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terça-feira, 11 de julho de 2006

Formação da identidade : Relatos de viagem

Por Jessé A. Chahad


O trabalho da professora Stella Maris se ocupou em inovar o modelo de estudo dos relatos de viagens, tipo literário narrativo muito comum no século XIX, porem que tinha sua esfera reduzida sempre ao universo masculino, e ainda carregava uma certa predominância de relatos produzidos por europeus em visita aos paises ditos “ exóticos” .Desta feita, serão invertidos os conceitos de formação de imagem do “ outro” , assim como a tradicional dicotomia entre “civilização e barbárie”.Podemos dizer que uma nova abordagem acerca das literaturas de viagem, que deixariam o status de “ fonte fidedigna” e passaria para a História das representações, procurando analisar a forma em que o relato é produzido,o que certamente vai além dos fatos narrados.
Sendo assim será travado um dialogo entre a alteridade, que é a relação com o “outro” relatado, e a identidade formada a partir dos relatos, ou seja, como a visão sobre o “outro” diz algo sobre quem está escrevendo o relato.
Três escritoras pertencentes a elite latino americana do séc. XIX, serão analisadas no trabalho, a brasileira Nizia Floresta, a argentina Euarda Mansilla e a cubana Gertrudis Gómez de Avallaneda , todas em seus relatos sobre viagens feitas à Europa e aos Estados Unidos.Esse fato viria também a romper com a tradicional literatura feita pelos viajantes dos séc. XVI a XVIII
Pode se dizer que apenas em Nizia Floresta teve um enraizamento maior em sua terra de origem, pois sempre relata a natureza brasileira como maravilhosa e exótica no bom sentido, e não no sentido incivilizado ou selvagem. Esse olhar de Nizia procurava valorizar e enaltecer a natureza brasileira frente a visão estética européia.Nas outras autoras, encontramos quando não uma duvida na questão da identidade, quanto uma apropriação do ideal europeu, sendo esse um dilema presente em Avellaneda.
Apesar do recorte sugerido pela autora na seleção das escritoras, essas não encontram muitas semelhanças entre si, além do fato der serem mulheres contemporâneas da mesma época. Essas diferenças e peculiaridades serão tratadas de forma atenciosa ao longo do texto, o que pode inserir o trabalho na área da História da vida privada, ou se preferir, história dos costumes e diferentes culturas. A própria noção do papel da mulher na sociedade não será uniforme, e Stella Maris vai atribuir a cada uma o seu passado e criação, a fim de demonstrar como se deu a formação e desenvolvimento dessas escritoras, e sua relação com o mundo em que viviam. A mulher não será vista como uma categoria homogênea, portanto não existirão pressupostos que indiquem padrões de comportamento a serem seguidos, nem ditos preceitos sexuais biológicos.
Uma das características que possivelmente pode unir as escritoras foi o fato de terem se dedicado em suas obras a retratar o papel das minorias marginalizadas, ou seja, as mulheres, os escravos, os negros ou mulatos. Isso demonstra certa sensibilidade por parte das escritoras em relação ao mundo socialmente desigual, e procuravam expressar seus sentimentos, sendo que as mulheres não tinham tanta liberdade para opinar decisivamente em assuntos do universo considerado masculino, apesar de autora recusar o conceito de gênero feminino e masculino separados em esferas intercambiáveis excludentes,essa marca era presente e o papel da mulher na sociedade acabava por ser secundário.
Para discutir a relação entre o viajante e o “outro”, Stella Maris se valerá do clássico trabalho de Tzvetzn Todorov, A conquista da América. A questão do Outro, que traz a idéia da troca ou cooptação de valores diferentes oriundos das relações entre dominador e dominado, ou ainda podemos entender como um relativismo, pois para o autor não estaria ausente em relações de alteridade um certo julgamento, provavelmente ocasionado pelo sentimento de superioridade.
Stella Maris relata uma anedota de Lucio Mansilla em visita a Paris, teria sido tido como índio, um ato de barbárie dos franceses, que ignoravam toda cultura latino-americana. Essa “inversão de valores”, onde o europeu é visto como “ bárbaros” serve como empirismo para demonstrar a teoria de que a noção de civilização ou barbárie depende apenas do ponto de vista relativizado do que pode ser civilização, e consequentemente do que se pode ter como conceito de barbárie.
A autora ainda afirma ter encontrado no percurso da pesquisa outras escritoras cubanas, uma que viveria na Espanha e escrevia sobre Cuba. Por falta de tempo, não teriam sido incluídas na pesquisa. Essa lacuna apontada pela autora demonstra que esse material se carrega de uma potencialidade, e em futuros estudos deverão receber atenção.
O choque cultural resultante do processo colonial provocou tanto nos relatos europeus quanto nos relatos latino-americanos uma transculturação, que é marcante nos discursos, portanto ao analisar as características desses relatos a autora procura identificar pontos de vista diferentes, oriundos da origem de quem relata, ou de certa forma, do próprio reconhecimento das diferenças inerentes de quem é relatado, e a possível identificação, porem sem ausência de julgamento, pois esse sentimento seria assim representado como diferença muitas vezes hierarquizante.
É muito importante que trabalhos como o da professora Stella Maris venham dar luz à mudança de concepção acerca da visão eurocêntrica sobre a América Latina e todo os conceitos pré-estabelecidos que foram enraizados na produção dos estudos sobre a assunto, e também no imaginário comum. A nova perspectiva serve como defesa ao estatuto do respeito as diferenças, sejam elas de ordem étnica, ou sócias, e serve como reforço a idéia de que o ponto de vista da analise, ou do relato sempre vem carregada de características ditas locais, independente do padrão estabelecido, mesmo que seja um padrão fortemente marcado pela questão de desenvolvimento e progresso, de ordem técnica e econômica e de ordem moral, criadoras de um modelo excludente e preconceituoso que hoje é combatido e condenável.

Tensoes sociais na America Latina

Por Jessé A. Chahad


A partir da leitura do trabalho do professor Gabriel Passeti, ficou claro que o papel dos indígenas no processo de guerra no sul da Argentina foi de organização e de estratégia, pois os caciques tinham seus próprios interesses e se aliaram aos políticos provinciais contrários aos interesses portenhos, o que pode ter impossibilitado a prosperidade da pecuária na região ao sul da província de Buenos Aires.[1]
Essa resistência por parte dos nativos aproximou as culturas indígenas e criolla, e fez com que as relações com os portenhos se intensificassem em violência, levando a pratica de genocídio por parte dos portenhos, visto como um modelo exterminador, porem eficaz na supressão dos indígenas.
Essa participação dos caciques na resistência aos portenhos delegou uma maior presença dos nativos no desenvolvimento da nação, com um papel muito maior do que os indígenas brasileiros, por exemplo. As lutas sangrentas mostrariam aos portenhos que não seria fácil a sua dominação, e mostrava que o conflito entre “civilização e barbárie” passaria a ser travado até as suas ultimas conseqüências.
Dentro deste processo, se desenvolve outro, estudado por Ricardo Falcon, o desenvolvimento das relações de trabalho no mundo urbano, em um estudo da Historia Social na Argentina de meados do séc.XIX até o inicio do XX. Neste trabalho, o autor divide atitudes dos trabalhadores em autodisciplina e rechaço ao trabalho.
O autor afirma que inicialmente a autodisciplina só acontece quando existe uma possibilidade de ascensão social por parte dos trabalhadores, ou ainda algum tipo de beneficio a uma camada especial de trabalhadores, favorecidos por alguma conjuntura particular. Ainda existia por parte de mestres artesões, uma ética de trabalho e amor ao oficio, sendo identificado como instrumento de dignificação social. [2]
O rechaço, ou recusa ao trabalho se inicia em sociedades onde não presenciamos uma possibilidade de progresso ou ascensão social, devido ao alcance de um desenvolvimento hegemônico da produção capitalista, [3]onde as relações sociais estão “cristalizadas e estabilizadas”. O autor ainda afirma que a uma pequena distancia entre patrões e empregados, ou mestres e aprendizes poderia induzir a um pensamento de que o empregado poderia “tornar-se patrão” , e que com o aumento dessa distancia, aumenta também de maneira proporcional as insatisfações e recusas ao modo de produção.
As relações também aconteciam com o intermédio de agremiações e sindicatos, que passaram a ter um maior poder após 1900, e passaram a lutar não só por melhores salários, mas também exigiam a redução da jornada de trabalho e a extinção do trabalho por empreitada. Isso acarretou uma mudança de atitude do Estado em relação aos trabalhadores, pois ao lado dos patrões, desenvolveu uma política de repressão e aglutinação, com um protecionismo muito contestado pela massa trabalhadora.
Logo, os sindicatos passaram a rechaçar toda e qualquer intervenção estatal na legislação, principalmente em sua facção anarquista que também em conflito com os socialistas acabaram por abandonar o partido. Aos socialistas parecia mais aceitável a existência de tribunais mistos, juntando operários e patrões.
No México, a formação do estado nacional teve um aspecto particular, pois havia a presença de um exercito camponês, que oferecia resistência invadindo fazendas e ranchos dos colonos e sofriam pesadas represálias do governo, num processo de “pacificação”. O trabalho de Letícia Reina, que analisou com cuidado os documentos, nos mostra como as rebeliões camponesas tiveram papel fundamental na defesa dos interesses da população em retomar as terras comuns que tinham sido usurpadas, [4]e tinham o apoio da guarda nacional. Em defesa da propriedade privada, os fazendeiros chegaram a pedir ajuda as tropas norte-americanas, em um erro estratégico que custaria mais tarde um importante e imenso território. A Igreja católica era a mais poderosa das Américas e tecia aliança com os conservadores que não tinham propostas para os povos indígenas, enquanto os liberais entendiam que o capitalismo, o progresso e a civilização teriam de transformar as comunidades indígenas comunais em propriedade individuais, seguindo o modelo norte-americano.
A disputa entre conservadores (monarquistas) e liberais (republicanos) era acirrada e tinha bases ideológicas realmente opostas, diferenciando – se do Brasil, onde a alternância do poder era tal e qual a mudança de ideologia e opinião de situação e oposição.
Após a venda de territórios aos Estados Unidos, uma disputa se inicia a partir de um desentendimento sobre a localização das fronteiras, e ocorre a invasão norte-americana e a tomada da metade do território mexicano, que humilhado e derrotado vê a vitória do modelo liberal, visto que os conservadores tombaram na guerra.
Os liberais decretaram a desamortização dos bens de corporações civis e religiosas, e com Benito Juarez nacionalizou os bens da Igreja, esta ficando sem a base do seu poder econômico. Reações por parte dos conservadores causaram uma guerra civil, e a procura de um monarca europeu que viesse trazer a “ordem” ao México, Maximiliano de Habsburgo, porem não obteve sucesso em sua vinda, acabando por ser fuzilado a mando de Benito Juarez.
O México então entra em uma fase de crescimento da concentração de terras e consequentemente o empobrecimento dos camponeses que provavelmente desencadeará o colapso social e a revolução mexicana de 1910.
[1] PASSETI, Gabriel, Indígenas e criollos: Política, guerra e traição nas lutas no sul da Argentina (1852-1885),p.273.

[2] FALCON, Ricardo, Aspectos de la cultura del trabajo urbano.Buenos Aires y Rosário, 1860-1914 in : Mundo urbano y cultura popular-estudios de historia social Argentina, p.344.
[3] FALCON, Ricardo, Aspectos de la cultura del trabajo urbano.Buenos Aires y Rosário, 1860-1914 in : Mundo urbano y cultura popular-estudios de historia social Argentina, p.342.

[4]REINA, Letícia, Las rebeliones campesinas em México, 1819-1906, p.157.

O general em seu labirinto

Por Jessé A. Chahad

Muito já se discutiu sobre a mitificação da história da independência latino-americana e por conseqüência sobre a mitificação em cima da pessoa de Simón Bolívar. Igualmente, já tentou se combater também esse viés com a temática da humanização. Esta resenha tende a não caracterizar detalhadamente essa dicotomia, porem se colocará o objetivo de encontrar nas paginas do livro elementos que possam ajudar a entender qual foi a escolha do autor em uma versão romantizada dos últimos dias do general Bolívar.
Garcia Márquez vai optar não só pela humanização de Bolívar, mas pela humanização levada ao extremo, fazendo parecer às vezes uma figura extremamente mundana e imperfeita, no sentido máximo que expressa seus defeitos, arrependimentos acerca do processo de independência e de formação da identidade latino-americana com um tom nostálgico, e às vezes trágico, características dita intrínseca dos povos latinos.
Os dias finais de sua vida são marcados pela velhice prematura, fruto da sua história de vida levada intensamente, entre guerras e amores de ocasião, o general aparece no livro como uma pessoa metódica, teimosa, com péssimos hábitos alimentares, porém nunca deixa de ser um romântico, um sonhador que jamais desiste quando enxerga uma nova oportunidade de concretizar o seu ideal da unificação.
Essa linha interpretativa não é muito bem vinda pela historiografia tradicional venezuelana, por exemplo, que procurou fabricar um processo de defesa da sua história mitificando o líder militar e as batalhas vencidas, como por exemplo, a Campanha Admirável. As marcas desse processo que se deu forte na Venezuela são encontradas na própria identidade nacional, decorrente das vitórias bélicas de seu herói libertador, e costuma ser exaltada pela população comum, chegando a ser considerado “inimigo da nação” qualquer um que escreva ou tente dar uma nova interpretação acerca do processo de independência.
Porém, não podemos nos esquecer que ”O General em seu labirinto” se trata de um romance, gênero literário que apesar de transitar entre o ficcional e o real, não deixa de ter passado por um processo de pesquisa para sua produção, e mistura a isso toda sua carga proveniente da forma e do estilo literário e da formação do autor. Também em outras obras de Garcia Márquez encontramos figuras mundanas e humanizadas no sentido do instinto animal combinado com conhecimento e racionalidade. Talvez isso possa explicar sem recorrer a nenhum juízo de valor a construção da figura de Bolívar, mas devemos nos atentar que trabalhamos em cima de uma hipótese.
A idéia de um líder considerado nacionalmente “herói” de guerra ser retratado como uma pessoa decadente que passa seu tempo deitado na rede, quando não, falando seus segredos enquanto dorme e sofre de ataques de flatulência parece querer desconstruir totalmente a imagem idealizada de um Bolívar com o qual seria difícil se orgulhar e se identificar para tenta então formar uma “identidade”, ou uma “história modelo” que pudesse embasar a formação da identidade.
A velha dicotomia entre civilização e barbárie continuaria a expurgar as feridas internas decorrentes do processo de libertação e disputas internas por poder e realizações de interesses pessoais que viriam a transformar o fenômeno da independência em uma espécie de guerra civil. As disputas e traições decorridas no processo provocaram guerras que se estenderam por um período considerável de tempo que podem ter esgotado as possibilidades de uma transição definitiva, e que poderiam contribuir para essa grande duvida quanto à nacionalidade, reforçando novamente a dicotomia entre Europa e América espanhola.
Simón Bolívar com certeza sofria de todos os “males da humanidade”, assim como todos que somos humanos sabemos os sentimentos a que somos submetidos a partir das relações e do mundo em que vivemos. Não podemos ignorar que este homem liderou apaixonadamente vitórias fundamentais no processo de independência seguindo sempre seu instinto humano e conseguindo ainda assim sonhar e tentar pensar um projeto maior de unificação da América Latina. Seus ideais podem ter sido considerados derrotados, porem marcou definitivamente a formação da identidade nacional daqueles países. Apesar de ser um representante das elites, ele procurou de forma quase paternal defender o direito daqueles que compartilhavam de seu sonho.
O problema está então em procurar saber a quem interessa as interpretações e construções acerca dos acontecimentos, e entender que os julgamentos ou juízos de valores são aceitáveis por não se tratarem os romances fontes documentais ou textos teóricos, e sim um gênero literário com suas características tão conhecidas e que foram aproveitadas nas invenções das tradições nacionalistas ao redor do mundo.
Sendo assim, procuramos acreditar que o recorte feito para a produção do romance foi bastante seletiva e que realmente era intencional a sensação causada pelo acompanhamento fúnebre que se dá ao longo do texto, onde o general sempre a espreita da morte, decadente mesclado a lembranças de um passado histórico leva o leitor a tirar conclusões parciais sobre a parte que assim se mostra como a menos gloriosa na vida do Libertador das Américas. O General se perde em seus próprios labirintos em busca de uma saída para a situação da Colômbia e da Venezuela, e as vezes parece que a morte lhe será um grande alivio, pois aparentemente o labirinto não tem saída.Entre delírios descrença, o general se demonstra firme porem sofre por dentro, como no episódio do fuzilamento de seus ex-companheiros.Esse lado sombrio é o que todos estadistas querem esconder, e Gabriel García Márquez expõe até a mais íntima problemática de Bolívar, o questionamento de toda sua vida e deixa no ar um tom de duvida em relação ao sucesso de suas pretensões.
A invenção de tradições é recorrente nas sociedades e parece elemento agregador em seu ultimo fim, parece fortalecer o imaginário do povo, e devemos nos perguntar a real utilidade disso, e quais os interesses de quem luta contra isso, pois uma universalização exarcebada pode por fim as culturas únicas e identidades enraizadas no território em detrimento de um discurso falso globalizador. Se o sonho de Bolívar era uma integração entre os países latinos, certamente era um pensamento estratégico de alianças procurando unidade territorial, enquanto que “o modelo norte americano”,havia conseguido por bem ou por mal instalar uma democracia forte e com a participação de todos os seus estados em seu território.
Isso tudo nos leva a pensar que nos dias de hoje, o mundo “globalizado”, mas divido em blocos teria mais dificuldade em explorar os paises subdesenvolvidos sul-americanos se um dia esses paises tivessem tido sucesso em ter uma liderança única e que representasse os interesses em comum do povo latino americano frente aos interesses europeus e estado-unidenses. Nostalgicamente assistimos a emergência do neo - populismo com a aparição de novos líderes que dizem querer negociar rumo a uma união, não só comercial como a que teoricamente existe, mas com a participação e política unificada. Agora a América corre para tentar realizar o projeto idealizado em sua ultima instancia pela unificação sonhada por Bolívar.
Sendo esse um fator de atraso em relação aos países europeus que apesar da dificuldade da língua consegue se unir em bloco, resta a América latina como sempre um papel de futura potencia futuro esse no sentido literal, futuro que é sempre inatingível, enquanto que no presente ainda encontramos infelizmente muitos dos problemas que atravessaram os séculos e desembocam na situação de hoje, uma América Latina dominada quando não pelos interesses do capital especulativo estrangeiro, ou ainda entregue a indústria do narco - trafico que já é um estado por si só.
Talvez um novo Bolívar possa um dia surgir, porem que esse seja ainda mais humano em suas ações, para que a América Latina consiga impor finalmente o seu tamanho e o respeito que merece por ter financiado o desenvolvimento dos paises centrais e ocupado sempre papel secundário no cenário mundial. Mas esse messianismo não deve ser a única fonte de esperança para a tomada de um novo rumo. Um povo com uma cultura tão rica, uma história tão forte deve ele mesmo ser participativo e exigente para que a mudança possa realmente ocorrer de maneira significativa.
O escritor Eduardo Galeano nos diz em seu célebre As veias abertas da América Latina, que os problemas decorrentes da colonização iriam perpetuar o separatismo e as dificuldades de uma possível estabilidade democrática, pois as oligarquias portuárias teriam consolidado através do “livre comércio” a fragmentação do território, segundo Galeano: aqueles ilustrados traficantes não podiam incubar a unidade nacional que a burguesia encarnou na Europa e nos Estados Unidos. O processo ainda sofreria intervenção britânica no sentido da perpetuação das desigualdades.
Os países auto intitulados centrais têm uma enorme divida com a América Latina e se organizam de maneira exemplar com lideranças coesas e representativas, alem de democráticas, e obviamente imperialista. Seu pensamento civilizatório moldou os sistemas mundiais e ignorou as especificidades de cada local. Não devemos considerar jamais como um retrocesso reclamar a uma identidade comum,e construí-la a partir da nossa própria cultura, riquíssima e única, de um passado milenar e que fundamentalmente deve estar presente no imaginário popular e no pensamento e construções da história e da liberdade da América Latina.