caminho marítimo para asÍndias, e a conquista espanhola da América Central trouxe novos alimentos para os europeus: tomate, pimentas, milho,batata, feijão verde, novas especiarias, temperos, peru e outros.


Entretanto, a introdução destes novos alimentos na cozinha européia e especialmente a francesa, não foi algo de imediato. O uso destes alimentos manteve-se mais restrito até o séc. XVII,quando a nobreza e uma nova geração de cozinheiros demonstram claramente seus distanciamentos da cozinha gótica. A partir deste período, pode-se dizer que em França os gostos e as maneiras de comportamento á mesa (etiqueta) são renovadas.Tudo isso revela uma cozinha francesa inovadora, original,demonstrando que para os franceses a certeza que a sua forma de comer era superior a de todos os outros povos da Europa. E tal constatação é comprovada pela leva de estrangeiros que visitam a França e comprovam a superioridade francesa no domínio da cozinha e da mesa.


Ao longo do séc. XVII, a afirmação da cozinha francesa colocada acima é iniciativa da realeza sob Luis XIV, o Rei Sol. O refinamento proveniente da Corte engendra um vasto movimento de renovação dos costumes e práticas alimentares. Os cozinheiros franceses passam a privilegiar os cozimentos,deixando as carnes com o máximo de sabor, o que permitiu que se desenvolvesse em França uma produção de carne da mais alta qualidade. Junto à carne de boi se exigiu legumes frescos e de sistema de manutenção de alimentos como os peixes e frutos do mar, isto é, oferecer sempre peixe fresco. Desta forma, a grande novidade desta cozinha do séc. XVII é privilegiar os sabores naturais dos alimentos (algo até então inédito).


O séc. XVIII viu surgir uma individualização da comida, isto é, um prato e seus talheres para cada pessoa. A mesa deixa de ter um serviço coletivo e cada pessoa terá um couvert para si. É desta época o início do uso mais freqüente do garfo, que trouxe consigo novos pratos, e novas práticas alimentares. forma, a França vai rompendo com os costumes medievais aonde todos se serviam num prato comum e com as mãos. Foi ao longo do Séc. XVIII que surge os fundamentos da refeição moderna: a elegância da mesa, a etiqueta, o comportamento à mesa para comer e para beber. No séc. XVIII, a forma de dispor a comida nos pratos foi fortemente influenciada pelos acompanhamentos e com a conseqüente expulsão da ditadura do alho e da cebola: legumes, vegetais, os verdes, os temperos passam a dar cores aos pratos. Desta forma, a França promove a substituição da cozinha do olfato pela cozinha do olhar. Na verdade o Antigo regime (da realeza) ao realizar os famosos Banquetes de Estado que fizeram a fama do Palácio de Versalhes, produziu pratos que eram concebidos e apresentados de modo a realçar e divulgar grandeza da cozinha francesa.Neste período os cozinheiros franceses já eram considerados os melhores do mundo. Desta forma a realeza se vangloriava de promover a doçura do bem viver (frase de Talleyrand), que enaltecia o orgulho francês de ter a melhor cozinha do mundo.

Ainda no séc. XVIII, antes da revolução Francesa, se inventou em Paris o restaurante. Esta constatação começa por demolir a versão clássica, e reforçada, como no filme “A Festa de Babette”, que, segundo SEVCENKO, “vê à culinária francesa como uma das grandes conquistas da Revolução Francesa” (1). Há duas versões sobre a invenção dos restaurantes: 1. Aquela exposta por FLANDRIN & MONTANARI (2), demonstrando que M. Boulanger, também conhecido como “Champs d’Oiseaux, um padeiro e vendedor de sopas, resolveu colocar em seu estabelecimento perto do Louvre, algumas mesas a disposição a disposição dos seus clientes, que até então tomavam seus caldos restauradores em canecas e em pé. E com o aumento da clientela que passou a exigir além dos caldos restauradores,outros pratos, M. Boulanger passou a servir pratos com alimentos sólidos em porções individuais. A partir de então, ele foi seguido por outros imitadores e estava então inventado o restaurante na França, com um novo profissional o Restaurateur e um novo tipo de negócio, o Restaurante; 2. a outra versão sobre a invenção do restaurante, parte de SPANG (3) que atribui à Marthurin Roze de Chantoiseau a criação destes paraísos dos sabores. Sendo uma figura conhecida, Chantoiseau fixou residência em Paris em 1760, em plena conjuntura de crise econômica da França em face da sua dívida interna. Em Paris, a partir da fortuna herdada do pai, um rico latifundiário e mercador, Roze de Chantoiseau, após algumas tentativas de elaboração de projetos para ajudar a França a sair da sua crise, em 1765 abriu as portas do primeiro restaurante. A intenção era, através dos restaurantes, “fazer circular o dinheiro, que ajudaria a melhorar a situação econômica francesa “(4). Após a revolução francesa, muitas pessoas que vinham a Paris buscavam estes lugares mais simples que servia uma comida também simples, mas reconfortante. Entretanto haviam chefes de cozinha desempregados, cujos patrões membros da alta nobreza, haviam fugido da revolução. Estes chefes, obrigados a encontrar uma outra maneira de realizar o seu trabalho, acabaram abrindo os seus próprios restaurantes, e tornando a cozinha artística dos grandes mestres, antes só encontrada nas residências dos ricos e poderosos, agora acessível ao grande público que pudesse pagar por ela. Nasce assim o grande restaurante em França, um produto autenticamente francês, desconhecido até então, com uma cozinha superior, um salão elegante, garçons eficientes e uma adega cuidadosa e selecionada. Tais predicados se espalharam pelo mundo,tornando a cozinha francesa famosa e respeitada. A partir daí, toda uma cultura culinária começou a florescer. Desenvolveu-se uma verdadeira “ciência da mesa”, e em 1801 foi criado o termo gastronomia para designar o que Montaigne chamava de “ciência da gula”.

Para aqueles que estudam a História da Alimentação, os discursos gastronômicos evoluem em função das mutações técnicas, econômicas, estéticas, sociais e políticas, como a colonização (e o contato com outros povos), os fenômenos imigratórios, as relações internacionais, as conseqüências das guerras e hoje em dia em função da globalização. Nesse sentido,os alimentos não só alimentos, eles são atitudes, protocolos, convenções. Nenhum alimento que entra em nossas bocas é neutro. O alimento é uma categoria histórica e a formação do gosto alimentar não se dá exclusivamente por seus predicados biológicos e nutricionais. No final do séc. XVIII, quando Napoleão chega ao poder e depois invade a Europa e o Oriente, os seus soldados portam na ponta das baionetas a obra dos direitos humanos e atrás deles seguem exércitos de cozinheiros, cabeleireiros, professores de danças: é a civilização francesa se expandindo pelo mundo.Nesta época destaca-se o cozinheiro-chefe Carême, considerado um dos mais renomados expoentes da culinária francesa.Carême foi contemporâneo de Brilhat Savarin, famoso autor da obra “A Fisiologia do Gosto”. Deve-se a Carême a invenção do vol-au-vent.

É importante destacar que os predicados da cozinha francesa são produtos da efervescência da sua história e da sua cultura. Há ainda a Geografia da França, oferecendo diversos tipos de clima e quatro fachadas marítimas. Possuiu também um império colonial rico em possibilidades agrícolas e fontes generosas de alimentos. Tudo isso estimula as trocas e influências inter-regionais e com o Exterior. De todas esta simbioses emerge a identidade nacional francesa, expressa na cozinha e na mesa francesa.

Na França os cozinheiros são respeitados, os Chefs são admirados e os Grandes Chefes são honrados tanto quanto os chefes militares. Desta forma foram cozinheiros que se tornaram famosos como Paul Bocuse e Pierre Troigros, conceberam a nouvelle cuisine, denominação francesa para uma total renovação da culinária ligada à cultura pós-maio de 1968.


Trata-se de uma nova concepção de se preparar os alimentos,usando-se, sobretudo, ingredientes frescos, de temporada,processo de cozimentos curtos, cardápios leves, evitando-se marinadas, fermentações e molhos a base de farinha, manteiga e caldos. Trata-se de uma cozinha clássica, estética e muito artística na sua apresentação. Para compreender a cozinha francesa é preciso conhecer com que detalhes ela lida. As riquezas culinárias da Ile-de-France, com seus patês de enguia da cidade de Melum e os cogumelos e presuntos de Paris. Da Normandia vem o leite, a manteiga, a nata, os peixes do mar, as aves, os queijos em grandes variedades, os ovos, as cidras e o Calvados. Da Bretanha, vêm os mariscos, crustáceos e os peixes, sendo famosa também por seus legumes: ervilhas, repolhos, couve flor,alcachofras e cebolas. Da região da Champagne vêm a Champagne, as trutas e as caldeiradas. Da Borgonha chegam os vinhos tintos mais famosos, como o Conti Romanée e também vinhos brancos, mais os legumes, a caça abundante, os peixes de rio, o gado de primeira qualidade, as frutas e a mostarda de Dijon. Enfim, ficar-se-ia muito tempo falando das grandes relíquias alimentares da França, que possibilitam a melhor cozinha do mundo. Desta forma, um país que consegue codificar 297 formas de preparar o ovo (com mais de 125 tipos de omelete), faz a história no campo da gastronomia. Nos últimos tempos a cozinha francesa tem começado uma nova diversificação: Há cozinheiros como Alan Passard que abandonou a cozinha das carnes e se concentra numa alta gastronomia de legumes, onde o legume é o alimento principal,como as beringelas da Bretanha, que é o nome do prato principal. Assim como Pierre Gagnaire que joga forte no prato das langustines na manteiga de nozes.


Há uma nova cozinha na França? Em recente evento em Tours/França, intitulado ”Novas Tendências Culinárias” (5) foi constatada a realidade de que não há como abstrair as influências da cozinha molecular na culinária francesa. De qualquer maneira, desta resistência da nouvelle cuisine face às inovações da cozinha contemporânea, quem ganha é a clientela,ávida pela boa comida.


Referências Bibliográficas

(1) SEVCENKO, Nicolau. A síndrome da vaca cega. S.Paulo: Carta Capital, 24/jan/2001, p. 73.


(2) História da Alimentação/ sob a Direção de Jean-Louis Flandrin & Massimo Montanari. S. Paulo: Estação Liberdade, 1998, p. 755.


(3) SPANG, Rebecca L. A Invenção do Restaurante. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 27.


(4) LORENÇATO, A. E a democracia do paladar mudou. S.Paulo: Gazeta Mercantil, 12/13 out/2002, p.9.


(5) Forum “Nouvelles Tendances Culinaires”. Tours (França), IEHCA, 02/03 dez/2005

















terça-feira, 3 de agosto de 2010

História, pós-modernismo e os testículos perdidos de um gato




Por Antônio Henrique Serrer
















Triste destino Zeus grande nos deu, para que nos celebrem,
nas gerações porvindoiras, os cantos excelsos dos vates
.(1)
HOMERO

A única coisa absolutamente certa é o futuro,
pois o passado está constantemente mudando
.(2)
AFORISMO IOGUSLAVO

Qualquer teoria física é sempre provisória, no sentido de que
não passa de uma hipótese: não pode ser comprovada jamais.
Não importa quantas vezes os resultados das experiências
concordem com uma teoria, não se pode ter certeza de
que, na próxima vez, o resultado não vá contradizê-la
.(3)
S. W. HAWKING

Observo meu gato comer calmamente sua ração, despreocupado de estar ficando gordo, tanto mais porque foi castrado, mutilação cruel que, paradoxalmente, ordenei que fosse feita em função de meu afeto por ele. Despojando-o de sua capacidade reprodutiva quis torná-lo mais caseiro, evitando que fosse assassinado por vizinhos, como aconteceu com a meia dúzia de bichanos anteriores, cujos testículos decidi manter intactos.(4)

Tem funcionado até agora e meu companheiro parece satisfeito com sua vida de eunuco. Não só não se preocupa com sua crescente obesidade. Não se preocupa com nada! (5) Especificamente pensei que sua vida é desprovida do drama da reflexão, que ele era feliz de não ter que se preocupar com os debates de uma hipotética ciência felina, enquanto eu, além de ter que me preocupar com questões práticas — tais como conseguir alguns trocados para comprar ração para gatos — frito os miolos com questões arcanas das ciências humanas. Como se não bastasse, me ocupo da História, que como uma espécie de madrasta má das humanidades — a Filosofia seria a mãe benevolente — vive sob constante ataque de seus enteados todos. É terrível.

Logo no começo de seu clássico Apologia da História, Marc Bloch registra a pergunta de uma criança, que logo adverte não ter nada de infantil: para que serve a História?(6) Essa pergunta, a meu ver, parece emergir da disputa entre a ciência humana e a ciência da natureza, onde a primeira está numa permanente desvantagem em demonstrar a efetiva cientificidade do conhecimento que produz. Ocorre que as disciplinas nomotéticas — ditas também “exatas” — podem explicitar o conhecimento que produzem em objetos palpáveis, funcionais, dotados de utilidade, que podem mesmo tornar-se emblemas da modernidade — o automóvel ou a bomba atômica, por exemplo. Quando somos interpelados a respeito da utilidade do conhecimento que produzimos podemos apresentar uma série de conceitos que validam nossas pesquisas, mas jamais temos uma resposta tão fácil e inequívoca como tem um engenheiro que nos apresenta uma máquina de lavar roupas, com trinta e oito programas de lavagem.(7)

A resposta que mais me agrada para uma provável utilidade da História, é que ela serve à compreensão do estado geral em que se encontra, atualmente, o empreendimento social, o que me permitiria — acho — definir minha própria localização e atuação dentro dele. Como as coisas nunca parecem estar indo muito bem do ponto de vista social e ambiental, resta que a análise crítica feita por historiadores — aqui penso naqueles que são norteados por uma genuína honestidade intelectual — pode resultar incômoda para diversos tipos de interesses. A crítica, contudo, necessariamente reflete um posicionamento que, no fundo, é sempre político. Temos assim que nossa “oposição” pode sempre alegar que nossa produção é instrumentalizada por interesses ideológicos, daí nunca ser objetiva e, portanto, científica. Creio que essa é a face mais comum dos ataques que enfrentamos.

Felizmente os próprios historiadores reconhecem, já há bom tempo, o problema da instrumentalização política. Daí que se esforçam — sofregamente até, eu diria — em responder outras duas perguntas, que derivam da primeira citada acima: Mas o que é a História? E, aliás, como se faz História? É necessário encontrar boas respostas para essas indagações, pois delas depende o status científico da matéria. Mas não é tarefa simples, pois como “ciência do homem” a História nos leva a percorrer, inevitavelmente, os intrincados meandros do fenômeno mental, labirinto medonho que pode ter em seu centro, não o Minotauro homicida, mas um “abismo teórico” “historicida”, que destruirá a disciplina. Acho, sinceramente, que devemos temer isso tanto quanto devemos temer um mito.

* * * * *

Na primeira epígrafe, versos da Ilíada, vemos Helena conversando com seu cunhado, Heitor, durante o cerco de Tróia pelos argivos. A sugestão contida aí — e também em outras passagens da epopéia — é a de que os guerreiros, com seus atos de bravura, tornam-se “imortais”, pois passam a fazer parte da História que será cantada pelos poetas. Figuras políticas parecem especialmente sensíveis a essa possibilidade de “superação” da morte por meio da História, já que uma das preocupações centrais de sua agenda parece ser a construção de um legado para a posteridade.(8) Mas é de se pensar o quanto os próprios historiadores contribuíram para essa crença.

Toco no desagradável tema da morte — tabu da modernidade — em função da contenda entre o que seria uma corrente “presentista” e outra “contextualista” do saber histórico, a primeira orientada para a pura estrutura do discurso, ignorando o sujeito histórico que o produziu, e a segunda preocupada em reconstruir o contexto histórico em que o discurso foi proferido, de forma a possibilitar o conhecimento do significado que o autor quis imprimir ao texto no momento de sua lavra.

É um debate teórico de todo interessante, que o espaço não permite desenvolver. Todavia, estando claro que não considero possível historiar sem levar em conta o contexto — seja lá o que isso for, de fato —, chamou minha atenção o problema da “dissolução do sujeito histórico” no caudal do discurso e a profunda rejeição dos contextualistas mais empedernidos a essa possibilidade. Quero dizer: sobressai o problema da “morte do autor”, como fonte de tensão no debate teórico. Ora, penso que também os intelectuais tenham uma pretensão de “superar” a morte com o legado de seu pensamento, de forma que pode ser doloroso constatar que um sujeito não sobrevive em sua própria obra. Mas isso é mera especulação de minha parte. Objetivamente temos que a diluição da fronteira entre texto e contexto, exposta por esse debate, constitui um formidável desafio epistemológico para os historiadores.(9)

* * * * *

As outras duas epígrafes servirão de apoio para meu comentário sobre o pós-modernismo. O aforismo iugoslavo quase que constitui uma chacota ao ofício do historiador, isto é: embora os fatos tenham ocorrido de certa maneira, em determinado momento e lugar, e o pesquisador busque essas evidências nos vestígios documentais, o mesmo passado pode não só ter diversas representações, como essas versões podem ser absolutamente conflitantes. Pior ainda: as interpretações podem se alterar radicalmente com o passar do tempo, mesmo que seja utilizado o mesmo conjunto de evidências. Essa variabilidade e mutabilidade estimulam o debate teórico, que com o advento do pós-modernismo ficou um tanto aquecido, ao menos nos EUA. (10)

O grande problema que enfrento para avaliar o impacto dessas novas teses na historiografia é que, além de um parco conhecimento da literatura sobre o tema, a informação que chega até mim nos corredores da academia de antemão desqualifica os postulados dessa tendência como sendo um mero modismo, o que equivale dizer que é uma frivolidade, se não uma besteira. O filósofo moral Harry G. Frankfurt, embora não utilize em nenhum momento o termo “pós-modernismo”, parece ter em mente essa “escola” em um paper de 1986, que ficou famoso e chegou mesmo a virar best seller nos EUA ao ser editado em livro, em 2005:

A atual proliferação do ato de falar merda tem também raízes muito profundas em várias formas de ceticismo, que negam o fato de que possamos ter acesso confiável a uma realidade objetiva e rejeitam, portanto, a possibilidade de sabermos como as coisas na verdade são. Essas doutrinas "ante-realistas" minam a validade de todo esforço desinteressado para se determinar o que é verdadeiro e o que é falso, e até a falta de inteligibilidade da noção de investigação objetiva. Uma das reações a essa perda de confiança tem sido o afastamento da disciplina requerida pelo ideal da correção em direção a um tipo de disciplina completamente diferente, que é impostopela perseguição a um ideal alternativo de sinceridade. Em vez de buscar chegar primeiramente a representações precisas do mundo comum, o indivíduo se volta para a tentativa de oferecer representações honestas de si. Convencida de que a realidade não tem nenhuma natureza inerente, que ela pudesse ter esperanças de identificar com a verdade sobre as coisas, a pessoa dedica-se a ser fiel à sua natureza. É como se percebesse que, uma vez que não faz sentido tentar ser fiel aos fatos, deve, em vez disso, esforçar-se para ser fiel a si mesma.(11)

Em outras palavras, o pós-modernismo, na defesa de um relativismo devastador, cairia num subjetivismo extremo, que não produz ciência, mas mera falação sobre a natureza de coisas que não foram devida e metodicamente estudadas.

Chego enfim a terceira epígrafe, trecho do livro uma Breve história do tempo, de Stephen Hawking, verdadeiro popstar da Física. O que considero de real valor nesse excerto é sua cândida admissão de qualquer teoria em sua disciplina é provisória, em função de uma permanente incerteza em relação aos resultados das experiências que comprovariam hipóteses levantadas. Hawking não parece minimamente preocupado que tal incerteza invalide o status científico da Física, afirmando que se uma observação desmentir uma teoria, esta terá de ser ou descartada ou reformada, para que dê conta de explicar os resultados inesperados.

Penso que o pós-modernismo trouxe, de maneira definitiva, um princípio de incerteza para a formulação teórica em História, e mesmo em outras áreas. Melhor que simplesmente ignorá-lo — ou rejeitá-lo com pavor — seria incorporá-lo de forma madura na reflexão, de maneira a aperfeiçoar o esforço intelectual de teorização, seja incorporando a incerteza à teoria, seja encontrado argumentos sólidos o suficiente para demonstrarem que o pós-modernismo é mesmo pura falácia.

Notas
(1) Homero. Ilíada. Trad. de Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Melhoramentos, s.d., p. 148 (canto VI, vv. 357-158).

(2) Immamuel Wallerstein. O declínio do poder americano. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004, p. 227. Wallerstein explica em nota na página 255 que encontrou o aforismo como “epígrafe de um artigo de E.M. Simonds Duke, “Was the peasant uprising a revolution? The meannings of a struggle over the past”. Eastern European Politics and Societies I, nº 2 (primavera de 1987), p. 187.”


(3) Stephen W. Hawking. Uma breve história do tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 29.


(4) Reconheço que este parágrafo inicial é dos mais estranhos, para não dizer que é canhestro, tendo em vista o tema do trabalho. Mas assim como uma “espécie de desespero em terminar [uma] introdução” fez Stephen Greenblatt cunhar o termo “novo historicismo”, a dificuldade em iniciar a redação e a escassez do prazo me “desesperaram”, de forma que agradeço a Chico, meu gato, pelo insight que me permitiu destravar minha caneta. Para o desespero de Greenblatt ver José Antonio Vasconcelos. Quem tem medo de teoria? A ameaça do pós-modernismo na historiografia americana. São Paulo: Annablume, 2006, p. 142.


(5) Exceto comer, dormir e se limpar obsessivamente com a língua. Mas, quem sou eu para especular o que se passa na mente de um gato? Borges, em seu poema A um gato, resume bem a questão:


[...]
Por obra indecifrável de um decreto
Divino, buscamos-te inutilmente;

[…]
Em outro tempo estás. Tu és dono
De um espaço cerrado como um sonho.

Jorge Luis Borges. Obras completas. São Paulo: Ed. Globo, 2000, p. 551, vol. II.


(6) O garoto poderia ter sido muito mais desagradável se perguntasse “por que é que você estuda essa coisa?”


(7) A minha lavadora tem apenas quinze programas, mas mesmo assim não sinto a menor saudade de esfregar minhas cuecas no tanque.


(8) A frase final da carta testamento de Getúlio Vargas, não importa quem a escreveu, é um exemplo modelar disso que estou falando.


(9) Ver David Harlan. “A história intelectual e o retorno da literatura”. In Margareth Rago & Renato A. O. Gimenes (orgs.). Narrar o passado, repensar a história. Campinas: IFCH, 2000.


(10) Ver José Antonio Vasconcelos, op. Cit.


(11) Harry G. Frankfurt. Sobre falar merda. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2005, pp. 65-67. Grifado no original.