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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Turismo, Identidade, Cultura e Sociedade

Por Evelyn Ariane Lauro



Segundo Olga Paiva (1999, p.9), identidade é:
Tudo aquilo que pode identificar ou diferenciar um homem, uma mulher, um grupo social, étnico, religioso, etc. em relação a outro. O termo identidade é relacionado à cultura, pois também revela as ações do homem para viver em sociedade ao longo da história.
Ou seja, grosso modo, é o que nos assemelha de nosso próprio grupo e nos diferencia dos demais.
Segundo Rosana Bignami (2002, p.46), a identidade individual é criada por meios externos (à família, ao grupo social, ao grupo étnico, à região, ao país ao qual pertence, etc.), por meio da assimilação cultural e acúmulo de conhecimento ao longo da vida, e que esta, ou parte dela, é comum ao círculo social em que se vive, já que esta se sustenta no mesmo território, história, cultura e patrimônio produzido, fazendo com que ela seja assumida pela coletividade e atribuída à localidade onde estão inseridos (a exemplo das identidades nacionais), mas que “também aparece como referência do homem a pertencer a determinados grupos pela execução de papéis, mediante os quais se relaciona. Assim a identidade é uma construção também do próprio homem, portanto pode ser mudada” (idem).
Mudanças na estrutura, principalmente política e econômica, de uma localidade podem gerar alterações nos papéis de atuação de números significativos de indivíduos, alterando a identidade pessoal que também será atribuída à coletividade e, conseqüentemente, à localidade.
Cultura, identidade e sociedade são termos indissociáveis. Quando falamos da identidade de uma localidade nos referimos, não ao espaço geográfico em si, mas às relações sociais que acontecem ali, a atribuímos à uma sociedade e não a um pedaço de chão, afinal, os três termos que abriram o parágrafo são conseqüências das ações humanas.
Todo grupo, para que assim seja chamado, precisa de uma cultura (de características culturais) que o sustente, que assemelhe seus indivíduos e crie uma unidade, uma comunidade com identidade.
Clerton Martins levanta a necessidade de alguns elementos cruciais para que um grupo se mantenha e se faça existir através dos tempos. São eles:
• Território: “Os grupos configuram sua existência através da ocupação de um lugar, de um campo espacial próprio. Ali marcam-se regras, normas de comportamento [...] ritos, etc.” (2003, p.44);
• História: “Faz remissão ‘ao que fomos’ para chegar ao que somos’” (2003, p.44);
• Patrimônio: “Em seu sentido amplo [materializa] as tradições, os costumes, os modos de ser e de viver” (2003, p.45).
Cultura e identidade e, conseqüentemente, a própria sociedade são mutáveis, estão em constante dinâmica, não é possível, portanto, criar um padrão cultural e/ou identitário para uma localidade ou mesmo para um indivíduo esperando que se torne referência deste por muito tempo.
Nos dias atuais tudo acontece muito rápido, descobertas, avanços e muitas informações bombardeiam as sociedades e a cada dia gera mudanças de pensamento e comportamento.
Uma vez os antropólogos concordariam que a sociedade (e, por conseguinte também a cultura) muda em resposta ao ambiente e à tecnologia, a implicação clara desta transmissão de conhecimento e comportamento entre e as gerações é que a cultura é dinâmica (BURNS, 2002, p.77).
Burns (2002, p.78), levanta a importância das atividades econômicas na formação das identidades locais, já que as comunidades se movem em torno daquilo que movimenta sua economia, adequando sua vida a ela (hábitos, horários, atividades de lazer, etc.), a autora ainda ressalta que em muitos casos a localidade passa a ser reconhecida por aquilo que produz, a exemplo do Estado de São Paulo que entre os séculos XIX e XX era conhecido como “a terra do café” e, diz ainda que a própria cultura pode ser vista como recurso econômico, comercial (2002, p.78) e que em algumas localidades é a única saída diante da estagnação.
Começa-se então a discussão sobre localidades que baseiam suas economias na atividade turística e o uso do legado cultural para fins comerciais, nos cabe, aqui, apresentar possíveis impactos da atividade turística na identidade das localidades. Claro que, de maneira genérica, afinal as transformações inerentes à atividade geram resultados distintos a cada sociedade na qual se faz presente.
É sabido que as modificações são naturais dos processos sociais e que as cidades e sociedades mudam o tempo todo, tendo movimentação turística ou não, logo o turismo não é a causa, mas pode ser, em algumas situações, o meio para que aconteçam.
O turista sai de sua localidade de residência em busca de viver novas experiências, busca, no geral, conhecer o novo e compara a realidade que encontra com aquela que norteia o seu dia-a-dia o tempo todo. Isto faz com que a busca pela oferta de produtos e serviços diferenciados torne-se uma necessidade crucial para a sobrevivência das localidades sustentadas pelo turismo (OLIVEIRA, 2002, p.43). Se o que difere uma sociedade e outra é sua cultura e sua identidade (além claro, das questões geográfica, que no turismo de massa é o grande motivador de deslocamentos), nada mais natural que se utilizar do legado cultural, muitas vezes esquecido pela população e pelas administrações regionais, para diferenciar o produto turístico.
Para oferecer o legado cultural ao turista é preciso antes prepará-lo, em alguns casos o patrimônio edificado é restaurado (quando necessário e quando há possibilidade financeira) ou reformado e somente depois surgem os interesses turísticos. Em outros casos, as ações de recuperação acontecem mediante a tal interesse. No entanto, só preparar edificações não é suficiente, é preciso contextualizá-las, levantar a maior quantidade de dados para que se possa transformá-los em informações para o visitante. Levando em conta a demanda de turistas especializados, aqueles que buscam novas experiências, o que não se aplica ao turismo de massa, caracterizado pelo grande potencial de depredação.
Diante das facilidades, agilidade quanto ao acesso à informação, o turista se tornou e a cada dia se torna mais exigente (OLIVEIRA, 2002, p.43) e informações factuais e descontextualizadas não agradam mais. Mais do que datas e estilos arquitetônicos, os visitantes querem saber a importância daquele elemento no cenário histórico-social, que relação estabelece com os acontecimentos locais, quais eram as relações sociais que aconteciam ali, quais funções exerceu, enfim, a história social se torna mais importante que as características físicas, embora estas naturalmente sejam quesitos de primeiro impacto.
É justamente aí que entram os problemas. Na tentativa de chamar atenção ao patrimônio cultural muitas localidades passam a atribuir maior importância aos grandes feitos históricos em detrimento daquela que Margatita Barreto (2000, p.11) chama de “petite histore” ou história social (das minorias) e acaba supervalorizando alguns elementos para torná-los mais atrativos, justificando, assim, as críticas de alguns autores, como Lucrécia D’Alessio Ferrara , que dizem que:
A indústria do turismo transforma tudo o que toca em artificial, cria um mundo fictício e mistificado de lazer, ilusório, onde o espaço se transforma em cenário para o ‘espetáculo’ [...] o real é metamorfoseado, transfigurado, para seduzir e fascinar (FERRARA, 2002, p.26).
No entanto, se alguns impactos negativos são inevitáveis mesmo que o planejamento prévio fundamentado na sustentabilidade aconteça, impactos positivos são, na mesma medida, esperados. Não há, por exemplo, como recuperar o patrimônio edificado sem reconstruir na memória coletiva seu papel naquela sociedade e, assim trazer à tona muitos outros elementos tradicionais da história local.
A recuperação da memória coletiva, mesmo que seja para reproduzir a cultura local para os turistas, leva, numa etapa posterior, inexoravelmente à recuperação da cor local e, num ciclo de realimentação, a uma procura por recuperar a cada vez mais esse passado. (BARRETO, 2000, p.47)
Para Le Goff (apud BARRETO, 2000, p.43), a memória é um elemento crucial na formação e firmação da identidade e a busca pela identidade é uma das atividades dos indivíduos das sociedades modernas que diante da globalização e da padronização conseqüente, perderam seus referenciais étnicos, sem os quais não é possível imaginar-se ou ver-se como ser social, pois para tanto, é preciso pertencer, como dissemos ao início deste capítulo, a uma unidade, a uma comunidade sustentada por uma raiz cultural.
A memória não recupera identidades passadas, mas junto com o legado cultural estabelece ligação com o passado, fazendo com que haja continuidade histórica necessária para justificar as mudanças de identidades.
Paradoxalmente, o turismo, que visto como indústria moderna é conseqüência da globalização (OLIVEIRA, 2000, p.46), por muitos é considerado como responsável pela descaracterização cultural de certas localidades, o que não deixa de ser verdade, mas é, também, um forte aliado na recuperação da memória cultural, valorização do patrimônio, criação e firmação de identidades além de toda a sua influência econômica. A grande questão é: O turismo é uma prática social, parte da cultura moderna, embora seus fundamentos sejam inerentes a história da humanidade, o que faz então, com que a atividade seja por inúmeras vezes vilã e outras tantas agente valorizadora quando se trata de patrimônio?
Não trago aqui a resposta, mas, para pautar a discussão, tomemos como base, três princípios: Políticas públicas, mobilização social e consciência empresarial.




REFERÊNCIAS
BARRETO, Margarita. Turismo e Legado Cultural. São Paulo: Papirus, 2000
BIGNAMI, Rosana. A Imagem do Brasil no Turismo: Construção, Desafios e Vantagem Competitiva. São Paulo: Aleph, 2002. 9p-30p
BURNS, Peter M. Turismo e Antropologia: Uma Introdução. São Paulo: Chronos, 2002. 73p-160p
CARLOS, A. F. A; CRUZ, R.C; YÁZIGI, E. (Org). Turismo: Paisagem e Cultura. 3. ed. São Paulo: Hucitec, 2002.
MARTINS, Clerton (Org.). Turismo, Cultura e Identidade. São Paulo: Roca, 2003.
OLIVEIRA, Antônio Pereira. Turismo e Desenvolvimento: Planejamento e Organização. 4 ed. São Paulo: Atlas, 2002.
PAIVA, Olga Gomes de (org.). Icó: Patrimônio de Todos. Roteiro para a Preservação do Patrimônio Cultural. Fortaleza: IPHAN, 1999.
Prefeitura de Santo André. Vila de Paranapiacaba: Onde a Preservação é o Caminho para o Desenvolvimento e Sustentabilidade Local. Santo André, 2006. CD-ROM.
TIRAPELI, Percival. Conhecendo os Patrimônios da Humanidade no Brasil. São Paulo: Metalivros, 2001.
YÁZIGI, Eduardo. A Alma do Lugar: Turismo, Planejamento e Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2002.

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