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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Glauber Rocha e o Cinema Novo

Por Evelyn Ariane Lauro


Entre os anos 50 e começo dos anos 60 o Brasil sofreu um intenso processo de industrialização com resultados sociais muito contraditórios. Para os intelectuais o Brasil era visto como um país colonizado culturalmente, característica essa que ficava muito marcante em relação ao cinema. Para os estúdios paulistas fazer bons filmes era sinônimo de adotar moldes do cinema estrangeiro feitos por Hollywood ou pelos cinemas industriais europeus. É neste contexto que um grupo de jovens, com as mais distintas formações, começou a discutir a idéia de se criar um cinema nacional que construísse uma identidade político-cultural para o povo brasileiro, e que posteriormente viriam a criar o Cinema Novo.
No Cinema Novo os filmes seriam voltados à realidade brasileira e com uma linguagem adequada à situação social da época. Os temas mais abordados estariam fortemente ligados ao subdesenvolvimento do país. Tais ideais seriam totalmente contrários aos caríssimos filmes produzidos pela Vera Cruz. Outra característica dos filmes “cinemanovistas” é o fato de conterem imagens com poucos movimentos, cenários simplórios e falas mais longas do que o habitual.
A obra cinematográfica que marca o início do Cinema Novo é Rio 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos. Era um filme popular que tinha o objetivo de mostrar o povo ao povo. Foi realizado com um orçamento mínimo e ambientado em cenários naturais. O núcleo mais popular do cinema novo era composto por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman, David Neves, Ruy Guerra e Luiz Carlos Barreto.
O movimento ganhou legitimidade no exterior. Os diretores do Cinema Novo exibiram seus filmes em importantes festivais internacionais e ganharam diversos prêmios. Porém, embora tenha havido este reconhecimento, não foi suficiente para garantir-lhes uma fatia representativa do mercado exibidor brasileiro. Sem acesso ao grande público não seria possível combater o imperialismo e o colonialismo cultural, nem criar o que chamavam de “o novo homem brasileiro” desalienado e consciente. Ademais, os únicos que compreendiam suas propostas e objetivos, em totalidade e complexidade, eram os próprios “cinemanovistas” e poucos outros simpatizantes. Assim, criou-se um processo de isolamento do público, além disso, a repressão da ditadura, condição política do Brasil na época em questão, também contribuiu para que fosse chegado o fim do Cinema Novo.
Glauber Rocha é muito conhecido por seus filmes, porém foi um homem de múltiplos talentos. Durante o longo de sua vida ele deixa rastros em variados segmentos artísticos. Seu talento junto ao cinema é inegável, mas não se pode deixar de lado suas outras produções. Teve peculiar participação no teatro escrevendo e atuando, participou em programas de rádio e também de TV, possui uma vasta produção textual contendo livros, poesias, manuscritos, artigos para jornais e, somados a isso, desenhos e uma enorme quantidade de cartas (mais de 500) produzidas durante suas viagens.
Em sua filmografia encontram-se desde documentários até longas-metragens, resultando um total de 20 produções (18 longas-metragens, 5 Médias-metragens e 5 Curtas-metragens e 2 Diários de viagens). Sua obra “faz combinar cinema, política e mitologia popular onde a história não é contada e sim cantada, como num cordel nordestino” (BENTES, Ivana). Sua obra pode ser dividida em três fases: a Fase revolucionária, Fase estrangeira, e uma Fase final.
Glauber inicia com seu primeiro curta-metragem em 1959, com “O pátio” que possui influência do concretismo e apresenta linguagem hermética e experimental que ele logo abandona em favor de uma linguagem mais política. Dentre os filmes produzidos por Glauber Rocha destacam-se três que ganham boa projeções e marcam bem as fases do Cinema Novo, sendo, muito conhecidos e citados pela crítica devida suas indicações/premiações no Festival de Cannes, são eles: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969). Filmes que revolucionaram por suas grandes críticas sociais e quebra de padrões importados de filmagens.
Nascido em 1939 na cidade de Vitória da Conquista e letrado em Salvador, Bahia, inicia-se na arte aos nove anos ao escrever uma peça de teatro, em espanhol, chamada El Hijito de Oro. Aos treze entra no mundo da crítica, em 1957 filmou seu primeiro filme. Crítico, escritor, ator e, sobretudo cineasta, um dos integrantes mais importantes do Cinema Novo, com o conceito de que cinema se faz com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça criou uma identidade ao cinema nacional.
Vítima da Ditadura no Brasil teve seus filmes censurados, seu apartamento invadido pela polícia e, preso em 1965 com ouros intelectuais foi exilado. Na Europa aprendeu e produziu muito, passou por Portugal, Itália, Espanha. Apresentou tese na Universidade de Columbia nos Estados Unidos, filmou na África para produtores franceses. Entre 1971 e 76, já livre do exílio, passou pelos centros comunistas e de esquerda do mundo, como Moscou, Paris e o Congo na África. Em Cuba, Chile, Peru e Uruguai estabeleceu contato com políticos ilustres, tais como João Goulart e recolheu material para um longa sobre a realidade da América, Nostra América e História do Brasil.
Glauber acreditava numa Revolução brasileira e afirmava que ela só ocorreria por meio da violência, que só o sangue provaria para o dominador que povo dominado tem voz ativa e vontade própria. Para ele cinema era política, por isso retratava em seus filmes a decadência das ditaduras latinas e ibéricas, a desgraça da população e a possibilidade de um levante e tinha por objetivo maior incentivar a população a buscar por meio da força sua libertação. Sempre envolvido em escândalos e coberto de críticas volta ao Brasil e em 1977 invade o velório do amigo Di Cavalcanti, narra o enterro como se fosse uma partida de futebol e acaba tendo o interditado pela filha do pintor.
Ganhador de vários prêmios do cinema, referência internacional, criou sua própria linguagem cinematográfica assim como uma ortografia própria onde combinava inglês, francês e espanhol utilizando a estrutura do português. Em 1981, após breve período em Portugal, volta ao Brasil seriamente doente, até hoje não se sabe ao certo de que, mas acredita-se que por problemas bronco-pulmonares, e vem a falecer aos 42 anos. Seu enterro foi filmado por Silvio Tendler e, ironicamente ou não, a mãe do cineasta, Lúcia Rocha, impede qualquer veiculação das imagens, hoje já liberadas e integrantes de documentários a respeito de Glauber.
AGEL, Henri. O cinema. São Paulo, Civilização, 1983.
BENTES, Ivana. Cartas ao Mundo: Glauber Rocha. Disponível em: . Acesso em 12 de setembro de 2008.
BERNARDET, Jean Claude. O que é cinema. São Paulo, Brasiliense, 1980.
BEYLIE, Claude. As obras primas do cinema. São Paulo, Martins Fontes, 1991.
PIRES, Lucas Rodrigues. Quem tem medo de Glauber Rocha. Disponível em: . Acesso em 12 de setembro de 2008.
Templo Glauber/Filmografia. Disponível em: . Acesso em 13 de setembro de 2008.
Estúdios Vera Cruz. Disponível em: . Aceso em 1 de abril de 2009.