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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

1984 - O ultimo não da ditadura




Por Eduardo Terra Coelho


1984 foi consagrado na História política brasileira como o ano das DIRETAS JÁ! Entretanto, o movimento começou em dezembro de 1983 com o primeiro comício, ainda organizado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) que reuniu cerca de 50 mil pessoas na cidade de São Paulo. O primeiro comício organizado por uma frente suprapartidária ocorreu do dia 25 de janeiro de 1984, quando a cidade de São Paulo comemorava seu 430º aniversário.
Daí em diante, até o dia da votação (25 de abril de 1984), foram incontáveis comícios pelas mais diversas localidades brasileiras, comícios que, isoladamente chegaram a marca de 2 milhões de participantes e, que se somados, comício a comício, ultrapassando a marca dos 40 milhões de participantes.
Muitos momentos foram marcantes nesse comício, como a tentativa insana da Rede Globo de tentar fazer crer que tais comícios quase não existiam o que a colocou em maus-lençóis perante a opinião pública, situação que até hoje é uma pedra no sapato dessa grande emissora. Ali sepultou sua confiança tida por inabalável perante a população brasileira. Fantástico o buzinaço e panelaço f eitos em Brasília e as tentativas do coronel Mário Andreazza em por fim ao movimento por lá. Fantásticas as ácidas críticas do cartunista Henfil ao movimento e a forma como agregava lideranças. Henfil, para quem não o conhece, foi o criador de personagens como Graúna e o cangaceiro Zeferino, tiras que preenchiam as páginas do Pasquim (do velho Pasquim) e de tantas outras revistas e jornais brasileiros. Aparece de forma imortal na música O bêbado e o equilibrista, na versão imortal de Elis Regina, na frase “a volta do irmão do Henfil… (E esse era o fantástico sociólogo e um dos criadores do Natal sem fome, Betinho). Numa de suas tiras para a Revista Isto é, em 1984, após ver tanta gente estranha ao movimento democrático subir no palanque das diretas já, soltou a mais ácida crítica ao movimento onde teriam imaginariamente subido ao palanque ACM e MALUF e a multidão alucinada gritava: “Bonvadeza!Bonvadeza!Bomluf!Bomluf!”


Dos comícios de que participei, lembro-me dos gritos de guerras da turma da Central única dos Trabalhadores (CUT) que completava um ano de existência, juntos com o pessoal do PT e do Partido Comunista do Brasil (PC do B), de “Greve geral, derruba general!” E também de mais um episódio com o saudoso Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro pela primeira vez. Atrás da Igreja da Sé, um amigo (Yves) e eu víamos o comício e passando pela lateral da igreja, nada mais, nada menos que Brizola, sozinho, sem seguranças. Corremos para lá e tivemos uma rápida conversa de cerca de cinco minutos. Ficamos admirados de ver um governador de Estado num local não tão tranqüilo da cidade, sem seus seguranças, mostrando assim a simplicidade e a confiança desse homem. Nada comparável ao que faz o governador do Estado de São Paulo, nos dias atuais, José Serra, que mais parece andar com um arsenal ambulante, além de não ser nada simpático.
Mas, no dia 25 de abril de 1984, em meio ao último comício pelas DIRETAS JÁ, apesar de quase 60% dos votos favoráveis a emenda do deputado federal pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) do Estado do Mato Grosso, Dante de Oliveira, a emenda não atingiu os dois terços mínimos necessários. O PT quis prosseguir a luta, mas terminou abandonado no meio do caminho. Quem faturou com o movimento politicamente foi o PMDB, sobretudo pela atuação do deputado federal pelo Estado de São Paulo, Ulisses Guimarães, apelidado pela grande mídia de o “Senhor Diretas”.
Meses depois, no dia 15 de janeiro de 1985, aconteceria a última eleição indireta para a presidência da República brasileira, até então. Interessante ver que a oposição ao regime, agora blindada com ex-golpistas aliados, na nova sigla que havia surgido durante o processo, o Partido da Frente Liberal (PFL, e atual Democratas-DEM), lançava o deputado federal pelo Estado de Minas Gerais, Tancredo de Almeida Neves, que décadas antes havia sido o primeiro e até então, único primeiro-ministro do Brasil em tempos de República na época em que um golpe era imposto ao presidente João Goulart (1961). Interessante também ver como o Partido Democrático Social (PDS, ex-Aliança Renovadora Nacional, de apoio à enfraquecida ditadura) costurou sua candidatura. Paulo Salim Maluf, que já havia sido prefeito da capital paulista e governador do Estado de São Paulo (pelos mecanismos da ditadura) e na ocasião deputado federal por esse mesmo estado foi escolhido candidato numa convenção na qual esmagou o coronel Mário Andreazza, que no início da convenção ria a toa, acreditando vence-la e terminou carrancudo como sempre, após ver a inevitável derrota. (Praga feita pelos brasilienses que espancou durante o movimento das Diretas já!).

No dia 15 de janeiro, quando rolava Barão Vermelho, na primeira edição do Rock”n Rio, no Rio de Janeiro (já houve esse festival fora dessa cidade, em Lisboa, coisas do Brasil e dos brasileiros), Frejat, com a bandeira do Brasil comemorava a vitória de Tancredo Neves – esmagadora por sinal -, seu pais era deputado federal do PFL do Estado do Rio de Janeiro. Assim como Maluf esmagou Andreazza na convenção do PDS, Tancredo esmagava Maluf no Congresso Nacional, que para esse caso contou com deputados federais, senadores e cerca de 136 deputados estaduais escolhidos de todos os estados da federação para compor esse colégio. Tancredo teve cerca de 486 votos contra os cerca de 180 de Maluf, e pouco mais de duas dezenas se contava entre os votos em branco, nulos, abstenções e ausências. Apesar das eleições indiretas, seria a primeira vez, desde 1964 que o Brasil teria no poder um presidente civil. Foi o último não da ditadura militar (Não às eleições diretas) e o primeiro sim da possibilidade de um país democrático. Eleições diretas para presidente da República só se realizariam nos dois turnos de 1989 (15 de novembro e 17 de dezembro de 1989, e ainda assim, por conta do presidente José Ribamar Sarney ter reduzido seu mandato de 6 para cinco anos).
Como Tancredo não tomou posse e veio a falecer em 21 de abril de 1985, seu vice, antes do PFL e filiado por questões legais, ao PMDB, foi quem assumiu a presidência e tinta até então, quase que o tempo todo sido um homem da ditadura, assim como o primeiro presidente civil eleito em eleições diretas desde 1960, Fernando Collor de Mello, taxados, ambos como filhotes da ditadura por Leonel Brizola). Somente, a partir de Fernando Henrique Cardoso (FHC) do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), surgido de um racha no PMDB, por conta da forma como foi costurado no Congresso Nacional 5 e não 4 anos para Sarney, é que vamos ver ser eleitas pessoas desligadas, aparentemente, dos homens da ditadura, mas que a estes se aliariam por questões de pura fisiologia. Isso vale, infelizmente, não apenas para FHC, mas para Luís Ignácio Lula da Silva (LULA), do PT. Parece que assim como o fantasma de Getúlio Dornelles Vargas assombrou os militares, mesmo após consolidado o golpe de 1964, que os maus espíritos da ditadura ainda assombram nossa vida política, por isso, para que se cale de uma vez por todas esses espíritos zombeteiros – roubando aqui uma expressão do seriado Chaves – para não falar de Chavez, é que a abertura dos documentos da ditadura e mesmo da Guerra do Paraguai, se fazem mais do que necessários. O Não da ditadura ainda nos assombra! Às favas com ele!

4 comentários:

etcoelhoh disse...

Qualquer comentário meu é altamente duvidoso. O texto foi escrito com base em minhas memórias e leituras sobre o tema, sem a pretensão de ser algo acadêmico.

Eduardo Terra Coelho

Anônimo disse...

Parabéns pelo acervo em sua memória. apenas uma correção: Tancredo Neves, na época da Diretas Já, era governador de MG e não deputado federal, como mencionado.
Saudações.

Jessé Amaral Chahad disse...

Obrigado, é sempre bom ter leitores atentos assim!

Anônimo disse...

Teve um ar de filme nacional. Caberia um filme, com o título: O último não da Ditadura. Parabéns