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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Caio Prado Júnior

Por Leandro Konder

Para podermos começar a avaliar o papel desempenhado por Caio Prado Júnior na história do marxismo no Brasil, precisamos reconstituir, de algum modo, as condições em que se deu a sua entrada na cena histórica. Qual era o quadro em que ocorreu o aparecimento da Evolução política do Brasil?

No prefácio que escreveu para a primeira edição da obra, Caio Prado Júnior advertiu que não se tratava de uma “História do Brasil”, mas de uma “síntese”, de “um simples ensaio”. Admitiu, contudo, que se serviria de um “método relativamente novo”, que era a “interpretação materialista”.

O advérbio “relativamente”, posto antes do adjetivo “novo”, constituía uma expressão de modéstia, talvez também o reconhecimento de que filosoficamente é raro o novo se apresentar em estado “puro” (é difícil o absolutamente novo), mas, em todo caso, abria caminho, igualmente, para o reconhecimento de que a “interpretação materialista” tivera, entre nós, antes da Evolução política do Brasil, alguns precursores.

Há, por exemplo, o caso do professor de latim Antonio Piccarollo, italiano, que chegou ao Brasil em 1904 e em 1908 já se dispôs a escrever uma síntese da evolução histórica e da situação política do Brasil, publicada no manifesto programático do Centro Socialista Paulistano. Mas o materialismo de Piccarollo era um materialismo mecanicista, que não tinha muito a ver com a “interpretação materialista” a que depois Caio Prado Júnior viria a se referir: Piccarollo dissolvia a dialética no evolucionismo, combinava elementos do folheto de Engels Do socialismo utópico ao socialismo científico com a idéia de que nem a natureza nem a história podem realizar saltos. Sua perspectiva subordinava a mudança à continuidade.

Há, também, o caso do jornalista Antonio dos Santos Figueiredo, intelectual socialista independente, autor do livro A evolução do Estado no Brasil, publicado em 1926. o materialismo de Antonio dos Santos Figueiredo, contudo, pagava elevado tributo às facilidades do ecletismo, que dissolviam a coesão interna do pensamento e permitiam a mistura de Marx com o historiador Henri Sée, discípulo de Werner Sombart. Além disso, o materialismo de Antonio Figueiredo era meramente contemplativo, constatativo, e por isso se deixava absorver por um pessimismo paralisador, que correspondia à situação de um sujeito que não enxergava nenhuma possibilidade de intervenção no movimento do real, limitando-se a deplorar que esse movimento não se realizasse como devia.

Em certo sentido, o materialismo de Antonio Figueiredo lembrava o de Feuerbach e merecia as críticas que Marx tinha feito ao autor deA essência do cristianismo. Faltava ao brasileiro, como faltava ao velho filósofo alemão, uma compreensão materialista da práxis humana, da ação material pela qual os sujeitos humanos estão sempre modificando a realidade objetiva e se transformando a si mesmos: o materialismo deles ficava restrito ao plano da existência de objetos maciços, densos, movidos por uma força própria, assustadoramente imunes ao poder revolucionador dos homens.

Não sei se Caio Prado Júnior sabia da existência de Antonio Piccarollo, nem se ele havia lido o livro de Antonio Figueiredo quando escreveu Evolução política do Brasil. Na medida, porém, em que tinha se interessado pelo marxismo, é provável que o nosso historiador tenha ouvido falar de Octávio Brandão, o farmacêutico autodidata que se havia transformado no principal teórico da agremiação que congregava as poucas centenas de pessoas que, no Brasil dos anos vinte, aderiam ao ideal comunista de Marx: o Partido Comunista do Brasil.

Em 1924, Octávio Brandão escreveu o livro Agrarismo e industrialismo, que só pôde ser publicado em 1925, indicando como autor um fictício Fritz Mayer e como lugar da publicação (ardilosamente, para driblar a repressão) a cidade de Buenos Aires, na Argentina. A obra serviu de base para o programa que o PC adotou na segunda metade dos anos vinte. Teria Caio Prado Júnior tomado conhecimento do documento programático dos comunistas brasileiros? Teria ele lido o texto de Octávio Brandão? Não sei. Mas a ressalva sugerida em sua caracterização do método materialista como “relativamente novo” pode se referir, implicitamente, ao esforço pioneiro realizado por Brandão.

De qualquer modo, a interpretação materialista da história, em Agrarismo e industrialismo, não correspondia àquilo que Caio Prado Júnior buscava em seu ensaio. Brandão, fascinado por Lênin, esforçava-se por completar o materialismo com a dialética, para torná-lo mais conseqüente, para permitir que a práxis revolucionária dos homens também fosse pensada em termos materialistas. Sua dialética, entretanto, ficava prejudicada por uma formalização exarcebada, de tipo positivista. Era uma dialética que – conforme procurei mostrar em artigo anterior, neste volume –, ficava reduzida ao esquema triádico de Hegel (tese, antítese, síntese), que era esquematicamente aplicado, como fórmula definitiva e universalmente válida, pronta e acabada, a uma gama notavelmente vasta de processos históricos particulares, tais como a história do levante militar de 1924, a história do movimento operário brasileiro, os quatro séculos de transformação da sociedade brasileira e os vinte e tantos séculos de transformação da sociedade italiana (que então se achava sob o controle dos fascistas de Mussolini).

O grande desafio, para um materialismo dialético, sempre foi o de pensar a relação entre a força transformadora (e autotransformadora) do sujeito e a força inerente ao movimento mecanicista ou do chamado “evolucionismo vulgar”, a criatividade do sujeito se esfuma e se dissipa, desaparece o espaço em que a iniciativa do sujeito poderia desempenhar um papel realmente significativo, o movimento subjetivo tende a se reduzir a um epifenômeno, a um apêndice do movimento objetivo: os homens passam a ser marionetes, bonecos manipulados pelo crescimento das forças produtivas e por uma estranha dinâmica cega derivada das relações de produção. O ser social não só determina a consciência (como ensinou Marx), mas também a determina de forma unívoca, direta e imediata.

Por outro lado, não é casual que, ao longo da história, o reconhecimento da importância da ação específica do sujeito tenha ocorrido, com enorme freqüência, no campo do idealismo filosófico. Se o vigor criativo dos sujeitos humanos minimizar; por um momento que seja, o peso do condicionamento material em que a intervenção subjetiva se realiza, a criatividade humana deixa de ser efetiva, torna-se mítica, escorrega para a afirmação inócua do “voluntarismo”, que é uma modalidade de idealismo.

Octávio Brandão não se mostrou capaz de enfrentar o desafio que se punha no caminho de um materialismo dialético. Quando tentava discernir os “lugares” em que a vontade transformadora dos sujeitos revolucionários poderia se impor, encontrava dificuldades e seu discurso se tornava enfático porém vago. Há uma passagem de Agrarismo e industrialismo, aliás, que evidencia a impotência do autor para encaminhar uma solução adequada aos problemas que o preocupavam: não conseguindo formular indicações suficientes para as possibilidades da ação revolucionária aqui dentro, no âmbito da realidade brasileira, ele se consola através da convicção de que aschances da revolução viriam de fora, da situação mundial, já que o mundo, a seu ver, estava transformado num “vulcão prestes a explodir” e, na primeira ocasião, um conflito entre o imperialismo inglês e o imperialismo norte-americano desencadearia “uma guerra formidável na América do Sul e no mundo inteiro”. Não se pode ignorar nessa visão o ânimo de combate e o pressentimento valioso de uma nova guerra que depois explodiu em 1939; porém o ímpeto do lutador estava mal pensado e o presságio encerrava um equívoco óbvio (e sintomático): a “guerra formidável” não se deu entre norte-americanos e ingleses (que combateram juntos contra os alemães), nem ocorreu “na América do Sul”, a não ser em episódios menores.

Caio Prado Júnior não podia se apoiar no materialismo de Octávio Brandão; seu projeto obrigava-o a ir além dos horizontes teóricos do combativo intelectual “oficial” do Partido Comunista. A perspectiva materialista da Evolução política do Brasil exigia que o historiador reconhecesse simultaneamente toda a dureza das condições objetivas e todos os empenhos subjetivos que cabiam no quadro constituído pela objetividade, pela sociedade brasileira.

Caio Prado Júnior não olhava para o mundo como o lugar de onde viria uma catástrofe redentora (a guerra): a situação lá fora era, para ele, a situação do mercado mundial, que deveria ser avaliada em função da nossa situação interna, isto é, das vicissitudes do nosso modo de produção. Nossos problemas eram os problemas da nossa sociedade e da nossa articulação com o mercado mundial.

Objetividade e subjetividade estavam mutuamente imbricadas uma na outra; e a predominância das condições objetivas não poderia dissipar a irredutibilidade dos momentos subjetivos que marcam a história. Caio Prado Júnior, logo no começo do seu ensaio, examinava as questões impostas objetivamente aos homens (portugueses) pela colonização e se dava conta das iniciativas – subjetivas – que eles tiveram para fazer face às circunstâncias: ele se referia, por exemplo, à tentativa representada pelas capitanias hereditárias, e observava que ela não tinha sido eficaz: “este ensaio de feudalismo não vingou”. Havia a necessidade da colonização (objetiva), havia as circunstâncias (objetivas) drasticamente difíceis para um país de pequena população e escassos recursos, como Portugal, e houve, também, a iniciativa da malograda feudalização (o momento subjetivo).

Em outro período da nossa história, lembrado pelo ensaio, o método de Caio Prado Júnior, sua interpretação materialista, nos permite perceber claramente suas características fundamentais: a vinda de Dom João VI com sua corte para o Brasil, fugindo das tropas de Napoleão, desencadeia objetivamente o processo de mudanças que haveria de resultar na nossa independência política; por suas peculiares condições objetivas, esse processo descartou a luta armada que, em outros países do continente, viabilizou a conquista da autonomia; no entanto, a concretização da independência, entre nós, dependeu da mobilização subjetiva da classe dos proprietários rurais que podiam promover o movimento separatista.

A situação objetiva impõe, a cada passo, limites aos movimentos subjetivos. A massa escrava, que chegou a representar metade da população do Brasil num certo período da época colonial, era mantida em estado de divisão e desarticulação, impossibilitada – objetivamente – de constituir uma massa coesa; por isso, era incapaz de desempenhar, naquelas circunstâncias, um papel político (subjetivo) de real importância. No entanto, o ímpeto rebelde subjetivo, cercado e reprimido, nem por isso desaparecia: algo dele ecoava em expressões de insatisfação e revolta que se manifestavam em outras áreas, e que teriam influenciado o movimento de 26 de fevereiro de 1821 que levou Dom Pedro a reorganizar seu mistério com políticos de prestigio popular, no Rio de Janeiro.

Essa é a concepção de Caio Prado Júnior: nem a história se faz por si mesma, automaticamente, nem os homens a fazem de maneira arbitrária, impondo-lhes desenvoltamente seus desígnios. Marx já havia ensinado, antes, que cada geração, ao surgir, se vê posta diante de problemas herdados da ação das gerações precedentes, e é compelida a viver numa situação que não foi por ela livremente escolhida; no entanto, a reação da nova geração em face do quadro que lhe foi imposto não é predeterminada, comporta variações, passa por escolhas, depende de opções. O historiador materialista comprometido com um projeto revolucionário precisa reconstruir o quadro, compreender os problemas postos pela vida, avaliar as condições materiais, para poder entender criticamente as iniciativas, as propostas, os anseios, o ânimo com que os homens se movem na arena de luta na qual se vêem colocados.

Caio Prado Júnior assimilou essa dimensão do pensamento de Marx e por isso foi capaz de aplicar pioneiramente, entre nós, a concepção da história elaborada pelo autor d’O Capital. Para podermos avaliar como há de ter sido difícil essa conquista, devemos lembrar que, no começo dos anos trinta, no centro do movimento comunista mundial, estava se cristalizando uma codificação doutrinária – o “marxismo-leninismo” – que impunha pesados sacrifícios à dialética marxiana original. O autor da Evolução política do Brasil, como comunista que era, não ficou imune ao charme da União Soviética (conforme se vê no livro URSS, um novo mundo, de 1934). Não se notam, entretanto, em sua “interpretação materialista” da história do Brasil, as marcas mais evidentes do estilo que o stalinismo conferiu ao “marxismo-leninismo”, como, por exemplo, o esvaziamento da subjetividade (reduzida à liderança do partido revolucionário e praticamente negada às massas populares), o primado de uma objetividade cega (a inexorabilidade da marcha para o socialismo, sustentada por um conjunto de fórmulas dogmáticas), uma esquematização empobrecedora de todas as contradições, uma atitude de feroz reserva em face do “novo” e das surpresas que lhe são inerentes, bem como o recurso sistemático a um bem montado arsenal de citações legitimadoras. O marxismo utilizado pelo nosso historiador não tinha nada disso e se combinava com uma extraordinária abertura para o ineditismo da aventura brasileira. Paulo Sérgio Pinheiro chegou a escrever: “O marxismo de Caio Prado não é o recitativo de fórmulas ou citações, mas uma via de interpretação de um viajante infatigável e implacável pela realidade de seu próprio país e de seu tempo” (Isto É, 7-7-1982).

Caio Prado Júnior, em 1933, realizou uma autêntica façanha, ao superar o obstáculo interno, constituído pelas graves insuficiências teóricas de seus predecessores brasileiros no campo da “interpretação materialista”, e ao escapar da pressão externa, decorrente da codificação oficial do “marxismo-leninismo”.

É verdade que a reflexão marxista pessoal e independente que permitiu a elaboração da Evolução política do Brasil (e depois permitiria o preparo do esplêndido Formação do Brasil contemporâneo) não conseguiu se cristalizar em resultados filosóficos satisfatórios, no esforço que Caio Prado Júnior realizou para explicar a fundamentação gnosiológica de suas investigações. Independentemente das divergências que se manifestam entre os críticos de Caio Prado Júnior na avaliação da Dialética do conhecimento e das Notas introdutórias à lógica dialética, parece-me que predomina na impressão dos leitores do grande historiador paulista uma certa decepção: os dois trabalhos ficam aquém dos ensaios anteriormente publicados. Ao se debruçar sobre si mesma, reflexivamente, a teoria não conseguiu produzir textos tão bem sucedidos como aqueles em que se aplicou à pesquisa histórica.

Mas também é verdade que o êxito alcançado pela teoria aplicada não se perdeu. Evolução política do Brasil e Formação do Brasil contemporâneo não são apenas momentos brilhantes da nossa história escrita, não contêm somente ricas observações empíricas: são obras capazes de suscitar estudos metodológicos surpreendentemente enriquecedores, cheios de implicações teóricas. Evolução política do Brasil, então, mais do que “um simples ensaio” (como modestamente o classificou seu autor) é um marco na história do marxismo no Brasil.

O simples fato de que a obra de estréia de Caio Prado Júnior tenha sido escrita, tenha sido publicada e se tenha tornado acessível a todos, nos obriga a um rigor crítico maior no julgamento das interpretações que os marxistas brasileiros posteriores fizeram da realidade brasileira: em diversos aspectos decisivos, tais interpretações constituíram um grave retrocesso em relação ao livro de 1933, um recuo para uma perspectiva materialista “vulga”, um restabelecimento de esquemas sociológicos de tipo “positivista” e uma adaptação mental à ideologia sancionada pela direção do Partido Comunista da União Soviética.

O aparecimento da Evolução política do Brasil era a comprovação inequívoca de certas possibilidades de reflexão crítica sobre a realidade brasileira que os marxistas, no Brasil, ao longo das duas décadas que se seguiram à publicação, não souberam aproveitar.

KONDER, Leandro.

Intelectuais Brasileiros e Marxismo.

Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991, pp. 13-18

Este artigo também foi publicado no volume coletivo História e ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior, organizado por Maria Angela D’Incao, São Paulo: Editora Brasiliense/ UNESP/ Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

http://www.espacoacademico.com.br/077/77konder.htm

sábado, 3 de dezembro de 2011

Boemia Literária e Revolução

Por Evelyn Ariane Lauro

Robert Darnton é membro de uma família com tradição no jornalismo, mas ainda que tenha trabalhado para o The New York Times entre os anos de 1964 e 1965, escolheu a História. Formou-se em Harvard (EUA) na década de 1960 e doutorou na universidade inglesa de Oxford. Historiador cultural e social, especialista na França do século XVIII, tem o olhar voltado para o iluminismo, a Revolução Francesa e o mundo literário, é pioneiro em estudos acerca da história do livro. Lecionou no departamento de História da Universidade de Princeton e hoje é diretor da Biblioteca da Universidade de Harvard, a segunda maior do mundo, nos Estados Unidos da América[1], é responsável por um projeto de digitalização do acervo da biblioteca e fundador do sistema Gutemberg, ferramenta de difusão de obras literárias pela internet[2].

Autor de diversos artigos e obras de importância na historiografia contemporânea, tais como: O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa (1984), Revolução na impressão: a imprensa em França 1775-1800, editado com Daniel Roche (1989), O beijo de Lamourette: reflexões sobre a História Cultural (1989), Edição e Sedição (1991), Os best-sellers perdidos da França pré-revolucionária (1995), entre outros, tem como uma de suas características o estabelecimentos de diálogos entre a História e as Ciências Sociais, sobretudo a antropologia, com certa influência de Lawrence Stone, embora defenda que quantificações, modelos e conclusões duras, típicas de algumas ciências sociais são incompatíveis com a história, por ser essa uma ciência interpretativa[3].

Sua produção pertence ao período (o qual vivemos) de revisão historiográfica. Segundo Laura de Mello e Souza[4], as universidades têm suscitado debates entre os historiadores, submetendo clássicos da historiografia a análises críticas e releituras, incentivando produções com crescente rigor teórico e metodológico e, que tenham como ponto de partida o olhar social sobre a história, ou seja, que entenda que o homem enquanto parte de uma sociedade deve ser o fundamento da pesquisa histórica, como parte do movimento fundado por Bloch e Favre, com a escola dos Annales no final da década de 1920, propondo uma Nova História. A interdisciplinaridade da obra de Darnton é também uma das características deste movimento que, dente outras coisas, deu origem ao olhar sociológico para a história, como apresenta Ronaldo Vainfas[5].

Com o objetivo de estudar acerca da vida de Jacques-Pierre Brissot de Warville, líder jacobino, descobre os ricos arquivos da Societé Typographique de Neuchâtel (STN), maior editora suíça no período pré-Revolução Francesa, a partir de então resolve abandonar momentaneamente o projeto Brissot e parte para a história dos livros, sendo pioneiro no assunto, como já mencionado.

A STN se envolve intimamente com os escritores da baixa literatura, com a circulação de livros proibidos e pirateados na França do século XIX, em contato com o material que trazia às luzes este universo Darnon conclui tratar-se de “um mundo perdido de experiência literária que pacientemente esperou pela exploração que o resgatasse” (p. 148).

Em Boemia Literária e Revolução, Darnton traz à superfície o universo do submundo literário francês às vésperas da Revolução de 1789, até então negligenciado pelos historiadores e, portanto, desconhecido do público, com o objetivo de mostrar que não apenas dos tratados dos filósofos das Luzes (da academia, do le monde), mas também e principalmente da sub-literatura (da baixa literatura, a literatura marginal, dos excluídos do le monde, o underground) se alimentavam os valores que culminariam na revolução.

Nas palavras do próprio autor, “as origens intelectuais da Revolução e o caráter de sua política podem ser melhor compreendidos se descermos da Encyclopédie ao underground.” (p. 76)

Darnton consegue envolver o leitor na trama de intrigas e dissabores que compõem a trajetória das personagens que apresenta, de contrabandistas de literatura ilegal, panfletistas, filósofos fracassados que, com seus libelles, escritos subversivos, anticlerical, pornográficos, por vezes escatológicos, na maioria dos casos desprovidos de uma ideologia coerente, compartilhava de um ponto de vista revolucionário por denunciar a desmoralização social que consumia o Antigo Regime francês (Ancien Régime).

A circulação desta literatura só foi possível por meio do comércio clandestino realizado pelos personagens dos quais Darnton trata, que muitas vezes era quem custeava as edições que depois eram adquiridas por meio do contrabando pelos livreiros das pequenas cidades; quem arrastava pelas fronteiras francesas pesados engradados de livros proibidos, em sua maioria publicados pela editora suíça Société Typographique de Neuchâtel (STN), que buscava alimentar o mercado francês de títulos que não podiam ser produzidos legalmente no interior do reino.

O autor defende que, ainda que não existisse de forma organizada, o público francês do século XVIII, excluído de participação política direta (esta era de exclusividade palaciana), era pouco impactado pela obra dos grandes filósofos (Montesquieu, Voltaire, Diderot e Rousseau) circulante entre o le monde, mas que por sua vez, eram atraídos aos libelles e sua propaganda radical sobre a perversidade da nobreza, o despotismo da monarquia, a corrupção do clero e os delitos sexuais presentes nas três esferas.

Apresenta-nos que um título proibido com saída de 20 exemplares podia ser considerado de ótima vendagem e gerar grande efeito sobre a opinião pública alimentando o ódio ao Antigo Regime, ainda que esse alcançasse apenas a parcela letrada da sociedade na perspectiva de Roger Chartier.[6] Vale ressaltar que Darnton deixa claro que o público que mais consumia das fontes do underground era a burguesia, que podia pagar pelos livros, que freqüentava os salões, cafés e demais ambientes que Chartier[7] defende como “espaços onde pessoas privadas faziam uso público da razão” ou esfera pública burguesa.

A obra é dividida em sete partes, sendo um prefácio e seis capítulos, além de um rico pós-textual composto de notas; um glossário de palavras, de extrema importância para o entendimento do texto (uma vez que é composto por inúmeras expressões em francês); uma cronologia que busca organizar os assuntos discutido e um índice remissivo.

É interessante notar a preocupação na edição de 2007 (Cia das Letras) em fazer com que o conteúdo fosse transmitido de forma clara, optando por um texto corrido e de leitura fluida, com vocabulário simples ora chegando ao coloquial, atestado pelo uso de expressões como “alargar a brecha” ou “ficar de braços cruzados” dentre tantas outras. O uso de recursos pós-texto enriquece o trabalho oferecendo as explicações e indicações que se fazem necessárias para o entendimento do público brasileiro sem irromper em pausas abruptas na leitura geralmente ocasionadas pelas notas de fim de página.

Acredito que a proposta cronológica oferecida ao fim do livro é bastante importante para que o leitor, se necessário for, se organize, a final, como sugere o autor, o objetivo dele com o trabalho é apresentar estudos de casos que auxiliem na missão de responder, ou diminuir ao mínimo, às questões propostas ainda no prefácio, o que o faz de uma maneira não linear e, por muitas vezes, apresenta relações entre os fatos que busca debater e outros que não são discutidos ao longo do trabalho.

No prefácio o autor esclarece suas motivações de resgatar um mundo aparentemente morto, mas que ele descobriu estar demasiadamente vivo ao encontrar os documentos ainda intocados da Societé Typographique de Neuchâtel, na Suíça, a partir questionamentos os quais destaco três:

1 – Quão profundamente o iluminismo penetrou na sociedade francesa?

2 – Em que medida as ideias radicais contribuíram para destruir o Antigo Regime?

3 – Como os escritores tentavam carreira na república das letras?

No primeiro capítulo (O Alto Iluminismo e os subliteratos) é apresentado o caso de Jean-Baptiste Antoine Suard, um típico pensador do Alto Iluminismo (que alcança o Le mond). O autor prende a atenção do leitor ao descrever o universo dos grandes filósofos (Les Grands) e os homens de prestígio no mundo das letras, as regras e rituais próprios destes, a vida de quem vivia de pensões e escrevia com o objetivo de propagar uma imagem favorável ao Antigo Regime. Darnton mostra, por exemplo, que os philosophes não se casavam, “mas o elevado status do philosophe no tempo de Suard fazia do casamento coisa concebível.” (p.16)

O ponto chave do capítulo é o estabelecimento das tensões entre os grandes e os subliteratos, estes segundos tidos pelos primeiros como espécie de gafanhotos que, nas palavras de Voitaire, não se passavam de pobres diabos que vivem de paixão (pelas letras) e morrem na miséria.

Para Darnton o ódio contra a aristocracia que transformava a república das letras em campo de despotismo era o que empurrava esses homens ao submundo das letras, que os transformavam em revolucionários.

O segundo capítulo (Um espião na boemia literária) trata do caso de Jacques-Pierre Brissot de Warville (líder Girondino), Darnton a partir da imagem formulada pelo próprio Brissot por meio de sua autobiografia em contraste com a documentação encontrada nos arquivos da ANT mostra ao leitor o quão dúbia é a reputação desta personagem e o quanto é difícil tentar formular uma identidade para ele a partir de seu caráter. Se por um lado Brissot se definia como espírito subvertido contra o sistema e incapaz de ser corrompido, de outro, os arquivos o mostram submerso em intrigas e boatos de que espionava para a polícia.

O que a história desta personagem nos mostra é que, acima de tudo, não há como separar em dois blocos distintos heróis e vilões, por se tratar de pessoas que, tentando sobreviver têm que se ajustar à situação.

Não podemos esquecer de que discutimos acerca da vida de homens, muitas vezes chefes de família, que idealistas inseridos em uma dura realidade precisavam encontrar formas de sustento, o que significava em muitos casos aceitar qualquer trabalho mesmo que isso os tornam-se espiões ou agentes policiais contra seu meio ou, simplesmente se submeterem a trabalhos literário menores como compilar antologias, escrever para jornais, mascatear manuscritos, contrabandear livros proibidos, tornando-se mercadores de ideas.

Explicita, ainda, que a reputação de Brissot faz parte de “aquelas coisas que transformam intrigas pessoais, e rivalidade de facções, em combate ideológico pelo destino da França.” (p.76)

Nos dois capítulos seguintes (Um Panfletista em Fuga e Um Livreiro Clandestino da Província), é apresentado um cenário da divulgação e comercialização da literatura proibida no século XVIII. Mostra que nomes como Le Senne e Mauvelain poderiam ter desaparecido para sempre, assim como aconteceu de fato com a maioria dos outros subliteratos e seus escritos, não fossem suas abundantes correspondências com a STN.

Para Darnton, personagens que cumpriam papéis intermediários na difusão das obras proibidas (anticlericais, sediciosas e pornográficas) e pirateadas como Le Senne foram fundamentais, pois sem eles dificilmente o Iluminismo teria deixado os salões e se difundido entre as massas.

A trajetória de Le Senne destaca vários pontos importantes, como a transformação destes homens em marginais, uma vez que se veem desprovidos de outras alternativas. Le Senne, por exemplo, é um clérigo anticlerical que morre na miséria após passar longos períodos perambulando em fuga e implorando que a SNT lhe desse proteção ou ao menos publicasse seus livros para que pudesse se sustentar. O autor o apresenta como a personificação do pobre diabo de Voltaire e, por diversas vezes, traz ao texto trechos desta obra para explicitar as semelhanças.

Outro ponto de importância é a dessacralização da Igreja, a existência de um ‘underground’ eclesiástico contestador do alto clero e partidário do Iluminismo. O que o autor defende é que o principal papel do underground no processo revolucionário é justamente a dessacralização das instituições que fundamentavam o Antigo Regime, é a quebra dos mitos que unia o público a seus governantes e rompe com o ideário de representação divina na terra atribuída ao poder régio e ao alto clero, que se mostram despóticos, corruptos e submersos aos pecados da carne.

Nos últimos dois capítulos (Uma tipografia do outro lado da fronteira e Leitura, escrita e atividade editorial) o autor busca abordar o universo dos tipógrafos, as relações entre eles, com o trabalho e com os “bourgeois” (patrões), traçando um perfil daqueles que tinham em suas mãos a tarefa de materializar a literatura consumida no século XVIII.

Discute, ainda, as formas como o tema foi abordado pelos intelectuais até então e, indicando o que acredita ser os pontos fortes e fracos de cada uma das teses apresentadas, assim como a possibilidade de reunir os estudos a fim de compor um panorama mais próximo da realidade.

Finaliza esclarecendo o porquê dos produtos dos subliteratos, com destaque aos panfletos de propaganda contra o Antigo Regime, serem tão importantes ante o poder da opinião pública que tornava o regime vulnerável, sendo, neste sentido, muito mais importante que a produção teórica dos grandes filósofos, por romper o senso de decência que unia o público a seus governantes, desacralizando o poder monárquico que, segundo Marc Bloch[8] desde o medievo, pelo menos, tinha a imagem sob a efígie de um representante divino na terra, sendo dotado de caráter mágico, poder secular atribuído por Deus e, portanto, inquestionável. Convicção ainda muito presente nos séculos XVII e XVIII, como nos mostra Iara Lis de Carvalho Souza, em seu Pátria Coroada[9] onde discute o caráter divino da realeza a partir de O Príncipe Perfeito de Francisco Antonio de Novaes Campos, escrito no século XVII no qual defende que o poder do rei advém de Deus, mas que o primeiro tinha que se espelhar no segundo, governando sobre seus desígnios e ensinamentos.

Para Chartier[10], através da circulação impressa, o conhecimento, que fora restrito ao alto clero e que, necessariamente, provinha do soberano, torna-se relativamente acessível a quem sabia ler. Fazendo com que a gente comum ficasse mais perto dos livros, e a nobreza, tanto quanto a figura do Rei ia perdendo seu caráter sagrado por meio da circulação desse material, que como vimos, mostra a realeza submersa em podridão, nada semelhante à imagem de Deus.

Mostra ainda o quanto o sistema propicia, com sua ação seletiva, submetendo “a indústria editorial a um monopólio empalmado pelos membros da corporação de livreiros de Paris” (p. 115), a criação de uma “boemia quase-criminal”, de uma degeneração da filosofia em “libelle” promovendo uma espécie de suicídio.

Darnton teve como fonte para suas pesquisas os já mencionados documentos da Societé Typographique de Neuchâtel, na Suíça, uma das maiores editora entre as muitas que emergiram no século XVIII em torno da França contrabandeando para as províncias do Reino livros piratas ou proibidos, além dos arquivos da polícia, da Bastilha e da corporação dos livreiros, como menciona em passagens do texto.

É interessante ressaltar o quanto consegue, por meios de artifícios tais quais construir orações na interrogativa e em primeira pessoa, prender e reforçar a atenção do leitor para a obra.

Outros recursos como croquis, gráficos e excertos de textos fazem com que diminua a tensão criada a partir das intempéries vividas pelas personagens e dão ainda mais suavidade ao texto, além de fazer com que o foco do leitor volte às questões relativas à coesão entre a história do livro e a da Revolução Francesa.

Ao final, é possível concluir que o maior objetivo do autor fora alcançado, deixar claro que o período pré-revolucionário francês produziu muito mais do que os tratados dos grandes filósofos e que não dá para concluir sobre a mentalidade, os hábitos de leitura e a indústria literária francesa do século XVIII desconsiderando o universo da subliteratura e que esta teve participação muito mais impactante no público geral (a gente comum).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHARTIER, Roger. As origens culturais da Revolução Francesa. S.P. Unesp,

2004.

BLOCH, Marc. Os Reis Taumaturgos: o caráter sobrenatural do poder régio, França e Inglaterra. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

DARNTON, Robert. Boemia Literária e Revolução: o submundo das letras no Antigo Regime. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

ENTREVISTA com Robert Darnton, quando veio ao Brasil dar o curso "Literatura e Revolução na França, 1770-1790”. na V Jornada de Estudos Americanos realizada em agosto de 1989 na Fundação Casa de Rui Barbosa. Disponível em: <http://www.revistatopoi.org/numeros_anteriores/topoi05/topoi5ent.pdf >. Acesso em 07 de outubro de 2011.

SOUZA, Iara Lis Carvalho. Pátria Coroada: O Brasil como Corpo Político Autônomo 1780 – 1831. São Paulo: Fundação Editora Unesp, 199, p. 21 – 38.

SOUZA, Laura de Mello e. Aspectos da Historiografia da Cultura Sobre o Brasil Colonial. In: FREITAS, Marcos C. de (Org.) Historiografia Brasileira em Perspectiva. 6. ed. São Paulo: Contexto, 2005, p. 17 – 38.

VAINFAS, Ronaldo. Historia das Mentalidades e Historia Cultural. In: FREITAS, Marcos C. de (Org.) Historiografia Brasileira em Perspectiva. 6. ed. São Paulo: Contexto, 2005, p. 189 – 242.



[4] SOUZA, 2005.

[5] VAINFAS, 2005.

[6] Segundo Roger Chartier, em Origens Culturais da Revolução Francesa, a opinião pública toma corpo e importância ainda no século XVII, que alcança a liderança política mais forte que as autoridades estabelecidas, ou seja, e é soberana ao próprio soberano e nas últimas décadas do século XVIII é “instrumento poderoso tanto para a divisão como para a legitimação social.” (p. 71)

[7] CHARTIER, 2004. P.50

[8] BLOCH, 1993.

[9] SOUZA, 1998, p.22 – 24.

[10] CHARTIER, 2004.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Zumbi, dos Palmares e do Brasil

Zumbi dos Palmares líder escravo alagoano (1655-1695). Símbolo da resistência negra contra a escravidão, é o último chefe do Quilombo dos Palmares.

Criado pelo padre Antônio Melo, aos 15 anos foge para Palmares e adota o nome Zumbi, que significa guerreiro. Logo ascende ao comando militar do quilombo, governado então por Ganga Zumba. Em 1678, renega um acordo com as autoridades coloniais e provoca uma guerra civil no quilombo. Manda envenenar Ganga Zumba e assume seu lugar. Lidera a resistência contra os portugueses, que dura 14 anos. Com a destruição de Palmares , em 1694, foge com outros sobreviventes e esconde-se na mata. É morto numa emboscada. Seu corpo é mutilado e a cabeça é enviada para o Recife, onde é exposta em praça pública.

O MITO DE PALMARES - Para o poder colonial, destruir Palmares era mais que uma necessidade imposta pelas regras do projeto colonial. Era uma questão de honra. Em 20 de novembro de 1695 era morto Zumbi, o Grande Chefe da "primeira república verdadeiramente livre das Américas".No final do século 16, as terras pernambucanas eram as mais prósperas das novas colônias portuguesas. Fazia poucas décadas que os portugueses tinham pisado ali, mas a Capitania de Pernambuco já era politicamente relevante. Havia 66 grandes engenhos na região e, no litoral, toda uma estrutura de suporte, criada para permitir o escoamento dos produtos. O trabalho frenético dos engenhos se refletia na cidade do Recife, cada dia mais estruturada e organizada.O mesmo não ocorria no sul do país, onde os poucos europeus ali chegados ainda lutavam para conquistar a terra e se instalar de forma definitiva. Eram desbravadores, fundamentalmente. Aliás, sua fama de conquistadores tinha ultrapassado as fronteiras da região. Em todo o país se dizia que os paulistas eram homens valentes e grandes lutadores. Cronistas escreviam que eles eram "criados entre as brenhas, como feras".Foi essa reputação guerreira que, na segunda metade do século 17, levou o governador de Pernambuco a procurar o bandeirante Domingos Jorge Velho, chefe de um bando paulista em ação no interior brasileiro. Queria resolver seu problema maior. Para ele, Palmares já estava deixando de ser preocupação para virar verdadeiro pesadelo.

O SONHO DOS QUILOMBOS - Em Pernambuco falava-se, sobretudo, de Palmares. Ninguém sabia certo onde ficava. Era lá nas montanhas, na parte superior do rio São Francisco, mata fechada, inacessível. Diziam que precisava dias e mais dias para se chegar até esse lugar. Mas ninguém duvidava de que Palmares existisse de verdade.Não eram só histórias. Palmares havia surgido no final do século 16, quando os primeiros negros ali se refugiaram. Desde então, o mito de Palmares não havia feito outra coisa senão crescer e crescer. Era a meta dos que buscavam liberdade, negros, índios e inclusive brancos. Havia lugar para todos.Em 1630, as autoridades pernambucanas calculavam que o quilombo de Palmares contava com uma população superior a 3 mil pessoas. Sabiam o que estavam dizendo. Apoiavam-se no número de fugas escravas que diariamente deviam registrar.Independente do mito, o quilombo de Palmares representou uma estrutura alternativa à sociedade colonial. Os negros viviam da agricultura. Uma agricultura, por sinal, mais avançada que a da colônia. O mundo escravocrata só conhecia a produção de açúcar. Em Palmares plantavam-se milho, mandioca, feijão, cana, legumes, batatas, frutas.Palmares tinha leis que regulamentavam a vida das pessoas, algumas, inclusive, bastante rígidas. Roubo, adultério, deserção ou homicídio eram punidos com a morte. As funções sociais estavam definidas. A autoridade era reconhecida por todos. As decisões mais importantes eram tomadas em assembléias, da qual participavam todos os habitantes adultos. Mais do que isso. Palmares não era apenas uma cidade. Chegou a ser uma rede de cidades. Na metade do século 17, contava onze povoados. Macaco, na Serra da Barriga, era a capital. Possuía 1.500 casas, dos dois lados de ruas espaçosas. Os artesãos trabalhavam em suas oficinas, enquanto outros plantavam e colhiam. As crianças brincavam livres. Havia também igreja para as orações. A população? Mais de 8 mil pessoas. Depois, havia Amaro - com 5 mil habitantes e uma estrutura igualmente bastante organizada -, Subupira - a 36 quilômetros de Macaco - e, ainda, Zumbi, Tabocas, Acotirene, Danbrapanga, Sabalangá, Andalaquituche...

GRANDE CHEFE ZUMBI - Uma crônica de 1678 dava conta de que os palmarinos eram 20 mil. O governador ia mais longe. Dizia que, na realidade, eram mais de 30 mil. Uma multidão de gente que, além de pôr em xeque o projeto colonial, ameaçava fisicamente a sociedade pernambucana. Era preciso esmagar Palmares, custasse o que custasse. A Coroa já tinha dado essa ordem em diferentes ocasiões.Havia, ainda, a questão do mito, que incomodava mais que qualquer coisa. Nos engenhos e senzalas, Palmares era sinônimo de Terra Prometida, e Zumbi, considerado imortal, era visto como seu guardião fiel e valente. Para destruir o quilombo, o poder colonial organizou dezesseis expedições oficiais. Quinze fracassaram.As montanhas pareciam intransponíveis. E o que as montanhas não faziam ficava por conta dos negros e de suas estratégias militares. O exército de Palmares era competente, embora carente de armas e munições. Tinha estabelecido seu quartel- general em Subupira, um povoado de oitocentas casas, todas elas cercadas de madeira, pedras e armadilhas. Chegar até Subupira era muito difícil. Superar os obstáculos e entrar na fortaleza, quase impossível.A tarefa de destruir Palmares foi confiada pelo governador de Pernambuco a Domingos Jorge Velho, um bandeirante paulista sem escrúpulos, especialista na caça aos índios e líder de uma tropa de renegados. Um bispo da época deixou escrito que Jorge Velho era um dos maiores selvagens com quem ele tinha topado. Comandava um pequeno exército de 2 mil homens, armados de arcos, flechas e espingardas.Em 1695, se preparou para a ação decisiva. Depois de ultrapassar mil barreiras, chegou a Macaco, descarregando contra a comunidade todo o seu poder de fogo e toda a sua raiva. A cidade resistiu durante 22 dias. Zumbi, depois de lutar bravamente, fugiu e se escondeu. Pôde ser capturado e morto só depois de ter sido traído por companheiros. A data: 20 de novembro de 1695. (Jõao Munari, p. 19)

Ataque aos Macacos

O Governador Caetano de Melo de Castro, armado de poderes extraordinário conforme o Alvará Real de 7 de Abril de 1693 para levar a guerra ao coração dos Palmares, e cercado dos melhores combatentes da capitania, dentre eles o grande Bernardo Vieira de Melo em Dezembro de 1693 iniciou os preparativos em Porto Calvo com o apoio das melhores e mais abastadas famílias de Olinda e de Recife, e em 16 de Janeiro de 1694 com o Mestre de Campo Domingos Jorge Velho no comando teve início a marcha das tropas para o Outeiro da Barriga e em 23 de Janeiro junto aos seus batedores Domingos Jorge Velho remeteu-se a um assalto contra posições de negros.

Da qual sofreu tremenda resistência dos comandados do Rei Zumbi deus e senhor da guerra que aparecia em todos os ângulos da fortificação que era precedida pela parte de fora, em toda a sua extensão de fossos, buracos, poços de água, paus de ponta aguçadas e trançados, enfim toda a sorte de empecilhos para os avanços inimigos que os palmerinos conseguiram arranjar na sua industria rudimentar, posta a serviço da guerra, a estimular com sua presença os destemidos defensores. Fracassado o primeiro ímpeto do ataque, Domingos Jorge Velho tomou a decisão de dispor as suas tropas ao centro da fortaleza sob o comando de Bernardo Vieira de Melo; a esquerda da estrada ficando Sebastião Dias e a direita da estacada Domingos Jorge Velho se colocou com a sua gente, desta maneira formou-se um verdadeiro cerco a cidadela negra em cujo interior sem alarido homens e mulheres se dispuseram a defendê-la a todo transe, sendo que os primeiros avançaram e alcançaram a cerca galgaram-na por meio de escada e bailéus para caírem nos tachos de água fervente colocadas pelos defensores do Rei Zumbi, encontraram mortes horríveis devido a ousadia de tão temerário avanço, os que se aproximaram foram repulsados pelas flechas e armas de fogo disparadas pelos palmerinos. Devido a resistência encontrada as tropas atacantes esmoreceram por um instante e retrocederam para não serem dizimadas pelos negros vigilantes. Desta maneira o ataque geral empregado foi sem resultado, onde as tropas atacantes perderam muitos dos seus combatentes, por este motivo o Capitão mor Bernardo Vieira de Melo diante da impossibilidade de um avanço geral e temendo uma sortida dos negros sobre sua gente, resolveu com os seus homens fazer uma estacada frente a frente à dos palmerinos em todo o seu setor e em pouco tempo a cerca do Rei Zumbi estava envolvida por uma contracerca dos portugueses.

E no dia 29 de Janeiro efetuaram o segundo ataque geral contra os palmerinos que com a mesma energia e a mesma ferocidade, defenderam a cidadela, obrigando as tropas do bravo Capitão mor Bernardo Vieira de Melo a recuar devido as sensíveis perdas e na ala esquerda as tropas do Sargento mor também sofrera duros reveses, não sendo totalmente desbaratada por ter sido socorrida pelas tropas do centro comandadas pelo Mestre de Campo Domingos Jorge Velho, que recuou vencido, desta dantesca batalha, sendo perseguido pelos negros que ao cair da noite desistiram do intento. O Rei Zumbi recompôs as suas legiões e determinou que os velhos, mulheres, inválidos e as crianças empregassem seus esforços na industria de guerra para defesa geral do mocambo, após a refrega que sofrera o Mestre de Campo Domingos Jorge Velho determinou que a cerca de pau-a-pique fosse reforçada para evitar uma sortida dos negros, trabalho este efetuado debaixo de fechadas e estrepes atirados pelos negros palmerinos furiosos e vingativos e a partir deste momento a vigilância dos portugueses teve que se dobrado, permanecendo atentos de armas nas mãos, contra qualquer ataque. Os assaltos a cerca do Rei Zumbi dos dias 23 e 29 de Janeiro de 1694 deixaram as tropas de Domingos Jorge Velho desfalcadas de muitos homens por este motivo o mestre de campo solicitou que fossem enviado para ele reforços de homens e artilharia, e estabeleceu o cerco total dos mocambos, impedido desta maneira que os negros tivessem contato com o mundo exterior do mocambo, pois deste modo venceriam os negros pela fome e pelo desespero. O Rei Zumbi sentia a falta de armas e munição, que não havia recebido durante este período de sitio, porém restavam-lhes o moral e o heroísmo, as únicas forças ainda intangíveis para antepor aos sitiantes, os negros sofriam as maiores privações possíveis, por este motivo estavam se convencendo que toda resistência seria inútil, a repulsa aos atacantes estava cada vez menos impetuosa, e quando Gabriel de Gois, bravo alferes do Terço de Infantaria do Recife chegou de Alagoas com os reforços mandado pelo Governador Caetano de Melo de Castro se dirigiu para o Outeiro da Barriga e conseguiu abrir a cerca do Rei Zumbi com diversos tiros de artilharia.

Quebrando-lhes o moral e abrindo passagens para as tropas sitiantes ao mando de Bernardo Vieira Melo e Sebastião Dias, a reação no interior da cidadela foi medonho, dantesca e terrível, devido a selvageria dos invasores por todas os ângulos da cidadela, com os dois lados se enfrentando corpo a corpo trucidando-se mutuamente e o baluarte resistindo bravamente protegido pela escuridão da noite, foi quando o Rei Zumbi reuniu as suas tropas na extremidade da cerca na ala da direita saltando do penhasco para a fuga, que levou de roldão as forças ali dispostas por Bernardo Vieira de Melo, escapando-se assim do cerco tenebroso de vinte e dois dias que foram impostos pelo mestre de Campo Domingos Jorge Velho. O desfecho inesperado que o Rei Zumbi dera ao sitio do Mocambo dos Macacos, precipitando-se do penhasco pela estreita faixa aberta na cerca, quando se vira perdido e impotente para conter pelas armas o ataque dos invasores, fora para os portugueses tão inopinado e brusco que eles não sabiam se faziam a perseguição aos fugitivos ou se entravam no Mocambo.

O heróico Zumbi preferiu lançar-se do penhasco a estender com os seus bravos comandados os pulsos as algemas do cativeiro, pois somente ele possuía o poder de fascinação de arrastar a tamanho sacrifico muitos homens dispostos a lutar, homens estes nascidos no magnífico altiplano da Serra da Barriga e ali criado e fascinados pela liberdade. Passados cinco meses da tomada e destruição da cidade negra dos Macacos e da espantosa mortandade dos negros que a habitava e a defendiam e do heróico protesto de Zumbi que se atirou no despenhadeiro com seus bravos guerreiros, os negros fugitivos ainda dispersos pelas matas e pelas furnas ou pelos alcantis das serras palmerinas não preferiam mais resistência, pois famintos e maltrapilhos, enfermos e desenganados de obterem a liberdade que tanto se bateram e lutaram durante tantos anos iam sendo aos pouco capturados pelos capitães do mato e seus índios. Rei morto, rei posto - sentenciaram os sobreviventes em demanda pela mata fechada na procura de outro sitio para instalação de outro mocambo, e segundo as ultimas disposições do grande rei morto na reunião que precedera à arrancada decisiva na orla do despenhadeiro! Surgirá outro grande Rei Zumbi, sobrinho do que havia morrido para continuar a guerra por mais alguns tempo, até ser traído por Antônio Soares, mulato de sua confiança. O novo Rei Zumbi, foi preso e morto pelas tropas de André Furtado em 20 de Novembro de 1695 e a sua cabeça foi enviada para Recife, onde foi exposta para servir de escarmento aos negros fugidos, por ordem do Governador da Capitania de Pernambuco Caetano de Melo de Castro.

Os Primeiros Quilombos

Foram formados em época incerta, não coincidindo com a entrada dos primeiros negros no Brasil por volta de 1538 e nem foram originários das raças importadas da África no primeiro século da descoberta, pois as numerosas tribos importadas da Guiné, representados por grupos étnicos importantes que foram distribuídos proporcionalmente pelas diversas seções regionais da colônia portuguesa, porque não era conveniente que se juntasse na mesma capitania um grande número de negros escravos da mesma nação, o que facilmente poderiam resultar em perniciosas conseqüências, no entanto tudo leva a crer que tais intuitos de separar as nações de negros se tivessem frustrado na pratica, pois na Bahia fortemente se fez sentir a ascendência dos Sudaneses, ao passo que em Pernambuco e no Rio de Janeiro prevaleceram os do grupo Banto.

Os primeiros quilombos, que a principio foram reduzidos, de poucos negros, muitos dos quais famintos, e doentes, que fugiam dos engenhos, das fazendas e dos eitos, só foram possível graça a associação que o negro efetuou com o índio, na causa da resistência a escravidão, e no século XVIII foi o de grandes protesto da raça africana, quando se formaram os maiores e mais tremendos quilombos que tantos apreensões causaram aos colonos e aos governos.

Alguns historiadores fixam a data de 1630 para o inicio dos quilombos constitutivos dos Palmares pela entrada e distribuição de negros escravos provenientes de Angola pertencentes a tribo Jagas que eram indomáveis e amantes da liberdade, pelas fazendas de Pernambuco e Alagoas. A razão preponderantes da formação dos quilombos no Brasil assentam-se na ferocidade atroz do colono dominante nos engenhos e nas fazendas, nos leitos e na mineração, protegidos pela mais brutal legislação negra que incluía os castigos, as penas e os maus tratos infligidos desde o momento de sua captura na África. Diversos fatos sociais tais como; de serem presos a correntes de ferro a um cepo, de trabalharem junto das caldeiras nos engenhos, de ser chicoteados para trabalharem, a alimentação e vestuário limitado, concorreram para acirrar o ódio entre o negro e o colono. O negro que chegava, era considerado como peça de trabalho, por mais abatido e rebaixado que fosse em sua dignidade, em sua vontade de liberdade, pela prepotencia de seu semelhante tendeu a sucudir o jugo, fugindo da sociedade que o acabrunhava e o esmagava, procurando a expansão de sua liberdade, em algumas vez em insurreições. O quilombo era sem duvida a ultima fase do protesto - pois o negro na sua aflição de liberdade, não sentia dificuldade nem hesitava em privar-se da vida para se livrar de seus sofrimentos infligidos pelos senhores e por isto só restava ao escravo a fuga para as montanhas, para os quilombos, para os ermos e para os antros e historicamente os Jagas da raça Banto que eram belicosos da tribo indomável do sobado do famoso N`gola Bandi, aprisionado pelos portugueses durante o governo de Luiz Mendes de Vasconcelos em Angola e mandados para o Brasil lhe cabe a paternidade do grande movimento palmerino já anteriormente iniciado com alguns negros desgarrados que seguiam para o Maranhão marchando dos centos da Bahia e pelos sertões a dentro de Caxias onde o africano ergueu as portas do grande sertão, uma cidade rica e prospera.

A região escolhida pelos negros aquilombados nas faldas da Serra da Barriga, no território de Alagoas, pela semelhança dos seus cômoros, colinas, montes, rochedo e sua flora e fauna dir-se-ia um pedaço de chão transplantado da África para lhes servir de abrigo das primeiras levas que por ali passaram acorrentados e voltaram os seus olhos para a região montanhosa que vinha desde o planalto de Garanhus no sertão pernambucano até as serras dos dois irmãos e do Bananal no município de Viçosa em Alagoas que compreendia as serras do Cafuchi, Jussara e Pesqueira, Comonati e da Barriga de terras virgens e extremamente fértil.

Cortada pelos rios Ipojuco, Serinhaém, Una em Pernambuco e pelos rios Paraíba, Mandau, Panema, Camaragibe, Porto Calvo e Jacúpe em Alagoas, com uma floresta povoada de arvores frutíferas e outras arvores excelentes para uso industrial, que cresciam em volta das palmeiras pindoba-palma attalea, pindoba, buriti-mauritia vinifera, catolé e inúmeros coqueiros de dendê- elaeis guineensis e no meio a essa mata se movimentava uma variada populçao animal onde puderam encontrar suas caças e pesca. Esta era a região abençoada o valhacouto dos negros palmerinos, na realidade era as matas das palmeiras às mais ricas e bonançosas de todas as regiões, cuja pujança convidava as raças oprimidas a se aquilombarem na formação do maior e mais renhido centro de resistência negra em todo o período colonial, e não foi um simples acidente geográfico e nem tampouco um campo de batalhas sangrentas que deu o nome a região de Palmares no altiplano da Serra da Barriga; foi a frondosa e grande Álea de Palmares que ali se estendiam, ululante e viçosa, magnetizada pela natureza portentosa dos trópicos, caprichosa na sua beleza e rica na sua fartura, onde se encontrava as titaras com suas guirlandes enfeitadas de espinhos galgando as arvores próceras, que mais tarde seria a coroa de espinho dos tombados em lutas feroz pela liberdade.

Todas as palmeiras desta floresta deram aos negros aquilombados os alimento para o corpo e para o espírito, material para seus tijupares de amor e seus palácios e fibras para suas roupagens e estrepes na construção de suas defesas tiradas de seus caules endurecidos e fibrosos. E se mais não dessem, deram na saudade da África um pouco de esperança na terra magnífica que delas recebeu o nome Palmares !

O Negro

Homem negro era uma continuação do meio na sua brutal grandiosidade geofísica, meio absorvente e bárbaro e na sua entomologia, a raça Bantu a mais adiantada, detentora das ricas terras do Congo e de Angola, caminhou a passos de gigante para a regressão em face dos usos e dos costumes de suas tribos e nações incapazes de absorver a civilização da raça branca para lá mandada pelos portugueses, tinha o culto da liberdade até extremos desconhecidos. Eram naturalmente anárquicos, não tinham união política entre si, e suas autoridades entre eles quase sempre eram tirânicas, absoluta e absorvente eram indisciplinados e desobedientes, por estes motivos foi fácil de serem vencidos em toda parte e em todos os tempos, esta raça robusta e por isto ela foi facilmente escravizada, podemos dizer-se que a nação de autoridade, só lhe veio depois do contato com a raça branca, depois que a rainha Ginga Bandi conseguiu tirar todo o partido das ações missionarias com o qual melhorou a sua raça em civilização e costume de crê-se que o espírito dessa formosa e famosa rainha tenha acompanhado um punhado de negros descendentes dos N`gola que foram vendidos para o Brasil e aquilombados em Mato Grosso e que fundaram o reinado negro de Quariterê, onde tanto sangue se derramou como em Palmares. E os costumes das tribos africanas em geral pareciam estar no ínfimo grau de desenvolvimento a julgar por alguns signos característicos destas habitações em cavernas porém tais exemplos não poderiam ser representativo da raça africana em regra geral.

Pois o negro já estava fixado no solo e já constituía a sua tenda e quase todas os títulos protegiam as suas aldeias por uma cerca de arvores de troncos grossos e no recinto fortificado construíam as tendas formadas de juncos e palmas de forma cônica com teto de palha, que não possuía divisões salvo as vezes as dos chefes da tribo.Os utensílios domésticos eram todos de madeiras e pedra que serviam de assento, os pratos eram de argilas, cuias, facas de pedra e de ferro, vasos para água e para o preparo da comida, algumas tribos dormiam no chão sobre palhas ou peles e algumas tribos construíam tarimbas.

A ordem domestica era perfeita pois cada tenda era ocupada por uma família onde o homem exercia a autoridade suprema do lar e na sua ausência era exercida pela primeira esposa, pois a poligamia era um costume em todas as tribos, e todo o trabalho domestico e nas pequenas lavouras ficava a cargo das mulheres, tanto os homens como as mulheres enfeitavam-se com muito capricho, particularmente da cabeleira, entre muitas tribos era costume se tatuarem e furar as orelhas, o lábio superior e o septo nasal.

Os homens cuidavam de preparar as terras para as grandes plantações, em algumas aldeias existiam as industrias pastoril, também a caça e pesca era atribuições parta os homens das tribos. Sendo a caça no interior da África um serviço fatigante e arriscadíssimo, demandando grandes esforços, agilidade e coragem e de todos os animais eles aproveitavam a carne, o couro e do elefante o marfim. Era muito raras as aldeias não terem em forno para fundir ferro e uma forja para fabricação de ferramentas, armas e artigos de uso comum, as armas que usavam era o arco e a flecha, a zagaia, a lança e o cajado nodoso, a antropofagia era usada por algumas tribos do interior e da costa ocidental, todos negros africanos tinham grandes conhecimentos das virtudes de muitas plantas medicinas e a sua medicina consistia no emprego destas plantas acompanhadas de muitos exorcismo.

Eram muitos supersticiosos e tinham, entre eles os adivinhos e os feiticeiros que eram venerados por todos das tribos, se tatuavam com desenhos significativos que constituíam-se de figuras de animação de plantas e de desenhos geométricos o desenho era indelével e feito no corpo humano em geral no peito e nos braços e as línguas eram todas aglutinantes e os usos e costumes sempre varriam de tribos para tribos conforme o seu grau de civilização e de caráter religioso, a concepção da arte nos povos negros não eram de ordem estética mas tão simplesmente religiosa, a idolatria foi o mais forte motivo da arte negra em conseqüência do meio bárbaro em que viviam e os brutais contraste que o cercaram desde o alvorecer de sua idade, o negro criou a arte segundo a sua emoção e essa arte e arte e é beleza porque representa o seu conhecimento de tristeza, a sua dor e o seu medo. A raça negra sempre tiveram grande pendor para as danças e a mais característica é o batuque, que o acompanhou na trajetória dolorosa de sua migração forçada para o cativeiro, e as suas danças consistiam num circulo formado pelas dançadores, indo para o meio de um preto que depois de executar vários passos, dava uma imbicada a quem chamava de semba na pessoa que escolhe entre as da roda, a qual ia para o meio do circulo substitui-lo.

Os instrumentos musicais eram mais guerreiros que de diversões e o principal deles era o tong-tong empregados nas solenidade de guerra, nas festas populares usavam o balafo muito usado na costa do ouro, tinham o berimbau, canzá, e o tambaque e estes instrumentos acompanharam os palmerinos para amenizar os seus sofrimentos e resistir as dores e aos desesperos.

A Escravidão

A origem da escravidão humana perde-se no tempo e se acha ainda oculta pela poeira dos séculos que envolvem a própria historia do homem sobre a terra. É a luz do saber humano ainda não se projetou sobre a primeiro escravo, se branco ou negro, se asiático, africano ou europeu.

Admite-se, todavia, que surgiu a escravidão do homem com as primeiras lutas e teve origem no direito da força que foi corporificando e se espalhando entre os homens isolados, destes às famílias, às tribos e por fim, às nações e aos estados organizados. A ferocidade do vencedor exaltada sobre o vencido fora a causa potencial da escravidão do homem desde a mais remota Antigüidade, desde os assírios, os egípcios, os judeus negros e romanos e bem assim os demais povos da mais alta Antigüidade, adotaram a escravidão e legislaram sobre ela, sobretudo os romanos que coibiram os abusos que se cometiam à sombra dos usos e costumes dos demais povos, estabelecendo princípios do modo de ser escravos , estes princípios constituíram um grande avanço em prol da liberdade humana, mas tarde duas poderosas forças vieram modificar os modos de ser escravos; o advento do Cristianismo e a evolução natural do direito.

O escravo era considerado como produto de venda era ou troca. No rosto mostra o sofrimento de dores e desgraças.

Foram criadas varias leis , as leis tinham disposições excepcionais que permitiam que os escravos sofressem torturas para fazerem declarações, as marcas de ferro quente, as mutilações de alguma parte do corpo, e a pena de morte estavam contidas no livro V das ordenações portuguesas, e ampliadas constantemente pelas Cartas Régias expedidas pela corte, para atender a cada caso, seja no engenho, nas minas. Por toda a parte havia tortura, penas e castigos horrendos impostos aos negros e os arsenais de tortura se multiplicavam com as Cartas Régias e as ordenações e os alvarás que não eram de liberdade e sim de sentenças condenatórias, e a imaginação humana esgotou os recursos na invenção de penas e tormentos que subjugavam os negros escravos, por isto criaram virasmundos, algemas, gargalheiras, cadeira ajustada aos pulsos e ao tornozelo, a pescoceira de ponta curva, a mascara de ferro, a focinheira, o açoite, a palmatória, o tronco chinês, o cinto com seu cadeado pendente, as letras de fogo que eram impressas na espádua do negro fujão e o libando era o que compunha o arsenal de dor, maceração, tortura e mortificação dos negros a serviço do senhor dono do escravo que comprava o negro escravo e desumanizava-o, para o tornar manso e obediente, as vezes eles preferiam matar o escravos, antes de lhe permitir uma reação, que se estendesse a toda a colônia. Matava-o quando se insurgia; e mutilava-o para purifica-lo, porém o branco era egoísta e tímido, pois necessitava de companhia que o seguisse para lhe resguardar pelos caminhos, sendo assim selecionava os pretos bons e fortes e os armava para sua segurança. A escravidão na África foi uma imitação da escravidão dos Mouros e Sarracenos, que cresceu, desenvolveu-se, agigantou-se e envolveu todas as grandes potências marítimas, que eram a Inglaterra, França, Espanha e Portugal e outras quase todas arrastadas pelas rendas que o mercado de escravo oferecia, a África por conseguinte, passou a ser o grande palco da escravidão do homem pelo homem e quando criaram-se hordas de penetração ao interior desconhecido para aprisionamento dos negros, em vez de missões civilizadoras, e para legitimar a escravidão negra criou-se o principio hediondo, imoral e mentiroso do resgate.

O homem foi transformado em mercadorias e classificados nas alfândegas como objeto de utilidade para pagamento de imposto de exportação.

E os primeiros negros introduzidos em Portugal constituíram, os fundamentos naturais da organização de empresas de transporte de peças e despertaram a cobiça de seu comercio rendoso e pela facilidade de aprisionar os negros em toda costa africana onde os maometanos faziam suas presas para trocarem pelos prisioneiros que os portugueses lhe faziam nas suas conquistas pelos mares afora, e as Ilhas da Madeira e as Ilhas Canárias tornaram-se o principal foco de comercio de escravos, que logo se propagou nos mercados de Lisboa e de Sevilha. Mouros, portugueses e espanhóis desfraldaram a bandeira de horrores em todos os rochedos da costa africana para a apreensão dos negros dispersos pelas orlas marítima, foi quando que os duzentos e trinta e cinco negros desembarcados no Algarves pelo escudeiro Laçarote em 1444 constituiu o prólogo que se ensaiava para ser levado no século seguinte, e estas apanha de negros tornou-se tão desumana e bárbara que os próprios governos interessados nela, se viram obrigados a tomar providencias para que as mesmas fossem mais humana, por isto provocaram algumas medidas dos poderes temporais romanos e para ameniza-la a igreja interviu desde o principio contra as barbaridades aplicadas aos negros invocando as leis divinas e naturais quando o Papa Pio II, em Bula de 7 de Outubro de 1462 o censurou, e com especialidade a redução dos neófitos da África à escravidão. A compra de escravos aos poucos foi se organizando, com aquiescência e apoio e proteção de todos os governos; a competição mais forte dava-se entre os especuladores da França, Inglaterra, Holanda e Portugal que com os novos descobrimentos haviam aumentado a extensão de terras aproveitáveis, e para elas eram necessárias os escravos, riqueza sem a qual a terra nada valeria, e de inicio as ilhas de São Tomé e de Portugal e outras do Golfo da Guiné, tornaram-se entrepostos do tráfico onde o negro se submetia a um certo aprendizado a estes entrepostos eram compostos de um pequeno forte destinado a proteger a mercadoria, de algumas casas para os contratantes e de vários barracões para abrigar as levas de negros que vinham do interior. No inicio os Mouros eram os intermediários entre os portugueses e os grandes fornecedores com o decorrer do tempo os entendimentos passaram a ser feito diretamente com os régulos em suas aldeias de onde os negros eram quase sempre caçados pelos próprios mercadores, mediante ao pagamento de um tributo junto aos régulos, os negros desde a sua apanha e durante o tempo de viagem eram conservados ligado uns aos outros com um pedaço de madeira semelhante a um bridão, amarrado à boca e em volta do pescoço ficavam presos a uma forquilha, com as mãos presas atrás das costas, amarrados por uma corda na cintura do condutor para evitar os gritos e fugas! Até a feitoria onde eram abrigados em barracões durante um certo período que se da o nome de refresco a espera de navios para serem embarcados, e as levas de escravos negros antes de serem embarcados para o novo mundo eram batizados pelo Bispo de Luanda e desta maneira ficavam os traficantes livre do pagamento de imposto, quando os se destinavam ao Brasil.

Os negros lutaram, mas a glória ficou com Isabel .

Em 1850, Eusébio de Queiroz motivou a lei contra o tráfico negreiro, entre outras coisas, pelo medo de o grande número de negros ( 3.500.000 para 1.500.000 brancos ) viesse a perturbar a ordem estabelecida. Queiroz chegou a propor a contratação de um exército de mercenários estrangeiros para manter submissos os escravos, pois os soldados brasileiros se recusavam a cumprir tal oficio. Na verdade, boa parte dos escravos estavam se insubordinando.

Em 1823, cantava-se nas ruas de Pernambuco:

Marinheiros e caiados,Todos devem se acabar,Porque só pardos e pretos,O país hão de habilitar ! Em 1821, os pretos ocuparam Vila Rica, após sangrentos combates, declarando sua liberdade e igualdades aos brancos.

Em 1849, em Queimados, Espíritos Santo, 200 escravos tentaram um levante, visando atingir todo o estado.

Lei do Ventre Livre - Em 28 de setembro de 1871 o governo conservador do Visconde do Rio Branco promulga a Lei do Ventre Livre. De poucos efeitos práticos, a lei dá liberdade aos filhos de escravos, mas deixa-os sob tutela dos senhores até 21 anos de idade.

Lei dos Sexagenários - Em 28 de setembro de 1885 o governo imperial promulga a Lei Saraiva-Cotegipe, conhecida como Lei dos Sexagenários, que liberta os escravos com mais de 65 anos. A decisão é considerada de pouco efeito, pois a expectativa de vida do escravo não ultrapassa os 40 anos.

Abolição no Ceará - A campanha abolicionista no Ceará ganha a adesão da população pobre. Os jangadeiros encabeçam as mobilizações, negando-se a transportar escravos aos navios que se dirigem ao sudeste do país. Apoiados pela Sociedade Cearense Libertadora, os "homens do mar" mantêm sua decisão, apesar das fortes pressões governamentais e da ação repressiva da polícia. O movimento é bem-sucedido: a vila de Acarape (CE), atual Redenção, é a primeira a libertar seus escravos, em janeiro de 1883. A escravidão é extinta em todo o território cearense em 25 de março de 1884.

O Brasil foi o último país do continente a abolir formalmente a escravidão mas, a liberdade veio mesmo por motivos econômicos.

Entre estes, os historiadores apontam a necessidade da criação de um mercado consumidor para os produtos industrializados, provenientes da Inglaterra. Os portos brasileiros foram, então, abertos aos imigrantes europeus, tendo sido permitido aos escravos alforriados, ou libertos, que retornassem à África.

Em 1888, a Princesa Isabel assinou a lei que abolia a escravidão. Lei Áurea - Em 13 de maio de 1888, o gabinete conservador de João Alfredo apresenta, e a princesa Isabel assina, a Lei Áurea, extinguindo a escravidão no país. A decisão, porém, não agrada aos latifundiários, que exigem indenização pela perda dos "bens". Como isso não acontece, passam a apoiar a causa republicana.Em 1899 partiu o último navio - " o Aliança " - levando de volta à África um grupo de ex-escravos. Uma criança que seguiu para a África naquele navio, Maria Romana da conceição, chegou a visitar o Brasil em 1963.

A lei Áurea não indenizou os escravos pelo trabalho realizado. Assim, abandonadas a própria sorte, a maioria caiu na miséria da mendicância e vão compor a camada mais miserável das classes populares .

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