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terça-feira, 4 de setembro de 2007

O Escriba e o legado da escrita no Antigo Egito


O Escriba, de Alessandro Roccati, que constitui o terceiro capítulo do trabalho organizado por Sérgio Donadoni, O Homem egípcio, obra que traz estudos de diversos especialistas, retrata a sociedade antiga do Egito a partir da análise de figuras humanas essenciais como o Sacerdote, o Escriba, o Faraó, entre outros.
O desafio é enorme se considerarmos que para o estudo de um período tão distante na cronologia, existam não mais do que fragmentos que procuramos, à luz dos debates atuais, interpretar e entender os aspectos únicos de uma sociedade hierarquizada e bastante organizada dentro dos seus próprios conceitos.
O Escriba será objeto de estudo de Roccati, com o objetivo de demarcar as características que diferenciavam esta categoria da dos indivíduos comuns, a fim de demonstrar a complexidade das relações sociais e políticas do período. Para isso será necessário definir quem era o Escriba, e quais eram suas funções e deveres dentro do sistema de classes e ao longo da passagem do tempo. Além disso, ele se dedica a aspectos de caráter pessoal e intelectual da figura do escriba em sua construção.

Alessandro Roccati, italiano, é graduado em Letras pela Universidade de Roma e com apenas 26 anos já obtivera especialização em Egiptologia em três importantes instituições, entre elas Oxford. Curiosamente seus primeiros trabalhos se iniciaram apenas após sua permanência de dois anos no serviço militar.
Sempre vinculado a museus, procura estudar os papiros, manuscritos, epígrafes, túmulos. Participa de escavações arqueológicas e publica diversos trabalhos dedicados à história da cultura egípcia antiga, sua literatura, seus elementos de linguagem e as características do seu cotidiano em diversos contextos históricos.


Se procurarmos na estrutura do texto fazer uma divisão a fim de facilitar seu entendimento, criaremos na verdade um problema. Apenas a separação necessária entre a introdução acerca do que se trata o estudo, os argumentos defendidos e a conclusão, é utilizada para garantir a fluência, coesão e unidade ao texto. A trajetória da figura do escriba é relatada em diversos momentos do Egito Antigo, destacando em cada período a sua significância e a sua relação com o poder. Isso nos leva a considerar que escrita então, torna-se objeto inseparável de um estudo que se propõe a tratar do Escriba.

Para um especialista em letras clássicas egípcias como Roccati, fica difícil não deixar transparecer em suas palavras, quase que uma apologia à escrita, e mostra como ela se difundiu, e foi utilizada dando exemplos que remetem aos 2º e 3º milênios.
A associação entre língua e escrita era necessária às práticas religiosas e rituais, que conferiam a alguns escribas um caráter quase mágico que o autor explica quando tenta definir o papel do que chama de sacerdote leitor. A leitura ritual, dos textos sagrados requeria a habilidade não só do conhecimento da escrita, mas principalmente a capacidade de interpretação dos signos, que em sua forma gráfica ou lingüística poderiam apresentar significados diferentes se não fossem lidos com destreza.



Se quisermos cometer um anacronismo, podemos comparar as dificuldades do sacerdote leitor ao interpretar os textos sagrados tão distantes no tempo com os problemas correntes da Arqueologia que através de poucos vestígios legados por tempos ainda mais distantes, tentam novas teorias e releituras em busca de equívocos, ou ao menos de novas possibilidades de entendermos aquelas escritas a partir das inovações e descobertas da Lingüística.
Apesar de a condição de escriba se considerada fator de diferenciação social em relação a homens que não liam ou escreviam, a classe estava sujeita a hierarquia interna que se formava de acordo com os níveis de conhecimento e de utilização da escrita. O autor cita como exemplo, os hieróglifos do túmulo de Djau, em Abidos (finais da 4º dinastia, aprox. 2200 a.C.), que revelam que Djau foi escriba dos rolos divinos e era chefe dos que escreviam actas regias, além de ser sacerdote leitor. Em tempos em que estado e religião se fundiam a busca do conhecimento era necessária para ascensão e participação ativa no processo.



De menor importância na hierarquia, mas participativos no funcionamento da sociedade estavam os escribas que apenas podiam ler os números, ou dominavam a escrita de maneira simples, necessária para contabilidade. O registro dos rendimentos propiciava o inventariado dos produtos, e principalmente a distribuição de recursos. A profissão de escriba passa então a ser ambicionada por permitir estar ao lado do corpo administrativo, seja econômico ou religioso, e aproxima o escriba das classes superiores, dos funcionários e sacerdotes, e certas vezes mesmo após sua morte teria garantido certo privilégio ao lado dos deuses.



Ao deixar de lado a questão das funções do escriba, o autor se interessa em trazer aspectos de caráter pessoal em sua construção da figura do escriba. Talvez nem todos gozassem de conhecimento e intelectualidade notável, a maioria talvez apenas reproduzisse mecanicamente os ensinamentos aprendidos. Mas interessa a Roccati a idéia de que cada vez mais o conhecimento trazia intelectualidade, e a escrita, e a leitura fecundariam o embrião que viria a formar a futura classe administrativa dominante de magistrados. Claro, guardadas as proporções de mobilidade social, era inevitável que o conhecimento da escrita era requisito mínimo e cada vez mais importante, se difundindo e multiplicando suas formas de maneiras diversas no longuíssimo tempo.

Podemos pensar a partir de uma passagem do texto, uma citação que segundo o autor vem confirmar um antigo conceito (...) de que a escrita é mais duradoura do que a pedra com que foram construídas as pirâmides e que por isso, quem a sabe utilizar está mais seguro do que as múmias que foram encerradas em suntuosos sepulcros. Devemos lembrar que apesar de sólida, a escrita que até hoje nos é fundamental não se apresenta em blocos, como os das pirâmides. A escrita, como a língua é orgânica e sofre diversas modificações de acordo com o contexto, a cultura e a própria passagem do tempo.
A importância da escrita, e sua transformação de instrumento do Estado a objeto de conhecimento pessoal do escriba, não configuram um deslocamento de sua função, mas talvez a busca de ascensão em uma sociedade marcada fortemente pelas desigualdades e pouca mobilidade. Alessandro Roccati, especialista em línguas, literatura, cultura tece suas teorias dentro de uma esfera acadêmica, fruto de uma sociedade em que a ascensão social é possível através da busca de conhecimento. A cultura da meritocracia pode ou não ser um reflexo dos tempos Antigos, afirmação que talvez jamais venhamos a confirmar, porém influencia a construção da imagem do escriba feita pelo autor no texto.

Dentro de uma sociedade que pretende ser funcional, onde cada figura tem o seu papel, a intenção do texto é mostrar que na antiguidade podemos encontrar subsídios para afirmar que o lugar dos intelectuais, daqueles que tem o conhecimento, é destacado do comum, e sempre está aliado ao poder. Deter o conhecimento nos dias de hoje é deter uma forma de poder sobre os demais, e como só podemos entender o passado a partir das formulações de hoje, não podemos tomar nenhuma construção como fiel, ou definitiva, seja do escriba, seja do funcionário.















Exemplo de papiro egípcio datado de mais de 5.000 anos

O Cidadão e o Poliítico - Personagens da República Romana

Por Jessé A. Chahad

Ciente de todos os problemas que podem estar contidos nas formas tradicionais de se estudar as interpretações acerca do Mundo Clássico, e mesmo as implicações de se utilizar desses conceitos hoje debatidos, este trabalho não estará livre de possíveis anacronismos e poderá ser entendido como a proposta de um exercício de leitura crítica de algumas idéias apresentadas, quando possível fazendo descontruções, ou levantando novas questões pertinentes ao entendimento da proposta trazida.

Claude Nicolet, francês, é Historiador especialista em questões da República, e professor emérito da Sorbonne. É autor de três relatórios sobre a educação cívica para os ministérios da Educação (1984), da Defesa (1989) e do Ensino Superior (1996). Entre outras obras, podemos citar La République en France : état des lieux (1992) e Histoire, Nation, République, (2000).Segundo Nicolet, a constituição de uma República deve conter como fator indispensável a construção do conceito de cidadão, feita através de um sistema de educação que possa garantir a criação e o cumprimento de um corpo jurídico que teoricamente deve ser aplicado a todos.

A principio, podemos dividir o texto em quatro partes, que seguem a lógica do raciocínio utilizado pelo autor. Seu objetivo é determinar a importância de dois personagens ( o cidadão e o político) no processo de formação da República de Roma, se utilizando de documentos de caráter censitário, e também analisando decretos e publicações em busca de delinear a trajetória das duas figuras.
A primeira parte ( pág. 21 a 22) é uma breve introdução que muito tem a dizer sobre a tônica do texto. Nicolet toma como exemplo o processo da Revolução Francesa para demonstrar os problemas de se recorrer ao modelo de organização cívica da “República Romana” como exemplo a ser seguido na construção de um corpo político ideal e representativo. A apologia à vida citadina e à um sistema de educação são alguns conceitos presentes nos escritos de Tácito, Tito Livio, e Plutarco. Esses autores foram retomados pelos escolásticos, atravessando a Idade Média, e chegando aos tempos modernos do iluminismo, sendo celebradas por alguns pensadores que buscavam argumentos eficientes para a organização de uma vida política em processo de transformação.
O conceito de cidadania deveria ser interpretado de maneira que representasse a princípio um elemento de unidade entre o povo, fator necessário à nova ordem, a do nascimento ou construção dos Estados-nações. Citando passagem do texto, (...) os fundadores da liberdade moderna (entre os quais os jacobinos franceses) partiam à reconquista de uma Antiguidade perdida.
Seguindo a divisão proposta, na segunda parte do texto (pág. 22 a 30), Claude Nicolet vai tentar construir o conceito de cidadão e de cidadania, revelando as dificuldades que surgem ao tal definição, e a impossibilidade de se conseguir determinar de maneira conclusiva ou determinante qualquer tipo de conceito. Isso se evidencia na medida em que o autor apresenta de maneira extensiva as condições que permitem a classificação de um individuo como cidadão ou não, de acordo com o contexto do momento.
Diversas mudanças aconteciam quase sempre dentro da esfera que envolvia as obrigações civis que permitiam a prática da cidadania: os deveres militares e as guerras, a participação no sistema fiscal e político. Em suma, o papel de cada um dentro de um estatuto jurídico, uma comunidade de direito, e principalmente de interesses. Porém não devemos entender que se tratava de uma comunidade igualitária, e dentro dos argumentos apresentados estão marcadas as diversas hierarquias e diferenças sociais.
Seguindo seu argumento, na terceira parte, (pg. 30 a 45) o autor vai selecionar três aspectos da vida cívica, considerados fundamentais para a formação da cidadania: a atividade militar, a política, e a classe política. Ou seja, todo individuo educado militarmente que pudesse ser mobilizado, ou qualquer contribuinte que ainda pudesse se candidatar a uma função cível, integrando o corpo político, poderia participar, de forma limitada é claro, da vida da cidade, do sistema dito representativo.
A atividade militar exigia um contingente cada vez maior e desequilibrava as contas do estado, não só nas campanhas mal sucedidas, mas também na medida em que novas conquistas alargavam os limites territoriais e sobrecarregavam a arrecadação de tributos, a distribuição de terras como parte do soldo se tornou um problema a ser resolvido com a criação de um salário em moeda. As convocações periódicas gradualmente deram lugar a um exército permanente, profissional e proletarizado, a serviço de uma política imperialista (grifos meus, termos utilizados pelo autor).
A política era instrumento que funcionava de acordo com a hierarquia, e permitia através das assembléias, a soldados e contribuintes a participação de maneira efetiva no campo em que se travavam os debates e se reclamavam os direitos prometidos pelo sistema representativo. Os indivíduos considerados pobres, ou que não faziam parte de nenhuma agregação, como por exemplo, tribos ou centúrias, dificilmente encontravam meios de representação e simplesmente eram excluídos do processo de eleição. Mais um problema do modelo visitado pelos pensadores modernos.
A formação de uma classe política é tratada a parte pelo autor, e se faz necessária a construção da figura do homem político, que chega às vezes a se confundir com a própria noção de cidadão. As tradições patriarcais e oligárquicas instrumentavam a formação da classe política que aliada a um forte exercito, garantiria por um tempo a sobrevivência da República.
Na última parte, (pág. 46 a 48) o autor irá concluir seu pensamento, sugerindo que a partir destes preceitos basilares, deve se somar a condição natural, ou existencial do homem político romano, e as características que ela lhe impõe, e que também o definem. Além disso, nos leva a pensar nas conseqüências da formação deste sistema, que funcionou durante um período importante, mas que não impediu a queda da República.
Com isto, a leitura do texto nos leva a crer que mesmo com a utilização de arcabouços teóricos que pretendem eleger o modelo de sociedade civil romana como ideal a ser aplicado em outro contexto, esse preceito deve ser cuidadosamente colocado em dúvida. Todas as imperfeições do modelo, que o autor nos traz, têm como objetivo também demonstrar que não existe um molde ideal para a formação de uma República. E ainda, que a noção de liberdade não está associada necessariamente ao conceito de república, ou ainda se quisermos de democracia. Esse fator confirma a imprevisibilidade da História, que não pode ser construída a partir de experiências anteriores.
A diferenciação entre homem romano e o cidadão romano feita por Nicolet ao decorrer de seu trabalho, mostra também que o a quantidade de cidadãos em Roma, sempre era bem inferior ao número de homens comuns, evidencia de que por mais participativo que o sistema se propunha a ser, era na verdade uma minoria que estava efetivamente no controle das decisões. Fator que mostra uma sociedade de privilégios, desigualdades e conflitos internos por poder, que também fizeram eco na modernidade. E por que não na contemporaneidade?

História da Vida Privada no Brasil-Império, a corte e modernidade nacional.

Por Jessé A. Chahad



A coleção História da Vida Privada no Brasil, dirigida por Fernando Novais é dividida em quatro volumes e constitui uma das obras recentes mais importantes sobre História do Brasil, e representa um marco no mercado editorial brasileiro devido ao sucesso de vendas em um país que lê pouco e compra ainda menos. O enfoque na vida cotidiana faz um recorte da sociedade brasileira e procura através de documentos tidos como privados construírem o ambiente das relações sociais desde o descobrimento até meados do século XX.
A partir da leitura de testamentos, dados do recenseamento, correspondências, fotografias, entre outros documentos, os autores vão traçar dentro da cronologia tradicional, temas pertinentes ao cotidiano do Império, costumes e práticas comuns aos habitantes, além de curiosidades pontuais que fornecem detalhes fundamentais para o entendimento da História, que muitas vezes tem diminuída a sua importância por parte dos historiadores que tratam exclusivamente da História pelo seu viés econômico, ou ainda os que trabalham a História social de uma maneira tradicional, porém com certo conservadorismo que impede novas interpretações acerca da importância dos costumes como retrato e imagem de uma nação.
Esta resenha não pretende ser um resumo do livro, porém devido ao formato da coleção, o qual apresenta uma divisão em capítulos independentes dentro da obra, se considerou necessário produzir o texto de maneira abrangente, com o desafio de representar todo o volume, tendo uma unidade a partir da opção temática da coleção. A riqueza dos detalhes trazidos nos trabalhos demandaria um trabalho maior, e talvez sua utilização em excesso pudesse se limitar à repetição exaustiva de dados.
Na introdução, o historiador Luiz Felipe de Alencastro atenta para a importância de uma obra fundadora do estudo da vida privada no Brasil. Trata-se de Sobrados e Mucambos de Gilberto Freyre, publicado em 1936 e que trazia uma história a partir de diários, correspondências, noticias de jornal e estudos acadêmicos oitocentistas, e polemizava sobre diversas questões da historiografia, como por exemplo, a relação entre senhores e escravos.



Vida publica e privada
No primeiro capítulo do volume, o historiador Luiz Felipe de Alencastro irá tratar de forma geral as condições da vida privada no Império. Inicialmente a sociedade de privilégios será o tema em questão, visto que de certa forma essa condição é determinante para o entendimento de certos fatores, como por exemplo, o que leva as autoridades públicas a terem de dar o aval sobre a posse e gestão de uma propriedade privada muito presente: o escravo. Esse paradoxo iria atravessar os anos da gestão imperial, e o autor demonstra não acreditar que esse escravismo era herança colonial, ou seja, não representava um atraso. Era visto sim, como um projeto para o futuro, que pretendia incluir a escravidão nos quadros do Direito moderno, demonstrando a peculiaridade do tipo de modernidade que procurava se construir[1].
Alencastro irá afirmar que o Rio de Janeiro será local difusor de regras e costumes, por sua vez importados da Europa, seriam moldes para o padrão de comportamento que iria atravessar o país pelo século XIX. Nova contradição se apresenta a partir desse fato, pois as diferenças eram decisivas e por diversas vezes representavam entrave para a difusão do modelo europeu. Vestimentas, instrumentos musicais, e acessórios ditavam os usos e costumes e hierarquizavam a sociedade através da criação de um código de ética, ou melhor, uma etiqueta, que deveria ser seguida à risca - sinal de civilização. Os sapatos, por exemplo, eram peças do vestuário que serviam facilmente como diferenciadores entre classes, visto que apenas homens livres os possuíam, fato endossado por fotografias do período.
As diversas revoltas do período serão tratadas dentro do contexto cultural, e a derrocada do sistema escravista estaria ligada aos conflitos provocados pelos escravos do Oeste paulista no período posterior ao fim do tráfico internacional em 1850. A resistência dos próprios escravos colaborou para que novos tipos de mão de obra passassem a ser vistos como solução econômica para o senhorio[2].
O cotidiano das religiões e crenças foi estudado pelo historiador João José Reis, e nos trouxe um interessante ponto de vista sobre os costumes ligados a morte. A partir da análise de testamentos, Reis tentou demonstrar as preocupações que a morte representava e o imaginário das crenças pós mortem que deveriam garantir antes de tudo, um enterro digno, teria garantia quase de salvação[3]. A presença não só de pessoas próximas, mas se possível ilustres, ao lado de carpideiras em grande número eram de bom gosto e significavam que a pessoa era bem quista. As carpideiras eram profissionais do choro, sua presença demonstrava o caráter cênico e festivo dos rituais de enterro, claro se entender festa no sentido de congregação e comoção social.
Os costumes dos africanos, sabidamente presente em maioria no Império também tem seus próprios rituais de passagem, inclusive com homenagens públicas, de acordo com o prestígio do morto. Apesar de todo o preconceito vindo da sociedade dominante, os escravos não se viam inibidos a demonstrar suas crenças. Ao contrário, eram motivo de resistência e orgulho, além de significarem que a autonomia cultural dos africanos por si só já se constituía, dentro das suas limitações, uma sociedade privada.
O embate entre público e privado vem à tona quando se iniciam as tentativas de transferência dos enterros realizados dentro das igrejas, para locais mais afastados, a fim de se preservar a higiene - conceito fortificado com o liberalismo-e que atingiam as paróquias, que por sua vez, eram dependes de donativos provenientes de testamentos, e de enterros. A chamada reforma por que passariam as instituições religiosas provocaria mudanças, como aponta o autor, a partir de então, a distância entre vivos e mortos, representada pelos cemitérios públicos parece ter criado um esfriamento nas relações com o sagrado[4].Assim requisitava a racionalização proposta pelo modelo liberal, cada vez mais presente e importante para a formação do contexto que viria a se desenrolar.
Ao estudar a opulência na Bahia, a professora Kátia Mattoso irá provocar um deslocamento do foco tradicional que permeiam os estudos sobre o Império, muitas vezes limitados ao Rio de Janeiro. Porém, a influência fluminense se demonstra definitiva na sociedade rural baiana, que procurava se adaptar aos costumes difundidos pela corte. Os relatos de Vilhena sobre a Bahia são trazidos pela autora através de outras obras da historiografia que trataram do tema, assim ela procura construir uma imagem da opulência que difere de certos moldes tradicionais da História.
A opulência era ostentada, e às vezes a ostentação era o mais perto que um plebeu poderia chegar de tal atributo, e mesmo podendo ser fictícia, não deixava de ser elemento de diferenciação social ao passo em que na Europa, a nobreza a via como afirmação de seu poder[5].A distribuição de títulos de fidalguia fazia com que genealogias inteiras fossem criadas, a fim de que com sobrenome de prestígio, um cidadão comum pudesse se diferenciar dos demais e o conduzir a uma função pública, ou qualquer coisa que o aproximasse da aristocracia.
Segundo afirmação de Stuart Schwartz, “apesar da aspiração ao status de nobreza, os senhores de engenho constituíam se essencialmente em uma aristocracia de riqueza e poder, que desempenhou e assumiu muitos dos papeis tradicionais da nobreza portuguesa, mas nunca se tornou um Estado com bases hereditárias”, com essa afirmação Kátia Mattoso demonstra a linha que pretende seguir, ao considerar que a aristocracia baiana nunca viveu escondida atrás dos muros (grifo meu) e atentando para a mobilidade que poderia trazer a simples convivência entre os meios rural e urbano[6]. Sinal disso era a quantidade de dinheiro que circulava em forma de empréstimo, fato bem visto, se considerarmos a tendência de modernização e progresso que estava associada ao sentimento de solidariedade em detrimento do conceito antiquado de usura e da honestidade dos baianos, quase sempre pagadores de suas dívidas.
A autora vai retomar a questão do modelo escravista iniciada por Gilberto Freyre, quando trata da questão dos escravos e trabalhadores livres, estabelecendo entre esses dois personagens da sociedade uma relação de poder, além de comparar os dois estamentos. Para Mattoso, alguns escravos também gozavam de certas regalias, claro de acordo com a posição do senhor a que ele pertence: “o escravo de uma casa de ricos será quase sempre desdenhado pelo seu colega mal nutrido pertencente ao seu vizinho pobre” [7].Essa tese implica a discussão acerca dos diferentes modos de dominação dentro do próprio sistema escravista, mas sem qualquer “brandura” que pode ser erroneamente interpretada.
Muitos trabalhos já foram produzidos, inclusive por Ana Maria Mauad, sobre o papel das imagens na construção dos costumes e do imaginário na sociedade. Quase sempre remetemos ao olhar estrangeiro, que através dos seus viajantes contribuiu com relatos escritos e até fotográficos. Não podemos esquecer da especificidade que pode representar o ponto de vista desses viajantes, em sua maioria em busca do pitoresco e do extraordinário. Portanto devemos ver com algumas ressalvas certas afirmações acerca do assunto, como Mauad nos traz[8], pois a fotografia nos seduz a pensá-la com uma áurea de realismo extremamente significante, porém longe de teor incontestável.
Algumas exceções se apresentam como o fotógrafo Marc Ferrez que procurou retratar também o mundo trabalho, além de figuras ditas comuns ou de pouca importância, mas que são relatos do contraste entre a imagem de modernidade e progresso pretendida pelos governantes e o atraso representado pela miséria e trabalho escravo. Seus trabalhos atravessaram o tempo e são referência tanto no estudo da História do Brasil, quanto no debate sobre o uso de registro fotográfico como documento histórico e todo o problema relacionado à sua pretensa oficialidade.
Seria impossível não se utilizar de fontes iconográficas para a produção do texto, devido à sua notável presença no período e posteriormente sua importância como documento. Ana Maria Mauad vai utilizar imagens em busca de uma visão mais detalhada sobre o significado das representações e construções presentes no material. A fotografia, símbolo da modernidade foi muito utilizada por D Pedro II na construção da imagem que queria demonstrar. Ele mesmo obteve diversas fotografias, inicialmente através da daguerreotipia e mais tarde com o avanço das técnicas de reprodução se utilizou ainda mais em um processo publicitário sem precedentes nos trópicos. Contribuía para isso, a alta taxa de analfabetismo que contribuía para que a fotografia se tornasse uma linguagem mais acessível a todos.
A título de curiosidade, vale lembrar que na Campinas de 1833, o pintor Hercules Florence já havia conseguido desenvolver a fotografia através de técnica própria, fato ainda não tratado de maneira digna pela historiografia e objeto de estudo do historiador Boris Kossoy, especialista em imagens, em diversas de suas obras.
Mais uma vez os costumes importados se impõem, e estão presente nas imagens representadas pelo vestuário, e pelo caráter cênico demonstrado pela analise do cenário. Não só o imperador se preocupava em ser retratado ao lado de bustos de figuras de destaque ou globos geográficos procurando demonstrar sabedoria e cosmopolitismo. As famílias em geral procuravam se retratar com toda pompa exigida pela pequena ética dos costumes. Os escravos ditos domésticos eram por vezes enfeitados e demonstrados com certo orgulho por seus senhores. Porém a expressão nos rostos dos retratados não nos exige muito estudo para que nos dias de hoje possamos ter um sentimento de tristeza oriundo de um período extenso e cruel para os negros no Brasil.
O debate sobre o escravismo tem seqüência no trabalho de Robert W. Slenes que nos apresenta uma carta muito peculiar na qual um jovem dá alforria a sua própria mãe, insinuando a maneira peculiar que se davam as relações sociais no período. A partir de então, o autor irá narrar de maneira detalhada a saga da família Gurgel Mascarenhas, natural de Minas Gerais, mas empreendedores que apostaram em São Paulo. Dentro desse contexto, transparece o crescimento e o desenvolvimento agrícola da região Oeste. Essa família serve como exemplo para os moldes da época, em que o inevitável contato entre senhores e escravos começavam a produzir frutos, ou como no caso,serem incluídos em testamentos filhos antes rejeitados.
Robert Slenes irá contrapor os trabalhos das historiadoras Elizabeth Kuznesof e Hebe Mattos de Castro buscando nesses trabalhos elementos que formassem bases de comparação entre a mobilidade social nas províncias de São Paulo e Rio de Janeiro respectivamente. Nota-se que entre os agricultores o enriquecimento por meio do escravismo era mais freqüente no início de século, e declinou ao passo em que pequenos e médios senhores se encontravam em situação crítica[9].Mais uma vez, a presença de escravos em serviços domésticos convivendo dentro da casa senhorial é vista como fator de certa mobilidade, mesmo dentro do sistema severo qual estava inserido e para o autor, representa uma alteração no quadro da vida privada.
O tema da imigração é estudado no contexto das fazendas de café do oeste paulista, com o imigrante sendo introduzido de maneira gradual junto aos cativos, o que pode ter desencorajado uma massa maior de estrangeiros, assustados com as condições de trabalho e pouco beneficio. Ora, se os modos e costumes eram forjados na colônia e transpassavam o Atlântico, se mostrava necessária uma maior presença de europeus como força de trabalho, com a iminência do fim do escravismo. A chegada de colonos germânicos no o sul do Império, a vinda de portugueses em maior número que antes era freada no período joanino, eram incentivadas com políticas imigrantistas somente a partir de 1818. Terras públicas teriam sido o primeiro atrativo para convencer novos imigrantes a investirem seu próprio capital no país[10]. Nota se não estava se pensando inicialmente em substituição de mão de obra, e sim um sistema de loteamento que propiciasse novos pólos produtores. O quadro imaginado não correspondeu à realidade. A chegada numerosa de imigrantes pobres engrossava as camadas baixas e disputavam ainda trabalho com cativos, que agora trabalhavam em um regime de emprego agora semi – escravista. A situação tem melhoria a partir dos investimentos da corte em infra-estrutura, com a construção de estradas e vias férreas no fim da década de 1850.
Os números apresentados pelos autores merecem destaque, pois ilustram o fluxo migratório para o Brasil: entre 1550 e 1850 chegaram cerca de quatro milhões de africanos, enquanto de 1850 a 1950, 5 milhões entre europeus e asiáticos. Após a abolição, intensificaram se a presença de espanhóis e italianos. A transformação da sociedade era irreversível, e a abolição deu início a uma série de modificações legais e concedeu direitos aos cidadãos, ainda que com todos os problemas que sabemos interferirem de maneira direta quando se trata de uma mudança na ordem privada de um local.
Porém, obviamente notamos nos dias de hoje a herança negativa deste processo que exclui a maioria da população negra, que historicamente busca seu espaço na nova ordem. Lembrando que aos libertos, nada alem de uma falsa liberdade foi concedida, pois não tinham terras, nem condições ou reparos pelos anos de cativeiro. O estereótipo do escravo dava lugar ao do negro liberto, confirmando o preconceito que era reflexo da frustração de uma elite que perdera sua mais lucrativa forma de exploração.
Para simbolizar as transformações defendidas ao longo do trabalho, Evaldo Cabral de Mello irá ao último capitulo reforçar o que vimos anteriormente. Dialogando com Gilberto Freyre, o autor vai fundo na intimidade da ordem privada, e se dedica ao estudo de diários pessoais, uma freqüente prática principalmente entre a elite, chamados de “livros de assento”, “pequenos cadernos onde o chefe da família anotava os principais acontecimentos da história doméstica.”.
O “fim da casa grande” marca o turbulento processo de modernização forçada e inspirada no modelo europeu. O progresso, a republica, o futuro era inevitável e o Brasil procurava se adaptar a nova velocidade dos acontecimentos, a revolução cientifica, aos novos modelos políticos, porém com certo atraso criado pela própria ineficiência do Estado, em tentar impor costumes de caráter civilizatório com moldes próprios e interesses mais do que suspeitos.
A importância da História Privada no Brasil reside nos documentos legados pelas gerações que nos ajudam a entender melhor a sociedade, pois aproxima de maneira incontestável o objeto de estudo sob o prisma do cotidiano e procura mostrar de uma maneira mais prática a presença de fatores que são estudados na academia em forma de teoria pura, e muitas vezes se tornam trabalhos sólidos, porém frios e quase aritméticos.
De certa forma, não há uma tese única a ser defendida, há muito mais. Há um deslocamento do ponto de vista meramente econômico para uma intimidade quase desconhecida pela escola tradicional. A partir deste viés, é que vem à tona os debates da historiografia como sistema escravista, construção do Estado, Independência, etc. Também presente em todas as passagens está a inevitável influência de Gilberto Freyre, polemizado até hoje e às vezes mal interpretado, ele procurou demonstrar que apesar de todo o mal, podemos perceber algumas diferenças entre o nosso sistema escravista, e, por exemplo, o norte americano. Guardadas as questões que surgirão neste intenso processo de análise da complexa obra de Freyre, fica claro que ele se dedicou a inovar ao trazer para a academia o olhar sobre os costumes não só da aristocracia, mas também do insurgente povo brasileiro.

[1] Luis Felipe de ALENCASTRO, Vida privada e ordem privada no Império, in História da Vida Privada no Brasil, p.17.

[2] Idem, p.93.

[3] João José REIS, O cotidiano da morte no Brasil oitocentista, in: História da vida privada no Brasil, p.104.

[4]Idem, p.141.
[5] Kátia M. de Queirós MATTOSO, A opulência na província da Bahia, in: A História da vida privada no Brasil, p.153.

[6] Idem, p.156.
[7] Idem, p.158.

[8] Ana Maria MAUAD, “Para o viajante, a impressão causada pelo olhar é a que fica, fornecendo o estatuto de verdade ao relato. O fato de ele ter estado presente, de ter sido a testemunha ocular de um evento, ou de um hábito cotidiano qualquer, garante a sua narrativa o teor incontestável”. In: Imagem e auto imagem no segundo reinado. In: A História da vida privada no Brasil, p.185.

[9] Robert W. SLENES. Senhores e subalternos no oeste paulista. In: História da vida privada no Brasil, p.247.

[10] Luiz Felipe de ALENCASTRO, Maria Luiza RENAUX. Caras e modos dos migrantes e imigrantes. In: História da vida privada no Brasil. P.

domingo, 1 de julho de 2007

Marc Ferrez

Por Jessé A. Chahad

Personagem de extrema importância na História da Fotografia, Marc Ferrez, nascido no Rio de Janeiro em 1843 assistiu ao período de afirmação do Brasil como nação no plano internacional e foi testemunha ativa do impulso inicial tecnológico da fabricação de imagens fotográficas[1]. Dedicou-se à obtenção de paisagens, retratos, arquiteturas, entre outras tantas se tornando talvez o mais importante fotógrafo do período. Filho do escultor francês Zépherin Ferrez, que veio ao País para integrar a Missão Artística Francesa - grupo de artistas convidados pela corte portuguesa então instalada no Brasil para criar aqui uma escola de belas artes - Ferrez nasceu no Rio de Janeiro em 1843. Perdeu os pais muito cedo e sua biografia nestes primeiros anos é um tanto nebulosa. Sabe-se, entretanto, que ele passou uma longa temporada em Paris, onde provavelmente aprendeu um pouco sobre uma invenção recente: a máquina fotográfica.
Entre 1863 e1864 decidiu voltar à terra natal e se estabeleceu como fotógrafo por volta desta época. Mas não era um profissional como a maioria. Desde o início, destacava-se pela pesquisa por novas técnicas e equipamentos. Não o agradava também a rotina de um estúdio, que o obrigaria a passar o dia repetindo retratos posados. Funda então um estabelecimento "especialmente destinado a fazer vistas do Brasil". Comercializa também equipamentos fotográficos, o que lhe garante a independência financeira que o livra dos temíveis retratos.
Sua relação com o Império se iniciou quando realizou uma serie de fotos dos festejos públicos promovidos no Rio de Janeiro por ocasião das comemorações pelo fim da guerra do Paraguai em 1870, quando no verso das fotografias assinava como “fotógrafo da Marinha Imperial e das construções navaes do Rio de Janeiro.” A história mostra que houve outros grandes profissionais em sua época, como Militão Augusto de Azevedo (1837-1905) e Guilherme Gaensly (1843-1928). Nenhum deles, porém teve uma produção tão ampla e variada quanto Ferrez. Nenhum registrou como ele, imagens das mais diversas regiões do País ou tampouco enxergou tão de perto as transformações de uma nação que procurava deixar para trás um estilo de vida arcaico, marcado pela escravatura, e tentava "civilizar-se".
O “feliz regresso” ao Brasil, no mês de Março de 1872 da primeira viagem de D. Pedro II ao exterior em companhia da Imperatriz Teresa Cristina foram retratadas em série por Marc Ferrez, quem em 1875 começa a trabalhar como fotógrafo da Comissão Geológica do Império, chefiada pelo cientista norte-americano Charles Frederick Hartt e participa da Exposição de Obras Públicas no edifício sede do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Representando o país em exposições nos Estados Unidos e na França, Ferrez levava aos estrangeiros as imagens que mesclavam a natureza abundante com o progresso tecnológico, representados, por exemplo, pela documentação feita sobre obras de canalização, ou construção de ferrovias. O fotógrafo seria ainda inovador ao utilizar pela primeira vez o flash de magnésio para obter imagens do interior de uma mina em Minas Gerais[2].
O fato de as imagens serem seleções particulares dos fotógrafos pode revelar suas intenções, que nem sempre são meramente documentais ou informativas. A professora Annateresa Fabris pensa que de um primeiro registro prototípico, voltado preferencialmente para os monumentos e paisagem, passa-se a documentação de usos e costumes diferentes dos ocidentais, de territórios, de caminhos, com um intuito francamente propagandista. A fotografia torna-se aliada da expansão imperialista[3] .
O interesse pelo registro fotográfico, por exemplo, dos projetos de engenharia dessa época não tinham como intenção o resgate da memória deste momento particular, representado nas fotografias, mas sim a possibilidade de identificar com este passado através dessa reprodução fotográfica um projeto de memorização daquelas obras e projetos[4]. A professora Maria Inez Turazzi ao investigar o papel da atividade fotográfica registrando os projetos de engenharia do Império procurou analisar até que ponto isso poderia ser parte de um esforço consciente na construção de uma herança as gerações futuras como um patrimônio coletivo e memória do sentido do progresso que queriam demonstrar.
Annateresa ainda demonstra que a fotografia tende a construir imagens dos burgueses idealizadas, com as fotos teatrais (cenário e roupas do estúdio) para disfarçar sua condição social, sendo os retratos distantes do indivíduo e perto das máscaras sociais. No entanto as fotos não perdem o caráter de verdadeiro, infalível e de veracidade, sendo estas utilizadas em fotografias criminalísticas como evidência, fotos de guerra, e também fotos de lugares exóticos afirmando ou confirmando a visão já existente (exemplo antigas civilizações). Este tipo de fotografia (de lugares exóticos e antigos) é importante, pois a massificação ocorre com os cartões postais, que realiza uma viagem imaginária e “democratizada”. Este “conhecimento positivo” é a ultima conseqüência da “missão civilizadora” da fotografia. Desta maneira “A fotografia cria uma visão do mundo a partir do mundo, molda um imaginário novo”.
A partir destes trabalhos, podemos concluir que a fotografia foi importante instrumento de afirmação do projeto civilizatório no Brasil iniciado no Império de D.Pedro II, o qual próprio era um adepto fervoroso da moderna invenção de Daguerre. A propaganda gerada de um país progressista e que tinha rompido seus vínculos coloniais era, porém fonte de um modelo também importado e que por isso foi de difícil difusão em um país tão peculiar quanto o Brasil.
Se nos perguntarmos mesmo nos dias de hoje acerca de um sentimento nacional, esbarraremos em regionalismos e dificuldades que duraram como herança de uma rica miscigenação. Talvez justamente essa mistura possa ser entendida como um fator de unificação em torno das diferenças. Mas na prática não é isso que costuma acontecer.
[1] Françoise REYNAUD, O Brasil de Marc Ferrez. In: O Brasil de Marc Ferrez, p.12.

[2] Maria Inez TURAZZI, Cronologia, in: O Brasil de Marc Ferrez, p.305.

[3] Annateresa FABRIS, A invenção da fotografia: repercussões sociais. In: Fotografia.Usos e funções no século XIX,p.32.

[4] Maria Inez TURAZZI. The photographic documentation of nineteenth century engineering projects,p.100

Fotografia e construção de imagens no Império Brasileiro.

Por Jessé A. Chahad

Apesar do debate sobre a invenção da fotografia, que é atribuída ao francês Louis Daguerre em janeiro de 1839, no Brasil temos a presença do pintor Hercules Florence que no Oeste paulista, na Campinas no ano de 1833 já havia conseguido desenvolver a fotografia através de técnica própria, objeto de estudo do historiador Boris Kossoy. Em 1839, ela chegava à corte, pelas mãos do Abade Louis Compte, recém chegado de uma de suas viagens pelo mundo e em um período de 40 anos se proliferou de maneira que o Rio de Janeiro fosse uma das capitais do mundo que apresentava um grande número de estúdios fotográficos, quase sempre de formação estrangeira. A própria família real dava muita importância às fotografias, devido ao grande número de fotos do período ainda existentes.
Inicialmente tida como artefato de luxo, pela própria escassez e dificuldade que representavam a daguerreotipia, as inovações representadas pela descoberta do processo conhecido como calotipia proporcionava a reprodução de diversas cópias a partir de um mesmo negativo em 1850. A partir de 1860, a aplicação de colódio úmido baixava consideravelmente o custo de produção da fotografia e popularizava o hábito[1] principalmente através dos carte de visite[2]. A alta taxa de analfabetismo do período forma uma camada da sociedade carente de informação visual, e com potencial para a prática insurgente da propaganda política e publicidade comercial, a imagem impressa alcança sua maioridade[3].
A fotografia como documento histórico é uma fonte importante de pesquisa e sua presença em grande número no Império levou diversos historiadores a buscar nas imagens elementos construtores de sua significação histórica e social, na tentativa de reconstruir o período com fidelidade. A fotografia enquanto representação do real, muitas vezes assume caráter de documentação oficial. Esse fato apenas reforça a tese de que a fotografia pode ser utilizada para a construção de um uma interpretação da realidade e ainda mais: o seu caráter realista, proveniente da relação entre o momento real e a representação, aliado ao caráter de oficialização acaba quase por determinar que contra as fotografias não existam argumentos possíveis de dubiedade.
São com essas representações que devemos ser cautelosos e recorrermos aos documentos fotográficos como fontes passíveis de algumas diferentes interpretações, além de ressaltar que toda fotografia enquanto produto cultural é trabalho de um fotógrafo, o qual também está inserido em um contexto particular e serve a um propósito ora pessoal, ora pré-determinado por alguma ideologia, ou motivação profissional. Weinstein & Booth são citados por Boris Kossoy em seu livro Fotografia e História, e aqui retomamos sua premissa para este trabaho: “perceber na imagem o que esta nas entrelinhas, assim como o fazemos em relação aos textos”, “precisamos aprender a esmiuçar as fotografias criticamente, interrogativamente e especulativamente (...)” [4].
Os costumes importados se impõem, e estão presentes nas imagens representadas pelo vestuário, e pelo caráter cênico demonstrado pela análise do cenário. As famílias em geral procuravam ser retratadas com toda pompa exigida pela pequena ética dos costumes burgueses europeus. Um livro dá um ar de intelectualidade, já a pena o faz um escritor. A coruja simboliza a sapiência, o cão fidelidade. As armas o poder. Esses símbolos laicos de dominação eram partes do estilo pictorialista dos retratos, herança das pinturas renascentistas. Esses retratos, que às vezes eram reverenciados como se os retratados estivessem presentes nas datas de comemoração e patriotismos chegavam ao povo através da fotografia. Democratizava de certe forma a oportunidade de se ter a fisionomia fixada no papel, como a dos reis, bispos deputados, dos ricos[5].
Miriam Moreira Leite afirma que apesar de as fotografias não revelarem com certeza a camada social a qual pertencem os retratados, a publicação das fotografias em periódicos dos chamados membros ilustres das comunidades vem a sublinhar uma posição social herdada ou adquirida e deixam transparecer aos olhos atentos o estilo representativo do período e sociedade em questão[6].No nosso caso que buscava parecer Europa.
Os escravos domésticos eram por vezes enfeitados e demonstrados com orgulho por seus senhores[7]. Paradoxalmente, modernidade versus arcaísmo. A presença do vestuário europeu, e costumes como uso de cachimbos e charutos exibidos com pompa e circunstância foram analisados por diversos autores e vem a reafirmar a tese que a europeização dos costumes levaria ao desenvolvimento de uma civilização nos moldes necessários à modernidade e convivia com o sistema escravista atrasado e racista, como um entrave a modernização.
Citando exemplo, alguns hábitos estudados por Luis Felipe de Alencastro[8] como o uso de mucamas ou amas de leite para amamentar os filhos da burguesia mostra um outro lado. Os retratos de amas de leite que conhecemos apresentam tão somente a imagem positiva do relacionamento afetivo da ama, com suas vestimentas européias e o bebê branco no colo. Mas a professora Miriam Moreira Leite nos mostra que: além da mortalidade infantil provocada pelas precárias condições sanitárias do Rio de Janeiro no século XIX, a prática da amamentação por escravas alugadas a particulares ou asilos de crianças abandonadas (...) além de privar os filhos de seu leite, as amas eram exploradas fisicamente ao máximo, tanto quando eram alugadas a instituições para amamentar diversas crianças, como pelo período prolongado que se exigia que se aleitassem[9].Esse aspecto revela o peso da escravidão na sociedade do século XIX e marca nitidamente o caráter civilizatório em contradição na nação tropical.
Os retratos também vinham acompanhados de dedicatórias e o verso das imagens também oferece elementos interessantes que revelam a construção de uma auto imagem de classe. As inscrições identificam personagens, desmentem anotações anteriores, criam genealogias.Para a elite cafeicultora, parece, a marca de um dos fotógrafos famosos no verso da foto funcionava como distintivo de diferenciação social.[10]
[1] Boris KOSSOY, Origens e expansão da fotografia no Brasil, p.38.

[2] Os carte de visite eram carões de visita distribuídos aos amigos e parentes, como lembrança e foram bastante populares, devido ao seu baixo custo de reprodução. A proliferação da mania deixou como legado uma enorme fonte de para estudarmos os costumes da sociedade da época.

[3] Annateresa FABRIS. Fotografia. Usos e funções no séc. XIX, p.12.

[4] Boris KOSSOY, Fotografia e História p.79.

[5] Carlos A. C. LEMOS, Ambientação ilusória. In Retratos quase inocentes, p.53.

[6] Miriam Moreira LEITE, Retratos de família, p.178.

[7] Kátia M. de Queirós MATTOSO, A opulência na província da Bahia, in: A História da vida privada no Brasil, p.166.

[8] Luis Felipe de ALENCASTRO. Vida privada e ordem privada no Império, in: A História da vida privada no Brasil, p.60.

[9] Miriam de Moreira LEITE, A Família. Século XIX. In. Retratos de família, p.70.

[10] Ana Maria MAUAD, Imagem e auto imagem no Império, in. História da vida privada no Brasil, p.225.

Nações e nacionalismos. A aventura brasileira

Por Jessé A. Chahad

No período constituído entre 1848 e 1870, o mundo passa por uma tendência de formação de Estados-nações. França, Itália, Alemanha e também fora da Europa, nos Estados Unidos, a tentativa de manter unidade perante os perigos da fragmentação que resultaram na Guerra Civil, mesmo Restauração Meiji no Japão poderia ser entendida como aparecimento de um sentimento nacionalista. A transformação dessa nação em Estado soberano, com território coerente, definido pela área ocupada por seus membros, que por sua vez era definida por sua história, cultura comum, composição étnica e língua comum[1]era necessária ao Brasil como parte desta tendência global.
Porém, devemos levar em consideração o que Hobsbawm nos lembra sobre a diferença fundamental entre o movimento para fundar Estados-nações e o “nacionalismo”: o primeiro era um programa para construir um artifício político que dizia basear-se no segundo[2]. Ou seja, era possível ser alemão mesmo não estando na Alemanha, o que criava um conceito de nações multinacionais, devido ao forte fluxo migratório mundial.
O Brasil não seria multinacional, pelo contrario, absorveriam os imigrantes na própria nação, o que veio a acontecer mesmo quando as comunidades imigrantes não perderam sua identidade no ”caldeirão das raças” do novo mundo, permaneceram e se tornaram conscientes de sua condição de italianos ou alemães, por exemplo. Era preciso evitar a mistura de raças, visto que no Brasil a maioria de negros era vista como prejudicial ao desenvolvimento da civilização, onde quanto maior a migração dos povos, tanto mais rápido o desenvolvimento das cidades e da indústria, que lançava massas desenraizadas umas contra as outras, e tanto maior a base para a consciência nacional entre os desenraizados[3].
Portanto era preciso um reforço ao caráter civilizatório que significara a colonização brasileira, mas agora à luz da modernidade, do século das revoluções cientificas e surgimentos de novos ideais políticos e da luta de classes que geravam uma demanda por uma centralidade e unidade em defesa de seu território e auto-afirmação como soberanos perante o cenário internacional. O distanciamento do passado seria conseguido através da “revogação da velha ordem colonial e patriarcal, com todas as conseqüências morais, sociais e políticas que ela acarretou e continua a acarretar” [4] .O desenvolvimento cafeeiro, no oeste paulista, o desenvolvimento da comunicação e dos transportes através da construção de vias férreas criaria uma relação de interdependência entre a cidade e o campo, substituindo o total isolamento antes marcado pela ausência de um mercado interno e do crescimento polarizado e desordenado. Tratando dos ideais da sociedade, Sergio Buarque de Holanda afirma que o modelo ideário arcaico implantado anteriormente, após a independência tentou ser substituído pelo modelo importado em parte das idéias da revolução francesa, o que teria sido problemático mais uma vez, causando apenas uma mudança de aparato, e não de substância.
Os investimentos em cultura feitos por Pedro II proporcionaram uma monumentalização do passado, necessária a construção do conceito de nação e com a ajuda do romantismo foi articulada por literatos, pintores e reforçada pelo caráter pictórico das primeiras fotografias. A literatura romântica indianista, de Gonçalves Dias e José de Alencar participava talvez sem saber do projeto de mitificação da “moderna” sociedade brasileira em construção através de obras como O Guarani, e Iracema. A Academia de Belas Artes trabalhava em função de um academicismo de obras neoclássicas, obras históricas e fundamentais para a consolidação de um passado glorioso. Vítor Meireles e Pedro Américo foram representantes importantes no sentido da construção das novas feições visuais da nação. Obras como A batalha do Avaí, e O grito do Ipiranga, respectivamente de 1877 e 1888 foram feitas por encomenda do Imperador.
Sabemos hoje através dos estudos da historiadora Ana Maria Mauad que Pedro Américo chocou ao retratar com exímia fidelidade os movimentos do cavalgar das figuras eqüestres em suas pintura, revelando ângulos inesperados e realistas e que foram inspirados pelos primeiros estudos de movimentos realizados pelo fotógrafo Edward Muybridge, que Pedro Américo teve contato durante suas pesquisas para realização de suas obras.
Apesar da associação oficial com o índio, teorizada em muito por alguns intelectuais do IHGB, bancados por D. Pedro, não podemos esquecer de forma alguma a contribuição dos africanos para a jovem nação que se formava e é por meio destas festas que esta população dialogará com o Império, influenciando e sendo influenciada por este. Podemos dizer que o próprio D. Pedro II e a monarquia compactuaram com esta cultura, que como diz Schwarcz, “ao mesmo tempo em que se europeizou com sua presença, tornou-se mestiça, negra e indígena no convívio”, tornando-se ele um “monarca com muitas coroas”, pois nestas festas o elemento imaginário de fundo monárquico estava sempre presente, fosse nas cavalhadas ou no mito messiânico do sebastianismo (estes de fundo português), fosse nas congadas, festas do Divino, batuques, etc., onde o monarca brasileiro dialogava constantemente com outras “realezas”, inclusive reis africanos eleitos no Brasil, nas congadas, por exemplo. Mesmo na representação oficial permeada pelo romantismo indigenista, este movimento de influência e re-influência contínua se faz presente, pois se da mesma forma que na literatura e na pintura os índios nunca foram tão brancos, o monarca e a cultura brasileira tornavam-se cada vez mais tropicais, em movimento análogo ao das festas já citados acima.
Inclusive, não podemos deixar de citar apesar da popularidade que a monarquia sempre gozou no Brasil, a figura do imperador começa a perder esta popularidade a partir do momento em que D. Pedro II abandona esta representação de “monarca tropical” e aos poucos vai deixando de lado o caráter “sagrado” e “divino” de sua realeza para assumir a pecha de “monarca cidadão”. Com seu livro sempre a mão e a pose de erudito, mecenas do progresso, que tentava passar principalmente ao olhar estrangeiro que, no entanto, sempre deu mais atenção ao nosso lado exótico e ambíguo.
[1] Eric J.HOBSBAWM, A era do Capital, p.128.

[2] Idem, p.133.

[3] Eric J. HOBSBAWM, A era dos Impérios, p.220.

[4] Sergio Buarque de HOLANDA, Raízes do Brasil, p.180.

Civilização Tropical

Por Jessé A. Chahad
Nos tempos findos dos Impérios, um dos principais objetivos assumidos pela elite era o desafio que representavam a formação da identidade brasileira, ou seja, a construção com pretensões oficiais de um caráter comum ao nível nacional. Ora, pensar no brasileiro de forma homogênea e unificada seria uma enorme tarefa para o recém formado governo, visto o tamanho de nosso território e a sua grande diversidade étnica e cultural, dificuldade esta presente até o inicio do século passado (se não até hoje), exemplificada pela frase de Sergio Buarque de Holanda: “Somos desterrados em nossa própria terra”.
O projeto tomaria grande parte da agenda dos primeiros governos, tornando-se uma busca ampla e constante, e se articulando por todo o tecido social. Temos como principal instituição criada nesta época, e que tinha este papel, o de criar uma identidade digna para o Brasil, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Criado em 1838, o Instituto tinha como projeto a produção de uma historia nacional, e como meta “o delineamento de um perfil para a ‘Nação brasileira’, capaz de lhe garantir uma identidade própria no conjunto mais amplo das Nações[1]. Neste esforço, o Estado e a elite intelectual se relacionam intimamente[2], tendo no bojo deste projeto político centralizador, um Estado iluminado, esclarecido e civilizador[3]. Lembremos-nos de D. Pedro II, o monarca esclarecido, como exemplo.
Porém, era aparente a idéia que através deste novo projeto, o Brasil buscaria um modelo a ser seguido. A recém formada nação brasileira deveria guiar-se pelos mais altos padrões civilizatórios do mundo ocidental e, mais importante ainda, servir de guia para as novas nações nascentes. O centro que forneceria estes paradigmas seria a velha Europa, terra que inspirava os mais grandiosos sonhos para a elite brasileira, elite esta sonhava com a modernidade (quando esta se ‘encaixava’ em seus projetos) e os bons costumes do Velho Continente.
Como tão amplamente analisado por Norbert Elias [4], o conceito de civilização foi sendo desenvolvido ao longo de centenas de anos, num processo de longa duração, e teve como função demonstrar que a sociedade ocidente era superior a oriental, constituindo-se esta noção como uma visão de si mesma[5]. Percebe-se como esta noção vai ganhar uma conotação diferente com a Revolução Francesa, pois agora, o processo civilizador vai ser considerado como algo concluído nos países mais desenvolvidos economicamente (pelo menos nas classes alta e media), que agora teriam a missão de levar esta civilização a paises menos desenvolvidos[6], ou seja, a estes territórios considerados inferiores, levariam o mais alto padrão civilizador já alcançado. Neste momento, começa-se a idéia de tentar ver o desenvolvimento da humanidade através de estágios, na qual existiriam os povos superiores e os povos inferiores.
Durante o próprio século XIX, as novas teorias positivistas dariam o suporte científico a esta visão, o evolucionismo de Spencer e o darwinismo social, procuravam comprovar que as sociedades se encontram em diferentes estágios evolutivos, podendo ser um mais ou menos avançado, criando assim a dicotomia bárbaro/civilizado, na qual o homem branco constituir-se-ia como o ser mais avançado, estando no topo da pirâmide racial como o homem civilizado.
Estas novas idéias européias encontrariam grande aceitação entre a elite intelectual brasileira - esta sendo também em sua grande maioria a elite econômica - e explicariam o atraso brasileiro em relação ao mundo desenvolvido. Ora, estas idéias teriam que ser pré-selecionadas e adaptadas ao contexto nacional, as exigências da elite local, até porque, alem das diferenças espaciais, temos também diferenças temporais, uma grande defasagem entre o surgimento destas idéias e a chegada delas ao Brasil[7].
A elite pensante do Brasil teria que conciliar estas idéias principalmente com dois elementos totalmente contrários a estas: o escravismo e a grande miscigenação no território brasileiro. O primeiro se constituiria como símbolo de um Estado atrasado e anti-moderno, e o segundo como elemento de degradação da sociedade, elemento de degeneração da nação, a miscigenação era o pior pesadelo de qualquer sociedade, como podemos ver, por exemplo, nos relatos dos viajantes estrangeiros Luiz Agassiz e Richard Francis Burton que estiveram no Brasil nos anos de 1860[8].
Logo percebemos que este Brasil qual almejava se tornar um centro difusor da civilização, que se via como herdeiro do projeto civilizador dos portugueses[9], seria extremamente excludente com elementos considerados degeneradores do processo civilizador, como os negros e os índios, no âmbito interno, e as republicas recém independentes da América Latina no âmbito externo.
No tocante ao escravismo, cada vez mais é atribuído a este o motivo do atraso brasileiro e, como solução a uma abolição da escravatura iminente, mostra-se como grande solução à carência de mão-de-obra livre, a reintegração do indígena (este mais valorizado que o negro) [10] . Mas, no debate - e aí reside mais um paradoxo criado pela importação de idéias estrangeiras- entre o uso da mão-de-obra indígena, representando esta o elemento nacional, e o uso da mão-de-obra branca, imigrante, a escolha evidentemente pendeu para o lado desta ultima.
A solução de suprir a carência de mão-de-obra livre estimulando a imigração européia viria de encontro com a crença da elite na superioridade da raça branca, em suma, com esta medida, alem de dar solução a falta de mão-de-obra livre, se introduziria na sociedade maior numero de pessoas portadoras da civilidade, maior numero de elemento branco significaria um ‘salto’ para o processo civilizador brasileiro, única medida possível para concluir este projeto, tendo em vista que apenas o branco era portador de tal superioridade. Temos aí a política tão conhecida (e um pouco posterior), do branqueamento, ou seja, usando-se da miscigenação - não se problematizando suas implicações negativas segundo o modelo europeu[11]- como instrumento, chegaríamos ao tipo ideal de ‘gente’ civilizada, o homem branco. “A nação […] deve, portanto, surgir como o desdobramento, nos trópicos, de uma civilização branca e européia” [12], foi este o projeto que deveria tornar o Brasil um modelo, uma ‘civilização dos trópicos’.
[1] Manoel Luis Salgado GUIMARÃES, Nação e Civilização nos Trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Projeto de uma História Nacional, p. 6.

[2] Idem p.10.

[3] Ibidem, p.11.

[4] Norbert ELIAS, O Processo Civilizador, passim.

[5] Idem.

[6] Ibidem.

[7] Renato ORTIZ, Cultura brasileira e identidade nacional, passim.

[8] Márcia Regina Capelari NAXARA, Cientificismo e sensibilidade romântica.

[9] Manoel Luis Salgado GUIMARÃES, Nação e Civilização nos Trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Projeto de uma História Nacional, p. 6.

[10] Idem, Ibidem, p. 24.

[11] Lílian Moritz SCHWARCZ, O Espetáculo das Raças, São Paulo, p18.

[12] Manoel Luis Salgado GUIMARÃES, Op. Cit. P.8.

terça-feira, 8 de maio de 2007

As Barbas do Imperador

Por Jessé A. Chahad

por Rafael Mendes

Este estudo da pesquisadora Lilia Moritz Schwarcz tem como cenário o Segundo Reinado, época de D. Pedro II, monarca cuja figura já nos é tão conhecida por meio de inúmeras biografias, porém aqui o que se busca são os caminhos de construção do mito de Estado que se formou, seja em esfera oficial na figura do “rei que já era rei antes de nascer”, do “monarca tropical” ou do sábio imperador erudito portador de longas barbas que deveriam realçar sua maturidade e sabedoria mesmo na juventude, como também no imaginário popular, onde D. Pedro II era uma espécie de catalizador de desejos populares que se refletiam nas inúmeras festas do império, oficiais ou não, onde o monarca era sempre figura destacada, fosse ele o personagem principal ou mais um rei entre tantos outros que habitavam o imaginário dos extratos populares naquele período.
Mesmo a representação mais oficial de “monarca tropical”, “Luís XIV dos trópicos”, também é permeada por um repertório muito próprio de símbolos, que a autora tenta desvendar, analisando temas a princípio díspares, como a ritualística calcada na mais profunda tradição européia (porém sempre vinculada ao elemento tropical); a associação de fundo romântico com o índio para um projeto de na nação; a insistência em apresentar uma imagem civilizada (como nas feiras e exposições universais do séc. XIX), porém mesmo neste último caso, por mais que se tentasse fugir do tema, o que sobressaia aos olhos estrangeiros era nossa face exótica, de paraíso edênico, da qual o próprio imperador fazia parte, haja visto que ele próprio sentava na frente dos estandes brasileiros nestas feiras, já à época tentando incorporar o aspecto de “monarca cidadão”, elemento também estudado no livro. Tudo isto tendo em vista ser o Brasil um dos últimos países escravistas do mundo na segunda metade do séc. XIX, o que reforçava ainda mais nosso caráter, no mínimo, exótico.

A idéia, nas palavras da própria autora, é “recuperar meios e processos pelos quais toma forma uma grande representação de D. Pedro II e do Império brasileiro”. Para isto é importante o exame da iconografia e desta representação oficial do imperador, onde o próprio tema das “barbas” do jovem D. Pedro e outros símbolos pensados pela elite do período são cruciais para se analisar seu impacto junto aos elementos populares, que são quem efetivamente “consumirá” esta imagem que irá tornar-se “mítica” e “sagrada”, tendo o apogeu de sua representação nas já citadas festas e, à parte as festas oficiais e outras trazidas pelo colonizador português, são as festas da população de origem africana que possuem o destaque neste contexto.
Apesar da associação oficial com o índio, teorizada em muito por alguns intelectuais do IHGB, bancados por D. Pedro, não podemos esquecer de forma alguma a contribuição dos africanos para a jovem nação que se formava e é por meio destas festas que esta população dialogará com o Império, influenciando e sendo influenciada por este. Podemos dizer que o próprio D. Pedro II e a monarquia compactuaram com esta cultura, que como diz Schwarcz, “ao mesmo tempo em que se europeizou com sua presença, tornou-se mestiça, negra e indígena no convívio”, tornando-se ele um “monarca com muitas coroas”, pois nestas festas o elemento imaginário de fundo monárquico estava sempre presente, fosse nas cavalhadas ou no mito messiânico do sebastianismo (estes de fundo português), fosse nas congadas, festas do Divino, batuques, etc., onde o monarca brasileiro dialogava constantemente com outras “realezas”, inclusive reis africanos eleitos no Brasil, nas congadas, por exemplo.
Mesmo na representação oficial permeada pelo romantismo indigenista, este movimento de influência e re-influência contínua se faz presente, pois se da mesma forma que na literatura e na pintura os índios nunca foram tão brancos, o monarca e a cultura brasileira tornavam-se cada vez mais tropicais, em movimento análogo ao das festas já citados acima. Inclusive, não podemos deixar de citar que apesar da popularidade que a monarquia sempre gozou no Brasil, a figura do imperador começa a perder esta popularidade a partir do momento em que D. Pedro II abandona esta representação de “monarca tropical” e vai aos poucos deixando de lado o caráter “sagrado” e “divino” de sua realeza para assumir a pecha de “monarca cidadão”, com seu livro sempre a mão e a pose de erudito, mecenas do progresso, que tentava passar principalmente ao olhar estrangeiro, que no entanto, sempre deu mais atenção ao nosso lado exótico e ambíguo.

Portanto, ao mesmo tempo em que o Império influenciou e foi influenciado pelas culturas nativas e africanas no campo popular (em que as festas seriam o outro lado do manual de etiqueta da corte), também o foi no campo oficial, ao mesmo tempo “embranquecendo” e europeizando o índio, mas também assumindo uma representação sempre envolta de muitas frutas, animais e outros temas tropicais como o próprio indígena. Por outro lado, ao perder a pompa que ajudava a ligar o imperador à realeza sagrada e mistificada das festas e procissões, começou-se a perder a monarquia no Brasil. Porém, à parte as “maquinações das elites”, como frisa Schwarcz, a monarquia sobreviveu no campo do imaginário popular, em que hábitos de pensamento e mentalidades anteriores à vinda da corte re-traduziram e atualizaram D. Pedro sempre como o eterno monarca tropical.

Utilizando como fontes uma vasta iconografia e dados biográficos sobre D. Pedro II, além de material de época, Lilia Schwarcz aproveita também como documento um tipo de relato interessantíssimo, que é o dos viajantes estrangeiros, principalmente no que concerne às festas, onde acreditamos que esta visão estrangeira seja importante como um todo para tentarmos decifrar algumas das ambigüidades que tanto faziam parte do Brasil, a parte o preconceito destes viajantes, que vindo aqui para pesquisar a fauna e a flora, defrontavam-se com estranhos fenômenos dos homens, na cabeça deles.
Além da população biologicamente mestiçada, estes homens encontravam aqui também uma mestiçagem de costumes e religião, o que, principalmente na mente protestante e racionalista de muitos deles, constituía-se em um absurdo. Porém, mesmo entre estes relatos levantados por Schwarcz, identificamos muitas diferenças entre os autores. Henry Koster e Robert Avé-Lallemant parecem ter gostado da mulher negra e mulata. Já os famosos naturalistas alemães Spix e Martius, apesar da série de análises negativas, se mostravam otimistas em relação ao futuro do Brasil. Carl Seidler, que chegou ao Brasil sem muitas pretensões científicas ou intelectuais, mostra-se por demais preconceituoso.
Os reverendos protestantes Kidder e Fletcher constrangiam-se com a escravidão e a falta de decoro nas cerimônias religiosas, tendo todos eles vivido nas mais diferentes partes do Brasil. À parte suas diferentes motivações, podemos dizer que o fascínio pela natureza, a aversão à escravidão e a indignação contra os rituais religiosos miscigenados são uma constante nas análises de todos. De qualquer maneira, apesar do ranço muitas vezes preconceituoso e da distância com que estes estrangeiros observam o Brasil, é inegável que nestes relatos a nação surge pela primeira vez negra e mestiçada em sua cultura, apesar das tentativas da elite em esconder o elemento negro. Provavelmente, e a autora aponta isto no texto, nasce aqui a representação de nossa cultura popular como sendo mestiça, composta de brancos, negros e índios.
Partindo para uma época diferente, final dos anos 80 do séc. XIX, as análises do alemão Carl von Koseritz são extremamente interessantes para embasar um argumento de decadência da monarquia em comparação com os escritos de Fletcher, por exemplo, já que ambos tiveram a oportunidade de comentar as aparições públicas do imperador. Diz Schwarcz: “Enquanto este último não se cansava de exaltar o luxo e a pompa do palácio e dos cortejos reais, Koseritz traça um quadro caricatural e decadente da corte e de D. Pedro II (...) a distância de trinta anos entre os textos revelava marcas profundas na monarquia”. Entre estas duas visões é bem embasada a transição do monarca sacro e tropical para o monarca cidadão.
Sobre esta nova representação, é importante destacar o empenho pessoal do próprio imperador, que assumia uma postura de cada vez mais tentar veicular uma imagem “civilizada” a seu imenso império rural e escravocrata, inclusive bancando novidades como a fotografia e o telefone entre nós, além do empenho do governo brasileiro em sempre portar-se bem nas já citadas exposições universais, mais um projeto que levava a marca pessoal de incentivo do monarca, porém o que mais ressaltava a olhos estrangeiros era mais uma vez nosso caráter de país com maravilhosa natureza e “bons selvagens”.
No que tange à construção de uma imagem “mítica” ou “sagrada” do imperador, a análise que faz a autora com base na tese de “corpo sagrado” e “corpo político” que toma emprestada de Ernest Kantorowicz é de extrema relevância, pois este “corpo do rei” simbolizava as duas instâncias que viemos tratando desde o início, ou seja, a criação política e institucional da realeza de um lado e a figura mítica, marca do imaginário popular, de outro.
Além de Kantorowicz, Schwarcz utiliza-se fartamente de estudos clássicos anteriores a respeito da monarquia brasileira para construir sua argumentação, como os de José Murilo de Carvalho, Sérgio Buarque de Holanda e José Felipe de Alencastro, entre outros, além de dialogar com outros trabalhos clássicos no campo da sociologia ligada ao estudo de realezas, mais acentuadamente neste caso Norbert Elias, bastante empregado por ela.
Para encerrar, lembramos do resgate que faz a autora desde a morte do imperador (sua famosa barba, que o acompanhou durante a maioria de suas representações, tornava-se mais branca ainda no leito fúnebre, realçando ainda mais este símbolo) e os caminhos que a memória e, por que não, seu “corpo sagrado” toma na primeira república até sua redenção oficial na era Vargas, inclusive com o traslado dos corpos do casal real para Petrópolis, que tornaria-se assim definitivamente a “cidade de Pedro”. Portanto, a par de todos os temas estudados e analisados por Schwarcz, só podemos realmente encerrar com a frase de Mendes Fradique, que abre o livro: “Só uma coisa não fez o grande monarca durante todo o seu feliz reinado: foi a barba”.

terça-feira, 20 de março de 2007

O País da Cocanha - O reflexo da utopia medieval nos tempos modernos.

Por Jessé A. Chahad e Thiago Mano Affonso

O professor Jerome Baschet em entrevista ao jornal A Folha de São Paulo [1], com ressalvas comentou sobre a “atualidade” da Idade Média, fazendo um paralelo entre a satanização do presidente George Bush e a “caça as bruxas” praticada pela Igreja nos séculos XVI e XVII, e nos mostrando que não há grandes dificuldades se quisermos pensar que somos também medievais, ou ainda que a presença de certos tipos de fenômenos pode nos mostrar o quanto se deve importância ao estudo deste período.
O Professor também afirmou que a conquista da América foi de certa forma uma expansão do feudalismo, o que nos levaria a alargar cronologicamente o conceito de Idade Média, o levando até o século XVIII. Aqui procuraremos obviamente com mais humildade procurar apenas possíveis reflexos do mundo medieval no moderno, sempre lembrando que o homem de hoje já foi medieval, no sentido do uso comum que se faz deste termo.


[1] Jerome BASCHET, América Medieval; entrevista ao Caderno MAIS, Folha de SP, 17/set/2006.



A inimiga: a fome
Sabemos através de várias fontes que a fome era uma dificuldade enfrentada sempre, quase que de forma cíclica pela população[1], e a natureza era muitas vezes severa sendo uma dificuldade a ser superada pelo homem para garantir a sua sobrevivência[2] e a de seus familiares. O clima temperado, frio, as chuvas fortes eram responsáveis pela pouca incidência de alimentos e consequentemente pelo enfraquecimento sistemático mesmo no sentido biológico da raça humana, sendo normal em escavações o alto numero de restos mortais de pessoas com estaturas franzinas e com deficiência de cálcio, uma característica que durante algum tempo foi quase que um estigma acoplado ao da fome: a subnutrição.
A onda de fome de 1315 alcança um numero de mortos que apesar das divergências em relação a sua exatidão, a historiografia concorda que foram números altos, maiores que a de outras ondas de fome anteriores[3]e marca uma ruptura em um processo de crescimento demográfico que havia lhe antecedido. Em suma, nesse período de breve crescimento demográfico, não cresceu paralelamente a produção de alimentos, e nem o avanço tecnológico necessário para isso[4], o que poderia explicar o surto de fome, que sempre reforça a idéia de se ter uma esperança relacionada a um futuro melhor, em um país imaginário, ou ainda no paraíso propriamente dito, visto que uma vida de sacrifícios era recompensada teoricamente com um lugar no céu cristão.
Sendo assim, já de início podemos estabelecer um anacronismo, que será motivo de óbvia polêmica de fizermos um paralelo com os dias de hoje, encontraremos um reflexo do mundo medieval que mesmo que ao acaso nos chama a atenção se pensarmos em algumas comunidades africanas ou mesmo brasileiras que sofrem com a fome a inanição, a subnutrição e atravessam o século construindo características que se tornam intrínsecas, como os homens-gabirus do nordeste.

A necessidade: a utopia
Segundo Sérgio Buarque de Holanda, as utopias, em qualquer momento da humanidade, agem como um fator progressista realmente eficiente. As utopias tiveram papel fundamental no período das navegações portuguesas. O maior medo dos marinheiros eram os monstros marinhos e as sereias que retratavam os riscos do mar traiçoeiro, porem a gana e a ganância de desvendar os novos caminhos e a esperança de encontrar terras abençoadas com abundancia e prosperidade foram maiores que os temores dos navegadores.
O mito do país da Cocanha provavelmente derivou de tradições muito anteriores a tradição cristã ocidental, e por sua vez serviu de embasamento para varias outras lendas mais atuais que figuram no folclore ocidental. Ao analisar bem, podemos perceber que o 3º mundo vê os EUA como uma espécie de Cocanha, onde a prosperidade é quase inevitável e a liberdade é total. Por sua vez o governo tenta impor sua “utopia” para todo o 3º mundo, trocando a promessa de uma “democracia” pela legitimidade de seu projeto colonizador e explorador. O mesmo argumento foi utilizado na conquista das Américas, onde o colonizador trocava a engenhosidade e eficiência das armas e ferramentas européias e a graça de louvar o “verdadeiro” Deus pela exploração total da prosperidade dos povos nativos.
Os mitos “Edênicos”, como são chamados os locais paradisíacos idealizados pelo homem (seja a Cocanha, o reino se Salomão, o próprio mito judaico do Éden, o Eldorado ou qualquer outro) são uma fantasia completamente embutida no nosso imaginário atual. Quem não sonha passar as férias em um resort ou um cruzeiro onde o cliente é servido todo o tempo e tem seus desejos realizados em cenários paradisíacos? Tudo tem seu preço.
O que nos parece é que os mitos Edênicos foram criados para antagonizar a eterna dificuldade humana de conviver tanto com o ambiente onde vive quanto com a sociedade na qual está inserido. O grande erro da humanidade foi idealizar a Cocanha em algum lugar longínquo, e não em sua própria casa. A Cocanha, no fundo, representa cada desejo egoísta de cada homem que com ela sonha não um paraíso de igualdade e prosperidade para todos. O próprio mito do Eldorado não passa de uma releitura capitalista do mito da Cocanha, onde o que abunda não são comida e diversão, e sim dinheiro e jóias.
Utilizando essa linha de pensamento vemos o poder que os mitos e utopias tinham e tem até hoje tanto para promover revoluções quanto para manter a “paz social”. É importante lembrar que historicamente a humanidade se organiza de maneira desigual e, a partir do inicio do capitalismo e das sociedades de mercado, ela só prospera em alguns países em detrimento de outros. Enquanto alguns desejarem tudo, não haverá como prover o necessário para todos. Porem, como dito no início, nós dependemos de nossas utopias.

O advento: o Maniqueísmo
Talvez a maior herança que a idade media deixou para os tempos modernos foi o maniqueísmo. Tanto o Deus judaico (Javé) quanto os diversos panteões pagão mostram uma dualidade entre o “bem” e o “mal” muito parecidas com a dualidade humana, que possui uma parte boa e uma má, uma piedosa e a outra cruel.
Durante a idade media a igreja católica promoveu uma verdadeira cruzada para implantar o maniqueísmo na cabeça das pessoas. Por isso foi criado pela igreja um verdadeiro “panteão maligno” que se referia a Satanás e seu exercito de demônios que tentavam a todo instante corromper, macular e finalmente destruir toda a obra de Deus na terra. A figura de Deus foi divida em Duas, e ao Diabo em questão foram atribuídos grandes poderes, o maior deles era o de corromper o ser humano. Com esse argumento a igreja católica perseguiu tudo e todos que eram avessos aos seus dogmas alegando “pacto com o diabo”.
Esse maniqueísmo católico se tornou base para a maioria dos mitos medievais. Afinal de contas, se havia um inferno tão poderoso e ao alcance de todos, também tinha que existir algum paraíso tangível na terra. Algum lugar no mundo onde o homem poderia fugir das tentações demoníacas e se despir de todos os preconceitos e obrigações impostas pela sociedade medieval.
Creio que Deus e todos seus santos
Abençoaram-na e sagraram-na mais
Que qualquer outra região.
O nome do país é Cocanha;
Lá, quem mais dorme mais ganha.

As pessoas lá não são vis,
São pelo contrario, virtuosas e corteses.
Seis semanas tem lá o mês,

Quatro páscoas têm o ano,
E quatro festas de São João.
Há no ano quatro vindimas,
Feriado e Domingo todo dia.

Quatro todos os Santos, quatro natais,
Quatro candelárias anuais,
Quatro carnavais,
E quaresma a cada quatro anos,

O país é tão rico
Que bolsas cheias de moedas

Estão jogadas pelo chão;
Morabintos e besantes
Estão por toda parte, inúteis:
Lá ninguém compra nem vende.

As mulheres dali, tão belas,
Maduras e jovens,
Cada qual pega a que lhe convém,
Sem descontentar ninguém

Cada um satisfaz seu prazer
Como quer e por lazer;
Elas não serão por isso censuradas,
Serão mesmo muito mais honradas.[5]


O ideário medieval criado através da mistura das culturas pagãs européias com os valores impostos pela igreja católica foi a verdadeira base das ideologias atuais. O que seria do ser humano sem as disputas maniqueístas entre judeus, católicos e muçulmanos. Como fazer uma guerra sem convencer ambos os lados de que estão lutando contra o mal? Como sobreviver num mundo tão penoso sem ter a perspectiva de encontrar um lugar justo e prospero para se viver no final? Para que lutar por uma sociedade mais justa e fraterna se os planos demoníacos estão muito além disso? Para que combater algo que não pode ser visto nem derrotado?
Em tempos de miséria e perdição, os mitos ganham uma força extraordinária, levando em seu bojo todas as esperanças das classes desfavorecidas. Porem, como os mitos são em sua essência ilusórios, eles se desfaz como fumaça, deixando toda uma classe órfã de esperanças. Ainda hoje os mitos, de diferentes formas, são utilizados para conter ou provocar tensões sociais. Muitas vezes são utilizados como compensações ou recompensas pela luta empreendida. Como um objetivo que nunca será alcançado.
Na verdade, não há diferenças concretas entre o homem moderno e o homem medieval, na verdade somos quase o mesmo homem, com a mesma crueldade, o mesmo egoísmo e a mesma ingenuidade. A única diferença é que o homem medieval não tinha como comprovar a existência ou inexistência de um reino perdido nos limites do mundo onde há fartura e igualdade só esperando a chegada de quem os encontrar. Nós homens modernos já sabemos que esse reino não existe, mas continuamos crendo nele mesmo assim.


A Cocanha e o Novo Mundo
O País da Cocanha, lugar utópico festivo, onde a comida era abundante e o trabalho não era necessário, onde existiam rios de leite e de vinho, queijos e pães eram obtidos sem dificuldade era não apenas uma utopia strictu sensu, mas um sonho que às vezes era perseguido como real pelos europeus.
Com a descoberta do novo mundo, criou-se uma possibilidade de reprodução do paraíso na Terra, sonho perseguido pelos cristãos, recém saídos da Idade Média e que agora poderiam enfim encontrar a Cocanha, a terra abundante de alimentos, festas, orgias que agora poderia lhe pertencer.
Em referência a esse assunto, temos o clássico de Sérgio Buarque de Holanda, Visão do Paraíso, que se baseava em relatos coevos que procuravam justificar a necessidade de um novo éden, e posteriormente com o fracasso inicial da luta portuguesa contra o continente selvagem, a edenização da América portuguesa dá lugar à satanização, e de Terra de Santa Cruz a Brasil, era então o lugar infernal. [6].Ao encontrar o paraíso, o português nos demonstra o quanto estava à procura dele, pois as noticias de uma terra inóspita, farta em frutos e animais selvagens poderia bem ser a representação do País da Cocanha sendo finalmente realizado concretamente.
Porém, não são esses assuntos que irão nos chamar a atenção, mas sim para o reflexo da Cocanha medieval ainda em período mais tardio, o século XIX.
Em artigo publicado, a Professora Roselys Izabel Corrêa dos Santos [7], nos informa que no período em que se deram as imigrações de italianos para o Brasil a partir do decreto de o Decreto n° 5.663 de 17 de junho de 1874, firmado entre o Governo Imperial Brasileiro e o Senhor Joaquim Caetano Pinto Júnior, que objetivava incrementar a política imigratória para o Brasil, se inseria em um contexto de luta social onde acusavam os trabalhadores de estar em busca da Cocanha, em busca de uma ilusão.
Através do estudo de correspondências entre padres ela nos mostra o quanto o imaginário medieval estava sólido na consciência do homem moderno, tanto daqueles que buscavam imigrar em busca de uma terra de oportunidades, quanto daqueles que alertavam sobre o potencial utópico de tal empreitada.
Nos dias de hoje, seria de se supor que tais lendas já estivessem sido esquecidas ou mesmo substituídas por novas mitologias ou utopias produzidas pela sociedade industrial de consumo de bens materiais. Porém, para confirmar que isso não aconteceu, basta notarmos a presença marcante do universo arturiano, das fabulas de Camelot, de Avalon e todos os seus derivados que fomentam uma cultura de adoradores de filmes, livros, produtos em geral que remetem ao período em que tais lendas foram criadas.
Sendo assim, muitos podem ser os reflexos da Idade Média presente no homem moderno, sendo um assunto de muita demanda e pouco interesse por parte dos historiadores que tem verdadeira ojeriza à relação cause-efeito, ou se preferirem, àqueles que acreditam que o presente em nada deve ao passado, e que as sociedades se reformulam a ponto de não conservar nenhum traço das civilizações ancestrais. A esses fica o lamento e a lembrança de que a divisão cronológica é arbitrária, as vezes necessária, mas não tem o poder de dissociar as épocas recortadas umas das outras, constituindo assim uma espécie tempo linear, irreversível do qual apenas nos cabe observar suas mudanças e analisá-las de acordo com a necessidade do estudo da História.


[1] Hilário FRANCO JUNIOR, A utopia da abundancia: A Cocanha, p.26.

[2] Georges DUBY, Guerreiros e camponeses. Primórdios do crescimento econômico europeu séc.VII a XII.,p.17.

[3] Henri PIRENNE, Historia econômica e social da Idade Média, p.200.

[4] Gerald A.J.HODGETT, Historia Social e Econômica da Idade Média, p125.

[5] Trechos do Fabilau Francês.

[6] Laura de MELLO e SOUZA, Deus e o Diabo na Terra de Santa Cruz.

[7] Roselys Izabel CORREA DOS SANTOS, O País da Cocanha.Emigração Italiana e Imaginário.