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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

UMA HISTÓRIA SOCIAL DOS SAMBISTAS

O novo livro de Maria Clementina Pereira Cunha, intitulado "Não tá sopa": sambas e sambistas no Rio de Janeiro, de 1890 a 1930 aborda a história do samba a partir de seus protagonistas: gente que passou a viver de gravar e vender músicas. Editado no formato digital, a obra disponibiliza mais de 180 imagens e cerca de 40 fonogramas, permitindo que o leitor possa ver e escutar ao mesmo tempo em que lê a narrativa leve e bem-humorada da autora.
A obra é o volume inaugural da coleção Históri@ Illustrada, da Editora da Unicamp, que publica livros digitais na área da História Social e da Cultura. Para festejar o lançamento da coleção, a Editora oferece esse livroaos primeiros interessados gratuiramente, por tempo limitado. Clique aqui para baixar o arquivo ePub3 e aquipara obter o Readium (o aplicativo que permite ler o livro).
Como todos os volumes da coleção, o livro é acompanhado por um vídeo que pode ser visto (ou baixado) gratuitamente. Para ver o vídeo Sambas e Sambistas, clique aqui.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A história do uso político do esporte


Por Mário André Sigoli
       Dante De Rose Junior

As atividades atléticas sempre estiveram relacionadas a instituições nas sociedades passadas. Na Grécia Antiga elas faziam parte da religião e da educação grega. Na época do Império Romano, os Jogos Públicos foram utilizados para alienar o povo, evitando insurreições populares, na chamada “Política do Pão e Circo”. Na Europa, entre os séculos XVIII e XIX, surgiu o movimento ginástico, que visava melhorar a saúde das pessoas. No entanto, foi utilizado para o treinamento militar, atendendo aos interesses nacionalistas da época. A regulamentação de jogos populares na Inglaterra fez surgir, em meados do século XIX, o Esporte Moderno. Este, impregnado de valores da Revolução Industrial, foi utilizado pela burguesia industrial para disciplinar os operários. Os Jogos Olímpicos da era moderna propagaram o esporte por todo o mundo. Apesar de este ter se tornado uma instituição independente, continuou a ser apropriado por estados nacionais e por outras instituições. Este fato pôde ser observado na Alemanha nazista durante os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, e também durante toda a a Guerra Fria. Com o desenvolvimento da mídia, o esporte foi englobado pelas estruturas econômicas do mundo capitalista e tornou-se uma mercadoria da indústria cultural.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Portugal : A formação de uma nação mestiça européia.

Por Evelyn Ariane Lauro 

Ainda que haja um debate acerca da sua historicidade, estudos mais recentes tendem a concordar que, embora o termo tenha origens mais remotas, é na idade moderna1 que a ideia de nação ganha o caráter com o qual o reconhecemos.
José Carlos Chiaramonte2, a luz destes estudos, defende que o termo passa ao longo de sua história por três momentos: Até fins do século XVI apresenta sentido étnico; durante os séculos XVII e XVIII sentido político3 e, num terceiro momento, paralelo ao Romantismo, há a junção de ambos, fazendo com que se entenda a Nação como “referência a grupos humanos unidos por sua homogeneidade étnica e (...) [ou] grupo humano unido por sua circunscrição política4”. Antônio Manuel Hespanha5 nos alerta que, até o século XVIII, o termo era usado como sinônimo de lugar de nascimento, onde se tem um pedaço de terra (ou seja, de caráter individual) e passa, a partir de então, fazer alusão ao Estado, à comunidade da Constituição e das Leis (portanto, de caráter coletivo e contratual).
No entanto, o que se pretende aqui é, a partir da bibliografia proposta pelo curso, entender como os autores apresentam a questão no que diz respeito a Portugal a partir de três momentos:
1. A criação do estado português consolidada no século XIII;
2. A fundamentação da ideologia nacional na primeira metade do século XIX e,
3. A questão nacional contraposta com a questão colonial no final do século XIX.
Para tanto, serão utilizados como referência o texto “A formação da Nacionalidade” de José Matoso; “O nacionalismo Vintista e a questão brasileira: esboço de análise política” e “A política colonial em finais dos oitocentos: Portugal e a sacralização do império” e de Valentim Alexandre.
Para José Matoso, “não é possível encontrar vestígios coerentes de uma nacionalidade portuguesa antes da fundação do estado” (MATOSO, 2000, p. 7). Para ele, o território português, até a dominação romana, foi marcado pela fragmentação territorial e divisões étnicas que nem ocupações importantes como as de povos germânicos, mulçumanos, austuriana e leonesa foram capazes de absorver. Portugal foi "constituído por um número considerável de peças que se foram associando entre si de várias maneiras, sem que os poderes superiores que aí exerciam a atoridade tivessem sobre elas grande influência. A sua principal estratégia consistia em manter a dominação, pactuando de formas variáveis com os poderes" (Idem, p. 08).
Matoso aponta que o início da construção de uma ideia de nacionalidade se deu com a união dos condados de Portucale e o de Coimbra, que então se chamou de Condado Portucalense, "entregue pelo rei Afonso VI de Leão e Castela ao conde Henrique de Borgonha, como dote de casamento de sua filha ilegítica D. Teresa no ano de 1096" (p. 8).
Na perspectiva do autor, esse novo estado (primeiro do modelo a se formar) foi legitimado por arranjos e formas de solidariedade entre as aristocracias regionais (de Castelhanos, Leoneses, Aragones ou Galegos) em contexto de crise do modelo monárquico até então vigente e de remodelações internas nos territórios cristão "depois da grande expansão territorial da segunda metade do século XI à custa do território islâmico" (Idem, p 9). Para ele, essas coligações entre os grupos da aristocracia já podem ser chamadas de nacionais. Neste sentido, ele aponta para a importância da guerra externa (antiislâmica) no processo de formação das unidades territoriais nacionais da Península Ibérica (p. 12), o estado nacional teria nascido então da união entre a nobreza e as monarquias contra um inimigo externo num longo processo de cerca de 3 séculos.
a montagem de um aparelho estatal capaz de exercer uma influência efetiva e verdadeiramente unificadora sobre todo o País [...] data efetivamente da segunda metade do século XIII. Até essa altura, havia relações entre as diversas comunidades que se sujeitavam à autoridade do mesmo rei, havia também movimentos de tropas e de populações que abarcavam todo o território nacional, mas o País era constituído por um conjunto de unidades com uma considerável dose de independência, ligadas entre si por vínculos tênues, e, como conjunto, destituído de laços verdadeiramente coerentes (Idem, p. 15).


Era o primeiro momento para a nação, o da criação da união, da centralização dos poderes nas monarquias absolutistas nacionais.
O corte que nos leva da configuração deste primeiro estado do tipo nacional, no século XIII, ao século XIX, ponto de consolidação desse tipo de organização social, nos permite perceber o movimento de passagem entre o primeiro momento da história do Estado-Nação e o segundo, o de consolidação do nacionalismo pela e para a proteção dos mercados e reforço do estado. Criada a união, era preciso mantê-la. O ponto de associação entre os dois movimentos está em seus pontos neurálgicos, a ideia de união contra o inimigo externo comum, no primeiro momento a ameaça islâmica e no segundo a ameaça francesa.
A principal ruptura entre os dois momentos está na importância da figura do monarca. Se a princípio era dele que emanava a idéia de centralidade e de união que legitimava a nação, no segundo momento a soberania é transferida para a nação e, ainda que o principal conflito ideológico do início do século XIX fosse o de compatibilizar as idéias liberais e a consolidação do pacto social por meio de uma constituição liberal com a manutenção da figura do rei e da identidade monárquica e católica de Portugal, estava claro que a soberania vinha da nação e a nação era um contrato entre os homens, fruto das revoluções, da idéia de desenvolvimento, do caminhar da história sentido o progresso das nações. Nas palavras de Hartog:
Com as convulsões da Revolução Francesa, o passado deixou de iluminar o futuro quando a distância vai aumentando entre campo de experiência e horizonte de expectativa, entre o que é conhecido e o que é pretendido (ou amedronta?). A lógica do progresso implica que o exemplar ceda o lugar ao único. O passado torna-se ultrapassado (HARTOG, 2011, p. 180).


O fututro esta por construir.
A partir da leitura de “O nacionalismo Vintista e a questão brasileira: esboço de análise política” e “A política colonial em finais dos oitocentos: Portugal e a sacralização do império” de Valentim Alexandre, pode-se concluir que a questão nacional no século XIX para Portugal caracteriza-se por uma reação nacionalista ante a desagregação do império. O autor percebe “pela primeira vez na história portuguesa, uma ideologia nacionalista, no sentido actual da expressão” (ALEXANDRE, 2000, p. 11), momento marcado pelos debates nas Cortes de temas nacionalistas, de um nacionalismo particular que vai se construindo a partir de 1808 “em torno das questões emergentes da crise nas relações entre Portugal, Inglaterra e o Brasil” (Idem, p. 12).
Na Europa em guerra contra a França, são latentes as preocupações econômicas e, ante um inimigo comum, a necessidade de se associar à Grã-Bretanha, fazendo que essa presença não fosse sentida como opressiva ao sentimento nacional.
O autor aponta que, se o debate era de caráter nacionalista, os motins e a reação tinham mais caráter de Antigo Regime e se configura com o reforço dos exércitos e o mecanismo do recrutamento. Neste sentido, mais uma vez fica exposta a contradição entre as idéias liberais (a liberdade do homem, o contrato social) e o passado a ser superado (o Antigo Regime), contradição que se resolve na força da lei e na idéia de lei comum, pelo bem comum – característico da oratória liberal.
A principal questão para a ideologia nacional portuguesa, segundo Alexandre, era a integração no todo nacional e para isso a presença britânica era fundamental no momento em que o exército francês ameaçava a soberania portuguesa. Logo essa presença que afirmava a soberania nacional portuguesa foi transformando em desencanto quando Portugal percebe que entrou num perigoso círculo de dependência no que diz respeito tanto à política externa quanto interna e, “aos problemas da dependência em relação à Grã-Bretanha vêm juntar-se os da subordinação política ao Brasil, agora sede da monarquia” (Idem, p. 17). A ausência do rei fere o sentimento nacional. Neste momento torna-se urgente a regeneração nacional.
Criada as bases da união, nos termos postos por José Matoso, o momento era o da manutenção da união. Evidente que, a história do estado nacional português é dotada de muitas outras nuances e momentos definidores que foram aqui suprimidos, não num exercício de simplificação histórica, mas porque não cabe aqui fazer essa narrativa uma vez que o objetivo é mostrar, a partir dos cortes temporais propostos, que a Nação, tanto no domínio da política quanto na dimensão das idéias, não é algo que se pode ter por acabado, mas que está em constante transmutação.
Se no primeiro momento a preocupação era a criação de uma união em prol de interesses comuns (e contra um inimigo comum), a manutenção da unidade do reino e a integridade nacional era o que estava em questão com o vintismo. Para mencionar os termos do debate público à época, era pelo amor à pátria, em combate à humilhação nacional, pela dignidade da nação que se exigia - pela via constitucional liberal - melhores condições mercantis, o regresso do rei à Península e, posteriormente, o regresso do príncipe e o fim da regência, definindo a supremacia das Cortes. Nesta perspectiva, a unidade do reino, assim como “as definições das relações de poder no interior do sistema constitucional” (Idem, p. 33) conforme o projeto do nacionalismo vintista dependia da manutenção da submissão do Brasil.
José Matoso caracteriza o nacionalismo do vintismo como patriotismo mercantil, ou seja, “dos sentimentos e pressões de uma burguesia em busca de mercados e de fontes de acumulação de capital” (Idem, p. 34), neste sentido, a integração nacional dependente da manutenção dos elos com o Brasil em situação de submissão, “traduz na prática política concreta [...] convergência entre os princípios teóricos e os interesses econômicos [sic] imediatos dos sectores burgueses” (p. 34).
O que marca, substancialmente, em termos de diferença o modelo nacional liberal em relação ao modelo monárquico de Antigo Regime é a ameaça da dissolução. E, a questão colonial explicita o esforço político português de gerar um sentimento de pertença coletivo que promovesse a integração social e evitasse levantes contra os projetos políticos nacionais, garantindo a manutenção da integridade assim como sustentava planos de expansão.
A Modernidade produziu a nação, produziu uma história rompida com o mito e com a escatologia, para a qual o futuro passa a ser produzido pelo homem e o homem conduz e é conduzido pela nação, por meio do contrato que legitima e que passa a então seguir, é a lei, o pacto, a codificação da “vontade geral”. O homem, tendo a nação como carro, conduz o seu futuro e o futuro buscado é o de uma sociedade moral e racional, pautada na idéia de progresso. Neste sentido, é dever das nações desenvolvidas, que já caminharam longo tempo nos trilhos do progresso, conduzirem os grupos sociais que ainda se encontram na barbárie.
E neste sentido, conforme nos apresenta Alexandre, os fins do século XIX são, para Portugal, o da legitimação de um projeto colonial sustentado na idéia de que era tarefa da nação portuguesa civilizar a África, “sustentada sobretudo por um novo factor de ordem ideológica: o enraizamento de uma corrente nacionalista capaz de fazer uma mobilização relativamente importante das camadas populares urbanas de Lisboa e do Porto em torno da questão colonial” (Idem, p. 151).
E mais uma vez percebe uma transmutação no entendimento de nação que é posto no debate político (e mesmo público) em Portugal e que acompanha as transformações dos interesses políticos e econômicos do estado nacional português. Neste momento há a manutenção da idéia de Estado soberano e depositário do poder social, e percebe-se também a permanência do conflito entre os preceitos liberais e a estrutura ideológica de Antigo Regime, marcado pela defesa da não obrigatoriedade de escrúpulos para obrigar ao trabalho e por ele civilizar as “populações semi-bárbaras”, por ser essa a missão da Nação.
Para finalizar, retomo que, a leitura dos referidos textos nos direciona o olhar para o fato de que as nações (a idéia de nação) e os nacionalismos não serem algo que se possa ter por acabado, mas que estão em constante processo de ressignificação, parece-nos, portanto, que defini-los não seja uma tarefa viável.
Como fruto da Modernidade, constructo da razão humana, traz consigo os conflitos e indefinições característicos do período ainda não superado. Não mais em nome do rei, não mais a partir de uma única pessoa, mas em nome do contrato social e em defesa da Nação fruto deste contrato, em defesa da razão e em defesa do progresso da humanidade, produze-se a barbárie. Superamos modelos, mas é evidente que a razão humana ainda não foi capaz de superar as práxis do viver em sociedade e, modelo pós modelo, a regra ainda é a da força, que associada ou não à razão, produz e reproduz barbárie.
1 Guerra chama de moderno o período revolucionário (em menção à Revolução Francesa), o século XVIII (GUERRA, In:JANCSÓ, 2003, p.35). José C. Chiaramonte partilha da percepção que o conceito de Nação ganha o caráter com o qual o reconhecemos hoje é originário dos tempos da Revolução Francesa. (CHIARAMONTE In:JANCSÓ, 2003, p. 73).
2 CHIARAMONTE, José Carlos. Metamorfose e Conceito de Nação Durante os séculos XVII e XVIII. In:JANCSÓ, István (org.). Brasil: formação do Estado e da Nação. São Paulo-Ijuí: Hucitec-Fapesp-Unijuí, 2003. pp. 61 – 92.
3 Pimenta também apresenta o processo de “evolução” do termo desta forma. PIMENTA, João Paulo Garrido. Estado e Nação no Fim dos Impérios Ibéricos no Prata (1808 – 1828). São Paulo, Hucitec/Fapesp, 2002, p.19.
4 CHIARAMONTE. Op. Cit. p. 82.

5 HESPANHA, Antonio Manuel. Pequenas Repúblicas, grandes Estados. Problemas de organização política entre o antigo Regime e o Liberalismo. In:JANCSÓ, 2003. p. 96 – 100.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Notas de imprensa em tempos de chumbo

Por José Mindlin*
Naquela sexta-feira, notícias de relativo interesse disputavam o espaço dos noticiários nacionais, como as lideranças do MDB na Câmara e no Senado admitindo a idéia de o partido lançar candidato próprio às eleições presidenciais ou o governo do Egito confirmando ter abatido um Phantom de Israel que invadira seu espaço aéreo. O que notabilizou aquele dia, porém, foi um ato de truculência: a coluna NotasInformações do jornal O Estado de S. Paulo, dedicada aos editoriais, apresentava um corpo estranho:o Canto VIII do poema Y Juca Pirama, do poeta romântico Gonçalves Dias. Apesar da indiscutível beleza, os versos estavam ali para ocupar o espaço destinado originalmente ao editorial A Censura do Cinema, que criticava um ato do Departamento de Polícia Federal de proibir a exibição no cinema de dez filmes que, dias antes, foram devidamente liberados. Considerado impróprio, o editorial do censurado e teve de ser substituído.

Ao publicar a poesia de Gonçalves Dias em seu lugar, O Estado iniciava, portanto, a fase mais crítica de sua luta contra a autocensura exigida pelo governo:como se recusava a ocultar do público de forma deliberada as notícias que não agradavam o Regime Militar, o jornal utilizou recursos que denunciassem a ação dos censores presentes à redação. A grande maioria dos vetos foi substituída por poesias e poemas de autores nacionais e estrangeiros de variadas épocas e escolas literárias, mas uma obra se sobressaiu: Os Lusíadas, de Luis Vaz de Camões, foi utilizada 656 vezes, destacando-se como principal forma de O Estado alertar seus leitores de que estava sob censura. No auge da ditadura, essa era a melhor arma contra o amordaçamento – pela lógica do regime, para convencer o leitor de que havia liberdade no País, a censura não podia praticar a autodelação. Ou seja, a pior coisa para o censor era o editor deixar em branco espaços de matérias vetadas. A maior parte dos jornais aceitou a regra e publicou outros textos no lugar dos proibidos. Certas publicações, porem, alertaram o leitor para a farsa.

Jornal da Tarde publicava recita de bolo em lugares mais inusitados, como o dos editorias. A revista Veja preferiu estampar figuras de demônios. A Tribuna da Imprensa, do Rio, insistiu e conseguiu sair com imensos espaços em branco e os semanários. Opinião e Movimentopublicaram tarjas escuras no espaço censurado. 

Os versos de Os Lusíadas, porém, publicados pelo Estado, tornaram-se sinônimo de censura no Brasil daquela época. Segundo a historiadora paulista Maria Aparecida de Aquino, que analisou a estratégia do Estado na tese de mestrado intitulada Censura, Imprensa, Estado Autoritário (1968-78), o efeito foi positivo. “O poema de Camões, que faz parte de uma memória escolar mínima do comum dos indivíduos, ficou no imaginário coletivo como lembrança de um tempo em que os cortes dos censores promoveram sua publicação”, diz a historiadora da USP. “Restou como símbolo de resistência construída no cotidiano de um jornal, de muitas e variadas maneiras, procurou, em dado momento histórico, fugir de determinada dominação exercida sobre o corpo social.” 

A luta foi acirrada: entre 29 março de 1973a 3 de janeiro de 1975, o total de matérias vetadas chegou a nada menos que 1136, destacando-se os assuntos políticos como os mais visados (foram vetados 342 vezes). Além disso, contavam ainda 39 editorias e 54 matérias assinadas. Ate chegar ao poeta português, entretanto, o jornal testou outras alternativas, nem sempre bem-sucedidas. A primeira foi a de quebrar um tradição: na época, O Estado só publicava carta de leitores aos domingos, nas últimas páginas. Mas, de repente, sem qualquer aviso prévio, a correspondência começou a brotar nas páginas nobres da política e em dias de semana.

O que interessava era demonstrar que algo estranho estava acontecendo. Assim, além de provocar o espanto, a intenção era também estimular o raciocínio do leitor, especialmente com cartas com conteúdo bizarro, que serviam para alertar, ainda que de forma dissimulada, sobre a situação de emergência vivida pelo País. No dia 30 de março de 1973, por exemplo, foram publicadas duas cartas significativas.

Em uma delas, o ministro da Saúde elogia o trabalho desenvolvido na área pelo governador de São Paulo, Laudo Natel – trata-se, na verdade de uma estocada contar o mandante paulista, que se encontrava em querela contra o jornal por críticas que havia recebido. A outra destaca ironicamente a dificuldade que a geração futura de historiadores teria para escrever sobre a historia da “revolução” de 64: uma alusão à censura que impedia a veiculação dos acontecimentos, dificultando a tarefa posterior do historiador.

A estratégia, porém, não funcionava devidamente – no dia 10 de maio de 1973, a primeira página de O Estado publicava uma carta de um “leitor” que comentava a óbvia inexistência de rosas azuis. O espaço, na verdade, seria dedicado às notícias sobre a renuncia do então ministro da Agricultura, Cirne de Lima, que foram censurados. Ao lado da carta, figurou um anúncio da Rádio Eldorado, com o slogan: Agora é Samba. Ainda assim, houve leitores que não entenderam a mensagem cifrada – como um grupo de senhoras, que pediu ao prefeito Figueiredo Ferraz que apoiasse a campanha de flores de O Estado.

Novas estratégias, porém, foram surgindo. Em junho de 1973, por sugestão do diretor Julio de Mesquita Neto, os buracos provocados pela ação do censores passaram a ser preenchidos com poemas. Y Juca Pirama, de Gonçalves Dias, foi o primeiro, seguido de obras de importantes nomes como Olavo Bilac (seu O Caçador de Esmeraldas, foi o segundo poema mais utilizado, em 27 oportunidades), Manuel Bandeira, Cecília Meirelles, e outros. Em 2 de agosto, finalmente, começou a publicação, em pequenos trechos, do poema que se transformaria no código de denuncia da censura: o épico Os Lusíadas. O primeiro canto que inicia com o verso “ As armas e os barões assinalados”, saiu no lugar de um editorial. A partir daí, o poema de Camões foi reproduzido em outra 655 vezes até 1975 para substituir o material censurado em O Estado.

A intenção era que os versos alertassem os leitores sobre a mão pesada do regime de exceção. Durante esse tempo, manteve-se o hábito de publicar apenas uma parte da poesia, utilizando-se o expediente de colocar no final o termo “continua”, às vezes apontando a página do mesmo dia em que ocorria a seqüência, o que, certamente, era a indicação de outro lugar em que a censura deixara sua marca.

Outra estratégia era publicar os cantos de Os Lusíadas com a estrofes fora de ordem em diferentes páginas ou até na mesma página. Além disso, utilizou-se a norma de repetir determinadas estrofes (como o Canto Décimo). Também se chegou a publicar parte do poema sem que aparecesse o título ou mesmo a veicular com o título do poema de Camões um trecho que, na realidade, pertencia a Y Juca Pirama.Aos poucos, a medida revelou-se certeira. Nos meios políticos, por exemplo. Camões era lembrado com ironia. Em 1973, durante entrevista no Clube dos Repórteres Políticos do Rio, Ulysses Guimarães, então presidente do MDB em cujos discursos e entrevistas eram freqüentemente censuradas no O Estado, desabafou: “Quem mais atrapalha o MDB é Luis de Camões. Este poeta tem me perseguido desde os bancos escolares, quando eu o achava incompreensível”. O censor de plantão não gostou da ironia e, mais uma vez, vetou. Apesar da eficiente comunicação velada estabelecida com os leitores atentos, houve alguns que não entenderam o uso dos poemas. Um deles tornou-se folclórico na redação: Interessado em colecionar Os Lusíadas, reclamou da falta de ordem na sua publicação.

A ação dos homens encarregados em vetar notícias, seguiu uma rotina, a partir de 24 de agosto de 1972, quando os censores invadiram a redação. Eles costumavam chegar à sede do jornal, então na Rua Major Quedinho, pela manhã, às 11 horas, e normalmente traziam as indicações do dia. Em 10 de maio de 1973, por exemplo, quando renunciou o ministro da Agricultura, Cirne de Lima, o censor chegou com a informação de que estava liberada a carta de renúncia, mas proibidos comentários. 
Provas de todas as páginas do jornal deveriam ser submetidas ao seu crivo e ele, com um lápis vermelho, riscava o que deveria ser eliminado – alguns até assinaram as páginas censuradas. De cada página vetada, tiravam-se cópias para o arquivo, para a direção e, às vezes, para o mural da redação. Normalmente, era mantida a diagramação original e apenas a matéria censurada era substituída por uma carta ou um poema. No início, os censores vetavam normalmente as matérias na íntegra ou e, grandes trechos. Com o passar do tempo (notadamente a partir do segundo semestre de 1974), os cortes do censor reduziram-se somente ao estritamente necessário, vetando às vezes palavras ou frases. No momento em que isso ocorreu, começaram a surgir pequenos espaços em branco no local em que houve o veto ou trechos de Os Lusíadas eram inseridos no final da matéria, para indicar a censura. 

Todo e qualquer assunto estava na mira do lápis vermelho, desde críticas à política econômica e desagravos da oposição até temas que envolvessem o movimento estudantil, corrupção no ensino e críticas à política de saúde pública. Em 1974, a epidemia de meningite que castigou São Paulo foi devidamente censurada. O que mais irritava o poder eram as informações que dimensionavam problemas tais como o número de doentes, a quantidade de mortes, estatísticas que mostravam o crescimento da doença. Foi proibido dizer que, no mês de junho, no auge da crise, quase 700 pessoas deram entrada no Hospital Emílio Ribas, vítimas da doença, o número total de atingidos chegou a quase 18 mil e as mortes somaram quase 200.

De todos os temas que passaram pelo crivo dos censores, nenhum foi tratado tão severamente como a violação dos direitos humanos. Em 223 ocasiões, O Estado foi impedido de publicar notícias relativas a prisões arbitrárias, torturas, desaparecimento e mortes de opositores do regime militar. O jornal não podia sequer mencionar o nome da organização da Anistia Internacional. 

Também nomes eram proibidos de serem citados – entre 1972 e 75, o ranking era encabeçado por Chico Pinto, político do MDB que foi caçado e cujo nome foi vetado 39 vezes. Em seguida, vinham o arcebispo de Recife e Olinda, D. Hélder Câmara (33); o presidente do MDB, Ulysses Guimarães (26); e o diretor do Estado, Julio de Mesquita Neto, cujo nome foi também 26 vezes censurado.

A pressão que o jornal sofria era mais implacável que os demais órgão de imprensa, devido à sua importância histórica e à força alcançada com divulgação de suas palavras. Mais uma vez a censurada notícia de renuncia do ministro da Agricultura, Cirne de Lima, em 10 de maio de 1973, serve como exemplo: o fato só foi vetado para a publicação no Estado e noJornal da Tarde, mas liberado para o restante da imprensa. O abuso só foi reconhecido em 20 de agosto de 1980, quando, após sete anos de batalha judicial, os jornais conseguiram que a União Federal fosse condenada pelo Tribunal Federal de Recursos em lhes indenizar os prejuízos causados pela aplicação da censura prévia. 

O material publicado pelo Estado, aliás, sempre esteve na mira do governo militar, que nem sempre esperou a edição do AI-5 para impor censura sobre o jornal. Na madrugada do dia 13 de dezembro de 1968, horas antes da decretação do ato inconstitucional, agentes policias apreenderam boa parte da edição do Estado e do Jornal da Tarde por causa do editorial intitulado Instituições em Frangalhos, no qual se criticava acidentalmente o governo por não atender a gravidade da crise política e permitir o surgimento da exceção.

Impedir ou ao menos furar a ação da censura tornou-se, a partir daquele dia, o objetivo principal do Estado, disposto a encontrar brechas na cortina de silencio, imposta pelo regime militar, atiçando sua equipe na busca de formas de mostrar o que se era obrigado a ocultar.

Ao receber, em 1974, o prêmio Pena de Ouro da Liberdade, da Federação Internacional de Editores de Jornais, considerado o mais importante do mundo livre, o diretor Julio de Mesquita Neto afirmou: “Quanto mais opressivo é um regime, mais fundamental é a recusa de uma verdade oficial monolítica e trituradora”.
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* Texto do livro A Revista - 1968, edição nº 7.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A conveniência de um legado adequável: representações de Tiradentes e da Inconfidência Mineira durante a Ditadura Militar

Por Aline Fonseca Carvalho

A presente dissertação é uma pesquisa sobre a contribuição da Ditadura Militar Brasileira na consolidação, construção e movimento da memória da Inconfidência Mineira. O problema está na construção e nas visões elaboradas ou reforçadas sobre esse movimento setecentista tão caro aos brasileiros, sobretudo mineiros e fluminenses.Através de jornais Estado de Minas e Jornal do Brasil, discursos, documentos oficiais e material didático foram traçadas as estratégias discursivas responsáveis por extrair do mito inconfidente tudo o que ele pudesse oferecer de contribuição para a aceitação do Regime Ditatorial Militar no Brasil entre 1964-1984. O uso político-ideológico daConjuração de 1789 priorizou o personagem Tiradentes, que é considerado um herói. As razões para essa escolha vão desde a consagração de Tiradentes como herói nacional e líder da Conjuração Mineira até ao fato de ele ter sido alferes de Cavalaria e, portanto,militar. Os enfoques mais comumente explorados por políticos brasileiros que enxergam na Inconfidência um mote de comparação, evocação de exemplos ou dívida de gratidão são o progresso e a liberdade, supostamente pleiteados pela conjura. No caso daDitadura Militar esses dois pontos foram explorados, mas em menor escala, até porque liberdade e ditadura não combinam. As palavras chaves para a apropriação no período aqui abordado seriam militarismo, religiosidade e disciplina.
Texto completo em : http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/VCSA-6X4R73/disserta__o.pdf?sequence=1