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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Dom Quixote

Por Jessé A. Chahad

Como todo grande clássico, a obra prima de Miguel de Cervantes, Dom Quixote de la Mancha, está cercado de inúmeras possíveis leituras, que dão luz a campos de estudo na historia, na política, na literatura, na sociologia e na psicologia só como alguns exemplos a serem citados.A cada nova era surgem novas interpretações e novos pensamentos sobre o autor e sua obra, o que faz com que nunca se esgotem as possibilidades de entendimento do contexto e das ironias tão bem feitas por Cervantes a diversos comportamentos e figuras representativas de sua época.Relatos históricos como a guerra da Reconquista travada pela expulsão dos invasores árabes e todas as conseqüências desse feito são assuntos do livro.
A linha tênue que separa a lucidez da loucura do personagem é uma abordagem das mais interessantes, pois sua sensatez dentro de seus disparates em seus discursos remete a uma pesada critica que Cervantes faz da sociedade de sua época, a qual passava por uma decadência proveniente da falta de estrutura para garantir o desenvolvimento econômico que se criara e que agora, não se sustentara.Apesar de viver o momento presente, Cervantes parece já perceber a crise que estaria por vir.
A Espanha encontrava-se em declínio de seu império, talvez por falta de estrutura para sustentar as mudanças causadas pela expansão e desenvolvimento de sua economia, mas também a grande inflação causada pelo fluxo de metais vindos da América e logo depois o declínio pela falta do mesmo (devido talvez ao não investimento do acumulo em infra-estrutura) teria feito a riqueza se espalhar pela Europa ao invés de se concentrar no estado e também esse fato é estudado e como isso pode ter contribuído para a crise que se estabelecera.
Dom Quixote era um fidalgo, filho de pais ricos. No entanto, durante sua vida, ele vai perdendo sua riqueza, pagando dívidas e comprando livros. Por isso, mergulha na literatura em busca da solução desta dificuldade, até demais. Além de perder sua riqueza, Dom Quixote, começa a agir como um cavaleiro em busca de uma mudança, uma nova vida. Ele já tinha uma idade relativamente avançada e vivia muito só. Por isso deixa-se levar por imaginação e passa a viver num mundo ilusório, fantasioso, isso mostra que o próprio personagem é um retrato da época.
A ilusão está presente em Dom Quixote, pois vê o mesmo mundo que todos, mas sob uma perspectiva muito própria e marcada pela medievalidade que se imprime nos contos de cavalaria que de tão lidos, teriam levado nosso herói à loucura (lembremos que seus livros forma queimados pelo padre, com apoio de sua família).Tais contos retratam de forma fantasiosa heróis épicos e míticos medievais, sendo assim, Dom Quixote pode ser considerada uma novela de cavalaria, talvez a ultima que conhecemos, pois esse gênero literário foi mais desenvolvido na Idade Media e não existiam mais na época descrita por Cervantes e vivida por Quixote mas estariam marcadas na subconsciência da sociedade, que não se permitiam avanços no pensamento crítico e atrasavam a mentalidade espanhola.Na verdade Quixote oscila em um movimento pendular entre o delírio e sensatez, e encarna em seus discursos e situações patéticas a voz crítica de Cervantes e sua ironia como por exemplo ao inventar nomes pomposos ridicularizando muitos sobrenomes da fidalguia.
Muito da lucidez fica sob a imagem de seu fiel escudeiro Sancho Pança, um trabalhador honesto, mas com pouca inteligência que faz as vezes de alter ego de seu amo, lhe mostrando as vezes outra visão que não a fantasiada, porem acaba iludido por Quixote e sua promessa de recompensa em forma de governo de uma ilha imaginária. A mentalidade fraca, porém honesta, e o desejo de ascensão social a partir de títulos de nobreza proveniente do governo de terras, assim como a fama trazida por isto também são simbolicamente desejos intrínsecos do inconsciente coletivo do reino, e Cervantes trabalha muito em cima desses aspectos para criticar também os costumes reinóis.
Movido pelo poder e ganância, Sancho é levado a acreditar ser realmente o governador de uma ilha, mas é ridicularizado pela população que o viam e a seu amo como lunáticos, e deram continuidade as suas idéias apenas pelo prazer do escárnio.Revolto com seus sentimentos, Sancho abandona sua suposta posição de poder para retornar a sua vida antiga. O conflito entre o idealismo repleto de delírios e fantasias de Dom Quixote e o realismo prático e objetivo de Sancho Pança comporta um dos mais clássicos dilemas do confronto de valores que acompanhou a emergência do pensamento moderno.
Ducinéia Del Toboso, que nosso cavaleiro acreditava ser uma dama da aristocracia, não passava de uma robusta camponesa que segundo a visão objetiva de Sancho até cheirava mal, e trabalhava praticamente o dia todo. Porém, como em tudo, Quixote tem uma explicação justificativa e fantasiosa para basear seus argumentos apenas pelo filtro que sua visão lunática deixa transpassar, e toma Dulcinéia como musa e dedica-lhe todas as batalhas.De certa forma todos às vezes temos um delírio quixotesco, pois em muitos parâmetros só enxergamos o que queremos e em situações que talvez não queiramos entender, e mesmo inconscientemente selecionamos o nosso modo de ver o mundo e os acontecimentos.Colombo, por exemplo, teve grande êxito em suas navegações no fato de encontrar um novo continente, mesmo que inconscientemente, pois morre sem saber do tamanho de seu achado, e só acreditou que tinha conseguido um novo caminho para as Índias, e quando lá chegou, interpretava à sua maneira todos os costumes e línguas dos indígenas, vendo só o queria ver e escutando apenas o que queria, chegava até a achar que certas palavras que os índios falavam, eram em sua língua.
As aventuras se seguem no livro, ora com o sucesso involuntário das façanhas, ora levando surras homéricas, mas a cada capitulo vem sempre temperado com a pesada critica e ironia sagaz que Cervantes imprime aos contos e encontros que Dom Quixote tem em suas saídas para andanças.No fim, com o corpo desgastado pelas aventuras e fracassos, Dom Quixote recobra sua sanidade, pouco antes de falecer, arrependido de certa forma, mas contente por ter se considerado lúcido antes do fim, o que remete a uma inversão no momento da morte do herói épico , onde geralmente este vive seu ultimo momento dentro de um delírio, e não de lucidez como a que falta em Quixote e só lhe aparece pouco antes da morte.
O fato é que Cervantes e Quixote têm em sua trajetória elementos de comum aparência, que segundo a critica literária, estão certamente impressas nas obras a vida de seus autores, e quanto mais singular e fantástica, paradoxalmente tortuosa, mais será a subjetividade da obra e assim sendo, verdadeiramente a construção de um clássico se dá a partir da verossimilhança do autor e de sua obra e a faz transpirar, transcender os séculos alcançando milhões de leitores.
Essa breve resenha pretendeu contextualizar uma possível leitura do clássico Dom Quixote, uma obra que ainda renderá muitos debates e estudos, pois devida a sua universalidade pode ser tomada como base talvez para a analise histórica e social não só de sua época, mas das conseqüências daquilo em nossa contemporaneidade e deve ser atada a nossa realidade para mais uma possível leitura, talvez anacrônica tentando identificar possíveis frutos daquela época para o estudo da mesma.

6 comentários:

Anônimo disse...

Dom Quixote vai ser e sempre será uma historia fantástica , vai ficar guardada sempre nós nossos corações .

Marcela N N Souza disse...

Parabéns! O seu blog é muito interessante

Anônimo disse...

parabéns, suas palavras são belas, o texto ficou otimo..

Anônimo disse...

Gosto da versão em espanhol da Real Academia de Madri. Tudo muito ótimo. Quem não tem um pouco de Dom Quixote. Um pouco de médico e um pouco de louco temos um pouco. Mas na literatura é a dose certa.

Anônimo disse...

ôõôoooo viadagem muito sem graça

Denise Amaral disse...

Dom Quixote, tão atual mesmo nos dias de hoje...
Loucura, sonho, ideal... com Sancho o típico pobre diabo de hoje, em busca "de algum".
Um dos meus livros favoritos, principalmente por tratar tão poeticamente das doenças mentais.