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quinta-feira, 2 de março de 2006

A Inquisição e o Brasil

Por Jessé A. Chahad

O primeiro visitador do Santo Oficio chega à Bahia em junho de 1591, o desembargador Heitor Furtado de Mendonça chegara com a impressão causada pelas leituras dos relatos feitos por Nóbrega sobre o Brasil, onde “não se guarda um só mandamento de Deus e muito menos os da Igreja”. A notícia da presença do Santo Oficio deixou a população em pânico.O Brasil seria uma terra sem leis tanto religiosas, quanto administrativas.

A falta de fé e de obediência certamente representava para o poder papal uma derrota no campo da conscientização e da formação de uma sociedade que deveria ser adepta aos preceitos católicos o que facilitaria a centralização do poder estatal, que estava aliado à Igreja, na reconstrução do modelo de estado português na colônia.Sonia Siqueira afirma que a Igreja tinha interesse em “integrar o Brasil no mundo cristão” e descobrir “onde se calcava a fé de nossos moradores”.

A população colonial era em sua maioria analfabeta, desregrada, sofria com a falta de mulheres brancas e realmente não se tocava às sublimidades dos ensinamentos da Igreja, diversas vezes ridicularizados e raramente seguidos. Podemos citar como exemplo rápido a ocasião em que mesmo antes das visitas, em 1546, Pero do Campo Tourinho, donatário da capitania de Porto Seguro foi denunciado à Inquisição de Lisboa simplesmente por ter dito que em suas terras quem mandava era ele, ele seria o “papa”em sua propriedade, e não deveriam ser respeitados os domingos e dias santos, pois não se poderia perder dia de trabalho.Era comum aos colonos amaldiçoarem santos e maldizerem os sacramentos. Aos jesuítas muitas vezes era necessário afastar os nativos dos colonos, para que esses não assimilassem seus hábitos e vice-versa, dada à visão demoníaca que inicialmente a Igreja fez da poligamia e do antropofagismo dos índios, e do proveito que tiravam os colonos dos nativos, que sofriam com a falta de mulheres brancas.

As práticas desregradas na colônia chegaram a ser tidas como doutrina, o “Ultra equinoxialem non peccatur”, a idéia de que não existia pecado ao sul do equador, onde colonos e degredados viviam às fornicações, sodomia, adultérios e incestos.Esses comportamentos fizeram alguns acreditar que o próprio nome Brasil estaria associado a essa idéia, pois a figura da brasa quente como o inferno, vermelha como a madeira, produto que daria o nome ao país teria substituído o nome inicialmente adotado de “Terra de Santa Cruz”.

Esse tipo de comportamento pode também ser fruto de uma administração mal organizada, ineficiente, a confusão de funções e competências, a complexidade dos órgãos, o excesso de burocracia faziam com que o poder estatal fosse praticamente nulo, não imprimindo à sociedade nenhum tipo de senso moral coletivo.A falência do estado permitia a ingerência da Igreja na formação de uma conduta moral rígida, e a Inquisição entra em cena praticamente quando a situação da moral, ou da falta dela já era consolidada na colônia e a imagem demoníaca da vida cotidiana estava vinculada à idéia de um mundo novo a ser civilizado.

A expansão do poder papal sobre uma colônia em desenvolvimento, e a possibilidade de sua inserção no sistema católico é apontado como um dos fatores que levaram a Inquisição a estender seu braço sobre os domínios tropicais. Isso representaria a reprodução do estado português na colônia, fato que deveria ocorrer em todas as instancias.Para garantir o poder de seu controle de repressão, o Estado e a Igreja dispunham entre outros artifícios dos sermões, onde eram transmitidas as idéias de céu e inferno, que aterrorizava os colonos com a possibilidade da danação eterna
Porém, Anita Novinsky nos mostra outra visão referente ao assunto em detalhado estudo a partir da leitura dos processos que a Inquisição realizou no Brasil nos séc. XVI e XVII. Segundo dados recolhidos pela autora, o principal crime de que foram acusados os brasileiros e portugueses residentes no Brasil pela Inquisição, teria sido o da prática do judaísmo, (dos 1.067 prisioneiros relatados no livro, 46,13% dos homens e 89,92% das mulheres foram acusados de judaísmo o que nos obriga a acrescentar uma idéia à teoria de que o Brasil era uma terra sem leis e de certa forma carente de regras de moralização, era também terra de negócios lucrativos, e com a presença de cristãos novos oriundos da própria península
Analisando os dados sobre as pessoas que foram denunciadas, presas, julgadas e sentenciadas podemos ver uma predominância de mercadores e agricultores (27,76%) sobre as outras ocupações liberais e artesãos (12,86%, o que pode demonstrar uma certa pré - disposição à procura de possíveis hereges nas áreas em que os judeus oriundos da Espanha, expulsos em 1492 pelos reis católicos, estavam mais presentes.Esses boatos de prosperidade colonial também ecoavam na metrópole e isso pode ter aguçado a ganância dos reis Filipes que sabiam da quantidade de comerciantes e senhores de engenhos bem estabelecidos na região, muitos de origem judaica.Os cristãos novos que aqui estavam tinham ligações comerciais com os paises baixos, e os holandeses que estavam em guerra com a Espanha incomodavam a Coroa, que assumia o trono português em 1580.Chegou a ser cogitado em 1621 que se estabelecesse um tribunal da Inquisição no Brasil, assim como havia em Lima (1570), e no México (1571), mas o Brasil ficou livre não só do seu próprio tribunal, mas inclusive do auto da fé, espetáculo de execução e julgamento popular muito apreciado e repetido nos domínios do Santo Oficio.
> Muitas práticas modernas conhecidas na agricultura da cana, por exemplo, não eram aplicadas, o que demonstrava apenas o interesse exploratório comercial da colonização e conseqüentemente seu atraso imposto pela metrópole.Apesar da “brandura” vista na Inquisição no Brasil por alguns historiadores, apenas a sua presença e o interesse despertado pela colônia tem um significado simbólico muito forte e deve ser considerado no contexto da arbitrariedade da Igreja e da incompetência do Estado.


14 comentários:

Rafael Mendes da Silva disse...

E ae Jessé!!!

agora vc vai me ajudar a tirar uma dúvida.........então, o tribunal da inquisição não chegou a ser instalado de fato no Brasil, na verdade os acusados brasileiros e luso-brasileiros respondiam ao santo ofício português, é isso???

gostei da primeira descrição da colônia, muito loko viver no meio do pecado, fornicação, sodomia, etc; tudo isso temperado pelo sol escaldante dos trópicos, q delícia........rsrsrsrs

passei uns dias no Rio de Janeiro no mês passado e acho q as coisas não mudaram muito não.........hehehehe

falow

Jessé Chahad disse...

Sim, Rafael, o Santo Tribunal não chegou a ter seu corpo burocrático intaurado aqui no Brasil, eram remetidos os acusados à Lisboa para processo de Autos da Fé.
Para conhecer melhor o assunto das fornicações, tem o livro do Ronaldo Vainfas, "Trópico dos Pecados", qual consultei para elaboração do texto.
Abraço.

Anônimo disse...

Oi Jessé! Quanta coisa já tem nesse blog!! E está bem bonito também... agradável. Bem se vê que não li os textos, mas vou ler com calma.
Parabéns pela idéia.
Inté
Je

Anônimo disse...

gostaria de saber de maneira mais direta ou mais clara a seguinte pergunta:analise a presença da inquisição no Brasil colonial.

Anônimo disse...

AHHH...EU(FLAVIANA) Q ENVIOU ESTA PERGUNTA,POIS GOSTARIA JESSE DE SUA OPNIÃO A RESPEITO DESTE ASSUNTO AO QUAL LHE ENVIEI ANONIMAMENTE,"A PRESENÇA DA INQUISIÇÃO NO BRASIL COLONIAL?????",TENHO MINHA OPNIÃO MAS GOSTARIA DE CONFIRMAR SE O MEU PENSAMENTO CONSTA OU SE ASSMELHA AOS DE OUTROS!

Jessé Chahad disse...

Meu pensamento é que a presença da Inquisição no Brasil, funcionou mais para a legitimação do corpo burocrático que os portugueses precisavam instaurar.
Fora isso, acredito que como marca da longa duração podemos perceber na sociedade contemporânea a presença do senso comum da prática do catolicismo apenas de maneira aparente.
Frequenta-se a missa, reza-se de cor, mas não se segue os preceitos básicos dos dogmas religiosos, de maneira que o perdão no final será concebido e livra de todos os pecados.

Anônimo disse...

Olá, meu nome é Luciana e gostaria de saber umas informações sobre a Inquisição no Brasil: A família do condenado recebia condenação, mesmo se não tivesse sido acusada de heresia? Por exemplo: um irmão do condenado sendo advogado poderia defender um irmão num tribunal de inquisição?

Não é por nada. É que estou querendo saber por causa de um texto teatral que escrevi, onde coloco a inquisição no Brasil como tema secundário da história da peça.

Se puder me responder pelo meu email:
lucianamenz@yahoo.com.br

Diogo disse...

é correto falar que a inquisição no brasil foi de catequese, ou seja de ensinamento,é pq eu fiz cursinho mas o meu professor nao tocou neste assunto com agente,entao eu tive que me virar no vestibular colocando isso pq na pergunta estava pedindo para diferenciar a inquisição no brasil e na europa ai eu coloquei que na europa foi de puniçao e aqui teve carater de catequese por favor me ajudem...

Diogo disse...

meu email é este diogo.mega@hotmail.com spero resposta

Jessé Chahad disse...

Algumas diferenças estão citadas no texto. No Brasil, tivemos apenas visitas inquisitoriais, enquanto que em Portugal, se deu forte perseguição aos Cristãos Novos.
Os mesmos eram mais tolerados aqui no Brasil, segundo estudo de Boxer.

Dhiancarlly disse...

Olá Jessé A. Chahad,

Preciso escrever um artigo sobre a Inquisição no Brasil, mas não encontro muito material. Você tem alguma indicação?

Dhiancarlly

Dhiancarlly@hotmail.com

Jessé Amaral Chahad disse...

Tem o trabalho do Ronaldo Vaifas chamado "Trópico dos Pecados", e também o livro da Prof. Laura de Mello, "Deus e o Diabo na Terra de Santa Cruz".

HEMESON disse...

valeu se nao fosse esse trabalho tiraria (0)

Lucas disse...

Bom dia, obrigado pelo texto.
Gostaria de saber, na sua opinião quais seriam as características que foram deixadas pela inquisição e pelo modo que os portugueses viam os atos que aconteciam no Brasil?

Por exemplo, será que alguns de nossos costumes atuais são vistos de forma negativa pelos europeus por essa distinção feita pela igreja na Época. De que modo isso influencia nossa moral e ética?