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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Inquisição em Portugal

Por Jessé A. Chahad

Para combater as heresias que se erguiam frente aos dogmas católicos, o papa Gregório IX criou em 1231 os Tribunais do Sato Oficio da Inquisição, cuja função era identificar e excluir da sociedade possíveis elementos desagregadores e contestadores da ordem cristã, assim como garantir o seu funcionamento.Os julgados e condenados pela Inquisição eram entregues às autoridades administrativas do Estado, que se encarregavam da das sentenças. As penas variavam desde confisco de bens até a morte em fogueiras, onde vigorava o braço secular, na execução dos condenados pelo próprio povo.

O interrogatório era marcado pela tortura, instrumento de terror muito comum na época, mas não livre de contradições.O Manual dos Inquisidores, espécie de guia pratico do oficio inquisitorial, escrito em 1376 pelo dominicano espanhol Nicolau Eymerich, depois revisto e atualizado em 1578 por Francisco de La Peña, reza que: “A finalidade da tortura é obrigar o suspeito a confessar a culpa que cala. Pode se qualificar de sanguinários todos esses juizes de hoje, que recorrem tão facilmente à tortura, sem tentar, através de outros meios, completar a investigação. Esses juizes sanguinários impõem torturas a tal ponto que matam os réus, ou os deixam com membros fraturados, doentes para sempre. O inquisidor deve ter em mente que o acusado deve ser torturado de tal forma que saia saudável para ser libertado ou executado”.

A Inquisição em Portugal foi instaurada a pedido do próprio rei D.João III em 1536, e compreende um mistério historiográfico dos mais obscuros e paradoxais até hoje, pois D.João III sabemos financiava estudos em outros países e incentivava as pesquisas de campo,( o que demonstraria o interesse por novas idéias) mas para uma maior centralização de seu poder teria optado pela adoção da inquisição, que insistia em afirmar os preceitos da escolástica,que pregava o saber Aristotélico, baseado em comentar obras tidas como referenciais e incontestáveis.A Inquisição agiu durante 285 anos em Portugal, sendo eliminada apenas em 1821.

Assim sendo, fica claramente declarado o poder de controle moral e de comportamento que representavam a Igreja e a Inquisição,que através do medo e do terror muitas vezes conseguia inventar culpados, pois além de sustentar sua própria estrutura com os tributos e confiscos, precisava conquistar territórios e reafirmar os dogmas católicos abalados pelas idéias surgidas com as novas interpretações da bíblia feitas na Europa na chamada Reforma Religiosa.

Porém devemos aqui apontar a diferença existente entre a Inquisição que de uma forma geral agiu sobre Itália, França e Alemanha e as Inquisições portuguesa e espanhola. Estas últimas especializaram–se em perseguir os chamados cristãos-novos, que eram judeus convertidos muitas vezes apenas para escapar das condenações, e eram perseguidos por continuarem praticando costumes judeus e ainda judaizantes, (os chamados marranos) o que era considerado não só uma heresia, mas uma possível ameaça representada pelo crescimento da burguesia que queria sempre ascender à nobreza.O poder estatal e o poder papal configuravam uma aliança de forte poder sobre a sociedade da época, o que fortalecia mutuamente a Igreja e a Coroa. Se em um primeiro momento a Inquisição se preocupava exclusivamente com os cristãos que desobedeciam as regras da Igreja, de maneira tardia em Portugal essa preocupação se estendeu a esses convertidos à força, e seus descendentes de maneira mais branda.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Miguel de Cervantes

Por Jessé A. Chahad

Miguel de Cervantes nasceu em Castilha no ano de 1547, enquanto o mundo vivia um contexto de importantes transformações que efervesciam na Europa, a intensidade de trabalhos no campo intelectual e literário crescia ao passo em que a Igreja sofria com as novas idéias provenientes das religiões surgidas na Reforma Religiosa, e ao mesmo tempo articulava sua Contra-Reforma que procurava adaptar a Igreja aos novos tempos e ao mesmo tempo reafirmava os seus dogmas, ainda que à força.Uma época de aventuras e descobrimentos, de contestações dos preceitos da escolástica através da experiência, “a madre das coisas”, que fundaria as bases de uma nova perspectiva no campo intelectual, e na economia dava-se uma fase de transição importante onde estariam se lançando sobre a Europa as bases da Idade Moderna, e revolucionando a Europa, sendo essa considerada a primeira etapa do capitalismo moderno, fruto da expansão comercial ibérica.
De origem humilde, Cervantes junta-se ao exército espanhol aos 24 anos e combate os turcos na Batalha de Lepanto, na costa oeste da Grécia, onde é seriamente ferido e chega a perder os movimentos da mão esquerda.Ele ainda passa por um período de cinco anos preso em cativeiro em Argel, capturado por corsários em seu regresso à Espanha.Com muitas dificuldades financeiras, e com o fracasso de seu primeiro casamento, Cervantes desenvolve ainda algumas funções burocráticas, a serviço do Rei, sendo novamente preso, desta vez, acusado de desvio de verbas, passou mais um período encarcerado em Sevilha, onde se supõe que começa a escrever a primeira parte de Dom Quixote, o Engenhoso Fidalgo de La Mancha.
O sucesso obtido com a publicação em 1547 lhe trouxe algum prestígio, porém nada de concreto que pudesse ser considerado a solução de seus problemas financeiros, dada sua inabilidade com números e seu estilo de vida acostumado a andanças. Era desprendido das coisas materiais.Aos 68 anos, já velho e doente vê publicada a segunda parte de sua obra, Dom Quixote, publicada em 1615. Além do romance Dom Quixote, escrito em duas partes (1605-1615, a primeira com 52 capítulos e a segunda, com 74), escreveu Calatea (1585), Novelas exemplares (1613), Viagem ao Parnaso (1614) e Os trabalhos de Persiles e Segismunda (1617).
Longe de sucesso, de amigos, e com muitos problemas financeiros, Cervantes já doente recolhe-se a um convento franciscano, o mundo já lhe cansara, e só restava-lhe a morte que chegou para lhe aliviar em 1616.Não só o livro é um clássico, mas como o próprio Cervantes em sua vida e trajetória, são épicos que devem ser percebidos com atenção, pois é subjetiva sua obra e ao mesmo tempo universal e tem se mantido como uma das fontes de inspiração e de referência para escritores e artistas de todas as épocas. A própria figura de Dom Quixote se tornou um símbolo do homem moderno em suas lutas contra as investidas de uma realidade decadente.

Dom Quixote

Por Jessé A. Chahad

Como todo grande clássico, a obra prima de Miguel de Cervantes, Dom Quixote de la Mancha, está cercado de inúmeras possíveis leituras, que dão luz a campos de estudo na historia, na política, na literatura, na sociologia e na psicologia só como alguns exemplos a serem citados.A cada nova era surgem novas interpretações e novos pensamentos sobre o autor e sua obra, o que faz com que nunca se esgotem as possibilidades de entendimento do contexto e das ironias tão bem feitas por Cervantes a diversos comportamentos e figuras representativas de sua época.Relatos históricos como a guerra da Reconquista travada pela expulsão dos invasores árabes e todas as conseqüências desse feito são assuntos do livro.
A linha tênue que separa a lucidez da loucura do personagem é uma abordagem das mais interessantes, pois sua sensatez dentro de seus disparates em seus discursos remete a uma pesada critica que Cervantes faz da sociedade de sua época, a qual passava por uma decadência proveniente da falta de estrutura para garantir o desenvolvimento econômico que se criara e que agora, não se sustentara.Apesar de viver o momento presente, Cervantes parece já perceber a crise que estaria por vir.
A Espanha encontrava-se em declínio de seu império, talvez por falta de estrutura para sustentar as mudanças causadas pela expansão e desenvolvimento de sua economia, mas também a grande inflação causada pelo fluxo de metais vindos da América e logo depois o declínio pela falta do mesmo (devido talvez ao não investimento do acumulo em infra-estrutura) teria feito a riqueza se espalhar pela Europa ao invés de se concentrar no estado e também esse fato é estudado e como isso pode ter contribuído para a crise que se estabelecera.
Dom Quixote era um fidalgo, filho de pais ricos. No entanto, durante sua vida, ele vai perdendo sua riqueza, pagando dívidas e comprando livros. Por isso, mergulha na literatura em busca da solução desta dificuldade, até demais. Além de perder sua riqueza, Dom Quixote, começa a agir como um cavaleiro em busca de uma mudança, uma nova vida. Ele já tinha uma idade relativamente avançada e vivia muito só. Por isso deixa-se levar por imaginação e passa a viver num mundo ilusório, fantasioso, isso mostra que o próprio personagem é um retrato da época.
A ilusão está presente em Dom Quixote, pois vê o mesmo mundo que todos, mas sob uma perspectiva muito própria e marcada pela medievalidade que se imprime nos contos de cavalaria que de tão lidos, teriam levado nosso herói à loucura (lembremos que seus livros forma queimados pelo padre, com apoio de sua família).Tais contos retratam de forma fantasiosa heróis épicos e míticos medievais, sendo assim, Dom Quixote pode ser considerada uma novela de cavalaria, talvez a ultima que conhecemos, pois esse gênero literário foi mais desenvolvido na Idade Media e não existiam mais na época descrita por Cervantes e vivida por Quixote mas estariam marcadas na subconsciência da sociedade, que não se permitiam avanços no pensamento crítico e atrasavam a mentalidade espanhola.Na verdade Quixote oscila em um movimento pendular entre o delírio e sensatez, e encarna em seus discursos e situações patéticas a voz crítica de Cervantes e sua ironia como por exemplo ao inventar nomes pomposos ridicularizando muitos sobrenomes da fidalguia.
Muito da lucidez fica sob a imagem de seu fiel escudeiro Sancho Pança, um trabalhador honesto, mas com pouca inteligência que faz as vezes de alter ego de seu amo, lhe mostrando as vezes outra visão que não a fantasiada, porem acaba iludido por Quixote e sua promessa de recompensa em forma de governo de uma ilha imaginária. A mentalidade fraca, porém honesta, e o desejo de ascensão social a partir de títulos de nobreza proveniente do governo de terras, assim como a fama trazida por isto também são simbolicamente desejos intrínsecos do inconsciente coletivo do reino, e Cervantes trabalha muito em cima desses aspectos para criticar também os costumes reinóis.
Movido pelo poder e ganância, Sancho é levado a acreditar ser realmente o governador de uma ilha, mas é ridicularizado pela população que o viam e a seu amo como lunáticos, e deram continuidade as suas idéias apenas pelo prazer do escárnio.Revolto com seus sentimentos, Sancho abandona sua suposta posição de poder para retornar a sua vida antiga. O conflito entre o idealismo repleto de delírios e fantasias de Dom Quixote e o realismo prático e objetivo de Sancho Pança comporta um dos mais clássicos dilemas do confronto de valores que acompanhou a emergência do pensamento moderno.
Ducinéia Del Toboso, que nosso cavaleiro acreditava ser uma dama da aristocracia, não passava de uma robusta camponesa que segundo a visão objetiva de Sancho até cheirava mal, e trabalhava praticamente o dia todo. Porém, como em tudo, Quixote tem uma explicação justificativa e fantasiosa para basear seus argumentos apenas pelo filtro que sua visão lunática deixa transpassar, e toma Dulcinéia como musa e dedica-lhe todas as batalhas.De certa forma todos às vezes temos um delírio quixotesco, pois em muitos parâmetros só enxergamos o que queremos e em situações que talvez não queiramos entender, e mesmo inconscientemente selecionamos o nosso modo de ver o mundo e os acontecimentos.Colombo, por exemplo, teve grande êxito em suas navegações no fato de encontrar um novo continente, mesmo que inconscientemente, pois morre sem saber do tamanho de seu achado, e só acreditou que tinha conseguido um novo caminho para as Índias, e quando lá chegou, interpretava à sua maneira todos os costumes e línguas dos indígenas, vendo só o queria ver e escutando apenas o que queria, chegava até a achar que certas palavras que os índios falavam, eram em sua língua.
As aventuras se seguem no livro, ora com o sucesso involuntário das façanhas, ora levando surras homéricas, mas a cada capitulo vem sempre temperado com a pesada critica e ironia sagaz que Cervantes imprime aos contos e encontros que Dom Quixote tem em suas saídas para andanças.No fim, com o corpo desgastado pelas aventuras e fracassos, Dom Quixote recobra sua sanidade, pouco antes de falecer, arrependido de certa forma, mas contente por ter se considerado lúcido antes do fim, o que remete a uma inversão no momento da morte do herói épico , onde geralmente este vive seu ultimo momento dentro de um delírio, e não de lucidez como a que falta em Quixote e só lhe aparece pouco antes da morte.
O fato é que Cervantes e Quixote têm em sua trajetória elementos de comum aparência, que segundo a critica literária, estão certamente impressas nas obras a vida de seus autores, e quanto mais singular e fantástica, paradoxalmente tortuosa, mais será a subjetividade da obra e assim sendo, verdadeiramente a construção de um clássico se dá a partir da verossimilhança do autor e de sua obra e a faz transpirar, transcender os séculos alcançando milhões de leitores.
Essa breve resenha pretendeu contextualizar uma possível leitura do clássico Dom Quixote, uma obra que ainda renderá muitos debates e estudos, pois devida a sua universalidade pode ser tomada como base talvez para a analise histórica e social não só de sua época, mas das conseqüências daquilo em nossa contemporaneidade e deve ser atada a nossa realidade para mais uma possível leitura, talvez anacrônica tentando identificar possíveis frutos daquela época para o estudo da mesma.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Sérgio Buarque de Holanda

Por Jessé A. Chahad

Sérgio Buarque de Holanda nascido em São Paulo em 1902, faleceu aos oitenta anos e integrou a chamada geração de 30, que contou ainda com nomes como Caio Prado Jr e Gilberto Freyre, todos na tentativa de buscar elementos que definam a formação da sociedade brasileira contemporânea.Esses autores e suas respectivas obras de destaque (Formação do Brasil contemporâneo, e Casa-grande e senzala) dialogaram entre si na busca de uma análise da sociedade brasileira. Participou do movimento Modernista de 22, tendo sido nomeado por Mário e Oswald de Andrade representante da revista Klaxon no Rio de Janeiro.

Viajou para a Europa, em 1929, como correspondente dos Diários Associados e fixou residência em Berlim, onde entrou em contato com a obra de Max Weber e assistiu aos seminários de Friedrich Meinecke.

Em 1957, recebeu o prêmio Edgard Cavalheiro do Instituto Nacional do Livro pela publicação de Caminhos e Fronteiras. Conquistou em concurso publico feito em 1958, a cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com a tese Visão do Paraíso - os motivos edênicos no descobrimento e na colonização do Brasil.

Foi o primeiro diretor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), eleito em 1962. De 1963 a 1967, viajou como professor-visitante para as universidades do Chile e dos Estados Unidos e participou de missões culturais pela Unesco no Peru e na Costa Rica.

Sérgio Buarque de Holanda morreu em São Paulo, a 24 de abril de 1982.Entre suas obras mais famosas estão: Raízes do Brasil (1936), Cobra de Vidro (1944), Caminhos e Fronteiras (1957) e Visão do Paraíso (1959). Sérgio Buarque de Holanda escreveu regulamente para a Folha de São Paulo entre 1950 e 1953.

Raízes do Brasil

Por Jessé A. Chahad

Raízes do Brasil é uma obra importante, pois demarca uma transição na forma do autor estudar a formação do Brasil. Segundo Evaldo Cabral de Mello, Sérgio Buarque “abandonou o projeto de interpretação sociológica do passado brasileiro em favor de uma analise de cunho eminentemente histórico, em que soube ademais, evitar os escolhos do monografismo universitário ou meramente erudito, que é muitas vezes seu incontornável preço”.(p.189)
Sendo assim, é uma obra importante não só para o estudo sociológico, mas é definitivamente uma opinião das mais aceitas, discutidas, analisadas e combatidas na história da formação da sociedade brasileira que abriu caminhos para o autor se aprofundar em obras como Caminhos e Fronteiras, Visão do Paraíso e Do Império a Republica, consideradas frutos da fase de maturidade do autor.
Raízes representa um rompimento com a chamada “sociologia da formação brasileira” criada por autores como Oliveira Viana e Manuel Bonfim e ultrapassada do ponto de vista do pensamento sociológico da época. O discurso de tom sociológico cede lugar à solidificação do discurso historiográfico, agora não mais unicamente preocupado em reconhecer a gênese dos problemas da formação social brasileira, mas sim de um estudo a partir de tópicos claramente definidos em seus conceitos.
Porém, lembremos que o Brasil contemporâneo de Sérgio Buarque é o da geração de 30, e, portanto nos dias de hoje devemos ler e analisar a obra com cuidado para que não cometamos anacronismos que dificultariam o entendimento da importância que tal obra traz para o estudo da historia do nosso país, e elaborar idéias a partir de possíveis lacunas, fazendo evoluir o processo historiográfico.
O autor inicia sua obra em busca da identidade nacional, a partir da forçosa tentativa de implantação da cultura européia em um território naturalmente adverso e inteiramente diferente.
No primeiro capitulo Sérgio Buarque trata do pioneirismo ibérico em relação às conquistas no ultramar e das conseqüências desse feito exercido por uma sociedade hierarquicamente dividida em privilégios. O autor também critica o personalismo exagerado (que não tolera compromissos) e suas conseqüências e procura no que ele chama de falta de coesão em nossa vida social responsabilizar o tipo de colonização realizada pelos portugueses em especial comparados à América inglesa e espanhola, dizendo ser esta uma colonização de mera exploração realizada por uma nação de mentalidade nobre e ociosa.
Sérgio Buarque critica a mentalidade tradicional da sociedade de privilégios, e atribui a aversão ao trabalho manual e mecânico a responsabilidade pela exploração indiscriminada da colônia ao invés da preferência pelo seu desenvolvimento.Através da obediência aos dogmas católicos se ofuscou a liberdade de pensamento que viria a desenvolver um pensamento crítico moderno.A ausência de uma moral do trabalho era fator prejudicial à sociedade ibérica, de acordo com a teoria de Sérgio Buarque que utiliza os princípios de weber para comparar as nações católicas com as novas nações protestantes.
Para o autor, apesar do pioneirismo ibérico nos descobrimentos e sua participação na formação do pensamento moderno, o atraso representado pelas tradições tanto nobiliárquicas quanto católicas prejudicaram o desenvolvimento da colônia como conseqüência de um atraso da própria metrópole.
Na segunda parte, o autor faz uma distinção entre dois tipos de personalidades, os trabalhadores e os aventureiros, aonde nesse último aspecto se encaixa o perfil do colonizador português.Segundo Sérgio Buarque, o fato de ser o português um povo voltado às aventuras que aqui representavam os descobrimentos, estavam mais interessados nas conquistas propriamente ditas do que nos frutos em forma de trabalho que a colônia viria a oferecer.O espírito de aventura pode ter beneficiado o português que se adaptou melhor aos trópicos, em oposição ao holandês, por exemplo, cujo autor aponta o malogro, porém a adversidade ao trabalho somada às necessidades de uma sociedade rural estabelecida foi fator primordial para a introdução do trabalho escravo nas lavouras, o que confirmava a ausência de um pensamento progressista em relação ao verdadeiro desenvolvimento tanto da metrópole quanto da colônia.Essa comparação é feita pelo autor com as colônias da América inglesa, e parece querer justificar a implantação do sistema escravista, como sendo “única opção”.
O orgulho de raça é inexistente no povo português, que segundo Sérgio Buarque é um povo mestiço, e já na altura do descobrimento se encontrava miscigenado não só aos árabes, mas também com escravos negros, que na metrópole desenvolviam trabalhos domésticos.Assim, o autor procura minimizar o racismo, lembrando ainda que o governo português chegou a estimular o casamento com o gentio, a fim de melhor se misturar à raça indígena.
É ainda nesse capitulo que o autor vai dar mais ênfase aos prejuízos causados pela adoção do trabalho escravo e suas conseqüências.A ausência de cooperativas foi uma conseqüência, e a pratica conhecida como mutirão teria sido herdada dos índios, pois os portugueses não tinham a noção coletiva de grupo, ou de solidariedade.Outra conseqüência foi o baixo desenvolvimento de trabalhadores de oficio, ou especialistas.Por isso, o autor afirma (p49) que “o português vinha buscar era, sem duvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho”.
Sérgio Buarque de Holanda também vai citar as invasões holandesas e divagar sobre o que teria acontecido não fosse o malogro de suas expedições, este segundo o autor estava intimamente ligado à incapacidade holandesa de se misturar ao gentio, alem da dificuldade da língua.Essa característica de o português “tornar –se negro” vai servir de justificativa para o autor construir o mito do brasileiro como “homem cordial”, que será tratado em adiante capítulo.Em nota ao segundo capitulo, Sérgio Buarque vai relatar a ineficiência do arado em solo brasileiro relatada por um observador norte-americano nas duas ultimas décadas da monarquia brasileira, o que significa uma persistência da lavoura de tipo predatório.
Neste terceiro capítulo Sérgio Buarque trata da intensa ruralização que marcou definitivamente o desenvolvimento do Brasil. Para isto, critica a presença da escravidão e afirma que sua decadência deflagra a crise do sistema rural, tamanha era a sua dependência.
O ruralismo extremo criava uma espécie de autarquia econômica e conseqüentemente social, que o autor polariza com o desenvolvimento paralelo das cidades. A predominância daquela sobre esta indica um domínio da sociedade rural sobre a urbana, marcando ainda mais o subdesenvolvimento da sociedade em geral.De acordo com Antonio Candido, a fazenda se vinculava a uma idéia de nobreza e era o centro das atividades, secundarizando as cidades.
A essa herança rural também se somava um atraso em relação às técnicas utilizadas para o desenvolvimento da agricultura.A utilização da enxada no lugar do arado e a não utilização do bagaço da cana como combustível eram marca da administração apenas preocupada em usufruir a terra e não em desenvolve-la, aumentando a produção.
O trabalho escravo também representava um entrave ao desenvolvimento do capitalismo moderno, que só começou a se amenizar com as leis impostas pela Inglaterra criminalizando o trafico negreiro.Essa mudança apesar de lenta propiciou uma injeção de capital no mercado comercial, não porque os escravos passariam ser consumidores, e sim devido ao grande fluxo de recursos que outrora era empregado no trafico agora procurava tardiamente as bases de desenvolvimento de uma modernização em diversos setores.
À aparente prosperidade corria paralelamente a instabilidade que consistia na tentativa forçada de modernização, que importava valores e comportamentos pouco adequados à índole do colonizador e que transpassava a colônia.Os ideais liberais e burgueses encontravam resistência em uma sociedade paternalista tradicional, a qual estava acostumada às relações servis e impessoais, apenas de cunho aparente e superficial.
O autor encerra o capítulo decretando que a herança ruralista não foi uma imposição do meio e sim um esforço do colonizador, este preocupado em fortalecer apenas a metrópole, e abandonando a cidade em preferência ao campo.
A importância da cidade é retomada no quarto capítulo para agora evidenciar uma importante comparação que Sérgio Buarque irá fazer entre o português e o espanhol.Ao espanhol chamado de ladrilhador interessou mais o interior, talvez pelo precoce descobrimento de metais precioso, o que levou à fixação de cidades em detrimento das fazendas portuguesas que se atrelavam ao litoral e se espalhavam verticalmente pela colônia, sendo assim semeadores.A fundação das cidades teria sido um esforço da administração colonial, como um instrumento de centralização do poder, uma tentativa de tornar mais presente as autoridades, por via de aumento da quantidade de impostos, por exemplo.(p.103)
Segue agora um dos pontos mais importantes do livro, onde o autor associa a imagem do aventureiro (colonizador português) o desejo de enriquecimento rápido e sem esforço, novamente remetendo a Max Weber, para culpar burguesia portuguesa ociosa devido à facilidade de ascensão social por meio de aquisição de títulos. Isso teria impedido a burguesia de desenvolver ideais próprios e conseqüentemente chegar realmente ao poder.
A oposição também se dá no que diz respeito à característica marinha que marcou a colonização, estabelecida no litoral e tardia na exploração do interior, diferentemente do que ocorreu com os domínios da Espanha.O autor chega a dizer, que Portugal exerceu um trabalho antes de feitorização do que de colonização, novamente criticando agudamente a Portugal e seus meios em detrimento da Espanha.
Esse interesse provinha talvez de um medo que a população tinha de Portugal se inferiorizar em relação à colônia, portanto eram pífios os esforços de modernização e o que se via era antes uma exploração ao modo que nos explicou Caio Prado Jr em sua Formação doBrasil Contemporâneo, onde afirma ser a colonização portuguesa apenas de exploração em beneficio externo.
No quinto ponto, o autor continua falando sobre as relações sociais e sua superficialidade, exceto nas relações familiares, o que caracterizou o paternalismo que era típico em sociedades rurais. Sérgio Buarque afirma que as relações do tipo patriarcais exercem uma educação rígida que ensina a criança a não desrespeitar as leis e ordens dois pais, o que levaria a uma inércia na capacidade de transgredir e por conseqüência evoluir (p144).Os comportamentos de aparência afetiva predominavam na sociedade segundo Antonio Candido nos lembra em resenha feita no ano de 1967.
Mais uma oposição vai ser tratada pelo autor, a das relações estado – família, que deveriam atuar em singularidade na verdade representava atraso que o autor alude aos mitos gregos de Creonte e Antígona para explicar. Por ser a sociedade patriarcal, pouco se dava atenção as leis do estado, sendo o circulo familiar criador das próprias leis a serem respeitadas por seus membros, e a particularização dos interesses estava impregnada inclusive em membros de funções do estado, que também eram afetados por esse predomínio das relações intimistas em oposição às coletivas.
Quando Sérgio Buarque cria o mito do homem cordial, afirma que a hospitalidade, generosidade, e a lhaneza no trato representam um traço do caráter brasileiro (p146), mas que essas características não estariam ligadas à civilidade, mas sim seriam atribuídas a um fundo emotivo transbordante. A superficialidade das relações social se estendia às obrigações religiosas. Essa explicação também é muito combatida por segmentos que procuram ver a questão da formação do suposto caráter cordial, porem devemos prestar atenção a obra de Sérgio Buarque, que é muito cuidadoso com as palavras.
Nesse capítulo sexto, o autor vai tratar da influência das características relatadas nos outros capítulos sobre a sociedade brasileira a partir da chegada da família real. Sérgio Buarque vai continuar tratando das relações de aparência nesse capitulo, agora no âmbito da intelectualidade, o que ele chama de saber aparente, que seria o saber apenas sem uso prático e objetivo.Também a valorização das profissões liberais teria sido causada pela decadência das classes agrárias dominantes.
O autor afirma que uma sociedade com tais aspectos comentados foi propícia à proliferação das idéias positivistas como as de Augusto Comte, a tradição seria incrementada com o ideal inflexível porem paradoxal, pois se tratava apenas de uma crença obstinada na verdade de seus princípios.Ele acusa os positivistas de um espírito negador, que em nada viria a positivar o pensamento brasileiro, nada teria a acrescentar.
O saber aparente, ligado ao exibicionismo, a importante aparência, teria segundo Sérgio sido a causa da proliferação dos ideais positivistas, estes atrelados à obediência, a disciplina paternal. A falta da intelectualidade desenvolvida pela opressão dos dogmas católicos e familiares teria levado também a sociedade a adaptar falsamente alguns ideais liberais presentes no séc. XIX. O ideal de solidariedade antes inexistente teria sido então importado e adaptado para a criação de uma falsa democracia, que continuaria servindo as classes dominantes em sua minoria e criando o mito do espírito democrático.A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal entendido.(p.160). Sérgio Buarque termina esta parte refletindo sobre as idéias liberais que teriam fomentado o movimento da independência, movimento este de uma minoria, uma elite que tomava todas as decisões, e com a independência deixava as massas de fora de qualquer decisão ou até informação.
Uma mudança, ou rompimento com a ordem tradicional viria a acontecer segundo o autor, com o evento da transferência da família real ao Brasil em 1808, trazendo certa modernização e ameaçando o patriarcalismo rural.Porem, a crença apenas nas idéias, e voltada ao desenvolvimento de um raciocínio de aparência, uma falsa inteligência que conduziria a sociedade a uma espécie de alfabetização que não viria acompanhada de um maior desenvolvimento.(p.166)
No sétimo e ultimo capitulo do livro, o autor marca a data da abolição como fim do predomínio agrário, o inicio de uma lenta revolução que estaria ligada ao afastamento do que ele nomeia de iberismo que estaria ligado ao agrarismo. Na conclusão do autor, a criação da identidade nacional está vinculada ao “aniquilamento das raízes ibéricas de nossa cultura para a inauguração de um estilo novo” (p172), e a passagem da sociedade açucareira para cafeeira também representou a mudança do pensamento conservador, antigo, para o liberal, moderno, e também a passagem da cidade para centro econômico em detrimento do campo.
Sérgio Buarque acreditava que a nossa revolução estaria ligada ao distanciamento de um passado arcaizante e dominador representado pela colonização e ao desaparecimento das oligarquias, concentradoras de renda. O distanciamento do passado seria conseguido através da “revogação da velha ordem colonial e patriarcal, com todas as conseqüências morais, sociais e políticas que ela acarretou e continua a acarretar” (p180).
O desenvolvimento cafeeiro, no oeste paulista, o desenvolvimento da comunicação e dos transportes através da construção de vias férreas criaria uma relação de interdependência entre a cidade e o campo, substituindo o total isolamento antes marcado pela ausência de um mercado interno e do crescimento polarizado e desordenado.
Tratando dos ideais da sociedade, o autor afirma que o modelo ideário arcaico implantado anteriormente, após a independência tentou ser substituído pelo modelo importado em parte das idéias da revolução francesa, o que teria sido problemático mais uma vez, causando apenas uma mudança de aparato, e não de substancia.(p179)
Chegando à sua época, Sergio Buarque vai relacionar a evolução das idéias políticas com a antítese entre o caudilhismo e o liberalismo, e o fortalecimento do personalismo, o que seria fator destrutivo à coesão da sociedade.Ele diz: “na tão malsinada primazia das conveniências particulares sobre os interesses de ordem coletiva revela-se nitidamente o predomínio do elemento emotivo sobre o racional” (p.182) e particularizaria inclusive a própria noção de solidariedade. É aqui que retorna o mito do homem cordial, que é emotivo, porem não é solidário, um dos paradoxos mais intrigantes da analise de Sérgio Buarque.
O autor conclui sua obra insinuando que existe ainda em sua época uma certa permanência do pensamento tradicional, que por ter sido a raiz da colonização influenciava tudo desde sua origem, sendo assim cooptadas e adaptadas idéias para sustentar um padrão de sociedade de origem patriarcal, rural e personalista.O caudilhismo esclarecido.Ele critica um possível quadro de um Brasil fascista, assistindo a propagação dos ideais integralistas que seriam reflexo do pensamento personalista, característica de toda uma evolução que é tratada ao longo do livro.Ele termina com uma reflexão sensivelmente pessimista sobre a situação do provável futuro do país, e se estivesse ainda vivo poderia confirmar suas previsões em tempos de uma falsa democracia corrupta e serviçal do capital estrangeiro.

Revolução de Avis

Por Jessé A. Chahad

Com a morte de D.Fernando de Portugal, se coloca em prática o tratado de Salvaterras de Magos, que delegava a regência do trono a sua esposa D. Leonor Telles, a qual deveria casar sua filha, D.Beatriz, com o herdeiro de Castela, unindo assim os dois reinos a partir do nascimento de um filho homem. Assim sendo, inicia-se a crise de sucessão que resultou em profundas mudanças no reino.

O povo, insatisfeito, condenava o romance proibido de D.Leonor com o Conde de Andeiro;esse fato fomentou uma série de contestações e tumultos, e a insatisfação se estendeu inclusive a certa parte da nobreza e de toda a chamada burguesia mercantil, que não aprovavam a união dos reinos. Essa insatisfação foi também partilhada pelo chefe da Casa de Avis. Em Dezembro de 1383, com o assassinato do Conde de Andeiro, o Mestre de Avis se dá o golpe que proclamaria este Regedor e Defensor de Portugal, encerrando assim a regência de D.Leonor Telles.

O período chamado de interregno é o período em que não há rei ou autoridade governativa no estado, foi o período de incursões de D.João de Castela, o legítimo Rei contra Portugal, e da resistência liderada pelo Mestre de Avis, que a partir de uma série de vitórias, foi fortificando o seu compromisso com o povo português, e ganhando apoio cada vez maior de parte da fidalguia que antes pretendia ao trono o filho de D.Pedro com Inês de Castro, e da burguesia formada por comerciantes, e profissionais liberais que almejavam maior participação política nas administrações locais. O Mestre da Avis, com apoio também dos populares, agora só precisaria de uma eleição nas cortes de Coimbra para assumir o trono português.

A alta nobreza apoiava um sucessor Castelano, pois temia a perda de seus privilégios com a quebra da dinastia e do tratado de Salvaterras e ainda apontava a possível eleição do filho de D.Pedro com Inês de Castro, o infante D.Diniz. A chamada baixa nobreza, abraçada à idéia de possível ascensão nobilitaria e aquisição de terras, defendia seus interesses apoiando o Mestre de Avis, em uma manobra estratégica, pois este já tinha o apoio das camadas populares e da burguesia mercantil que estava muito interessada em alcançar benefícios em forma de cargos políticos, ou leis que pudessem favorecer os seus negócios.Entrava em choque uma política de fixação, contra uma política de transportes.

João das Regras, jurista integrante da baixa nobreza, foi decisivo em seu discurso na corte, ilegitimando os outros possíveis herdeiros do trono, e após trinta dias de debates, o parlamento pressionado pelo povo e pelo herói de guerra, o condestável Nuno Álvares, elege por unanimidade o Mestre de Avis, iniciando assim uma nova dinastia.

Após sua subida ao trono, D.João I, ao lado do condestável Nuno Álvares ainda enfrentariam em uma ultima batalha o Rei de Castela, e a vitória na chamada Batalha de Aljubarrota, ficou marcada como uma das mais importantes na consolidação do que viria a ser um estado português.

A revolução de Avis não pode ser classificada como estritamente popular ou burguesa, e sim como uma mescla de interesses de ambas comunidades com o apoio de uma baixa nobreza sedenta por privilégios, terras e títulos. A revolução pode ter fundamentado as bases de um sentimento patriótico, mas com a presença de três classes distintas, buscando seus interesses, e procurando legitima-los nas cortes.

A burguesia foi quem mais se beneficiou com a revolução, pois agora participava dos conselhos municipais fazia parte do estado e procurava se equiparar aos nobres, política e juridicamente.A nobreza agora ameaçada tentava conter os avanços da burguesia no campo, fato que dirigiu os esforços da burguesia para seus avanços comerciais, que chegaria às navegações continentais em busca de mercados e produtos.

A revolução tem como resultado a centralização do poder, pois sob o governo de D.João, o estado dominou o clero, fomentou ao povo idéias nacionalistas baseado em feitos bélicos e apoiou a burguesia mercantil, que chegaria ao seu auge com as empresas ultramarinas.